manhã de amena insolação café na mesa
pão crocante manteiga sem sal creme de ricota mel cereja
mamão uva geleia de morango chocolate e surpresa
com toda a delicadeza você se esgueira entre os pés
do tabernáculo sagrado da refeição matinal
abaixo da elevação ouvimos o som da água
descendo em correnteza que se choca entre as pedras
retumbante em dança música da natureza de ser
livre presente em se desfazer e se reagrupar
em poças filetes remansos limpos rebeldes
aproveita que estou apenas de calção
retira a proteção fico exposto à sua adoração
eu que já adivinhava a sua intenção
já sentia intumescer aquele que pensa por si só
e você ama que ele responda mesmo depois de tantos anos
a sua boca o beija passeia a língua por onde deseja o possui
estamos ao sul de qualquer norte a luz solar a invadir
a nossa intimidade fluida inocente sem mancha
enquanto reza busca a profundeza de si geme eu urro
sem testemunhas de tamanha beleza quase choro
não é pelo gozo não é pelo prazer não é pelo vazio que me preenche
não é pelo abandono à consciência de que sou um com o todo
com a sua entrega me tem sob seu controle
apenas consigo entender que sou possuído
enquanto me sinto liquefeito mole
passeio por outros mundos vívidos
me energizo me perco me integro me entrego
enquanto você me engole…
me deixa exangue me arranca um sorriso
quando agradece: “obrigada pelo gole!”…
Etiqueta: natureza
BEDA / Profissão: Brasileiro
Em Agosto de 2011, eu usei esta imagem acima, extraída de um grafite realizado num muro da minha região, como foto de perfil. Justifiquei desta forma: “Imagem de nossa identidade pública, por autor anônimo. Cá, para mim, a chamo de “Brasileiro, uma profissão”. Completei: “Usamos fantasias, jogamos jogos de azar, acendemos velas para falsos deuses, rimos sarcasticamente da nossa “má sorte” e empunhamos a bandeira nacional como um estandarte de guerra!”
Talvez eu já sentisse no ar a guerra surda nos bastidores do poder ou constatasse cabalmente que agíamos contra nós mesmos desde os lares mais simples até os mais glamourizados numa espécie de autossabotagem de nosso destino futuro — hoje. Industrialmente, pelejamos para derrubarmos as nossas melhores chances de melhorar a nossa qualidade de vida como um todo. Quem chegou ao patamar desejável de estabilidade parece ir contra quem queira alcançar esse status, como se não tivesse lugar para todos. Fruto do egoísmo, talvez, é uma opção burra em rumo ao nosso subdesenvolvimento permanente. E que foi transformado em projeto ideológico por parte da população.
Enquanto existem ilhas de bem-estar em vários setores sociais, há aquelas frequentemente açoitadas por tempestades e furacões. Não apenas no sentido figurado, mas igualmente literal, graças ao desequilíbrio ambiental, para qual estou atento há 50 anos, desde o começo da minha adolescência, com a produção de textos pessoais e redações escolares em que insistia mostrar a opção tenebrosa de trabalharmos contra a Natureza. É como se o fato de sermos “brasileiros” — atividade de extração do pau-brasil — se configurasse em um destino irreversível. Atualmente, já liquidamos com 1/3 da nossa cobertura vegetal original. Como fumantes inveterados, estamos queimando o nosso pulmão, a Amazônia. Ao mesmo tempo que reduzimos a cobertura aquática do Pantanal a 4% de antes (!).
Enquanto certos setores produtivos vinculados à produção de comodities jogam contra o patrimônio universal dos ricos biomas, respiramos um ar pior, seco e poluído. Vivemos um clima instável, em que somos impedidos de nos locomovermos por causa das enchentes. Isso, quando não perdemos a vida, simplesmente. Enfim, construímos o paraíso da barbárie na Terra. No chão e fora das cercas que impedem (aparentemente) que os moradores de condomínios sejam afetados, vivendo fora da realidade da maioria. Mas quando se aventuram fora da proteção ilusória, muitos acabam vítimas da violência por causa de suas próprias escolhas na manutenção do elitismo segregacionista, ainda que supostamente inconscientes.
Nunca fui tão pessimista num futuro incerto quanto à sanidade de nossa sociedade. Ainda que muitos de nós procuremos agir de maneira diferente, somos afetados pela produção avassaladora de um modelo de vida que nos levará à catástrofe. Só os loucos de pedra, sobreviverão…
BEDA / Abril De 2013 Revisitado
Um interessante painel de arte à frente e eu só conseguia olhar para as linhas de rachaduras sinalizadas com giz, marcando o tamanho que apresentavam no túnel do Metrô Consolação, enquanto esperava o trem que me conduziria ao Paraíso. Que mal me assola que me faz olhar para além do que deveria ser o principal alvo de minha atenção? O que me conduz, me condiz?
* Postagem de 2013

A Ilhota
Onde estou?… Em São Paulo, junto à Represa de Guarapiranga. Esta cidade é imensa e plural, onde podemos conviver com a decadência arquitetônica do Centrão por descuido dos administradores ou percorrer caminhos juntos à novos edifícios, construídos feitos Torres de Babel, nas marginais do Rio Pinheiros, poluído e mal cheiroso… ou apreciar a Natureza em todo o seu esplendor de força e beleza, como aqui pode se perceber. — em Clube Atletico Indiano

As Mexeriqueiras
Além da Penélope, Dorô, Domitila e Frida aguardam que eu distribua a mexerica que tanto gostam. Como não tenho certeza sobre o efeito que causam o seu consumo para elas, apenas distribuo um quarto da fruta para cada uma…
Observação: nenhumas delas está mais conosco fisicamente. Até a mexeriqueira deixou de produzir. Mas todas passeiam por nossas lembranças, imagens e coração até que nós também deixemos de atuar neste plano. Em um outro, nos encontraremos, ainda que sejamos somente pura energia compartilhada alhures.
A Intrusa
Cerca de 75% do peso de um músculo de um ser humano é composto por água. O sangue, por sua vez, contém 95% de água, a gordura corporal, 14%, e o tecido ósseo, 22%. Pelos resquícios da festa de ontem, creio que algumas pessoas estão mal informadas a respeito…
Participação: Lunna Guedes / Mariana Gouveia / Claudia Leonardi / Roseli Pedroso / Bob F.
BEDA / Insônia

eu tive um episódio de insônia
acordei às 4h da manhã
fiz exercício para voltar o sono
tomei um chá de mel gengibre cúrcuma
quem sabe um leão me domasse
comi um tomate para preencher o estômago
mergulhei no nada eclipse mental
acordado mas sem acordo com a realidade
estou retomando a consciência aos poucos…
à base de notícias de terremotos
assassinatos assaltos mortandade
pelo trânsito devemos continuar
a circular a performar produtivos estáveis
mergulhados em sangue e dor
os oceanos aquecidos águas-vivas
medusas mães-águas alforrecas
envenenam os corpos que invadem o reino marinho
muita chuva enchentes
seca intensa deserto assumindo a paisagem
sobreviverão os insetos
imortais depois de milhões de anos
crise respiratória aguda os vírus revivendo
o seu poder de nos colocar em nossos devidos lugares
seres passageiros ainda que anjos
ainda que bestas feras
seremos extirpados indiscriminadamente
porque a natureza não discrimina cor da pele
posição social financeira arrogância
suposta proeminência importância
eliminados enfim da equação
a terra voltará a brotar livre de nossa pulsão
de morte vazio desejo frustração…
Participação: Lunna Guedes / Mariana Gouveia / Claudia Leonardi / Roseli Pedroso / Bob F.
BEDA / Crônico
É da natureza de existir que Cronos devore os seus filhos continuamente, como se fora um rio em constante movimento em direção ao mar (em algum lugar). Mas como já foi várias vezes lembrado, nunca serão as mesmas águas às quais se renovam a cada ciclo (até quando?).
É da nossa natureza que nos acomodemos às circunstâncias que consideramos imutáveis, enquanto não percebemos que tudo está interligado e uma ação externa ao ciclo supostamente permanente poderá vir a transformá-lo de tal maneira que o que era episódico se torne recorrente e se estabeleça como regra.
A locução “novo normal” se normaliza e começamos a agir sob os auspícios, nem sempre saudáveis, de normas em que a impermanência rege a sua ação. O desequilíbrio acaba por se estruturar como contínuo e começamos atuar como seres que buscam sobreviver como se enfrentássemos um terremoto – o chão semovente impedindo que andemos mentalmente estáveis.
É de nossa natureza a adaptação ao meio. O gerou certa prepotência por nossa espécie. Cremos que dominamos a Natureza, mas não a domamos. Alguns creem que seja uma questão de tempo que a sua revolta nos aniquile. Suposição surgida por pura mistificação da Ciência, a mesma que faz com que duvidem de sua eficiência. Parece estranho, mas sem conhecimento dos conceitos científicos, os mesmos que se beneficiam de suas conquistas a abominam por questões ideológicas.
Há várias maneiras de Cronos degustar com prazer cada filho devorado. Um deles é reabilitar com requintes de estultice o mergulho gozoso na ignorância, defendida como bandeira orgulhosa de ser. Eu já agi assim quando criança. Dizia não gostar de alguns alimentos apenas pelo gosto que não havia experimentado – “não comi e não gostei!”. Proclamava como ganho: “Mais uma coisa que não conheço!”
Vivemos uma “nova” Idade Média. Atração pelo obscurantismo. Lembrando que, ainda que sombrio em vários aspectos, principalmente na religiosidade, esse período foi de grandes descobertas e invenções, mas que apenas mais tarde vieram a serem efetivados na vida cotidiana. O que percebo claramente é que o Sol continua a sua faina de aquecer o planeta, mas como estamos depauperando a proteção contra os seus piores efeitos – a camada de ozônio – mais cedo do que se espera a vida na Terra ficará cada vez mais precarizada, através falência climática.
Afora todas as medidas de autodestruição como que seguíssemos uma cartilha da destruição: eliminação da cobertura vegetal, envenenamento dos rios, extinção dos corais – centro comunitário de vivência de várias espécies marinhas –, avanço da instabilidade política que impede uma atuação global. Quando vejo o quadro geral, percebo quase como se fosse a expressão duma pulsão de morte coletiva “consciente”. Não é tão abrangente, mas é levada adiante por aqueles que detêm o poder. Com a atuação do Inconsciente Coletivo, creio que dominado pela autopreservação, talvez faça com que venhamos a dar um ou vários passos atrás no sentido do “desenvolvimento humano” como preconizado há 200 anos pela Revolução Industrial. A diminuição na velocidade da absorção de novas ferramentas utilizadas apenas para alavancar o consumo imediato, sem dimensionarmos as consequências perniciosas que desencadeiam.
Percebi desde bem novo, o quanto estávamos caminhando para o abismo. Eu me lembro de um texto que produzi numa das minhas folhas de papel dispersas sobre um industrial que em visita a sua cidade natal – origem do seu império – a encontrou distante da sua lembrança de garoto – um paraíso edílico com rios, cachoeiras e matas habitadas por pássaros e outros animais. Os relatórios que recebia indicavam apenas os lucros, sem mensurar a destruição causada pelo complexo industrial. Decidiu tomar medidas que revertessem os efeitos perniciosos e terminou por ser exitoso. Bem que se nota ser um texto juvenil, de quem acreditava que as coisas poderiam ser mudadas facilmente.
Alguns dizem que estamos chegando perto do ponto de “não retorno”. Que em determinado momento, se tornará irreversível a decadência das condições que suportam a vida planetária. Como reconstruir a camada congelada dos polos que perderam uma área de cobertura considerável nos últimos anos? Como deixar de arrancar árvores das florestas tropicais para o consumo humano? Como impedir que o ouro e outros recursos minerais sejam extraídos sem consequências graves como a intoxicação de rios, animais e comunidades autôcnes? Como resolver as crises humanitárias que estão se alastrando feito epidemia? Como convencer os recalcitrantes ideológicos quanto a implementação de prerrogativas de convivência social menos agressivas contra as populações marginalizadas? Como impedir que a ganância seja o motor de nossa sociedade?
Como filhos de Cronos, com a sua morte, cremos que nos tornaríamos imortais como espécie. Porém, ao cortarmos a linha tênue que une todas as espécies da Terra, desequilibrando milhões de anos de percurso planetário em apenas alguns milhares, acabamos condenados. Cronologicamente, são como minutos de um dia. Cronos, redivivo, deglute os filhos não somente para evitar perder o trono, mas porque o poder conferido a nós foi mal-usado e continuaria a sê-lo – gerando condições para uma pena autopunitiva que não apenas destruiria a humanidade –, mas também o resto dos habitantes do globo. Estamos prestes a sermos dissolvidos no estômago abissal do monstro do esquecimento do Senhor do Tempo.
Participação: Lunna Guedes / Mariana Gouveia / Claudia Leonardi / Roseli Pedroso / Bob F.




