19 / 05 / 2025 / Charles Chaplin

participamos todos
de uma grande comédia:
eu, você e o maior de todos —
Charles Chaplin
aquele que ousou ser senhor
do tempo e da palavra não dita
e de quando a usou
foi para denunciar a sanha maldita
do Nazismo
quando nestes tempos de dramas
redivivos vemos que os donos do mundo
encenam a comédia mórbida da morte
e do desterro da boca que cala
agindo no sentido de reproduzi-lo
em larga escala
em multiplicação de corpos destroçados
e enterros de ossos em barrancos
ainda que o mendigo saltimbanco
traga a esperança do riso solto
para o simples e para o douto
nos sentimos presos a liames invisíveis
poderosos apocalíticos
de terras arrasadas —
teatro sem aplauso mas urros de fome e dor —
público de mãos atadas…

Foto: arquivo pessoal (2015)

12 / 04 / 2025 / BEDA / O Traço*

Traço e som contínuos, como se não fossem terminar.
Bastaria desligar um botão – linha e grito
se perderiam no infinito apagado
e mudo…
Como se estivesse seguindo um roteiro,
espero pelo túnel de luz…
Que não se abre…
Eu me incomodo, mas nem tanto.
Estava em paz e não me importaria que permanecesse
naquele estado estável de barco a vela em mar aberto
sem vento, sol sem quentura, corpo sem frio…
Até que…
A paz começou a me inquietar…
A quietude a me oprimir…
A solidão a me assediar – um monstro branco e totalitário.
Meus olhos fechados, deslocados de meu rosto amorfo,
começam a queimar…
Ainda que não respirasse, principio a sufocar…
Me pergunto se estou no Inferno – traço de nada.
Tento rememorar minha existência passada…
Percebo que a perdi…
Não sou e nunca fui nada…
Expandido por todos os lados,
sinto falta da contenção que a minha pele proporcionava.
Sinto a ausência do fluxo sanguíneo, da saliva e dos substratos
expelidos pelo sistema excretor – sensação vital…
Ouço murmúrios, como se fosse o som de um pequeno riacho
a passar – pequenas-pedras-que-rolam-entre-margens-sem-fim…
Por um instante, volto ao mundo material…
Pairando sobre o meu antigo corpo,
testemunho pessoas a pressionar o peito do sujeito
e atacá-lo com choques elétricos…
Sei que não sou mais ele.
Entre curioso e saudoso, não impeço (como se pudesse)
que continuem tentando…
Sei que não conseguirão…
Ou não quero que consigam.
A ciência total do que me rodeia – o Infinito
enceta me trazer felicidade…
Em contagem regressiva,
dou o passo traçado desde o início do meu tempo –
o desenlace – o traço final.
Antes de me perder no Nada pleno,
ainda ouço: “Hora do óbito – Oito e oito”…

*Poema de 2020

14 / 03 / 2025 / Repercussões De Uma Pedra Jogada No Lago

O Mundo nunca foi, comparativamente, um lago sereno localizado entre montanhas que o guarda. Antes tem se assemelhado a Mar enfurecido, tempestuoso e sem regras. Bem, não estamos longe da verdade ao constatar que em breve o desequilíbrio climático fará com que de onde surgiu a vida no planeta poderá ser o fator desencadeante da morte da vida como a conhecemos na Terra.

Porém, apesar da imagem do Lago não se aplicar aos nossos tempos — os últimos 200 anos —, é condizente com a imagem que quero colocar: o da pedra no jogada que provoca em sua superfície o efeito de ondas concêntricas repercutidas ao longo da extensão que será mais extensa em distância tanto quanto maior o peso e/ou força com que for lançada sobre a sua face líquida.

E qual seria a pedra da vez? Um homem que guiado à cadeira de Presidente da nação atualmente mais influente do planeta tem como plano sub-reptício destruir os parâmetros econômicos comerciais sobre as quais se assentam as relações entre os países. Não que fossem perfeitas, ao contrário, mas a base sobre a qual quer erguer as novas diretrizes é sobre terra arrasada, tendo como entidade superior ao final do processo as fronteiras do seu País que, aliás deseja ampliar como se estivéssemos em nova etapa do Colonialismo. O que já acontecia em termos culturais, mas que não lhe dá a chance de aproveitar as riquezas minerais às quais quer ter acesso.

Acesso a commodities que estimulam a exploração predatória faz parte da agenda do tipo a qual chamo de “ultra branco supremacista”, com com características típicas do neonazismo como perfil político ideológico. As suas ações em pouco de “governo”, com todas as aspas possíveis, desestruturou várias agências regulatórias, demitiu muitos funcionários públicos responsáveis pela sustentação da Burocracia americana. Eu me lembro de uma vez em que se falava sobre o mau governo de um dos presidentes e o fato dos EUA continuarem com a sua estrutura funcional era o trabalho da administração pública que entrava presidente, saía presidente, continuava incólume.

Pelo poder e tamanho dessa pedra no caminho da nossa História, não duvido que o seu lançamento provoque não apenas aquelas simples e pequenas ondas concêntricas, mas expulsão da água do lago. Não gosta de ser pessimista, mas tudo irá piorar antes de melhorar, se não nos organizarmos para nos proteger dessa nova onda Imperialista.

Foto por Vilius Liulys em Pexels.com

13 / 03 / 2025 / Considerações Sobre O Amor

Os humanos são seres que desenvolveram civilizações buscando o equilíbrio nas condições de sobrevivência da espécie. Os primeiros grupos eram nômades e foram se tornando sedentários conforme se fixaram à terra. Implementaram a agricultura, criaram sistemas de proteção-dominação, uniram-se em grupos que separavam os seus companheiros em estâncias – famílias, amigos, colegas, subordinados, senhores. 

Desenvolveram religiões, cânones de fé – criados à suas semelhanças, aparando arestas – desenvolvendo comportamentos, tarefas e proibições. O prazer e o riso tornaram-se vigiados. Fecharam-se em grupos menores aos quais foram se amarrando em laços de afeição e rejeição, confundiram os sentimentos e as emoções. Tentaram controlar mentes, desejos, preferências, identidades, funções, destinos – o fluxo vital. 

O Amor foi se apequenando. Individualizado, cercado de nacionalidades, línguas e linguagens, significados e significantes, a maior coisa que existe tornou-se um anátema, origem de maldições e excomunhões, a depender de quem, a quem ou ao que declarasse. 

A supor que as frequências ondulantes no Nada em determinado instante se concentraram e deram origem à expansão do Universo, o Amor surgiu como uma força original – criadora e “destruidora”. Como a morte, a destruição é apenas uma faceta da sempiterna transformação. O poético é que não há fim previsível e, ainda que haja, a ciência desse fim é irrelevante. Mesmo o Nada, é Amor.

O que proponho igualmente é improvável. A minha percepção é que apesar de todo o ódio que rege a História humana, cada gota de Amor acaba por sustentar a nossa existência. Uma espécie de “cola” que cimenta a nossa permanência neste planetinha.

Que essa totalidade não pareça um milagre da Vida é muito estranho para mim. Onde veem o inóspito, eu vejo possibilidade; onde consideram deserto, eu encontro função; onde encontram sofrimento, percebo aprendizado; onde determinam a raridade, eu aceito a afirmação.

Num dado contexto de minha existência percebi que a maneira como dirigimos o nosso olhar, estabelecemos uma conexão com variadas possibilidades de ser. Há quem aceite algumas referências como irrefutáveis. O pior é quando se começam a comparar dados materiais como se fossem aferições de nível de felicidade. Neste âmbito, entra o Amor compartimentado – amores, amorzinhos, afeições, paixões, simpatias – e contrários.

O Amor é sensível quando estamos desvestidos de tantas precauções arregimentadas durante anos de vivência sob determinadas estruturas sociais – muralhas de segregação. Normalmente porque confundimos os graus da expressão amorosa. Separar o joio do trigo é quase um segredo.

Ao abrirmos o coração, sofremos reveses, crescemos em prevenção, buscamos refúgios. A busca da perfeita sintonia só se dá quando ignoramos o medo, inimigo da verdadeira entrega. Algo que a roupa que trajamos – o corpo – só atrapalha, mas que ainda é o meio pelo qual o conhecemos e o sentimos, vivemos ou morremos por ele neste mundo material.

Foto por George Becker em Pexels.com

08 / 03 / 2025 / 08 De Março

8 de Março é o dia em que foi instituído pela ONU aquele em que a mulher é reverenciada na busca de seus direitos e da conscientização quanto ao protagonismo de atuação na sociedade humana. Num país em que o número de mulheres que são executadas é galopante por serem mulheres com voz suficientemente forte para dizer “NÃO!”, isso é especialmente importante. Enquanto houver homenzinhos que não conseguem conviver com a rejeição de quem dizem amar, este dia tem que ser lembrado como de exaltação da dignidade feminina como ser humano.

A mulher tem a sua existência precarizada desde pequena num mundo voltado para reverenciar o homem como aquele que deve vir à frente de todas as atividades humanas, restando à mulher assisti-lo, cuidar dele e de sua prole. Quando surgem mulheres que preferem fugir a esses desígnios, são atacadas como objetos descartáveis, indignas por não obedecerem à palavra do Senhor –– um “homem” superior, obviamente. Eu vou num sentido totalmente contrário a esse. Este mundo está como está porque justamente seguimos a orientação de machos escrotos que assumem os postos de poder.

Não desconheço que há mulheres que abençoam o poder machista como algo natural, afinal como disse Simone de Beauvoir, “o opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos”. Beauvoir também ressaltou que “não se nasce mulher, mas torna-se mulher”. E essa construção passa pela liberdade, que passa pela construção de seu desenvolvimento profissional, de que a mulher seja reconhecida pela capacidade técnica, intelectual e até física, para chegar ao sucesso.

Beauvoir também disse que “todas as vitórias ocultam uma abdicação”. Se essa abdicação seja o de desejar constituir uma família tradicional ou produzir descendência, mesmo que sem a assessoria (ou peso) de ter um companheiro ou companheira, é uma prerrogativa de cada mulher. Diriam que eu falo da boca para fora. Não, eu acredito na liberdade de escolha das minhas três filhas de que venham ou não ter filhos. Não me preocupo que o meu gene seja propagado para além de mim. Abdico dessa opção que surge como uma coerção social machista.

Quis e quero que a minha companheira e minhas filhas tenham a liberdade de serem o que quiserem, gostarem de quem quiserem, confio na eventual orientação que demos dentro de casa. Eu as quero fortes e independentes, porque lindas elas já são… outra imposição à mulher que deveria ser suficiente para que fosse aceita como uma mulher de sucesso. Infelizmente, é uma mulher de sucesso quem alcança uma idade avançada sem sofrer alguma violência, sobrevive a um casamento opressor ou possa caminhar por onde quiser sem medo.

Tenho como sonho que este mundo de homens perceba que só tem a ganhar se se deixar feminizar.

Foto: Comigo, na imagem, estão da esquerda para a direita — Romy, Lívia, Ingrid e Tânia.