BEDA / O Quarto

QUARTO

Bichinhos de pelúcia, bonecas, garrafas de água, canetas, álbuns, envelopes, cadernos e livros, bolsas, bolsinhas e bolsões, sacolas, enfeites, correntes, correntinhas, pingentes, brincos, pulseiras, óculos diversos, tênis, botas, sapatos, chinelos (calçados, tantos, que não sei como podem existir tantas variações), blusas, blusinhas, blusões, camisetas e “tops” (sim, eu sei o que são), calças, calções, calcinhas, lençóis, cobertas, almofadas, travesseiros e “pufs”, esparadrapos, “sprays”, pomadas, pílulas, pacotes de absorventes e remédios variados, controles da TV e do “vídeo-game”, aparelhos múltiplos e fios de aparelhos, fones de ouvido, caixas, caixinhas e repositórios dos mais diversos tipos, meias, meinhas e meiões, bonés e chapéus, roupas e roupões, pentes, escovas, pincéis de maquiagem, cabides, chicletes, uma xícara e um copo usados e uma barra de chocolate esquecida – tudo isso, perfeitamente dispostos no quarto de minhas meninas sobre as camas, móveis e cadeiras. Toda a aparente barafunda dos apetrechos femininos e outros apresentam a simetria da vida que acontece agora. Tudo, apesar da suposta bagunça, detêm um significado e um propósito. Antes, quando eu entrava nesse recanto de sono reconciliador ou de conversas caladas na noite, ficava contrariado. Dizia que não mais invadiria àquele mundo particular. Hoje, se o faço, é para somente perceber que tudo esteja em seu devido lugar, perfeitamente revirado, na expectativa do tempo que sentirei saudade de não as encontrar mais nele abrigadas – nossas filhas – meninas-mulheres que, um dia, ganharão o mundo. Então, nós, seus pais, encontraremos o quarto dos nossos amores, enfim, arrumado, mas vazio…

Projeto ®existir | Obdulio Nunes Ortega | Scenarium Plural Livros Artesanais

Resistir

PENSAR COMO UM LADRÃO

Certa vez, ouvi do Alemão, com o qual instalava um equipamento, a frase: “Ladrão! Ladrão!”. Perguntei: “Por que ladrão”. “Porque se não é ladrão, é roubado!”. Entendi, com seu jeito simples e direto de falar, que se referia à presteza com que deveria ser realizada uma tarefa.

A partir dessa premissa, conjecturei que agir fora das regras e leis vigentes nos garantiria vantagem sobre o próximo, que é, em suma, adversário na luta pela sobrevivência. No mínimo, assumimos mentalmente um comportamento similar. Por exemplo, ao estacionarmos o carro, tomamos todas as precauções possíveis para que o nosso bem móvel não seja removido para longe de nossos olhos e mãos – somos obrigados a pensar como um ladrão. Constato, mas não valido. De espírito, sou franciscano. Isto não impede que ainda que tenha a melhor das intenções, eu e muitos outros terminamos por trabalhar para que o Sistema se perpetue.

Agimos feito criminosos amadores. Corruptores, distribuímos agrados para sermos privilegiados em várias ocasiões. Pagamos planos de saúde – um extra para garantir melhor atendimento quando nossas vidas e a dos nossos familiares estão ameaçadas por acidentes ou doenças. Como também somos impelidos a pagar seguros de vida, a fim de dar segurança financeira aos nossos beneficiários, caso um dos acasos pelos quais passamos todos os dias nos levem a óbito – passamos a valer mais mortos do que vivos.

Reunidos em torno de uma sociedade que exalta como valor maior sobrepujar metas de produtividade e acumular bens em contraponto à expansão da consciência pessoal e social, a tendência é que desenvolvamos a visão que associe progresso material à profissão de fé. Religiosamente, todas as manhãs, levantamos e nos dirigimos em séquitos às igrejas patrimoniais. Nada que finais de semana – sextou! – regados à entorpecentes, futebol, festas ou orações não nos aliviem para que, às segundas-feiras, retornemos aos expedientes, semivivos, mas funcionais.

Para defender o status quo, vemos ações cada vez mais violentas dos combatentes aos elementos à margem, enquanto estes investem cada vez mais ferozmente contra os agentes da Matrix econômica: trabalhadores, inclusive. De muitas maneiras, enredados por uma doutrina que produz desarmonia humana e desequilíbrio social, fabricamos deserdados que, a ferro e fogo, não dão valor a vida de outrem. Alijados desde cedo de melhores perspectivas, se utilizam da moralidade de um ponto de vista básico – eles contra os botas – escudos a soldo, que matam em nosso nome. Há quem veja sinais de rebeldia contrarrevolucionária nas ações dos marginalizados, quando ao final de tudo, ficamos em meio ao fogo cruzado – os bem e os mal-intencionados.

Em álbuns antigos, ao rever imagens de minhas filhas pequenas, além da saudade, fiz um exercício sob o olhar do “politicamente correto”. Reavaliei cenas e situações naturais, mas que sob esse novo critério, poderiam ser consideradas duvidosas, como a em que estou a me divertir com as três meninas na grande banheira no, até então, único banheiro da casa. Era comum que todos nós nos víssemos nus, sem o puritanismo retrógrado em que a liberdade e a aceitação de nossas diferenças fossem vistas negativamente.

Sempre julguei que dar a elas a oportunidade de ver o corpo de um homem (no caso, o meu), seria bem mais educativo do que aplacar a curiosidade através de informações normalmente eivadas de preconceitos e ignorância. Minha esposa, sempre presente, agia da mesma forma. Profissional da saúde, nunca deixou de informá-las sobre as questões mais espinhosas com relação ao corpo feminino – o objeto primordial de culto e culpa da sociedade patriarcal. Se bem que formemos uma família tradicional, nunca apresentamos restrições àquelas formadas de maneiras diversas, como as homoafetivas, por exemplo. Aliás, ainda que todos nós apresentemos a heterossexualidade como orientação atual, vemos os outros de perfis diversos, acima de tudo, como pessoas.

De alguma maneira, vivemos um processo de “reeducação” através do olhar doente daqueles que sentem prazer obsceno à vista de imagens inicialmente cândidas, mas que se revertem em fetiche predatório. Ao mesmo tempo, há pessoas que não conseguem construir uma personalidade autônoma dos mandamentos postulados por falsos moralistas, atacando tudo que pareça diferente da normatividade propalada como ideal, enquanto vivemos uma guerra fratricida, estimulada pela atual estrutura social carcomida.

Vertente da criatividade humana que deveria avançar-provocar reflexões para além da mesmice, igualmente quaisquer manifestações artísticas são julgadas e condenadas com base na visão do cidadão médio. Ousadia, aquela apenas aparente, em canções populares de conotações duvidosas – voos rasos de moscas em torno do estrume.

O que vimos acontecer ultimamente foi um fenômeno revelador – a chamada maioria silenciosa, que de início reagia como manada-bando – repentinamente passou a agir como matilha-hoste armada de intolerância, racismo, xenofobia, homofobia, com pendores ditatoriais. Quem acredita, como eu, que o ser humano existe com um propósito maior do que servir a esquemas predeterminados e ao imediatismo funcional, deve, como coparticipante do concerto social, fazer ouvir nossas vozes de resistência ao retrocesso e ao processo de alienação. Dignamente, por nós e por todos, apesar deles, apesar de tudo, lutemos!


Obdulio Nuñes Ortega… nasceu a fórceps no começo de outubro de 1961, no centro de São Paulo. Ainda criança, começou a se mover para a Periferia, primeiro à Leste, depois ao Norte. Desde cedo, quis ser escritor.  Renasceu aos 17 anos, vegetariano e a crer. Aos 27, renasceu casado e pai. Escolheu trabalhar como peão e dono de seu próprio negócio. Budista, demorou a lucrar. Franciscano, aceitou com resignação ganhar o pão com o suor de seu rosto.
O escritor adormeceu e, sem ter como se expressar, aquele Obdulio morreu no final de outubro de 2007, diabético, por excesso de amargor. O atual renasceu a carregar a memória do antigo homem que escrevia, a enxergar o mundo com novos olhos… ainda que a herdar a miopia do outro. E chega até este quadrante a sentir redivivo… a cometer os erros dos novos, a renovar os seus ímpetos, a amar como um adolescente, a ser escritor, como sempre quis.


In: https://scenariumplural.wordpress.com/category/blogue/

Projeto Scenarium 6 Missivas / Novembro-18 / Carta A Bento

Capitu
Maria Fernanda Cândido, como Capitu

Como vai, Bento? Você não me conhece, mas eu o conheço. Na verdade, muita gente o conhece, ainda que talvez não saiba. Culpa sua, que divulgou sua passagem pela Terra. Com o passar do tempo, no entanto, a sua figura acabou por se tornar secundária em sua própria história. Mais adiante, falarei sobre isso.

Já me disseram que pareço com você. Pode ser. Há algumas similaridades. Você fez seminário, eu flertei com a possibilidade de me tornar frei franciscano. O meu orientador voltou para a Bélgica e tive lhe dar com um novo que pediu mais tempo para me conhecer. Eu disse que não poderia esperar mais um ano. Conheci a minha futura esposa logo em seguida.

Nunca quis seguir Direito, que supostamente busca a justiça. A única equivalência possível é que nasci sob Balança, de pratos sempre desequilibrados. Passei por situações que o mau humor me afastou das pessoas – pura casmurrice. De certa forma, não me importava tanto assim se ficasse só. Hoje mudei. Busco contato, alcancei reputação de ser boa praça. Espero ter ultrapassado a condição de ser que viesse a morrer amargurado se soubesse (ou presumisse) que uma das “minhas” filhas não fosse minha. Eu as amo tanto…

Sabe o que conseguiu com tudo que nos passou com a sua desconfiança? Que Capitu se tornasse cada vez maior do que você. Por algum sortilégio de cigana ou porque Capitu tenha ultrapassado sua condição de mulher resignada a seu papel de esposa silente, ela alcançou status de ícone feminino. Seus olhos de ressaca atravessaram quase dois séculos e continuam a fazer sonhar homens e mulheres.

Ela não era dissimulada, era alguém que sabia o que queria e quis e fez. Para se defender, usou das armas a que muitas mulheres utilizavam à época e ainda hoje, quando supostamente têm maior liberdade. Desculpe, meu caro, mas Capitu não cabia na personagem que gostaria. Pelo menos, você, Bento, teve a capacidade de nos revelar a verdadeira identidade dela através de seus olhares. Não se engane, não era o mesmo que o de Sancha, por ocasião do velório. Era mais profundo…

Creio que com a morte inesperada de Escobar, ela sentiu que um modelo de homem que admirava também morria. Ainda que não tenha se envolvido tão profundamente a ponto de se relacionar sexualmente com o seu amigo, ela via nele a possibilidade de interação que deveria ter consigo. Que eventualmente se prenunciou quando eram crianças. No final, perdurou a sensação de anticlímax.

Enfim, teria uma pergunta a lhe fazer se soubesse que responderia com sinceridade: você realmente amava mais a ela ou a Escobar? O rosto que via em Ezequiel não seria a face que gostaria que lhe acompanhasse amorosamente durante toda a sua vida? No entanto, até seu filho você perdeu durante a trajetória que decidiu desenvolver.

Oh, Bento!… Tão auto enganado, tão digno de pena, tão enganado… Boa noite, oh, insone!

Dia Das Crianças, Sem Crianças

FAMÍLIA
Eu e Tânia, com Ingrid, Lívia e Romy

Hoje, Dia das Crianças, estou trabalhando. Mas mesmo que não estivesse na lida, não me faria falta. As minhas crianças cresceram. São adultas e independentes. Por estranho que pareça, apenas recentemente, me dei conta que minhas filhas deixaram de ser crianças. Obviamente que já há alguns anos havia percebido que isso havia acontecido, porém nunca havia admitido intimamente que crianças que possam ser chamadas de “minhas” haviam deixado de caminhar pelos pisos de casa.

Acho que o fato de ter cães em casa transferiram o cuidado que tínhamos com as filhas para esses seres que preenchem nossa convivência de amor “infantil”. O amor “adulto”, proporcionado por relacionamentos em que aquelas pessoinhas totalmente dependentes de nós nos obedeciam quase sempre e, quando não, eram por pirraça, hoje se baseia em outros quesitos. Discutimos assuntos de adultos de igual para igual, nem sempre com a maturidade necessária… de ambas as partes. Não são raras as ocasiões que nos dão “lição de moral”.

Com elas, conversamos sobre a vida, nossa família, amigos e relações interpessoais, que muitas vezes se sobrepõem às de pais e filhos. É normal ocorrerem críticas de parte a parte, que podem vir a desembocar em brigas mais sérias. Caras viradas, olhares desviados que duram o tempo necessário para prevalecer o amor mútuo e a volta da palavra trocada. Como as meninas têm seus assuntos pessoais que prescindem, em sua maior parte, da nossa participação, restam apenas nossa presença na casa vazia que não ecoam as suas vozes a chamar: “pai!… mãe!”…

Mulheres que variam de 23 a 29 anos, minhas filhas não pensam em casar, o que me alivia muito. Não que não quisesse netos. Caso quisessem ter filhos, não me oporia, contudo, casarem já é outra história. Admito até que netos viriam a renovar nossa vida com interesses diferentes, mas estamos tão ocupados com nossos próprios afazeres, que não sei como arranjaríamos tempo para isso. Antes, quem que passou dos cinquenta anos apenas esperava a chegada dos pimpolhos para lhes preencherem a vida. São novas épocas, com questões incabíveis anteriormente, com projetos pessoais a serem buscados pelos avós em potencial, como no nosso caso.

Não ajuda nada o atual panorama que vivemos, em que ter filhos envolve “questões de Estado”. Este Outubro, tem sido intenso. Além de eu estar renovando mais uma Primavera – pela quinquagésima sétima vez – este mês tem sido inédito pela manifestação de uma faceta da nação que já intuía, mas que ganhou clareza nestas eleições. Nosso povo, oriundo de misturas de credos, cores, preferências e origens étnicas, decidiu se orientar por uma bússola que determina um norte magnetizado na direção do latifúndio monocultural, em que expressões “diferentes” das “tradicionais” devem ser repudiadas, como se fossem responsáveis por suas íntimas contradições.

Beijo na boca pode vir a ser considerado crime. Andar de mãos dadas pode ser um ato político. Com grande risco de ver pessoas serem atacadas por preferências que supúnhamos ter superado quanto à liberdade de ação. Nesse estágio, apesar das diferenças pessoais quanto à visão do que consideramos individualmente os projetos mais apropriados para construir o País, temos como medida a Liberdade e a Democracia, acima de tudo. Fico muito feliz em perceber que, como pais, fizemos um excelente trabalho com as nossas crianças. Elas se batem e se colocam a favor das boas causas. Contra a volta de ideologias que fizeram tanto mal no início do século passado. Nossos netos, se vierem a nascer, merecem um mundo melhor…

 

 

O Piedoso

O Piedoso
Pintura em ajulejo, realizada em 1913, por José Francisco de Oliveira, diplomado na Escola Comercial e Industrial de Brotero – Coimbra – Portugal (Centro Cultural Português, Santos/SP)

O honrado homem chegou ao lugar em que tudo precisava de sua intervenção piedosa. De início, como era um mundo novo, seu espírito desbravador encontrou o espaço ideal para sua atuação. Fundou vilas e porto, construiu igrejas, forte e hospital. Introduziu a agricultura e desenvolveu a economia. Tornou-se um fidalgo rico, por conta de seu espírito empreendedor e destemido. Respeitado por seu povo, era um dos homens favoritos do Rei, que lhe delegou todas as possíveis honrarias.

O honrado e piedoso homem, para realizar todas as obras que o distinguiu como um dos principais de seu tempo, não hesitou em invadir e ocupar terras que não eram suas de origem, matar seus donos primordiais, derrubar a vegetação natural, esteio do povo antigo, dizimar animais e seu habitat, explorar as riquezas que para os autôctones não tinham nenhuma valia. Para completar seu projeto de poder, pretendeu escravizá-los. Enfrentou uma revolta – a Confederação dos Tamoios. Seu nome: Braz Cubas.

Para os colonizadores portugueses, era mais do que natural que assim fosse. Matar os contrários às suas vontades, por sede de riqueza e imposição de uma fé excêntrica, assumir comando sobre espaços – terra, mar e céu mapeado – era uma ação valorosa, que engrandecia o nome da Pátria a milhares de quilômetros de distância. A suprema vilania, que serve como marca definitiva de posse se dá quando limitou fronteiras e as nomeou com sons e signos alienígenas. Assim como capturar as mulheres nativas e usá-las como reprodutoras de mão de obra filial e fiel aos novos donos das sesmarias, tornando-a cooperadora involuntária da destruição de seus ascendentes genéticos.

Dessa maneira, a antiga faixa de terra ocupada pelos habitantes originais, os Tamoios – Tupinambás, Goitacás, Guaianás e Aimorés – transformou-se, muitas luas depois, em grupamentos humanos com costumes estranhos e pendor para a belicosidade. O termo “Tamoio” vem de “ta’mõi“, que em língua tupi significa “avós”, indicando que eles formavam o grupo tupi que há mais tempo se havia instalado no litoral brasileiro. Nunca supuseram que povos mais antigos ainda viessem de lonjuras inalcançáveis para trazerem a morte por armas que queimavam e doenças que seus pajés não conseguiam curar.

Quem afinal se põe em posição de piedoso está em condições de determinar quem vive e quem morre. O prestigioso Braz Cubas, era apenas mais um exemplar daquele povo que dominou o país que se formou com a chegada de mais e mais gente. Muitos mais de seus iguais reproduziram a mesma jornada de dominação e morte dos nativos, finalmente domados.

Seus pares erigiram monumentos para o grande súdito português. Com o tempo, instituições ganharam seu nome, incluindo algumas de ensino, aqui mesmo na antiga terra tupiniquim, a do povo dizimado. Somos filhos desse sistema de colonização. Não há como escapar de nossa História. Devemos enfrentar nossa origem espúria e suas contradições. Conjurar nossa sanha conquistadora-destruidora. Creio que somente dessa forma poderemos superá-la. Vivemos como se não tivéssemos passado e nem presente. Apenas um futuro enganoso e enganado.

Sempre haverá aqueles que virão com projetos de grandeza sem avaliarem as consequências, por piores que sejam. Como quando se constroem pontes para travessia de uns tantos sobre os cadáveres de tantos mais. O objetivo termina por sair mais caro, tanto do ponto de vista material como moral, no melhor sentido, baseado em valores básicos de convivência, como respeito à diversidade, com tolerância, solidariedade, compreensão e comunhão de objetivos éticos.

Enquanto não nos conscientizarmos de nossa História, tenderemos a reproduzir ad eternum os mesmos erros de percurso. Estamos insatisfeitos com o nosso presente, mas buscamos soluções fundadas na força destruidora que formou nossa sociedade. A fama de povo gentil não passa de uma formulação sem validade, como se não fôssemos agressivos. Somos um dos países com mais mortes por número de habitantes, percentualmente.

Vivemos uma guerra civil. Se não mudarmos sua direção, jamais alcançaremos a maturidade civilizatória, ainda que a ideia em torno de civilização tenha uma “má fama”. No entanto, se não partimos daqui para uma concepção mais aprimorada de convivência, a tendência de perdermos a noção de brasilidade que “conquistamos” a ferro e fogo até aqui, ainda que precária, se imporá definitivamente, para a nosso desgosto e prejuízo permanente para as próximas gerações…