Ao som de Whutering Hights, com Kate Bush, matar a fome do homem, pensar sobre a vida e versar… Creio que não haja coisa melhor do que plantar e colher, gerar filhos e vê-los crescer, o amor de uma mulher e comer de colher…
Registro da Dona Madalena e filhos – Humberto, ela, eu e Marisol – Natal de 2004, provavelmente
“O pior inimigo de uma mulher é outra mulher” – dizia o meu pai. De certa maneira, ele fazia uma campanha diuturna contra a minha mãe – a mulher mais próxima de mim. Mas eu não me identificava com ele, sempre distante, fugindo da repressão do regime ditatorial. Até que, traído por um amigo e companheiro de grupo, foi parar na prisão, onde foi torturado para revelar informações sobre a sua célula “terrorista”.
Talvez não tenha percebido que “o pior inimigo de um homem é outro homem” – frase que disse a ele alguns anos antes de partir. Após retornar ao convívio familiar (não por muito tempo), se opunha às ideias de minha mãe que, sozinha, empreendeu com a ajuda dos seus irmãos em várias frentes – dona de bar, criação de galinhas (na qual eu gostava de ajudar bastante) – e, em várias ocasiões, como cozinheira e faxineira na casa de outras famílias.
Meu pai, contando com a ajuda da minha avó Elóisa, sua mãe adotiva, decidiu investir num bar na Consolata ao qual registrou com o nome de “RincãoAlegre”. Desconfiado de DonaMadalena (como de toda mulher), não a tornou proprietária, mais sócia minoritária. Apesar da distância, não convivendo mais conosco, pediu aos filhos que a vigiassem caso percebessem que outros homens se aproximassem dela.
O que não era difícil, já que a minha mãe era uma mulher bonita e amistosa. Porém, nunca percebi qualquer olhar seu diferente do que genuínas amizades que carregou pelo resto da vida. Algumas, os filhos herdaram. Além disso, ela estava presa à criação que teve – uma lavagem mental patriarcal – que a impedia que deixasse de reverenciar o seu esposo. Fora, que sempre foi apaixonada pelo SenhorOrtega, sonhava o dia que ele voltaria para o lar que nunca assumiu cabalmente.
Como já disse antes, com a minha mãe, aprendi a amar as mulheres. Percebi que sendo cromossomicamente metade mulher, o alcance mental da condição feminina que desenvolvi me tornou um homem melhor. Ainda cheio de defeitos, as características das mulheres que mais me atraem têm a ver mais com as suas capacidades múltiplas do que pelas aparências, se bem que o meu olhar seja atraído pelas belezas intrínsecas a esses seres pelo qual apresento um conceito prévio básico – a sua superioridade. Visto pela ótica invertida, seria um preconceito. E é.
Arpoador Beach, Devil’s Beach, Ipanema district of Rio de Janeiro –Brazil, South America
quero… desejo… vou de encontro… invado… devagar… passos silentes sobre a areia e a pedra… o meu corpo recebe em ondas as águas mornas do abraço marinho desta manhã que se anuncia receptiva ela também me deseja as águas se mostram aparentemente turbas rebeldes consigo ler a sua dinâmica de mulher apaixonada fogo em forma aquosa os meus membros a penetram como um cavaleiro de espada em riste em uma batalha que já perdi sei desde o início mas guerreio fardo de homem que ao oceano ama e por ele se derrama em sal eu o decomponho e o absorvo em minha mente de querer amoroso marolas se disfarçam de amantes desfaço-me em pequenas porções de moléculas de oxigênio e hidrogênio o meu ego apartado de mim é lançado no mar profundo me entrego ao beijo da amada no amanhecer revelador raios de sol por testemunha de que sou seu amor morro para esta existência em gozo transformado em milhões de gotas a rebater na arrebentação junto às pedras do arpoador…
ela é uma mulher apaixonada pela vida e se apresenta apaixonada por mim mas não sou toda a sua vida e nem quero que seja quero acrescentar não completar duvido de mim eu não me sinto suficiente ciente que estou de meus vazios minhas faltas minhas incompletudes mas com ela me sinto bem quase outro esse outro é bem melhor chego a sentir ciúme dele… ainda que seja eu em pele carne osso pensamentos perfil estrada calçamento meio fio do caminho que desejo trilhar ainda que seja no meu terço final quero alcançar o arco-íris multicolorido feito casario colonial navegar com os olhos pelas águas da veneza tropical submergir na cultura do lugar meu coração ao compasso pulsante em pífanos cantos violas enluaradas maracatu caboclinhos coco-de-roda ciranda samba afoxé frevo caminhar por boa viagem reconhecer a mim o que ama amante aquele que se atreve a ser e ao tê-la em meu braços me ter…
Não lembro de me desesperar de forma descontrolada em nenhuma situação extrema. Quando me encontro em situações limites, parece que é acionado um mecanismo de compensação que faz com que eu veja tudo em “câmera lenta”. Quase como me ausentasse. Já passei por assalto no ônibus que estava. Dois indivíduos passaram por mim como se não me vissem. Em outra oportunidade, quando percebi que dois rapazes nos olhavam carregando o equipamento de trabalho, rebati com um olhar fixo. Um deles, se sentindo desafiado, com uma espécie de escopeta atirou em nossa direção. O tiro rebateu no chão. Meu irmão e o motorista do transporte saíram correndo. Os sujeitos se movimentaram para longe. Na primeira viagem de avião que fiz, permaneci impassível durante uma turbulência, como se fosse um veterano, observando o alvoroço dos outros passageiros.
Essas ocasiões nunca se compararam ao sofrimento de inadequação e quase paralisia física que o adolescente que fui enfrentava aos eventuais contatos com as moças. Naturalmente, não era um comportamento normal, ao que eu chamaria de “timidez mórbida”. Hoje, eu tenho por mim que falar com elas era difícil porque estaria evidente que todo o meu corpo demonstraria que as idolatrasse. As minhas passadas não concatenavam. Os pés hesitavam, como se evitasse tropeçar em pedras invisíveis. Não sabia o que fazer com as mãos e o meu sorriso era como se estivessem me arrancando um dente, de tanta timidez.
Apenas bem mais tarde, quando me senti numa espécie de encruzilhada entre continuar em não ter contato (físico) com as mulheres e começar a minha vida sexual, mudei. Decidi que o caminho anterior já conhecia e sofria muito para manter. Contra todos os mecanismos de defesa que montei durante anos, me movi no sentido de encontrar alguém que pudesse entender o homem que era – desarticulado, oscilante, mas confiável – interessado em fazer com que um relacionamento desse certo.
Escolhida a “vítima” da minha primeira incursão, tudo foi muito rápido. Uma precipitação meteorológica num dia quente. Chuva de verão. Adiei o máximo que pudesse o momento-sensação de desespero da ejaculação. Não consegui. Não foi tão bom quanto eu desejava, acabei esfolado. Mas disposto a aprender, com o tempo progredimos no envolvimento tanto em intimidade quanto em prazer. Ela e eu, mantemos um casamento de 35 anos.