Procurada — Morta Ou Viva

Mad Abigail

Estive em um hotel do Centro de São Paulo para a realização de um evento. Ao entrar em um dos ambientes para ir ao banheiro, encontrei pendurado em uma pilastra um quadro “decorativo” que reproduzia um folheto aparentemente original de “Procura-se” (em inglês), daqueles famosos que já vimos em filmes de Faroeste. Diferentemente dos bandidos retratados — ladrões, homicidas do gênero masculino, estava uma mulher. Seu nome: Mad Abigail. De início, achei a quantia da recompensa alta demais — $ 6.000 (dólares) — para pegar a tal de Abigail, a Louca. Imaginei que se tratasse de uma chefe de quadrilha de assaltantes, matriarca de um bando de filhos e sobrinhos bandidos ou uma pessoa acusada de um crime hediondo, talvez uma assassina de criancinhas, sei lá…

Outro detalhe que achei interessante é que Abigail poderia ser levada às autoridades “Morta ou Viva” e não o contrário. A perigosa e louca Abigail, eventualmente para impedir sequer que fosse julgada por seu horrível crime, bem melhor seria que estivesse morta. Mesmo porque, o indefeso macho que a prendesse correria o risco de ver-se apunhalado pelas costas se se distraísse um pouco que fosse. Afinal, estava ali alguém que cometeu o maior dos pecados: o mariticídio — ela matou o marido. Se ela fez isso, seria capaz de qualquer coisa. Sendo que o uxoricídio (quando o marido mata a mulher) era não apenas aceitável, como até garantido por lei. Até pouco tempo antes, por qualquer motivo que fosse, aqui no Brasil um sujeito também era absolvido desse crime sem maiores delongas.

Tentei pesquisar sobre a tal tenebrosa figura. Se o cartaz não foi inventado, com engenho e arte, quem sabe encontrasse maiores informações. Não consegui. Na pesquisa por nome que fiz, não houve resultado. Incluí a por imagem e foram feitas referências ao bulbo da luz e ao estilo do cabelo, nada mais. Depois, percebi que de qualquer forma não encontraria a contestação da acusada. Não importa que fosse torturada, surrada, ferida, maltratada, nada justificaria matar o homem que tinha como esposo. Isso chancelaria o poder de vida e morte ou morte em vida da esposa, além de não a caracterizar como uma vítima que tenha se rebelado contra o pesado jugo do macho dominante. A melhor alternativa mesmo foi chamá-la de louca e Mad, Abigail se tornou.

Naturalmente, as circunstâncias da morte envenenamento, arma de fogo, faca, facão, machado, paulada, empurrão de um penhasco, escada ou até morte acidental — de nada sabemos. Caso o cartaz seja fake, ainda assim não duvido que alguma mulher “enlouquecida” por maus tratos não tenha se insurgido contra seu opressor. Outra particularidade que me chamou a atenção era que se tratava de uma foto ou baseada em uma foto em que a acusada se apresentava bem arrumada, talvez uma mulher de boa posição social, citadina, não alguém que vivesse em lugar tão longínquo que os olhos da lei não alcançassem, o que daria maior liberdade de atuação para quem tivesse qualquer desvio de comportamento, ainda que a violência fosse um traço comum no desenvolvimento das sociedades humanas. Nessa circunstância, o morto poderia pertencer a uma família influente, o que justificaria o valor do prêmio. Atualizado, caso não tenha me enganado, passaria de 1 milhão de Reais.

Enfim, se uma ou muitas Mad Abigail tenham existido, esse cartaz (caso seja originalmente real) é uma prova que viria a demonstrar que uma mulher que matasse um homem e, principalmente seu marido, ainda que fosse em legítima defesa, se tornaria uma inimiga que ameaçaria o status quo de uma estrutura em que o macho deveria ser protegido contra a sanha revoltosa de uma mulher. Assim como não acontece no sentido oposto até hoje. Com certeza, Abigail era uma corajosa desvairada…

Pré-Conceitos*

Foto por Philip Boakye em Pexels.com

Domingo de manhã, eu estava me sentido cansado, após quatro dias de trabalho intenso, com poucas horas dormidas. Mas isso não impediria que eu fosse ao meu futebolzinho, principalmente porque era dia de pagamento da quadra. Peguei o meu ônibus e, após passar a catraca, vislumbrei um assento vazio do lado de um rapaz com os dois braços fechados de tatuagem, cabelos espetados, “piercing” na boca e portando óculos estilosos.

Antes de sentar, percebi que aquele era um banco reservado aos idosos, mulheres grávidas ou com crianças de colo e pessoas com necessidades especiais. Normalmente, eu prefiro ficar em pé, mesmo quando não se encontram pessoas nessas condições, porque evito que precise levantar quando observo que tal ou tal pessoa necessite ocupar o espaço reservado. Causa-me certo constrangimento demonstrar alguma civilidade, o que seria estranho se alguns não considerassem “ofensiva” qualquer exibição “ostensiva” de cidadania, como se o indivíduo que a praticasse talvez se considere alguém superior. É uma visão dúbia, mas que incrivelmente, existe.

Naquele dia, o meu cansaço era maior do que o respeito por meus conceitos e ocupei o lugar. Do meu lado, pude perceber que o rapaz estava atento ao surgimento de qualquer pessoa que subisse ao ônibus e que passasse a catraca. Parecia estar incomodado por ocupar aquele assento e devia estar avaliando se quem estava se aproximando seria um candidato à sua vaga. Talvez, os meus cabelos esbranquiçados o permitissem crer que eu estivesse no lugar certo, não ele. Pelo meu autoconceito, os meus 53 anos não admitiam me ver como um idoso, se bem tivesse, pelo menos, o dobro da dele e eu mesmo, na idade dele, considerasse a minha idade atual bem adiantada quando me via no futuro.

Uma mulher com uma barriga mais saliente pareceu atrair um pouco mais a sua atenção e torci intimamente que ele não a chamasse para ocupar o seu lugar, porque pela minha avaliação, aquele era apenas um caso específico de adiposidade na região abdominal. Tinha certeza de que se a moça intuísse que o motivo por ele querer ceder o assento fosse aquele, seria tudo muito constrangedor. Em priscas eras, o usual era qualquer homem ceder o seu assento à qualquer mulher. Não havia dúvidas! Quando isso começou a mudar? Creio que o processo se reverteu quando as mulheres começaram a ocupar mais e mais o seu espaço no mercado de trabalho, muitas vezes em postos anteriormente ocupados por homens. Em determinado momento, ali não estava mais o ser do chamado “sexo frágil”, mas uma concorrente na luta pela vida. Por que ele deveria ceder o seu lugar a ela?

Em outros tempos, eu consideraria aquele rapaz alguém que não prestaria atenção aos códigos corretos de comportamento social, por sua aparência alternativa, mas tendo filhas que se tatuam, eventualmente colocam “piercings” e se vestem ocasionalmente com um estilo incomum, sendo pessoas conscientes de seus deveres, percebi que não levaria o meu convencionalismo à questão da aparência, principalmente tendo em vista o meu próprio passado simpático ao estilo “riponga”.

Vivemos, por uma questão de comodidade, pré-julgando as pessoas ao nosso redor. O nosso cérebro, para não se cansar demais, especifica padrões com os quais avaliamos tudo e todos. No entanto, em tempos do politicamente correto, cada vez mais tentamos não pré-determinarmos conceitos. O que seria muito bom, se em muitas ocasiões, os pré-conceitos não fossem eficientes para nos safarmos de situações potencialmente perigosas.

Eu, pessoalmente, dou muito valor à intuição. Se por acaso intuo que, pelos padrões apresentados, algo é o que é e não a respeito, posso estar cometendo erros graves. Diante de tantas equações, apenas digo que sermos o que somos pode ser mal avaliado e a mentira exposta e auto imposta, pode findar por adotarmos normas de comportamento que causam mais confusão em nossos sentidos e sentimentos do que possam nos ajudar a vivermos saudavelmente.

*Texto de 2014

Uma Mulher

Até o outro dia, eu vivia em minha cidade
Quem caminhava por aquelas calçadas
Tinha oito, dez, doze anos de idade
Sonhava cantar entre bocas caladas

Queria ser ginasta olímpica ou acrobata
Seria bailarina, atriz, cantora e modelo
Corria, saltando por sobre o muro do meu castelo
Princesa que eu era, moleca, brincava de pirata

Corria de carros e de touros, de gansos e de moços
Até que cresci e o perigo começou a me atrair
Descobri o poder que tinha de conquistar sem esforços
Lançava olhares ao redor, possuía e tinha vontade de partir

E parti em busca de sentimentos profundos e do mundo
Vivi amores, senti dores, provoquei desmoronamentos
Alcancei o céu e chafurdei no lodo imundo
Fui considerada excelente e fomentei lamentos

Eternamente apaixonada e quase sempre apaixonante
Capturei vítimas e me vitimei, fui muito amada e muito amei
Na curva da rua a menina que fui não mais ouviu o vento sussurrante
Deixou de subir em árvores e de ouvir respostas que clamou

Envelheci ao encontrar o meu amor definitivo?
Ao sentir que pertenço a alguém, deixei de sonhar?
O meu corpo, compartilhado, se sentirá permanentemente cativo?
Por que, em vez de certezas, agora só tenho o que perguntar?

Corpo Presente / Posições

Corpo presente…

Tirante o pensamento, nada viaja mais rápido no Universo observável do que a luz. Para nós, na Terra, a luminosidade do Sol nos atinge quase tão imediatamente quanto é produzida. As estrelas mais distantes são imagens do passado que admiramos durante anos mesmo depois de muitas terem se extinguido ou absorvidas por algum buraco negro. Tanto quanto o que vivemos tem como referências imagens que não mais são o que são, mas o resultado de experiências passadas de corpo presente…

Posições…

Tudo o que nomeamos, discriminamos, classificamos, justificamos, estabelecemos como tal o que é, seja lá o que for. Passar por cima do que está estipulado como líquido e certo, atravessar o significado das estruturas fixadas pelas palavras não é fácil. O Sol, a Lua, o dia, a tarde, a Terra, a manhã, as horas, os minutos, o Tempo, os segundos, o sexo, o homem, a noite, a mulher… É o Sol que se põe? É a Terra que se move? Quem come quem?…

Garota De Programa*

Ricardo se sentou, pediu duas cervejas ao garçom e, sem muitos rodeios, disse a Carlos, mirando diretamente nos olhos do amigo:

– A sua namorada é uma garota de programa!

Carlos, sustentando o olhar, após alguns instantes, respondeu:

– Você quer dizer uma “senhora” garota de programa, não é mesmo?

Ricardo, agora surpreso, retorquiu:

– Você já sabia?

– Quando a conheci, ela foi franca comigo, me contou que aquele era um trabalho como outro qualquer e aceitei o fato normalmente.

– Cara, que surpresa! Não sei mais o que dizer!

– Não diga nada. Alguém mais, da nossa turma, sabe disso?

– Não, que eu saiba… Eu o conheço há tanto tempo e não esperava que você fosse capaz de tal desprendimento… Parabéns!

Na verdade, Ricardo não queria demonstrar a sua decepção diante da postura de Carlos. Ele julgava que o querido amigo não soubesse da atividade de Patrícia. Desde que aquela namorada aparecera na vida de Ricardo, se sentia meio que jogado de escanteio. Ficou ressabiado com o fato dela parecer tão perfeita, com a sua postura de “lady, seu corpo de sereia, seu perfil de modelo”, como já dissera várias vezes. Uma mistura de inveja e ciúme assomara de tal forma que buscou saber tudo sobre a “rival”. Começou a segui-la sempre que possível e essa perseguição terminava sempre no momento em que ela adentrava à porta do hospital onde dizia que prestava plantão médico. Certo dia, porém, Ricardo decidiu esperar até que a residente saísse. Qual não foi o seu assombro quando, meia hora depois que a viu entrar, testemunhou Patrícia sair do prédio? Tomado de certa comoção, a seguiu até que a viu entrar em uma das mais badaladas casas de prostituição de São Paulo, bem perto do hospital. Quase radiante, gritou dentro do carro: “Eu sabia!”…

***

No momento da revelação, Carlos se sentiu como que apunhalado pelas costas, tanto por Patrícia, como por Ricardo, que evidentemente havia demonstrado contentamento de lhe dar aquela notícia. Não pediu provas ao amigo. Intimamente, intuía alguma coisa. No entanto, formalmente, não sabia de nada. Já havia a deixado algumas vezes no hospital onde disse que prestava residência, mas estranhava o fato dela estar escalada para fazer plantão quase toda a noite. Ao mesmo tempo, se sentia tão abençoado por ter visto surgir àquela deusa em sua existência. Patrícia não era apenas linda, mas igualmente bem-humorada, carinhosa e elegante, física e mentalmente. Por isso, mesmo depois de começar a suspeitar sobre as peculiaridades da situação, não pretendeu ir fundo em suas dúvidas. Quando se perguntava como se dera um encontro tão especial entre o dois, de si para si, jogava fora todas as aparentes contradições para viver a felicidade de estar com ela. Quando respondeu ao Ricardo daquela forma, não quis dar o braço a torcer ao amigo que sempre insinuava que uma moça como aquela não poderia existir assim, sem nenhum defeito. Depois da conversa entre ambos, logo que pode, se despediu de Ricardo e ligou para a Patrícia, marcando um encontro para logo mais à tarde. Segundo ela, à noite, faria plantão.

***

– Por que você não me disse que era garota de programa?

Patrícia abriu os seus grandes olhos verdes, ainda mais, e sentiu as pernas bambearem. Finalmente, Carlos descobrira o seu segredo. Sempre temera que isso se desse, mais cedo ou mais tarde. Nunca pretendeu enganá-lo, mas tudo acontecera de maneira tão urgente e imprevista – o encontro, a paixão, o romance – que não conseguiu revelar ao namorado o que fazia para ganhar a vida. Com Carlos, vira surgir o amor de uma forma inesperada. Ele não era um rapaz que se destacasse entre outros, fisicamente. Porém, o seu sorriso e sua postura desprendida, chamara a sua atenção aos poucos, em encontros fortuitos, aqui e ali, na padaria ou no supermercado do bairro em que ambos residiam. Foi dela a iniciativa de passarem da troca de olhares para a troca de palavras. Carlos demonstrou ser inteligente e bem-humorado. Rapidamente, percebera naquele cara, alguém que queria para si, como companheiro. Concomitantemente, não desgostava da vida que levava, das amigas que colecionara naquela profissão, de saber dos poderosos homens que a adoravam. E agora, isso!… Genuinamente emocionada, deixou escapar uma grossa lágrima sobre a pele delicada e não conseguiu dizer absolutamente mais nada.

***

Carlos estacionou o carro junto ao meio fio junto à discreta entrada do edifício. Os seguranças sorriram quando viram que se tratava do carro do marido de Patrícia. Os dois eram muito bem quistos naquela casa. A moça era uma funcionária exemplar e o rapaz, muito simpático. Patrícia beijou amorosamente o seu parceiro e recomendou que ele colocasse as crianças para dormir assim que chegasse em casa. Ele disse que teria uma reunião importante no dia seguinte e que iria dormir logo que possível e que sairia bem cedo. Talvez, antes que ela chegasse. Voltando para a casa, Carlos se deu conta do quanto se sentia venturoso por ter uma família perfeita – uma linda mulher e um casal de crianças saudáveis. Agradeceu a si mesmo pelo fato de ter passado por cima de preconceitos e sentimentos menores para dar a si a chance de ser feliz com a pessoa que amava. Carlos se lembrava constantemente do momento em que tomou a resolução de ficar com Patrícia, se ela assim desejasse. Com a alegre aceitação da namorada, tudo ficou mais fácil. Ela havia revelado que não poderia deixar o seu trabalho imediatamente e ele especulou sobre essa situação francamente perguntando sobre ganhos e condições de trabalho. Lembrou-se de como ficara verdadeiramente impressionado com o que auferia. Era praticamente o salário de um alto executivo. Percebera, ainda, que ela gostava do que fazia, e que aquilo não interferia no amor que sentia por ele, genuíno e vigoroso. Por acordo, decidiram que ela continuasse naquela ocupação até o momento que achasse conveniente. Lembrou-se da oposição de amigos e familiares com aquela relação, pois Ricardo divulgou a novidade para quem interessar quisesse. Carlos acreditou que quem gostasse verdadeiramente dele, o compreenderia. Com o afastamento de alguns dos velhos amigos, se juntou a novos, ligados ao mundo de Patrícia, muito mais divertidos. Após o casamento, com a ajuda financeira dela, montara uma pequena empresa de informática, que logo crescera com o talento que demonstrou para os negócios. Muito ajudou o conhecimento pela esposa de certas pessoas muito influentes. Com o tempo e a chegada dos gêmeos, os seus pais voltaram ao convívio do casal. Eles, semelhantemente, se apaixonaram por ela. A mãe de Carlos dizia sempre que Patrícia tinha uma classe natural e a considerava superior às moças que se relacionaram anteriormente com o filho. Esse fato confortou um pouco a ausência dos seus pais, que não aceitavam a profissão da filha. Mas aos poucos, com a vinda dos netos, a situação parecia se caminhar para um bom termo. Sim, ele era um homem afortunado! Noite alta, o carro que o conduzia de volta ao lar parecia flutuar acima do asfalto da cidade suja…

*Constante de uma das edições da Revista Plural, publicada trimestralmente pela Scenarium Plural – Livros Artesanais. A edição de Agosto intitula-se Mask, com textos sobre os atuais tempos pandêmicos e artigos especiais sobre o grafiteiro Banksy.

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