A Natureza vive de nos envolver em brincadeiras
Das calmarias às ventanias de arrancar bandeiras
Nos transporta da estabilidade ao chão fendido
Do acolhimento da sombra ao tronco retorcido
Da temperança do ar à sobrevinda do cataclisma
Da sucessão das estações ao desarranjo do clima
Do calor seco do Saara ao frio da gélida Antártida
É raro a temperatura se apresentar sempre tépida
É como se fora as desventuras do amor e da paixão
Um, o ambiente é a Terra; outro, o lugar é o coração
Hoje, a raridade se fez regra – houve um acordo no céu
Uma trégua no calor, no furor, a fazer duvidar o incréu
Descia suave cortina de chuva enquanto reluzia o sol
Era o entardecer a me oferecer mais um tema de escol
Pássaros cantavam, abelhas bebiam doce vida da flor
Um final de luz natural que carregarei para onde for…
Na manhã de sábado, quando caminhava junto à avenida esburacada do bairro em direção à academia, observei uma concentração incomum de urubus (pela quantidade, os tenho chamado de “pomburubus”) sobrevoando bem alto a área do Piscinão do Guarau. Talvez tivesse uns quarenta ou mais realizando manobras circulares em torno de um ponto mais claro no céu azul.
Identifiquei, para a minha surpresa, apesar do horário, que se tratava da lua em seu último quarto. Foi um benefício adicional ao meu esforço de voltar à atividade física. No céu da cidade de São Paulo é raro vermos a lua em sua plena expressão, mesmo à noite, já que as luzes artificiais impedem que os nossos olhos alcancem o belo astro para além da prisão luminosa na qual erramos.
Urubus são seres fascinantes. Tom Jobim, quedava igualmente extasiado com as elegantes circunvoluções dessas aves necrófagas. No entanto, o voo alto é uma das maneiras que esses seres utilizam para buscar alimentos. São importantes na limpeza do meio ambiente. Quando ocorre a mortandade de muitos animais por doença, por exemplo, o urubu ajuda a controlar a epidemia ingerindo as suas carcaças.
Possui uma envergadura de 2,40m e peso que oscila de 3 a 5kg, medindo cerca de 85cm de comprimento. Na Natureza, tem poucos predadores naturais, mas, devido à sua baixa capacidade reprodutiva, além da degradação do seu habitat, é uma espécie cada vez mais rara de se observar. O que significa que são os homens os principais responsáveis pela diminuição de sua população. Em suma, seus predadores…
Não foi o caso desse dia, onde a revoada de tantos entes alados fazia lembrar um bom filme B. Naquela área, eu os tenho observado em número cada vez maior. Quando chove mais torrencialmente, o piscinão do Guarau recebe os rios canalizados da região, impedindo que as águas do vale invadam o rio canalizado de mesmo nome, que se estende sob a avenida de fundo de vale Inajar de Souza, até desaguarem no Rio Tietê.
Todo o lixo orgânico e não-orgânico que é jogado ou cai nos esgotos da região se espraia por todo o perímetro do Piscinão Guarau, tornando-o um verdadeiro “fast-junk-food” para os urubus. Ou seja, de uma maneira enviesada, estamos proporcionando um verdadeiro criadouro para os membros da espécie Sarcoramphus papa (L.).
Estar em Brumadinho foi um dos eventos mais felizes do ano passado, já no final de seu percurso. Reunimos a família e lá fomos para as Minas Gerais, que conhecia apenas por pequenas incursões em algumas cidades por ocasião das minhas atividades profissionais. O objetivo principal, além voltar a reunir a família em um mesmo tempo e espaço, era o de conhecermos o maior museu a céu aberto do planeta: Inhotim. Nele, a Natureza, bela e variada, em arranjos únicos de composição, se apresenta junto a incríveis criações artísticas humanas, em um contraponto que só posso classificar como uma experiência de imersão em realidade paralela.
De Minas, gosto do povo, admiro seus escritores, amo Drummond, venero Guimarães Rosa. Sou fã de músicos e compositores como João Bosco, Milton dos mil tons e da turma do Clube da Esquina. Considero Minas o Estado que poderia exemplificar várias das melhores características do povo brasileiro – sobriedade, simpatia discreta e desconfiada, olhar de avalista de joia preciosa. Insulado por suas montanhas, o mineiro apresenta um vasto mar interiorizado para onde navega quando quer se recolher.
Em Brumadinho, tivemos contato mais de perto com os donos da pousada onde nos hospedamos – Rozângela e Luciano. Pessoas exemplares, com clareza de ideias, maturidade de sentimentos e saudade permanente do filho na França. Todos os dias, os via conversando através de mensagens, via imagens ou voz, com a parte de seus corações que estava do outro lado do Atlântico.
Certo dia, saímos para encontrar uma das muitas cachoeiras da região. Em dois carros, nós sete andamos por vários caminhos, ladeados por cercas das mineradoras por quase todos os cantos. Chegamos à vila junto ao Córrego do Feijão, com a informação onde haveria uma queda d’água. Véspera de Natal, descobrimos que seria difícil chegar a alguma das corredeiras por ali. Tentamos nos informar com alguns homens que estavam na pracinha quase em frente a Rua 1 com a Rua 3. Havia fotografado a placa da Rua 2 (nome do meu livro de contos) a uma razoável distância dali.
Achei engraçada essa aparente incongruência em que os números estavam tão afastados uns dos outros, em travessas que saíam da via principal. Coisas poéticas de Minas. Apesar de tentarem ajudar, os informantes pareciam confusos, como se não conhecessem o local. Talvez estivessem apenas gostosamente bêbados. Não tinham ideia do que lhes ocorreria dali a um mês. Cervejas nas mãos, vida mansa, dias previsíveis…
Restaurante fechado
Decidimos buscar o outro lado da cidade, em direção à Aranha. Deixamos aquele espaço para trás – um antigo casarão, transformado em restaurante que fechou, casas, pousada, a igrejinha local, pequeno comércio de portas descidas e dois botecos abertos – sem imaginarmos, nós e eles, o drama que se avizinhava. Porém, apesar de previsível, já que estavam estabelecidas todas as condições para o horror que ocorreria, a vida seguia seu curso de rio limpo.
Atravessamos a região, em busca da cachoeira perdida. Sem conseguirmos, acabamos decidindo comer algo no Bar do Jiló, na esperança que na véspera de Natal estivesse aberto, contra todos os prognósticos. Quando nos aproximamos, carros parados junto ao bambuzal e à uma precária cobertura, denunciaram que ele estava servindo o seu famoso peixe frito. Seu João Jiló – antigo vendedor de verduras e hortaliças – nos atendeu com a simpatia de homem gordo que era.
Cenário de fundo, as águas do Paraopeba apresentavam um tom barroso. Disseram que era resultado do uso das suas águas pelas minas de ferro da Vale. Ao buscar refrigerante no barzinho, acompanhei três homens subindo em um barco para pescarem. Ao me virem, mesmo sem me conhecerem, convidaram para a empreitada. Respondi que não teria tempo. Além do que, se há algo que não vejo nenhuma graça é ficar horas e horas à espera que um bicho escorregadio, como o peixe, fisgar o anzol. Partiram contra a correnteza, munidos de natural coragem e cervejas…
O Paraopeba, já enlameado antes do vazamento
Descobrimos com casal Gontijo que o nome Brumadinho deriva da cidade ao lado, conhecida como Brumado que, aliás, tem outro nome oficial, ao qual não me lembro. A origem se deve às constantes brumas que caracterizam a região. Após passarmos momentos descontraídos com os Gontijo, Jiló, sua filha e cachorros de rua que ficaram aos nossos pés e alimentamos com carne de peixe sem espinho, as meninas voltaram para o ROZtel. Eu e a Tânia, fomos a um supermercado para buscarmos itens para a ceia de Natal. Até retornarmos para São Paulo, dois dias depois, pudemos vivenciar o bom clima, o ar puro, a vida pacata de uma cidade privilegiada por abrigar pessoas de grande qualidade. A benção daquelas montanhas é também sua maldição. Isso vale para Minas Gerais inteira.
Mesmo a uma boa distância física do fato do dia 25 de janeiro, o que aconteceu com os mineiros de Brumadinho, nos atingiu igualmente. Foi uma parte do corpo brasileiro que foi invadido por todo aquele excremento. Gerações de políticos, de todas as orientações ideológicas, participaram desse concerto macabro. Não há o que consertar. O que aconteceu não tem remédio. Nós devemos lutar para que esse terror seja a base de sustentação para a revisão de nossos valores como nação. Devemos reavaliar nossas prioridades. Sem isso, a alternativa é que voltemos a chorar muitas mais vidas perdidas por pura ganância, materializada por contribuições para parlamentares e bônus de executivos sujos de sangue.
Por Rozângela Gontijo – Com a morte/lama na alma
“A morte de um ente familiar/amigo abre um buraco em nós. A morte de tantos, milhares de entes, pessoas, animais, plantas, pedras e rios deixa um abismo. Essa sensação abismal de morte/ausência/desaparecimento é uma das piores do mundo porque não pode ser representada. É a manifestação de um Nada absoluto. Como fazer o luto de um rosto que não se pode imaginar/pensar nessa grandeza de tantos, tantos, tantos que se infinitam? A imaginação não dá conta, o pensamento se perde e o Nada absoluto se revela no sentimento mais terrível para o ser humano: a angústia. A angústia é o sentimento do terrível inapresentável que sobrevém em nós e tudo que podemos ver é essa lama que inundou nossa alma.”
Quando foi sugerido o tema para a postagem coletiva no blogue – livro proibido – achei uma tremenda coincidência, pois estava preparando um texto para ser publicado na terça-feira, versando sobre um livro lido em segredo na adolescência. Nesse caso, vetado pela Ditadura. No dia 22, colocarei “O Livro” no ar, mas hoje tratarei de outro que eu mesmo me proibi de ler: “Lua de Papel”, de Lunna Guedes.
Eu queria manter distância do romance de minha editora-mentora por algum temor estranho. Apesar de lê-la em “Catarina…”, nas revistas trimestrais da Scenarium e em edições especiais do selo, ter contato com uma história tramada por ela com começo, meio e (mais ou menos) fim, era como me deparar com a minha incapacidade para tal empreitada. Convocado para a leitura de um trecho de “Lua de Papel II”, em seu lançamento, dei vexame e chorei quando o fiz. Isso me ajudou a querer manter distância. Este ano, ao contrário, estipulei o objetivo de ler Lunna em livro. Talvez, obtivesse mais respostas ou melhores perguntas a seu respeito. Em vão, tenho tentado apreender a escritora-ente-personagem pessoalmente.
Imaginei ter escolhido o lugar perfeito para isso – um espaço composto por areia, sol e mar – cenário que a Lunna já me disse não frequentar. Antes fosse uma praia deserta, mas Ocian Beach fervilhava de turistas com corpos, abertos à visitação pública de seus pudores, de todas as formas e cores possíveis, incluindo cinquenta tons de branco. E comportamentos indomáveis, que passavam longe da educação básica de convivência. Guerrilhas eram travadas em várias trincheiras compostas de guarda-sóis e cadeiras de praia – cada uma com equipamentos portáteis de som – a reproduzirem a batalha nas muralhas de Jericó, com horripilantes demonstrações sonoras de nossa decadência cultural.
Naquele ambiente humanamente inóspito, enquanto super-heróis trafegavam de um lado para o outro a vender guloseimas, decidi fazer a minha fortaleza, crendo na capacidade de me ausentar quando “caía” em um livro. Antes de “Lua de Papel”, teria em mãos as páginas de um amigo e colega de trabalho – Alex Ribeiro do Prado. Procrastinação necessária, já que havia prometido uma devolutiva a respeito de sua incrível história. Além do que, seria uma espécie de adaptação às condições de “minha sala de leitura”.
Intercalava a leitura de “Modigliani…” com mergulhos no mar de águas quentes e ariscas daqueles dias. Placas de “Perigo” advertiam sobre a possibilidade de afogamento. Salva-vidas na areia e na água, fiscalizavam os banhistas. Sou daqueles que compreendem a linguagem das águas do mar e suas variações de humor. Consigo me entregar e me adaptar aos seus movimentos de fluxo e refluxo. Ondeio com as ondas. Mergulho e flutuo, me deixo levar, com habilidade para pegar jacarés a me carregarem por dezenas de metros.
Todos brincavam. Homens, mulheres e crianças trocavam de corpos e consciências no jogo que a Natureza propunha diante de seu poder recriador. Pais passeavam com seus filhos no raso, incentivando passinhos até um pouco mais adiante, mostrando para os pequenos que podiam confiar em suas forças. Chegava a me lembrar que a complicada relação que tinha com meu pai apresentava uma trégua quando íamos para ali. Talvez o mar tivesse nele o mesmo efeito que em mim – sensação de naturalidade. O que me fazia recordar igualmente de meu outro projeto para o ano – escrever nossa história, agora que fisicamente ele partiu, há quase um ano. No entanto, antes disso, deveria chegar até a Lua…
Felizmente, no quarto dia, um domingo, a praia esvaziou o suficiente para que eu não precisasse batalhar para ficar atento à leitura da “Lua…”. Além do que, a obra se impôs desde o início. Logo, as personagens começaram a ganhar vida e a preencher meus olhos com a paisagem de Teodoro, cidade onde se desenrolava inicialmente a trama de Alexandra, Maria, Delegado, o Padre, Duca e seu mar particular… O menino de periferia se identificou com as angústias de uma escritora que poderia ser eu.
Lunna, além de presente em suas linhas, se apresentou via mensagem quase ao mesmo tempo que eu acabava de ler a primeira parte. Confessei minha emoção ao terminá-la, ao que ela contrapôs que hoje faria diferente e melhor. Aliás, como qualquer escritor deseja ao reler seu trabalho. Objetei que a graça da escrita igualmente residia naquela suposta “precariedade” da obra. A sensação de pertencimento me remeteu às palavras de Tatiana Kielberman ao apresentar “Lua…”: “… há aquelas histórias que, ao primeiro contato, sabemos como nossas.”
A chegada de Raissa e seus cabelos coloridos causaram tanto efeito em Alexandra bem como em todos a sua volta, incluindo a mim, que já participava do enredo. A cada sessão, fazia uma viagem no tempo e passeava pelo início dos Anos 2000 (época que imaginei ou escolhi), carregando como se fossem minhas as vivências de cada uma daquelas pessoas. Isabella, Carol, Mariana começaram a projetar suas sombras existenciais baixo ao sol deste janeiro de início de 2019. Por fim, Rodrigo e Ernest – tipos antípodas e complementares – se apresentaram para instaurar contrapontos surpreendentes na história de Alexandra e Raissa, que ouso dizer se tratarem da mesma pessoa. Mais um pouco, chegava a ver as personagens a caminharem pelas areias de Ocian Beach.
Como aconteceu após conhecer a antiga professora de Alexandra e sua “prima”, solteironas atéias que viviam juntas em Teodoro. Em um dos meus encontros com as ondas, observei duas senhoras que se afastaram um tanto para mais longe. Ao se sentirem seguras, sorriram, se abraçaram e se beijaram ao sabor do movimento das águas. Fiquei enternecido e imediatamente convencido que “Lua de Papel”, o livro que havia me proibido de ler até então, poderia representar a inauguração de um tempo de grandes possibilidades e materialização de sonhos – ou escolhi que assim fosse.
A você, que estranho todos os dias, que o sei próximo, mas o vejo tão distante e díspar a ponto de desconhecê-lo. A você, que é humano, porém que sente se desumanizar a cada dia um pouco e que, como náufrago em meio ao mar revolto, volta à tona tantas e tantas vezes após submergir outras tantas. Eu me pergunto porque quer sobreviver se não vê terra firme onde pisar os pés descalços e esperançosos de equilíbrio? Que força o mantém seguindo em frente, mesmo quando percebe que o ambiente é inóspito? Seria curiosidade por saber o final da história? E se soubesse que a história não tem fim – que vive, morre e renasce indefinidamente –, ainda que decidisse interrompê-la sob o protagonismo da atual identidade? E se, ao contrário, porque deveria permanecer mais tempo aqui, sabendo que tudo termina? O que o leva a ser como é – feliz ou infeliz, pacífico ou belicoso, certeiro ou errante?
Você acredita carregar uma alma eterna? Vislumbra, quando se desveste de seu ego, algo que identifica ser maior, permanente, apesar de impreciso? Eu vario constantemente minha crença – acredito, ainda que sem fé retumbante, que seja mais do que apresento. Consigo comungar com a Natureza – mar, rio, campo, montanha – uma vibração extracorpórea, extraordinária. Na cidade dos homens, junto às humanas máquinas, ao mesmo tempo que me espanto com o engenho e a arte de nossas criações, me surpreendo o quando descemos à insignificância de amebas em nossas ações. Nesses momentos, sinto que somos desprovidos de espírito, agimos como bestas feras, criamos o inferno e nos danamos.
A você, desconhecido, posso confessar: sou fraco. Cedo com facilidade ao medo, ao gozo, a dor, a paixão. Sei que são sensações passageiras, contudo foi através de suas manifestações que os seres humanos erigiram as civilizações. E, ainda antes, quando a negritude imperava fora das cavernas e o fogo criava sombras nas paredes, os seres primeiros pintavam figuras recorrentes em suas lembranças – cenas cotidianas, seres e atividades – caça, plantas e animais portentosos, sol, lua e estrelas. O ritmo do tamborilar das gostas de chuva nas folhas, a batida dos pés, movimentos de membros e mãos –música e dança – a criação da arte a transcender a barreira de nossas emoções básicas. Com ela, conseguimos exprimir sentimentos, muito mais que com a pele que vestimos. Com o tempo, acabou por surgir a linguagem, a arte que abracei como minha.
Meu temor é de que não fosse tão bom nesse ofício. Antes, esse receio me paralisava. Vaidoso, não mostrava o que escrevia para ninguém. Bastava a mim para me criticar. Venci o mundo quando encontrei a Lua. Hoje, ela me impele a escrever. Até mesmo enviar uma carta a quem desconheço. Que provavelmente me rejeitará. Porque esse desconhecido também escreve. Escritores não gostam de escritores, mesmo quando gostam do que escrevem. O surpreendente – mas nem tanto – é que o emissor e o receptor da carta sejam a mesma pessoa…