por que não me chama?
que esta chama que me abrasa queima que dói…
nos unimos para brincar de fogo
coisa de jovens
ainda que muito mais jovens já fomos
bebemos um do outro a água
que saciou a sede mas não matou a seca
renascida a cada estação de dias
rios desviados e ventanias
ciclos de algo que não conhecemos a profundidade
sentimos que ainda não chegamos ao fim
por mais que estejamos partidos em mil pedaços
como que espatifados contra a concretude da realidade
lutamos contra as forças inequívocas da natureza
que nos moldaram os corpos fadados a desejar
em evoluções de cantos músicas danças
esperas e ânsias esperanças
quando deitamos levantamos
pernas braços membros expectativas
vontades redivivas para não morrermos em vida
que viver é morrer todos os dias
para a solidão que nunca deixa de tentar prevalecer
sobre a bola azul
resta amar é muito mar mais que terra
a boca fala e a língua diz muito tanto
as mãos tocam as peles se pronunciam
as entradas se expõem às penetrações
e abrasões com pupilas dilatadas
movimentos de placas terremotos
volta ao mundo consumação do gozo e da dor
da roda que gira e roda que roda
sem sentido e sem nexo
o sexo é sexo
mas o amor
ah! o amor é foda…
Etiqueta: mundo
Deuses
No fulgor do instante
em que nos separamos do mundo
e entramos em outra dimensão…
No momento de corpos que se fundem,
fundam uma nova existência
e se aprofundam
no mar cósmico do gozo…
Na aceitação de que somos ingentes,
a deitarmos entre estrelas que dançam,
exclamas: “Pareces um deus!”…
Então,
me sinto teu,
me sinto tanto…
me sinto são…
Espalmo minhas mãos
contra a planta de teus pés –
beijo tua flor de lótus,
entoo preces
e te possuo…
Te sinto uma deusa…
Mais do que isso…
Te sinto maior que tudo…
Te sinto Mulher…
Imagem: recorte de alto-relevo de um dos templos de Khajuharo, Índia, construídos entre 950 e 1050 do Ano Comum.
Velhinho

eu acordei hoje velho
quase sempre acordo jovem
e só restabeleço o que sou
ao surgir do outro lado do espelho
sonhei que era criança
foi um sonhinho-lembrancinha
menino pequeno queria ser crescido
ficava indignado egoísta queria
me sentar sozinho no banco do ônibus
minha mãe puxava para o colo entre
suas pernas de pelos mal aparados
pinicavam deixa os outros se sentarem
queria ficar na janela vendo o mundo
passar rápido mais rápido menos rápido
às vezes o mundo parava
minha mente continuava antecipava
surpresas
voltei velho fui à feira
quando garoto gostava de falar com velho
o velho de hoje puxa assunto quase
ninguém lhe responde olham
desconfiança ou indiferença
na banca de frutas um velho de longos
cabelos e barbas brancas puxa fumaça
de um apequenado cigarro de palha
seu olhar é mais profundo
do que uma fossa oceânica de tantas turbulências
acalmadas na escuridão
passo por um bar velhos jogam dominó
perdem partidas ganham idade
um deles olha para as peças
como se fossem pedaços da vida
que insistiam em não serem encontradas
respira pesado
ar que pouco permanece e se esvai
mais um ser antigo caminha
com seu velho cão
comem do mesmo pão
são amigos pais filhos irmãos
qualquer um que partir antes
levará consigo seu ente querido
darão adeus às mútuas lembranças
esquecidos
desconsolado desço a angélica
por uma travessa chego ao portão lateral
cemitério da consolação
me movo entre pedras me perco
revisito jazigos pássaros cantam
persigo ruelas ventos sopram
pareço ouvir vozes dos que se foram
admiro mausoléus árvores respiram
o sol ilumina o tempo construções desabam
em silêncio registro estátuas vivas os mortos falam
piso sobre lágrimas que já secaram
acalmo os meus pensamentos divago
tropeço em mim busco solução
os eternos moradores respondem desde o chão
calma… tudo está em dissolução…
Foto: imagem pessoal de um mausoléu do Cemitério da Consolação.
Muito Além De Uma Pisadinha*
A semana começou com notícias vindas de vários lugares do mundo a demonstrar o quanto as realidades se intercalam em maiores e menores escalas de reconhecimento.
No Brasil, começamos com as repercussões segundo dia da derrota da seleção brasileira de futebol na Copa América pela Argentina de Messi. Trazida para a “Pátria Amada” pelo Governo Central que, mesmo enfrentando a Pandemia, preferiu bancar a sua realização numa típica manobra da Antigo Império Romano de proporcionar o Circo e obter possíveis dividendos políticos. A final ocorreu na noite de sábado, quando eu estava trabalhando, situação que aparentemente voltará a ser menos ocasional, já que minha atividade envolve apresentações de bandas, cantores, bailarinos e/ou atores, com a reunião de pessoas em buffets, clubes e auditórios. O que poderá ser viável com o avanço da vacinação. Eu só soube do resultado após o término da decisão e não senti nada. Em nada parecia com o garoto que amava o futebol e sofria com as derrotas como se fossem pessoais.
O sentimento de ausência de alegria ou tristeza, certamente tem a ver com a situação que vive o País, em que comemorar vitórias ilusórias diante de tantas derrotas reais impingidas pela Covid-19 a fez campeã negativa de nossos dias. Quando vi a reportagem sobre o jogo e constatei a emoção de Leonel Messi, caindo sobre os joelhos sob o peso de sua história particular, um talentoso e vencedor atleta em seu clube, mas que nunca havia angariado um título pela seleção nacional, me alegrou um pouco. Do outro lado, estava o “menino Ney”, um sujeito que infelizmente não cresceu como homem e vive “pisando na bola”. Uma das crônicas de REALidade, meu primeiro livro, o enaltece no episódio de sua contusão na malfadada Copa de 2014. Daí em diante tem se mostrado um ídolo com pés de barro, ainda que talento futebolístico não lhe falte.
Em Wimbley, estádio lotado de torcedores de ambas as agremiações, vimos a seleção da Inglaterra perder a decisão nas penalidades máximas para o da “Azurra” italiana. Gostei da vitória da Itália, que mesmo estando acostumada a vencer títulos mundiais, ficou fora da Copa de 2018. A vitória está sendo considerada um sinal de reavivamento do seu futebol. De antigo destino dos sonhos de meninos do planeta bola, o País perdeu projeção internacional nos últimos 20 anos. Adotando a valorização da posse de bola e do ataque além da tradicional defesa forte, desenvolveu a formulação de um futebol total, estando há mais de 30 jogos sem perder.
A maior derrota inglesa, porém, se deu fora de campo. O aparente ressurgimento dos famigerados holligans marcou a realização do jogo. Houve ataques racistas contra os jogadores que perderam os pênaltis, de origem não caucasiana. Os torcedores racistas ingleses não conseguem alcançar que mesmo nascido como esporte de elite, o futebol se popularizou a ponto de penetrar em todos os recônditos do planeta, praticado por todas as etnias — de originários do Brasil, a asiáticos, passando por africanos, árabes e aborígenes. Eles não perceberam que só chegaram aonde chegaram por causa da miscigenação do time. Os rapazes pretos tiveram a coragem de fazer as cobranças numa decisão de tamanha importância, enquanto os brancos se eximiram de fazê-lo — não deveriam também serem cobrados por isso? Quando Saka teve seu chute defendido pelo goleiro italiano Donnarumma, considerado o melhor jogador da competição, chorou porque sabia o que viria pela frente, não apenas por ele, mas por outros de sua origem.
Em contraposição, vemos os campos vazios do Brasil atrasado na imunização por vacinas contra o SARS-COV-19, muito devido a “tenebrosas transações” nos corredores do Ministério da “Doença”, restaurantes e gabinetes palacianos de Brasília. Processo levado adiante por sujeitos que se arvoravam ilibados porque nunca se provou nada contra suas práticas espúrias — apesar de sabidas — ou porque considerassem seu comportamento “normal” dentro de um sistema viciado. Entre a hipocrisia ou a falta de consciência por parte dessa gente, voto pela simples desfaçatez: “me chama de corrupto, porra!” — enquanto a CPI do Senado sobre ações e omissões do Governo Federal continuará a buscar comprovações da política nefasta na condução da boiada porteira afora. Quanto ao perigosamente cada vez mais desconexo Ignominioso, vejo a possibilidade de quatro ocorrências: impeachment, renúncia (para evitar o processo e consequente inelegibilidade) ou tentativa de Golpe de Estado. Se houver eleição, perderá…
Acontecimentos considerados inéditos, em Cuba, houve passeatas em nome da liberdade política e por avanço na imunização precária, enquanto a notícia divulgada antes é de que sobrava vacina, a ponto de estrangeiros serem vacinados quando chegavam à Ilha. As imagens são inegáveis e não devemos deixar, por miopia ideológica, de verificar o que acontece, uma longa ditadura que empobreceu o País. Na Espanha, uma morte causada por comportamento homofóbico contra um gay de origem brasileira, ainda repercute no país inteiro, com passeatas e cobrança por justiça. No Brasil, nada inédito no país considerado o mais perigoso para quem se identifica para além da dicotomia de gênero, uma cidadã trans foi morta ao ter o corpo queimado por um adolescente que carregava, apesar de novo, os preconceitos passados de pai para filho neste sistema patriarcal que prejudica a homens, mulheres, transgêneros e identidades diferenciadas.
Em Fortaleza, um expoente (em termos de veiculação) da música popular atual apareceu, por imagens gravadas por câmeras de segurança interna de sua casa, espancando sua ex-esposa, estivesse ela sozinha, diante de outras pessoas ou de sua filha de nove meses, com socos, pontapés, puxões de cabelo e, não devemos duvidar, por palavras ofensivas de fundo moral. Para se justificar, o acusado culpou a vítima. Só se a mulher espancada buscasse se defender de alguma forma. Se há algo que enraivece quem agride é que o agredido se defenda da agressor. Quem ataca dessa maneira quer humilhar, rebaixar a vítima à condição de nada-ninguém, deseja pisar nela como se fosse um pano de chão. Para quem ataca, trata-se de uma “pisadinha”, para quem é atacado, torna-se uma quase morte, uma antevisão de seu aniquilamento. Pior ainda se for uma “simples” mulher que não deveria sair de seu lugar de pessoa de segunda categoria, de acordo com o pensamento do típico protomacho brasileiro.
Não busco resumir, a partir desses acontecimentos, quaisquer receitas a serem passadas adiante como modelos de viver e pensar. O que sei é que o sucesso profissional, artístico, financeiro e/ou social não engradece o Homem, mas a maneira como recebemos as vitórias e como lidamos com os nossos próprios insucessos na busca do equilíbrio mental, emocional, sentimental e espiritual. Esta última instância não tem a ver com religião dogmática, mas como uma visão transcendente da vida.
Para quem crê que tudo se restrinja à realidade imediata do mundo, ganhar o mundo muitas vezes é não o reconhecer em sua finitude tanto na questão de tempo quanto na de espaço. Somos seres mais e melhores, potencialmente. Basta querermos ultrapassar as limitações que tentam nos impor desde que nascemos através de ideologias segregadoras e por receitas de sucesso esporádico e finito. No entanto, e principalmente, enquanto estamos no mundo, é mister que defendamos os excluídos, os agredidos, os ultrajados e os que são mortos por uma política violenta e insultante da dignidade humana contra os poderosos de plantão. Que a Justiça terrena alcance e puna os representantes de um modelo de dominação que já não encontra lugar em nosso País e Planeta.
Desejo
Cedo, percebi a dependência de nosso comportamento amoroso a flertar com a nossa precariedade. Aliás, não somente quanto a relacionamentos pessoais, mas em todas as estâncias da vida. Agimos como dependentes da droga do desejo e suas consequências, numa eterna retroalimentação.
Sair desse ciclo é quase como morrer. Mas talvez não haja algo maior do que o desejo de morrer, ainda que muitos não reconheçam esse viés. Preferem negar a morte em vida, como se não existisse. Namoram a possibilidade de Eternidade ao abraçarem religiões que prometem a vida eterna.
Chegam a estipular condutas que garantam esse futuro num lugar edílico e com benefícios atraentes que só fazem sentido para seres encarnados. Como as húris, seres antropomórficos semelhantes às mulheres virgens, prometidas aos homens islâmicos bem-aventurados, a servi-los como gratidão por suas boas ações na Terra. É como se fossem condenados ao desejo permanente para empreender a eterna tarefa de alcançar a satisfação.
Aparentemente apenas os homens são premiados no Paraíso do Islã. Assim como aqueles outros que, valorosos em sua vida terrena, se sentam à direita de Deus-Pai na Eternidade, a fruir benesses, as quais compreendo que não iriam além de permanecer na benção da ignorância sobre todas as coisas. Ser curioso que sou, com insaciável sede de conhecimento, para mim, seria o Inferno. Atualmente, longe no distância, mas não dos nossos olhos, as duas versões religiosas mais influentes se digladiam à base de explosões de corpos, não sem antes aviltá-los.
O desejo é pessoal e intransferível. Os desejantes juntam-se para saciá-los, mas a consequência é aumentar o desejo mútuo. Por algum tempo, essa interação é satisfatória. Mas se uma relação é mesmo profícua, gerará motivação para a criação de novos desejos, muitos alheios aos dinamizadores desse processo.
Se estamos no mundo, devemos saber gerenciar essas circunstâncias que nos colocam muitas vezes contra as nossas orientações comportamentais. Abrir mão de novas experiências requer autocontrole. E não é contrário à “razão”, porque é comum replicarmos as mesmas ações nas novas relações com outros indivíduos.
A não ser que haja encaixe. Entrelaçamento de vivências, ainda que díspares. Aprofundamento de recíprocas experiências, mesmo que alternativas. Alternância de posições para a busca da satisfação comum. Desejável, não? Bem, somos bons em desejar…
Feliz Dia de São João!



