O mês de Agosto é um dos meus favoritos. Quase fim de Inverno, auspícios da Primavera e mês que foi decisivo para mim de várias maneiras. Neste dia, há 37 anos, a Tânia e eu começamos a namorar. No dia 12 do ano seguinte, em 1989, nascia a Romy, a primeira das três filhas que tivemos. Optou-se por ser feita uma cesariana, já que não havia dilatação suficiente para que nascesse a criança. A Tânia, insatisfeita com o hospital em que nasceu a nossa menina, pediu para ir para a casa, com 14 horas de operada. Na imagem acima, lá está a Romy sendo cuidada pela mãe e por mim, que não queria deixar de participar desse evento que é cuidar da prole.
Eram experiências que sequer havia imaginado viver um ano antes e que mudou decisivamente a minha vida, justamente perto do Dia dos Pais. Esse não era o caminho que eu queria ter escolhido, antes. Mas abençoo que tenha tomado o rumo que tomei, totalmente diverso. Essa foto foi colocada no grupo da família, gerando comentários graciosos como o da própria Romy que disse que estava sendo cuidada pela caçula, Lívia, muito parecida com a mãe. As três mulheres são unidas entre si e cuidam umas das outras.
Nesse aspecto, apesar de todas as tribulações pelas quais passamos, sou um homem realizado. Ser pai quase me define como ser humano.
Eu participo da Scenarium Livros Artesanais como escritor desde 2015. Chamado por Lunna Guedes, comecei a integrar o selo com crônicas, prosas e poemas através dos lançamentos de coletâneas e de edições da RevistaPlural, atualmente substituída pela série Scenarium 8, de Março a Junho, de Agosto a Novembro. A minha aparição com uma obra individual ocorreu em 2015, com REALidade, livro de crônicas. Depois escrevi Rua2, de contos curtos; Confissões, de viés confessional, assim como Curso de Rio, Caminho do Mar, além de Senzala, um conto longo. Mas não estou aqui para falar de mim, chamado de “bendito fruto”, por Lunna por ser praticamente o único escritor de gênero masculino presente nos lançamentos do selo. Mas esta postagem gira em torno das damas, em homenagem ao DiaInternacionaldaMulher, no dia 8 de Março.
Para não ser injusto e individualizar seis títulos específicos para mostrar aqui dentre os vários e belos lançamentos escritos por mulheres durante todos os anos do qual participo da Scenarium, decidi mostrar registros do conjunto de quase todas as obras das escritoras que encontraram guarida no selo.
Participam não por serem mulheres, apesar de ser uma ação afirmativa necessária num mercado em que os homens dominam por serem, justamente, homens. Lunna Guedes prima pela qualidade dos textos e dos temas importantes que envolvem questões humanas, independentemente de identidades de gênero diferentes.
Há títulos que me impactaram mais, autoras que atravessaram o meu entendimento como tanques, derrubando as minhas defesas, assim como escritoras como Lygia, Clarice, Cecília, Raquel, Hilda, para ficar entre as brasileiras. Dar vez e voz às mulheres é um acerto do selo. Mesmo porque percebo que a qualidade de seus textos, cada mais instigantes, me impulsionam a tentar escrever melhor.
Ano a ano, Lunna garimpa através de seus cursos e como observadora da cena literária novos nomes para comporem com as suas obras um mosaico cada vez mais diverso e rico de produtores de textos que ampliam significativamente a qualidade do quadro da Scenarium.
Uma característica importante e basilar dos lançamentos do selo é a sua confecção artesanal, com papel de qualidade, costurados à mão, um a um, visual apurado, em edições limitadas. Caso haja interesse de novos exemplares, são solicitadas edições extras, sob demanda. Isso garante que não sejam publicados livros que fiquem encalhados, como é comum acontecer com os lançamentos editoriais comuns.
Encontrar a Scenarium pelo caminho foi algo que me colocou diante de meu sonho de menino — escrever textos que fossem publicados e lidos por quem tivesse interesse. Esse movimento não me fez escritor. Como já aludi antes em outras ocasiões, assumir que a minha identidade preferencial como um escritor, demonstra a minha identificação com a arte literária, na busca de minha melhor possibilidade de ser, dentro das minhas limitações, o melhor escritor. Participar de um selo eminentemente feminino, me deixa orgulhoso.
Registro do casal de Outubro de 2021, em Paraty-RJ
Querida, falar do que é teu, não posso. O que te pertence, apenas tu saberás. Tento sempre me colocar no lugar das pessoas, interpretar sentimentos, emoções, senões, apesares… Contigo, é diferente. Mesmo depois de tanto tempo de convivência, tu és outra do que quando te vi pela primeira vez. E continua a te desenvolver. O que é bom. Vejo que evoluíste em tantas convicções, que não percebe-te uma pessoa parada no tempo.
Estamos há mais tempo juntos do que separados em nossas vidas íntimas. Nos transformamos mutuamente. Compartilhamos idades diversas, perrengues que já conheces, mas não divulgamos para que não recaiam sobre nós olhares de condolências ou invídia. Somos altivos, apartados de amizades com outros casais e até um pouco misantropos. Nossas atividades são díspares em significados, alcance e valorização. Sabes que te admiro como profissional e abençoo o dia em que escolhi me entregar à mais inteligente. Temos divergências, tantas quanto é possível dentro do limite aceitável para não joguemos fora as alianças (a minha está em lugar incógnito).
Sagitariana, guerreira, meio humana, meio animal, está sempre em movimento, ainda que saiba dormir como poucos. Mas mesmo adormecida, ao despertar relata sonhos que teve, estranhos, coincidentes com acontecimentos externos e vibrações internas. Intuitiva, resvala na verdade, mesmo sem querer. Descreve, como poucas pessoas, procedimentos técnicos de teu trabalho. Excelente, a exceder o normativo, cria viabilidades ao que já é conhecido. Eu, que te conheço (mais ou menos) de perto, não tenho expectativas aonde chegará, porque tu és surpreendente. Sei que crescerá para além de tuas próprias expectativas. Chegou a lugares que a menina do interior do Rio nunca imaginou chegar – ao Cabo da Boa Esperança – tanto física quanto metaforicamente.
Do Atlântico ao Índico e, mais recentemente ao Pacífico, vislumbraste diferentes águas de Oceanos. E isso é apenas um exemplo. Falar do que é meu, eu posso – o desejo que continue a ser autêntica – ainda que me irrite quando exageras na franqueza. Quero-te tão bem quanto desejaria a alguém que construiu uma vida inteira ao teu lado. Nossas bençãos não são materiais, mas estão materializadas nos frutos que geramos e cuidamos para que se tornassem as mulheres incríveis que são.