As pessoas tentam encontrar significados transcendentais em estruturas humanas, em criações desvinculadas da Natureza. Como é o do Calendário Gregoriano, desenvolvido para programar as relações do homem do campo na regulação dos períodos corretos para a plantação, colheita e demais atividades para a produção de alimentos na agricultura. Tirante isso, a marcação de números podem gerar para quem acredita em Numerologia, por exemplo, expectativas quanto a acontecimentos previsíveis por sua soma, diminuição e multiplicação de numerais relativos. Para mim, não há correlação entre esses fatores e suas faturações. Mas como não sou um especialista, ao contrário, me reservo a observar os sites de compras a aproveitar a data para fazer promoções e venderem mais nesse dia. E eu, para encontrar um tema para produzir um texto. Somando tudo, noves fora, zero.
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Lua De Sangue*
Tenho um horário irregular de sono devido à minha atividade profissional. De sábado para domingo, fui dormir às 7h30 e acordei às 13h. Tentei segurar o máximo que pude, mas dei uma fatídica cochilada por meia hora antes de me deitar, o suficiente para me fazer perder o sono. Como a 1h da madrugada ainda não havia encontrado Morfeu, fui ver o céu. E foi ótimo! O espetáculo natural foi lindo e, ainda que tentasse, não consegui registrar devidamente toda a beleza da Lua de Sangue. Durante meia hora fiquei imerso nas pequenas oscilações dos efeitos da sombra avermelhada da Terra sobre o nosso satélite no céu limpo até que as nuvens toldassem o seu corpo. Logo depois, deitei e dormi profundamente. Por meu turno, acho excelente que em vez de acidentes ou fatos escabrosos, as pessoas voltassem seu olhos e registrassem mais vezes os fenômenos do Universo e da Natureza da qual fazemos parte de maneira quase desprezível, mas o suficiente para estarmos destruindo um planeta inteiro com a nossa sanha inescrupulosa…
*Texto de de Maio de 2016
02 / 01 / 2025 / A Passagem
Trabalho em eventos, normalmente realizando a sonorização e a iluminação de shows. Como costumo dizer, faço parte da tradição do Circo e dos artistas mambembes, se deslocando de lugar em lugar, montando equipamentos para os artistas se expressarem.
Nesse ínterim, a depender do lugar, aproveito para relaxar. Como ocorreu no último dia do ano, em Caraguatatuba. O contato com a Natureza me restabelece as forças, enquanto mergulho no Mar ou caminhe pela areia. Assim, me despedi de 2025.
Já no primeiro dia de 2026, depois de passar o dia com a família, aproveitei o silêncio da noite para adentrar nos mundos de Stranger Things — o Invertido e o Direito — na eterna luta do Bem contra o Mal. O principal dilema ficou por conta do direito de escolha — entre um e outro — porque, de fato, é isso que ocorre no mundo “normal”. Caso contrário, não estabeleceríamos regras e leis para a mútua convivência para os seres humanos entre si e entre nós e os outros animais, porque em última instância, nos esquecemos que somos todos filhos de Gaia. E o mínimo que podemos e devemos fazer é respeitar as diferenças entre nós.
A série foi lançada há alguns anos, mas decidi acompanhá-la apenas neste 2025 que se encerrou há dois dias. Além do enredo entremeado por teorias físicas que são muito atraentes para mim, a questão moral e das discussões cadentes como homossexualidade e aceitação de diferenças comportamentais de quem está adolescendo — a fase mais difícil para qualquer pessoa — pois é quando descobrimos as contradições entre ser e não ser, no momento em que apenas “estamos”.
A série termina em 1989, ano de nascimento da minha primogênita e sinaliza o término da rica década dos 80, principalmente em termos musicais, com a trilha baseada nos temas de então. O que é interessante pois marcou para mim a entrada na vida adulta com o casamento e a chegada das três filhas. Além relembrar a grandíssima Kate Bush, a série reservou para o último episódio o artista musical mais criativo da década — Prince — um dos meus favoritos, ao qual dediquei um capítulo em meu livro de crônicas — REALidade, com “A Revolução de Prince Em Minha Vida”.
Ah! Apenas para pontuar: “I believe!”…

17 / 12 / 2025 / A Lesma
Eu sou daqueles que busca o outro lado da vida. Estou sempre olhando pela janela lateral do meu quarto de dormir. Costumo encontrar alternativas ao que as pessoas decretam como fato. Vejo todos os bichos como seres companheiros de jornada e graças a isso, já conversei com um marimbondo moribundo. Ele disse que era Deus. Aliás, não somos todos nós? Eu não mato pernilongos ou batatas. Sei que camundongos são mau afamados por nossa criminosa atuação de ataque ao meio ambiente e sabendo de sua inteligência e sociabilidade, compreendo porque Walt Disney utilizou um como personagem de seu primeiro desenho. Mas as lesmas nunca foram objeto de minha atenção, até que comecei a encontrá-las em vários pontos do quintal e até dentro de casa.
Pesquisei e encontrei as seguintes informações: “Lesmas são atraídas por umidade excessiva, ambientes escuros e frescos, restos de alimentos orgânicos (como vegetais e frutas) e fácil acesso através de frestas, ralos e janelas mal vedadas, especialmente em épocas chuvosas, buscando abrigo e alimento dentro de casas. Elas entram em cozinhas, banheiros e porões, sendo chamadas por vazamentos, acúmulo de lixo e plantas que trazem do jardim”.
Eu as tenho recolhido de dentro de casa e as colocando no jardim. Fico fascinado com a capacidade de contração ao serem retiradas com todo o cuidado por um papel e as respostas físicas rápidas com a retomada da forma de seus corpos anteriores. Feito criança, fico fascinado pela simplicidade das soluções naturais que no entanto sei ser resultado de milhares/milhões de anos de evolução, que demonstra que nada é ao acaso. Mas que tem um quê de milagre natural.
07 / 12 / 2025 / Crianças
Fim de tarde, o rabo do sol se escondia por entre as árvores, criando sombras e formas inusitadas. Passávamos o final de semana no sul de Minas, região em que as linhas retas não compareciam no cenário, a não ser pelas linhas do chalé e por furtivos fachos de luz por entre os montes, feito show de rock. Eu e um grupo de amigos, decidimos ficar nesse recanto afastado para um contato mais íntimo com a Natureza. Acendemos o fogo da lareira e quatro lampiões e saímos para caminhar um pouco até uma pedra mais elevada para ver o entardecer, 250 metros acima.
Passados uns 20 minutos, a escuridão baixou quase que instantaneamente. Ficamos cegos, a não ser pela luzinha vinda do chalé, como se fosse uma estrela fora do céu. Por iniciativa aprovada por todos, havíamos deixado os celulares no chalé. Percebemos que não havia sido uma boa decisão. Quisemos ser naturalistas sem saber que a Natureza tem regras que fogem ao conhecimento de gente da cidade.
Fora tudo tão repentino que de início não nos demos conta de que estávamos num mato sem cachorro. Brincamos com negrume do ambiente e sobre a possibilidade de começarmos a sentir o toque de bichos estranhos a envolverem nossos corpos. Para não passar a sensação de que estivéssemos perdidos, decidimos nos sentar no vazio até encontrarmos o chão. Agora estáveis, começamos a especular sobre o que faríamos.
Éramos como crianças sem pai nem mãe. O frio começou a aumentar de uma hora para outra e a ansiedade pouco a pouco surgiu, evidenciado pelo tom de voz cada vez mais alterado. Seis adultos ̶ três casais ̶ perdidos no nada, indecisos se deviam ou não empreender a jornada de volta, curta, mas perigosa pela irregularidade do caminho. Até vermos uma luz bruxuleante saindo do chalé e vindo em nossa direção.
̶ Aqui, aqui, aqui! ̶ gritamos todos.
Era Ricardo, o filho de sete anos do Arnaldo, que ficara na cabana, brincando. Ao escurecer, o menino deve ter percebido que demorávamos e quis nos encontrar com a bravura que toda criança tem e que falta a muitos adultos. Empunhava um dos lampiões e caminhava resoluto. Arnaldo e Tatá, com a aproximação do filho, foram abraçá-lo. O resto de nós, pulamos feito seus companheiros de escolinha. Nós nos achegamos uns aos outros o suficiente para que o lampião erguido por Arnaldo cobrisse a nós de luz amarela. Nesse instante, pude perceber o quanto estava apaixonado por Clara, com as linhas do rosto fracamente clareada sob o caminho de estrelas da Via Láctea.





