23 / 08 / 2025 / BEDA / Lua E Estrela

“A Lua e a Estrela, anel de turquesa…” — Trem das Cores (Caetano Veloso). 

Sônia Braga interferiu no cancioneiro nacional através de duas composições: Tigresa e Trem das Cores. E, sabe-se lá, talvez muitas outras do mesmo autor. Fosse eu o compositor, certamente não deixaria de me inspirar em tamanha força da Natureza feito a atriz intensa e talentosa. Eu cheguei a escrever um conto chamado Tigresa em homenagem a ela. A Tânia não gostou dele porque achou o narrador um tanto capacho demais. Falo de um homem totalmente preso à sua irresistível paixão em que somente algumas migalhas de carinho bastavam para enternecê-lo. Libertária, a minha Tigresa passava como um trator por cima dos homens e assim como alguém já disse em uma conversa solta, “não passava vontade”. Enfim, uma mulher digna de inspirar o melhor dos homens a melhorar o mundo com poesia da maior qualidade.

Foto de Sônia Braga por Jean-Pagliuso-Photography-Inc

20 / 08 / 2025 / BEDA / A Epidemia Social

Vivemos uma Epidemia Social — o da violência contra a pessoa do gênero feminino. Cresceu exponencialmente o sofrimento da mulher, assim como já sofreu durante milênios de anos, resistindo bravamente com a sua voz diante de sociedades eminentemente patriarcais. Na imagem acima eu registrei no início de Agosto. Demonstra o quanto progrediu as agressões explícitas, além das que ocorrem baixo os tetos e entre paredes das casas, apartamentos, Centro, Bairros opulentos e Periferias das cidades e nunca são mencionadas.

Mas, apesar disso, repercute nas vidas de quem convive com ela, principalmente os filhos que veem os pais baterem nas esposas, suas mães. Os efeitos são permanentes, dignas de serem tratadas por longos anos de terapia, quando podem. Filhos de agressores podem vir a reproduzir em seus relacionamentos os mecanismos que evoluem de situações mais simples, como o impedimento de completar uma fala até finalmente desembocar numa agressão física. Daí, para o Feminicídio é quase uma consequência “natural”.

Essa Epidemia Social do Feminicídio tem vários fatores: o machismo, engendrado pelo sistema patriarcal, a falta de amadurecimento psicológico dos agressores ao lidar com o casamento que “obriga” aos componentes de um casal a um diálogo permanente, além de outras tantas questões que variam de família para família. Mas o principal é o do homem abrir mão de uma suposta superioridade social. O que deve ser provado quando as questões e as questiúnculas se sucedem ao longo do tempo.

Eu sou um homem que se sente envergonhado a cada ocasião que surge no noticiário cenas e situações de crimes contra a integridade física da mulher. Principalmente o assassinato. Mas existem tantos outros que antes de culminar na morte da mulher, progredindo passo a passo dos primeiros e imperceptíveis movimentos até o final desastroso. De uma história de amor, é o ódio que sai ganhando.

Tenho uma teoria à respeito desse progressão monstruosa do Feminicídio, incluindo as tentativas. Foi o advento do (des)governo anterior que escancarou um personagem abjeto que incorporava de forma exemplar os exemplos de violência em todos os níveis ao fazer declarações recorrentes de cunho misógino. Creio que isso de certa maneira naturalizou o que só se dizia intramuros. Um líder dos descerebrados que se sentiram à vontade para proclamar todos os preconceitos arraigados na formação da Sociedade brasileira. O esgoto assomou ao nível da rua.

05 / 08 / 2025 / BEDA / Dama De Cinzas

Vem um dos homens e lhe ofende a natureza feminina
Silenciosamente rouba-lhe a inocência de menina
Determinado e consciente impõem-lhe a boca calada
Que quando balbucia a verdade é de pronto velada
Sofre a exclusão familiar e ainda a pecha que espezinha
De ser além de uma pequena mulher, uma mulherzinha
O decreto que apequena a moça a conduz ao descaminho
Tenta encontrar na química a sua recompensa, o carinho
Nos corpos alheios busca confirmar a dúbia fama
E passa a acreditar nos créditos de cinzenta dama
Mas como um anjo caído, sabe que pode alçar voo maior
Acima do rés do chão, além do horizonte de novo alvor
Subjuga o ódio que poderia sentir pelos machos da espécie
E ainda consegue amá-los e achar graça além da efígie
Prova-se emancipada em carne, osso, mente e espírito
Escreve a cada momento a sua história rumo ao infinito
Une-se a nós e expande o seu ser de boa influência
Confessa-se imperfeita, ainda que seja uma dama de excelência.

Foto por Vladimir Uporov em Pexels.com

04 / 08 / 2025 / BEDA / O Dia Seguinte

Tentei me lembrar do dia seguinte em que pela primeira vez estive com uma mulher, a própria mulher com a qual vim me casar. Ocorreu há 38 anos antes e estava a dois meses de completar 27 anos. Certamente sou um caso raro de homem que se preservou até encontrar alguém com quem quisesse ficar. A história por trás de ter deixado de ter experiências sexuais anteriores é plena de oportunidades que evitei que acontecesse. Os motivos foram tantos quanto subjetivos, alguns que até esqueci, mas o maior era o medo que eu tinha de me envolver e envolver outra pessoa com todas as minhas idiossincrasias, devidamente consideradas fora do comum. No dia seguinte estava frustrado com o meu desempenho na ação propriamente dita. O que buscaria resolver com uma maior assiduidade na prática. Claro que isso acabou por desencadear na notícia da gravidez da Tânia. Usávamos a chamada Tabelinha, que deu certo por três meses.

A minha expressão pessoal era avessa à realidade imediata das pessoas com as quais convivia. Tinha comportamentos esquisitos, ouvia músicas incomuns como Jazz ou instrumental clássico e menos fora do comum como a MPB de Caetano, Chico, Gil, Jards Macalé, Ivan Lins, Djavan e outros tantos alijados da realidade da Periferia. Tinha o hábito da leitura compulsiva. Fazia o Curso de História, na USP, mas planejava passar para o de Português já de olho na possibilidade de me tornar escritor. Certamente seria Professor, mas ao mesmo tempo vivia em choque com o Sistema que impõe um “jogo de cartas marcadas” no qual que não queria ingressar. Mas como já disse Vinícius: “a vida tem sempre razão”.

Em três meses, a minha vida tomou um rumo diverso do que havia imaginado, mas que hoje abençoo. Aliás, se há uma postura que não adoto é do jogo do “Se“. Se isso ou aquilo tivesse acontecido deixo apenas para as histórias que crio como escritor, somente como expediente no desenvolvimento de temas mais intricados, dadas as “realidades” possíveis. Cheguei a este quadrante satisfeito com o rumo que acabou por encetar a minha vida.

11 / 06 / 2025 / Madame

Don era chefe em uma repartição pública. Sempre simpático, era admirado por seus comandados. Todos apreciavam sua habilidade em controlar situações adversas. Charmoso, conseguia com sorrisos obter melhores resultados do que a palavra dura usualmente utilizada como traço de comando. Chamava bastante a atenção das mulheres, mas nunca ultrapassou os limites da sociabilidade padrão. Muitas, buscavam atrair o seu olhar. Para Ana, justamente a mais discreta, reservava sua palavra mais carinhosa. Não foi difícil misturarem as linhas de conexão e se apaixonarem. No entanto, ambos eram casados.

Ainda que não quisessem levar adiante uma aproximação mais íntima, o destino colaborou para um vínculo definitivo ao serem escolhidos para um congresso de gestão pública em Brasília. Longe de casa, o mútuo desejo se fez sentir feito fogo no Cerrado seco. Os dois se surpreenderam por serem absolutamente vorazes no sexo. Casaram seus corpos feito música romântica na voz de Roberto Carlos –– o côncavo e o convexo. As jornadas de reuniões e palestras burocráticas eram compensadas por noites de entrega a fantasias sequer imaginadas quando estavam com seus parceiros habituais. Foram quatro dias que se encerraram com lágrimas, antes da viagem de volta.

Combinaram uma agenda de encontros para quando voltassem a São Paulo. Não conseguiriam ficar sem algo que não tinham antes, mas que se tornou absolutamente imprescindível. Descobriram-se maiores, expandidos para além de parâmetros conformes a que sempre obedeceram. O mais interessante é que seus respectivos companheiros também se beneficiaram em suas relações pessoais. A partir daquele momento em diante os momentos de encontros íntimos entre os casais oficiais ficaram mais prazerosos e aguardados com ardor. Durante os dias de semana, as horas de almoço e finais de expediente estavam reservados aos amantes.

Os bons gestores conseguiram levar adiante suas vidas duplas de maneira discreta, mas com afinco e prazer. Adão, o marido de Ana, comemorava intimamente o fogo redivivo de início de matrimônio, sem vincular nenhum outro motivo do que uma fase oportunamente benfazeja. Já, Janaína, esposa de Don, desconfiou de tanta paixão no ato sexual. Gostou bastante da nova versão do homem sempre muito comedido, apesar de carinhoso. Porém, sabia que algo mais estava acontecendo. Nunca foi ciumenta, porém esperou um momento de distração para conseguir acessar o celular do marido e obter as informações que precisava para ter certeza das escapadas de Don.

Mulher bem informada e de opiniões fortes, a palavra “escapadas” formulada antes, fosse contestada por ela. Advogada, não considerava a instituição do casamento uma prisão, mas apenas um contrato social, importante para assegurar direitos, apenas. Sabia que quando não houvesse mais condições de continuar um relacionamento sem as mínimas bases de sustentação, o melhor seria dissolver o acordo. Ainda assim, Janaína, carinhosamente chamada de “Madame” por Don, uma brincadeira em contraponto ao nome dele, o amava muito. Percebeu que o encontro dele com a nova parceira o deixara mais aberto e um homem melhor.

Madame deixou aflorar uma fantasia que teve o cuidado antecipar em sua mente antes de revelar a Don. Não buscou explicação para ela. Somente queria realizá-la. Não sabia como o seu companheiro reagiria, todavia como parecia cada vez mais desenvolto em sua nova faceta, a pediria. Certa noite, Don chegou mais tarde. Exibia o sorriso novo que havia surgido nos últimos tempos, que o deixava ainda mais sedutor. Madame sabia que voltava de um encontro com a outra. Jantaram, e entre goles de vinho tinto, foi direto ao assunto. Disse que sabia que ele tinha um relacionamento com alguém da repartição (jogou verde, baseada no comportamento contido do marido). Imediatamente, o rosto de Don adquiriu feições que em questão de instantes ora pareciam de surpresa-espanto, ora de pura estupefação sobre a pele de cera.

Casal sem filhos, eram os melhores tios que existiam. O casamento havia chegado naquele ponto em que a estabilidade se confundia com mesmice, marcados por momentos festivos e tristezas pontuais. Madame era uma mulher firme e inteligente. Sua postura não comportava grandes arroubos e ele amava o porto seguro que ela representava. A chegada de Ana em sua vida, tornou tudo muito mais emocionante. E agora, isso… Sem sequer conseguir balbuciar palavra, olhava para Madame e tentava captar em seu olhar qual seria sua estratégia. Estaria armando uma vingança? Continuou mudo por mais alguns instantes, enquanto ela mantinha o rosto impassível. Don moveu sua mão em direção ao bolso do paletó e retirou o celular. Desbloqueou e o entregou à Madame.

Ela o apanhou e calmamente correu os arquivos de fotos. Percebeu uma pasta em que aparecia uma bela mulher de olhos claros e cabelos negros. “Muito interessante…” – balbuciou. “Nenhuma foto dela, nua?…”. “Para que?”. “Gostaria de saber se tem o corpo melhor que o meu…”. “Você sabe que não ligo para isso”. “Talvez… saberei se a ver nua.”. Don pediu o celular de volta e acessou os arquivos bloqueados. Abertos, entregou o aparelho de volta. Madame observou detidamente cada uma das fotos. Chegou a mordiscar os lábios algumas vezes. Desviou o olhar um instante em direção a Don, sorriu e desferiu: “Ela é linda!… Um dia quero conhecê-la mais de perto…”. Passado mais um minuto, devolveu o celular e completou: “Por enquanto, não. Quero ir com você nos mesmos lugares onde os dois se encontram. Se quiser continuar casado comigo somente lá e então transaremos. Se assim decidir, há outra condição – não diga nada a ela… qual o seu nome, mesmo?…”. “Ana…”. “Além disso, quero me vejam com você”.

Don não argumentou. Jantou calado e passou o resto da noite deitado no sofá, pensando sobre tudo, onde adormeceu. Pela manhã, perguntou a Madame se poderia ir de encontro a ele na hora do almoço. Ela respondeu afirmativamente. Já no escritório, mandou mensagem para Ana, informando que não poderiam estar juntos naquele dia, pois almoçaria com a esposa. Ao meio dia, desceu até o saguão do antigo prédio do centro da cidade, onde encontrou Madame. Saíram de carro e foram até um flat. Cumprimentou os funcionários que estranharam a presença da nova mulher. Já no apartamento, mal adentrou, Madame desceu o zíper da calça do marido e o chupou como nunca fez, muita excitada. Don respondeu com igual paixão e ali, junto à entrada, provavelmente tiveram a melhor foda que o casal já tivera.

A partir daquele dia, Don passou a alternar seus encontros sexuais entre Ana e Madame. Enquanto Madame sabia de Ana, Ana desconhecia que Don trazia sua esposa para o local que considerava só deles. Essa circunstância excitava muito a Madame. Verdadeiramente, se sentia a outra. Quando isso não fosse mais um estímulo, já havia lhe passado pela mente certas variações. Um dia, chegaria o momento de incorporar a presença do terceiro vórtice do triângulo no mesmo espaço. Porém, ainda não… Don ainda estava aprendendo a se libertar de certas amarras e se quisesse que desse tudo certo, ela conversaria com Ana antes. As mulheres saberiam se entender…

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