No fulgor do instante em que os mundos se separam e entramos em outra dimensão…
No momento do prazer flamejante, de corpos que se fundem e afundam no mar cósmico do gozo em ação… Na aceitação de que somos ingentes, a deitarmos entre estrelas que dançam, exclamas: “Pareces um deus!”…
Então, me sinto São entre os sãos… Espalmo minhas mãos contra a sola de teus pés –– beijo a flor de lótus e entoo preces…
Te sinto uma deusa… Não! Mais do que isso… Te sinto maior que tudo… Te sinto Mulher!
Éramos dois perdidos numa cidade suja. Nossos caminhos se encontraram –– bailarina-cerebrina e espectador-expectador… Meus olhos a perseguirem seus passos nas esquinas-palcos. Eu, um solitário, cercado de pessoas e afazeres, fui beijado por ela em dia de Carnaval diante da porta do trabalho. Ela brandiu o seu leque, fantasiada de espanhola; eu, um espanhol fantasiado de ninguém, o roubei… Apaixonado, atrapalhado, alucinado, amargurado, assustado, me recusava a olhá-la nos olhos fugidios-furta-cores –– sabia que neles me perderia para sempre… Ela me amou como sempre me conhecesse; eu, como se nunca devesse tê-la encontrado –– pecado em forma de mulher –– cristão-penitente a me sentir condenado… Este-eu-pobre-ridículo-homem-tempo-seco, enquanto ela era tempestade –– raios e trovões em dia claro de Sol –– visão oscilante feito miragem de oásis no deserto; nunca soube ou quis amá-la como deveria e ela gostaria. Preferi fugir para um lugar onde sentia frio e dor, mais confortável do que é amar –– ser enganado por meus sentidos –– nunca ter certeza de onde estava ou se caminhava ou se flutuava ou se estava a cair indefinidamente numa fossa abissal… Consegui sobreviver à vida por ela ofertada. Preferi passear comigo mesmo em confortável-estável-imutável-roda-gigante num eterno domingo no parque da morte… Nos deixamos por mensagens-rompantes-soluços-choros de criança, sem adeus ou carta de despedida…
“A Lua e a Estrela, anel de turquesa…” — Trem das Cores (Caetano Veloso).
Sônia Braga interferiu no cancioneiro nacional através de duas composições: Tigresa e Trem das Cores. E, sabe-se lá, talvez muitas outras do mesmo autor. Fosse eu o compositor, certamente não deixaria de me inspirar em tamanha força da Natureza feito a atriz intensa e talentosa. Eu cheguei a escrever um conto chamado Tigresa em homenagem a ela. A Tânia não gostou dele porque achou o narrador um tanto capacho demais. Falo de um homem totalmente preso à sua irresistível paixão em que somente algumas migalhas de carinho bastavam para enternecê-lo. Libertária, a minha Tigresa passava como um trator por cima dos homens e assim como alguém já disse em uma conversa solta, “não passava vontade”. Enfim, uma mulher digna de inspirar o melhor dos homens a melhorar o mundo com poesia da maior qualidade.
Foto de Sônia Braga por Jean-Pagliuso-Photography-Inc
Vivemos uma Epidemia Social — o da violência contra a pessoa do gênero feminino. Cresceu exponencialmente o sofrimento da mulher, assim como já sofreu durante milênios de anos, resistindo bravamente com a sua voz diante de sociedades eminentemente patriarcais. Na imagem acima eu registrei no início de Agosto. Demonstra o quanto progrediu as agressões explícitas, além das que ocorrem baixo os tetos e entre paredes das casas, apartamentos, Centro, Bairros opulentose Periferias das cidades e nunca são mencionadas.
Mas, apesar disso, repercute nas vidas de quem convive com ela, principalmente os filhos que veem os pais baterem nas esposas, suas mães. Os efeitos são permanentes, dignas de serem tratadas por longos anos de terapia, quando podem. Filhos de agressores podem vir a reproduzir em seus relacionamentos os mecanismos que evoluem de situações mais simples, como o impedimento de completar uma fala até finalmente desembocar numa agressão física. Daí, para o Feminicídio é quase uma consequência “natural”.
Essa Epidemia Social do Feminicídio tem vários fatores: o machismo, engendrado pelo sistema patriarcal, a falta de amadurecimento psicológico dos agressores ao lidar com o casamento que “obriga” aos componentes de um casal a um diálogo permanente, além de outras tantas questões que variam de família para família. Mas o principal é o do homem abrir mão de uma suposta superioridade social. O que deve ser provado quando as questões e as questiúnculas se sucedem ao longo do tempo.
Eu sou um homem que se sente envergonhado a cada ocasião que surge no noticiário cenas e situações de crimes contra a integridade física da mulher. Principalmente o assassinato. Mas existem tantos outros que antes de culminar na morte da mulher, progredindo passo a passo dos primeiros e imperceptíveis movimentos até o final desastroso. De uma história de amor, é o ódio que sai ganhando.
Tenho uma teoria à respeito desse progressão monstruosa do Feminicídio, incluindo as tentativas. Foi o advento do (des)governo anterior que escancarou um personagem abjeto que incorporava de forma exemplar os exemplos de violência em todos os níveis ao fazer declarações recorrentes de cunho misógino. Creio que isso de certa maneira naturalizou o que só se dizia intramuros. Um líder dos descerebrados que se sentiram à vontade para proclamar todos os preconceitos arraigados na formação da Sociedade brasileira. O esgoto assomou ao nível da rua.
Vem um dos homens e lhe ofende a natureza feminina Silenciosamente rouba-lhe a inocência de menina Determinado e consciente impõem-lhe a boca calada Que quando balbucia a verdade é de pronto velada Sofre a exclusão familiar e ainda a pecha que espezinha De ser além de uma pequena mulher, uma mulherzinha O decreto que apequena a moça a conduz ao descaminho Tenta encontrar na química a sua recompensa, o carinho Nos corpos alheios busca confirmar a dúbia fama E passa a acreditar nos créditos de cinzenta dama Mas como um anjo caído, sabe que pode alçar voo maior Acima do rés do chão, além do horizonte de novo alvor Subjuga o ódio que poderia sentir pelos machos da espécie E ainda consegue amá-los e achar graça além da efígie Prova-se emancipada em carne, osso, mente e espírito Escreve a cada momento a sua história rumo ao infinito Une-se a nós e expande o seu ser de boa influência Confessa-se imperfeita, ainda que seja uma dama de excelência.