Tarado*

Em 7 de Janeiro de 2022*, em entrevista à TV Nova Nordeste, de Pernambuco, o então presidente Jair Bolsonaro (PL) questionou o interesse dos técnicos da ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) que aprovaram a vacina contra a Covid-19 para crianças. “O que está por trás? Qual é o interesse da ANVISA por trás disso aí? Qual o interesse daquelas pessoas taradas por vacina? É pela sua vida? É pela sua saúde? Se fosse, estariam preocupados com outras doenças no Brasil, que não estão”, disse o chefe do Executivo. Falácia atrás de falácia, o atual ex-presidente e futuro presidiário por crimes de todos os níveis e proporções, apresentava uma lógica distorcida ao negar a emergência sanitária que então vivíamos. Logo após a essa declaração, surgiu “Tarado“, a qual publico aqui.

“tarado…
sou tarado por viver!
por vezes, essa tara diminui
e não me importaria de morrer
mas quando estou na boa vibração
sou tarado por estudar
sou tarado por escrever
sou tarado por saber
sou tarado por conhecimento
sou tarado por encontrar pessoas
sou tarado por rir por rir
sou tarado por amar
sou tarado por beijar
familiares, amigos, amantes, amáveis seres
sou tarado por bichos
sou tarado por ver gente feliz
sou tarado por ajudar o próximo
sou tarado por fazer o melhor
sou tarado por inspirar o bem
sou tarado por plantas
sou tarado pela Natureza
sou tarado por meu planeta
sou tarado por Cultura
sou tarado por cantar e dançar, apesar não saber
sou tarado por diversidade
sou tarado por múltiplas expressões
sou tarado pelo cheiro da terra
sou tarado pela água do mar
sou tarado pela brisa
sou tarado pela chuva
sou tarado pelo Sol
sou tarado por igualdade de oportunidades
sou tarado por ver uma sociedade igualitária
sou tarado por viajar fisicamente e pela mente
sou tarado por comer
sou tarado por arroz e feijão
sou tarado por frutas
sou tarado por beber (principalmente água)
sou tarado por ver nascer
sou tarado por chorar ao ver morrer
sou tarado por mudar para me aprimorar
sou tarado por atividade física
sou tarado por Saúde
sou tarado por proporcionar a alegria
sou tarado por lutar
sou tarado pela Ciência
e pela consciência
sou tarado por me vacinar
sou tarado por querer um País melhor
não sou tarado por me satisfazer com o mal
não sou tarado por armas
não sou tarado por deixar morrer
homens, mulheres e crianças
não sou tarado por matar
pessoas e o meio ambiente
não sou tarado por eliminar as minorias
não sou tarado por destruir o equilíbrio humano
não sou tarado por causar a desunião
não sou tarado pelo atual sistema
político, econômico e social
sou tarado pela Democracia
sou tarado por retirar o maléfico do Poder
sou tarado por reafirmar a Vida
sou tarado por viver!”

BEDA / Saudade De Mim Em Você*

Sim…

agora eu sei que acabou…

Tentamos,

mas já não dói tão gostosamente…

A ferida cicatrizou…

Quis voltar a ser aquele que a amou

(não que eu não a ame ainda),

apenas sei que aquele amor já não me pertence mais…

Sei que o meu egoísmo pôs tudo a perder….

Sei que ficarei a penar

a eterna saudade de mim em você…

Aquele Eu que a amava daquela maneira,

sentia-se confiante,

sentia-se amoroso,

sentia-se confidente,

sentia-se poderoso,

sentia-se como se o mundo lhe pertencesse…

E o seu (meu) mundo era você…

Eu, aquele, sentia-se expandir para fora dele

até abarcar toda a Vida e a Natureza

Deus supremo,

ciente de seu poder,

esqueceu-se da fonte

que irradiava tamanha grandeza…

Ele, Eu, aquele,

esqueceu de você em si…

Então, algo se perdeu…

Eu me perdi…

Perdi você…

Quando se afastou, vociferei,

a tratei como uma rés que ferrei,

propriedade minha, que não se compartilha…

Que preferia ver morrer à mingua,

de fome e sede…

Preferi feri-la com a minha língua…

a mesma língua que antes vivia a esquadrinhar

a sua pele inteira…

A ultrajá-la com a mesma boca que a beijava

e lhe repetia palavras de amor…

E aquele Eu mal entendia que o verdadeiro ato de possuir

é um movimento de doação…

Que eu antepunha a exauri-la com a minha paixão…

Talvez, um dia, eu a reencontre em mim…

Porém sei que você não será mais a mesma,

tanto quanto sei que não serei decerto aquele

que então se sentiu total,

que não se permitia saber que tanto amor,

sem entrega e reciprocidade,

pode tornar-se pura masturbação,

velada veleidade

a causar tanto mal…

*Poema de 2017

Participam: Danielle SV / Suzana Martins / Lucas Armelin / Mariana Gouveia / Roseli Peixoto / Lunna Guedes / Alê Helga / Dose de Poesia / Claudia Leonardi

#Blogvember / Hominhos De Lata

“Entalhadas nas nervuras do corpo ser — semente — flor”, por Nirlei Maria Oliveira, em As Estações

Lembro de ter aprendido na escola que fazemos parte do Reino Animal. Que somos mamíferos, da Ordem dos Primatas, da família Hominadae. Para completar o nosso lugar no mundo, nos autodenominamos Homo sapiens sapiens. Não basta nos chamarmos de homens sábios. Somos além de sábios, sábios por termos desenvolvido autoconsciência, racionalidade e sapiência. Mas não somos tão sábios a ponto de não percebermos que isso nos afasta dos outros seres do nosso reino, assim como do Reino Vegetal e Mineral. A nossa espécie surgiu a cerca de trezentos mil anos e já fizemos um estrago considerável ao nosso planeta. Por nossa intervenção, extinguimos várias outras espécies vivas – animais e vegetais.

A grandeza da devastação provocada pelo Homem à Terra só é comparável a de um Câncer terminal a uma pessoa. Ou a um vírus invencível que infecta um corpo. Ou ao meteoro que extinguiu os dinossauros há 66 milhões de anos. Cedo em minha vida, percebi a nossa conexão com as forças da Natureza. Que o desequilíbrio de forças em marcha poderá finalmente nos extinguir como espécie, apesar de nos jactarmos de nossa invencibilidade. Sem se dar conta que nossa semente poderá um dia não se transformar em flor.

Somos fascinados pelas máquinas que inventamos e construímos. Modernamente, tem sido muito mais fácil nos identificarmos com as suas qualidades do que nos compararmos positivamente aos seres vivos. Sou admirador de árvores e plantas. Percebo que a sua aventada mudez é substituída por demonstrações óbvias de formas de expressão não percebidas. Em RUA 2, cheguei a colocar uma personagem a conversar com uma sábia árvore de uma ilha central da Avenida São Luiz.

Em 2016, invadi o reino inanimado das construções humanas para brincar com a nossa tendência em humanizar carros, ferramentas e objetos de uso pessoal. Escrevi:

“Numa dessas ocasiões, eu estava a caminho da academia, sempre a passar por ele. Desde que o vi pela primeira vez, havia simpatizado com o Hominho de Lata. Porém, naquele dia, algo mais aconteceu – lhe puseram óculos. Pronto! De imediato, me senti identificado. Eu “nasci” de óculos… Ou melhor, não me reconheço sem os óculos, figurativamente… A saber que as coisas mais intensas que faço são na penumbra, sem rejeitar a luz que se instaura…

Ali estava a mim mesmo, consubstanciado – homem que nasceu para ser nuvem, mas que se tornou lata – enrijecido pelos tempos a fora, em pose de quem carrega o peso e a função de sorrir, ainda que o mundo lhe envergue as costas… Boa sorte a minha de tê-lo como companheiro de percurso, a lembrar de minha (nossa) pequenez, Hominho de Lata!”.

A continuarmos a nossa saga de fugirmos de nossas características que nos liguem à Natureza, é bem possível que tenhamos muito maior parentesco com futuristas homens de lata do que com os seres vivos. Enfim, desumanizados.

Participam: Suzana Martins / Roseli Pedroso / Mariana Gouveia / Lunna Guedes

Dente De Leite

De 1961, aos 61…

Fazia cerca de quatro anos que não ia ao dentista. Considerando o tempo fracionado em antes e depois da Pandemia, dois anos sem comparecer ao lugar onde já sofri muito. Mas não me lembro das dores que senti, então é como se eu fosse testemunhar algo que aconteceu com outra pessoa. Assim como me esqueço das dores de minhas unhas do pé encravadas (hoje, domadas), dores de cabeça (chatas, mas relevadas), de estômago (uma delas se tornou uma gastrite hemorrágica), contusões no futebol.

Aliás, parece que joguei futebol em outra vida. Parei quando os meus contemporâneos deixaram de jogar ou de me chamar para as peladas. Nós finais de semana, normalmente estava em atividades profissionais e nem sempre podia estar presente. Ainda sonho que jogo futebol, quando normalmente não consigo chutar, correr ou sequer fazer um passe correto. São quase pesadelos se eu não percebesse a tempo que fosse sonho e forçasse acordar para não sofrer mais. Tenho por mim que fomos “criados” – nós, seres humanos – para sermos felizes, tomando a mim mesmo como exemplo. A memória claudicante ajuda…

O incrível é que carrego uma melancolia da qual não quero me desfazer. Além de me martirizar por coisas que não posso controlar. Eu me pego muitas vezes surpreendido por circunstâncias que, de tão óbvias, até crianças percebem de antemão. Uma forma de ingenuidade doentia. Tento controlar minhas palavras e ações para que não diga ou faça algo que acabe por ferir alguém, mas acontece. E como dizia a minha mãe, o “Inferno está cheio de bem-intencionados”.

Outra faceta de meu comportamento é começar por um assunto e desmembrá-los por outros tantos. Tenho outras várias distorções de comportamento. Uma delas é de não avaliar ou julgar ninguém de antemão. Ainda que dê muito valor à minha intuição. Por presunção ou desejo, cada ser vivente que observo considero que tenha uma história para contar. Antes que possíveis personagens, são pessoas que merecem consideração como tais. Não importando o status aparente que carregam. Bem sabemos que fatores exteriores e aparência não definem caráter de quem quer que seja.

Estava contando que fui à dentista. Na avaliação feita pela Drª. Ana, além do dente quebrado no fundo de meu “bocão” (um siso, que decidi retirar), ela voltou a mencionar o meu dente de leite. Sim, vindo à luz em 1961, às 2h manhã de uma segunda-feira, portanto, completando hoje 61 anos fora do útero de Dona Madalena, carrego um firme e forte dente de leite, logo à frente da minha arcada dentária. Ao comentar sobre ele, aduzo que morrerá comigo. Como disse, costumo viajar por temas supostamente simples e comecei a especular se não seria eu a morrer com ele. Sei que os dentes e ossos resistem muito mais tempo materialmente, calcificados e sem vida.

Os dentes de leite ou decíduos fazem parte da primeira dentição e decididamente “nascem para cair”. A função é ocupar espaço na boca e ajudar a criança nas primeiras mastigações. Começam a cair por volta dos 6 anos de idade, ou seja, o meu dente de leite de estimação resiste há dez vezes mais anos do que o normal. A sua composição é menos mineralizada do que os dentes permanentes. Deveria não suportar estar em minha funérea arcada dentária por muito mais tempo. Isso, se não fosse a minha pretensão ser cremado. Mas como não estarei consciente para me auto incinerar e nem pretendo fazer uso do suicídio pelo fogo, talvez me façam juntar o meu corpo ao do meu pai (só dessa maneira para estar ao seu lado) no jazigo da família.

Para quem ache estranho a falar de morte de maneira tão natural é porque sei que sendo a medida real da natureza humana, a morte torna a vida minimamente suportável e intensamente misteriosa. Para quem versa sobre a existência como eu, não faço segredo do quanto a vida é um presente em que o Presente deva ser vivido com toda a força, apesar do Passado nos trazer surpresas todos os dias. Desejo viver plenamente meu último quarto de vida. O Futuro é hoje.

Missivas De Primavera / O Coração Apaixonado Pelas Paisagens Naturais

Mariana Gouveia, deste e d’O Outro Lado

Mariana,

se há alguém que observa as paisagens com o lado de dentro do coração, é você. O melhor é que partilha com quem a acompanha, o seu olhar. Não basta estar em meio a uma Natureza exuberante se o seu coração não falasse mais alto. Não duvido que ao vê-la passar, a beleza se ofereça a você para fotografá-la. É uma relação de amor que se consubstancia na amizade com um beija-flor. Chiquinho sente que você o ama e, através dele e seu bater de asas, os sons naturais, as cores exuberantes, a doçura da força da vida que explore em flores, plantas e seus segredos.

O calor que marca o lugar em que vive surge apenas cálido em nossas visões permeadas por suas imagens. As paisagens são particularizadas em detalhes porque sabe que um mundo se esconde nos cantos e recantos. A mesma luz do Sol que produz o subproduto humano da seca, ilumina a real fantasia. Mas é por suas palavras escolhidas que percebemos o poder do que nos é dado ver. Tudo ganha uma dimensão tanto espacial quanto mental que não desvendaríamos se não fosse a sua mão a nos conduzir. Mulher que consegue ser outras mulheres ao interpretá-las com a sua escrita – ou sendo essas mulheres a se expressarem – Marianas parece surgirem a cada leitura, ainda mais quando passeiam pela paisagem inóspita dos homens em sociedade. Criação nada mais que antinatural.

Que este domingo esteja a evidenciar mais e mais revelações para quem observa além do imediato, o que para os incautos são aparições muitas vezes indesejadas. Que a chuva se faça presente para dar de beber a todos os seres e expressões de vida. Que o abraço seja a sua medida mínima de contenção. Que a sua mente viaje pelo mundo até que nos alcance em nosso Scenarium. Que chegue o momento que testemunhemos as paisagens que enxerga na presença de seus olhos diante de nossos olhos. Por este momento, desejo que esteja bem entre os seus familiares, amigos, companheiros de outras espécies e outros reinos.

Abraço natural, ainda que distante!

                                                                                                                                 Obdulio

Participam: Mariana Gouveia / Lunna Guedes / Suzana Martins / Roseli Pedroso