BEDA / Gradeados

Apenas por um momento, se ponham no lugar deles. Na verdade, se tivermos a clarividência necessária, nós, os animais humanos, não estamos em situação muito diferente. Desde quase sempre, estamos presos a uma estrutura em que somos mercadores da vida e da morte. Porém, para além do jogo das aparências, alguns dizem que existe um mundo livre de todas as amarras e condicionamentos… ou apenas o Nada, o que não deixa de ser um sentido da Liberdade.

Participação: Lunna Guedes Mariana Gouveia / Claudia Leonardi Roseli Pedroso / Bob F.

BEDA / Traço

Traço e som contínuos, como se não fossem terminar.
Bastaria desligar um botão – linha e grito
se perderiam no infinito apagado
e mudo…
Como se estivesse seguindo um roteiro,
espero pelo túnel de luz…
Que não se abre…
Eu me incomodo, mas nem tanto.
Estava em paz e não me importaria que permanecesse
naquele estado estável de barco a vela em mar aberto
sem vento, sol sem quentura, corpo sem frio…
Até que…
A paz começou a me inquietar…
A quietude a me oprimir…
A solidão a me assediar – um monstro branco e totalitário.
Meus olhos fechados, deslocados de meu rosto amorfo,
começaram a queimar…
Ainda que não respirasse, principio a sufocar…
Me pergunto se estou no Inferno – traço de nada.
Tento rememorar minha existência passada…
Percebo que a perdi…
Não sou e nunca fui nada…
Expandido por todos os lados,
sinto falta da contenção que a minha pele proporcionava.
Sinto a ausência do fluxo sanguíneo, da saliva e dos substratos
expelidos pelo sistema excretor – sensação vital…
Ouço murmúrios, como se fosse o som de um pequeno riacho
a passar-pequenas-pedras-que-rolam entre as margens
sem fim…
Por um instante, volto ao mundo material…
Pairando sobre o meu antigo corpo,
testemunho pessoas a pressionar o peito do sujeito
e atacá-lo com choques elétricos…
Sei que não sou mais ele.
Entre curioso e saudoso, não impeço (como se pudesse)
que continuem tentando…
Sei que não conseguirão…
A ciência total do que me rodeia – o Infinito –
enceta me trazer felicidade…
Em contagem regressiva,
dou o passo traçado desde o início do meu tempo,
o desenlace – traço final.
Antes de me perder no Nada pleno,
ainda ouço, acompanhado do silvo agudo:
“Hora do óbito – oito e oito”…
 

Imagem: Traços de Campelo Costa

Participam: Roseli Pedroso / Suzana Martins / Mariana Gouveia / Lunna Guedes / Dose de Poesia / Lucas Armelim / Danielle SV

#Blogvember / Passo E Compasso

entre um segundo e outro há um espaço transitório
um micro momento de tempo suspenso
um nada entre pontos decorrentes
um elo vazio que formam correntes
onde impera o silêncio absoluto e sombrio
um corpo sem sol sem sombra
escuridão na luz feito mancha na estrela
espaço sem peso que existe sem existir
passado presente e futuro
que acontecem no mesmo passo
trôpego despegado de ato e ação consequência
sequência inconsequente espera dança suspensa
a incerteza do abismo na planície
cismo na crosta terrestre
uma pausa em que há possibilidade de tudo
nunca se realizar uma noite sem mestre
sem dor amor cansaço prazer emoção
até o próximo marco paradoxo que é viver.

Foto por Pixabay em Pexels.com

Participam os autores:
Lunna Guedes / Mariana Gouveia / Suzana Martins / Roseli Pedroso

Projeto 52 Missivas / Voo Aberto

Caro companheiro de jornada,

possuo a doença dos espaços incomensuráveis. Plano entre planos, ultrapasso fronteiras, mergulho em dimensões várias, infinitas, ínfimas, atômicas. Invado buracos negros, comprovo a matéria escura, enquanto passeio entre galáxias que giram por multiuniversos. O meu espírito paira entre as tramas que sustentam os milhões de planetas e suas multidões de espécies interestelares, diversas e exemplares em diversidade.

Somos filhos do mesmo Princípio e Fim, amálgama de substâncias alienígenas, resultado de bilhões de Tempos. Sei de nossa incapacidade em sabermos de nós. Percorro caminhos paralelos e coincidentes em destinos e recomeços. Corro por ciclos circulares de energia em consumações e criações eternas. Imprimo movimentos em velocidades portentosas por campos gravitacionais exponenciais em proporções absurdas de tão simples e luminares.

A Luz se alterna em cores que cortam meu corpo em fatias de frequências titânicas. Habitante do Nada total, a avalanche de sóis não soluciona a minha solidão quando me sinto apartado de Tudo. Sem sentido e profundidade, voo a esmo, com sorte decidida.  

Ainda assim, lhe pergunto: quando poderemos tomar um prosaico, ainda que importante café para discutirmos os nossos interesses no momento imediato a lamentarmos a impossibilidade de sermos felizes?…

Com admiração,                                                                                                        Pássaro Desencantado.

Foto por Felix Mittermeier em Pexels.com

Participam: Mariana Gouveia / Lunna Guedes

Três Dias Fora Do Tempo

Calendário Lunar do Século XVIII (Wikipédia)

A moça seguia
o calendário lunar.
Adepta de magia,
a cada ciclo a se encerrar,
vivia fora do tempo, três dias…
Sua jornada coincidia
com as fases da Lua,
sua amiga e confidente,
doidivana e consciente
de tudo e de nada —
aspectos plenos de suas limitações
e incongruências…
Encontrou nesse intervalo,
alguém que a amou.
E ela também amou a quem encontrou.
Mas ele não a entendia.
Queria que as coisas
tivessem sentido,
mas o sentido
que ela tinha não era o seu sentido.
Ela acreditava
que o que se sente não é conforme
ao Tempo disforme,
particular e diverso,
pessoal e intransferível —
átomo e universo.
Três dias fora do calendário
em que podia amar a quem quisesse
e logo após deixaria,
sem se ater que quem a tivesse
por tão pouco tempo,
pelo resto da vida a levaria
na lembrança
de todos os seus sentidos…