Projeto Fotográfico 6 On 6 / Espaços Em Branco

À princípio, o tema deste 6 On 6 me pareceu um supremo desafio. Para mim, não existem espaços em branco. Nem mesmo as nuvens brancas poderiam ser chamadas dessa forma. São fluídos corpos branqueados a preencher espaços azuis. Tenho imensa dificuldade para meditar porque não consigo deixar a mente desabitada de ideias, coisas e seres de todas as espécies. Para atender ao chamado, busquei o que para mim se configura no que é mais parecido com espaços em branco – a minha memória claudicante. Ela carrega mitos e meias verdades, uma expressão cabível no tema deste 6 On 6. Dos arquivos eletrônicos, preenchi os espaços em branco que se não fossem os registros das imagens-vida-pensamentos deformados, ao olhar para trás veria somente uma longa estrada plana, de fundo infinito.

Rua Santa Ephigênia, onde as antigas construções abrigam lojas de equipamentos de ponta em vários setores da tecnologia. É uma festa para os meus olhos, mas não nesse aspecto. Para mim, o que é precioso reside nas edificações… É comum aproveitar a abertura de algum portal do Tempo e viajar para o Passado. São breves instantes de percepção extrassensorial em que capturo algum momento especial, testemunho a História a acontecer em décimos de milissegundos e volto a caminhar entre carros, pessoas e luzes de LED

2015

A Luz foi engolida por grossas camadas de nuvens escuras, repentinamente! O calor ameno deu lugar ao frio que se projetou por nossas peles desprotegidas. O ser humano vem a perceber, nesses momentos de humor ciclotímico do tempo, que é muito frágil diante do Clima e diante da força da Terra. Será por inveja que queremos destrui-la?

Foi ontem, mas poderia ter sido hoje. Poderia ser em qualquer dia, quando vemos o Sol erguer-se além da linha do horizonte. Se pareço insistir no tema do confronto da luz solar contra as fímbrias do nosso fundo do olhar, muito mais não se cansaria o trabalhador cintilante em continuar a sua faina por bilhões de anos de explodir em Luz?

Nascido há 60 anos em terra, no centro de São Paulo, na maternidade de mesmo nome (hoje demolida), sob Libra, signo do ar, é na água que me sinto estar em meu elemento. Adoro saltar, flutuar em queda, atravessar o azul, mas ao mergulhar é que me percebo ser um com a Natureza.

Encontro gostoso de pessoas amantes da vida e da arte no Sarau do lançamento de mais uma edição de “Vermelho Por Dentro“, de Lunna Guedes, pela Scenarium. Um ano após, os encontros foram interditados para prevenção de possíveis contaminações pela Covid-19. Desde então, por segurança, os saraus presenciais não mais ocorreram. Voltarão talvez com as boas novas que novembro de 2022 nos trará…

Passei pela Rua Santa Ephigênia, como é corrente fazer, para comprar itens para a minha casa e trabalho, como lâmpadas e outros detalhes para a execução de minha atividade. De lá, fui em direção ao Largo do Paissandu para embarcar no ônibus que me levaria para a casa. Na esquina da Rio Branco com a Antônio de Godói, encontrei o que poderia se chamar de um espaço em branco consumado. Apesar da presença de mato e do entulho, o terreno baldio no qual um dia se encontrava o edifício-favela ocupado em condições inadequadas por pessoas em situação de precariedade financeira está vago. A antiga sede, por 33 anos, da Polícia Federal foi abaixo na madrugada de 1º de maio, levando consigo apenas nove vítimas fatais, algo surpreendente dada a quantidade de ocupantes do arcabouço em concreto, vidro e aço.

Participam do 6 On 6: Lunna Guedes / Mariana Gouveia / Suzana Martins / Roseli Pedroso

BEDA / O Sol E A Água*

Se há alguém que gosta do Sol, sou eu. Quando era garoto e tentava entender o significado de divindade, olhava para o céu, como fizeram bilhões de homens antes de mim. Como eu, eles também entenderam que sem a luz solar a vida sobre a Terra não existiria. Antes que algumas civilizações impusessem a humanidade como a verdadeira representante de Deus, a estrela em torno da qual este planeta girava em torno, já era reverenciado como tal pelos simples de coração. Do alto de sua predominância, ele não deve ter se importado com as crenças que surgiram posteriormente que o colocava apenas como um coadjuvante no firmamento dos arrogantes seres humanos em suas fainas…

Porém, abro espaço para as nuvens escurecidas. Inauguro, em minha página, o gosto pelo céu fechado. Quero que o planeta Água, que o homem chama de Terra porque quer, volte a ter o fluídico elemento como o centro de sua atenção. Vivi uma época em que São Paulo ainda era a Terra da Garoa, que os mais novos sequer imaginam como era e somente chegam a confundir com uma chuva leve. A garoa era como se fora um lençol úmido que nos abraçava, aponto de umedecer as nossas roupas sem percebermos. Era como se fora o ar feito água, que respirávamos como alimento de nossa identidade.

Atualmente, vivemos apenas duas estações – a do calor abrasador de Sol em asfalto, cimento e vidro. Ou a do frio de metal cortante em nossa carne mole. Perdemos as árvores, perdemos os rios, perdemos a nossa conexão com a divindade da Natureza, nos perdemos. Talvez, com a seca chegando à cidade mais desenvolvida economicamente deste país, o que já era urgente, se torne irreversível – voltarmos um tanto para trás, no bom caminho.

Participam do BEDA: Darlene Regina / Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Lunna Gouveia / Suzana Martins

Projeto Fotográfico 6 On 6 / Natureza Na Urbe

Em São Paulo, mais e mais há menos espaço e chão para que as árvores cresçam. Apenas elas não são necessariamente expressão vivaz da vida natural. Muitas nem são típicas do Brasil. Chegaram por aqui trazidas por paisagistas, por serem justamente diferentes, atraentes aos olhos, mas não benéficas ao nosso bioma, podendo se tornarem endêmicas. Ainda assim, é possível que borboletas, insetos e consequentemente pássaros habitem os seus galhos protegidos por suas folhas.

De qualquer forma, o verde insiste em se intrometer entre pontes, prédios, ilhas de avenidas e casas com quintais, modelo de moradias cada vez em menor quantidade, devoradas pela especulação imobiliária que ergue edifícios em bairros que acabam por perder o ar bucólico de antigas eras.

Não mais cadeiras em frente às casas em noites quentes, não mais a reunião de amigos em bares de esquina, não mais as vendinhas de secos e molhados, não mais o fechamento de ruas em datas comemorativas e Copas do Mundo. Somente o movimento de carros dirigidos por pessoas que circulam de um ambiente fechado para outro.

Esta grande, frondosa e bela árvore encontrei em um condomínio de prédios na região de Interlagos. De certa forma, esses locais conseguem manter um paisagismo que abriga uma boa área verde. Obviamente, devido ao alto custo desses empreendimentos, não é uma solução de moradia popular, mesmo porque é um estilo de vida que preza por ser idealmente exclusivista, para poucos.

É comum encontrarmos nas nas fronteiras do conjunto de edifícios que formam a zona centra de Sampa, ilhas arborizadas que quebram um pouco a monotonia das linhas retas características dessas formações humanas. Neste período seco, o marrom avermelhado se entremeia ao verde cansado, casando com as cores esmaecidas dos grafites.

Este registro de minha Periferia, na Zona Norte, mostra um dia de nebulosidade incomum, a ponto da Tânia dizer que apenas se lembrava de paisagem parecida quando chegou a São Paulo, há 35 anos, “vinda de um sonho feliz de cidade”. Eu, morador desde os 8 anos na região, vi e vivi muitos desses horizontes próximos. O tom cinza deu ao registro um toque de foto PB.

É uma rota frequente em minhas atividades profissionais atravessar a cidade de Norte a Sul. O trajeto passa pelo Centro através do Túnel Tom Jobim que passa abaixo da Praça do Correio que comporta em uma parte um terminal de ônibus e outra uma praça com árvores de médio porte. Antes, há o icônico Viaduto Santa Ephigênia que sai da Praça do Mosteiro de São Bento e vai até a Igreja de Santa Ephigênia que, enquanto estava sendo erguida a Catedral da Sé, se tornou a sede católica momentânea da Metrópole.

As intervenções humanas na cidade tem na Avenida Paulista é o seu ápice. No alto daquela elevação plana, passou a História da riqueza e o apogeu da elite paulista. Moradia exclusiva dos fazendeiros de café que quiseram tornar São Paulo uma Paris em solo sul-americano. Após a Segunda Guerra, a influência Estados Unidos na arquitetura urbana paulistana foi decisiva. Os antigos casarões foram dando lugar a nova visão de colossos de concreto e vidro. A mais paulista das avenidas foi vítima dessa transformação. Neste registro, um dos últimos exemplares das construções do primeiro terço do Século XX que resistem em pé — como o Palacete Franco de Melo — o qual já adentrei uns 20 anos antes. Em seu amplo jardim, árvores remanescentes da antiga Mata Atlântica, com dezenas de anos de vida, assim como os exemplares do Parque Trianon, próximo dali.

Por fim, volto a visão para o meu quintal. Entre as várias árvores frutíferas, está crescendo um mamoeiro. Infelizmente, a nossa velha goiabeira secou, atacada por formigas. Mas preservamos uma jabuticabeira, uma mexeriqueira, dois tipos de limoeiros, uma pequena árvore de araçá, outra de amora, algumas hortaliças e dois tipos de bananeiras — prata e nanica — que fazem florescer seus corações o ano todo.

Lunna Guedes / Roseli Pedroso / Mariana Gouveia / Suzana Martins

Vida Que Segue

No último Verão, ela deu os seus derradeiros frutos. Atraiu pássaros, vespas, abelhas, as cachorras e outros seres que usufruíram do gosto especial das goiabas que caíam dos seus galhos já exauridos. Atualmente, pelo chão, o que resta são folhas secas e frutos ressequidos – bolinhas pretas como se fossem de gude.  

A velha goiabeira acompanhou a paisagem visual da família por múltiplas estações. Em várias ocasiões, de seus frutos, fizemos doces ou comemos direto do pé. Há alguns anos, formigas penetraram na base do seu tronco e beberam sua energia em forma de seiva. As providências que tomamos não foram suficientes. Após alguns períodos de eventual recuperação, quase que repentinamente, parou de respirar, emadeirando-se.

Bem perto, a mexeriqueira, apesar de verdejante, também havia deixado de frutificar. Podamos galhos e pequenos troncos, verificamos se havia alguma doença e aparentemente a planta não apresentava problemas óbvios. Apenas deixara de produzir frutos. Ontem, a Tânia me mostrou que surgira uma única mexerica, madura, a ponto de ser colhida. Não foi preciso, apareceu caída. Eu a recolhi e mais tarde experimentamos o seu gosto suave-oloroso de quem mandava um recado: “Estou viva!”.

Um outro processo de desenlace está ocorrendo com a nossa companheira de quatro patas mais velha, de 13 para 14 anos, a Domitila. A Tânia pesquisou e me disse: “Estou lendo aqui que o que está acontecendo com a Domitila é o processo natural da morte por idade. Começa a ocorrer com a dificuldade para andar, depois a respiração fica acelerada, ocorre a falta de apetite, o descontrole do esfíncter, alteração de temperatura e a bichinha começa a ficar quietinha num canto. A opções que surgem ou é ficar com a gente, o nosso calor humano e carinho ou adiantar o processo com a eutanásia”. Perguntei: “Dor?”… “Não mencionam dor. Mas os órgãos vão desacelerando até paralisarem – fígado, rins… Mas eu estou fazendo medicação de horário. Respondi: “Acho besteira estressá-la com uma ida ao veterinário, com soro, isolamento e eventual passamento longe de nós”.

Conheço a curva do tempo de vida desses seres especiais. Eu tive cachorros a minha vida toda. Em nosso tempo de criança, a minha mãe recolhia cães abandonados e chegamos ter tantos que começou a incomodar algum vizinho (que apenas suspeitamos quem seja). Em certa ocasião, vários apareceram envenenados. Apenas alguns sobreviveram. Nós os mantivemos e ficamos com a nossa média usual de três a quatro companheiros. Falecida a minha mãe, mantive o hábito, com a anuência da Tânia. Antes ela não era muito afeita a cuidar deles, mas com o tempo mudou a sua postura com a convivência. Atualmente, ela ama incondicionalmente “nossos” bichos e estamos com cinco “fixos”.

Assim como a goiabeira, a mexeriqueira está numa área que deixamos para serem um receptáculo de água pluvial. Nossos quintais citadinos são normalmente impermeabilizados. Planejados para serem estacionamentos de carros, vedados do contato com a terra e as plantas. Nós nos afastamos de formas de vida que “desaparecem” de nosso cotidiano, porque a nossa suposta superioridade já nos basta. Esse afastamento do sagrado Círculo da Vida será a nossa ruína como espécie. Quanto à goiabeira, manteremos parte de seu tronco. Terá funções decorativas e práticas, servindo de suporte para outras plantas. Eu sou daqueles que sei que somos todos parte de algo abrangente, tanto nas vibrações mais básicas quanto nas mais altas, entendam como queiram.

Eu entendo que quaisquer seres no planeta são companheiros de jornada e busco sorver da profundidade amorosa da Natureza, apesar de ela ser vista por muitos como inimiga dos seres humanos. Para esses, ela apenas se manifesta em forma de adversidade. Ficam bem somente dentro de ambientes controlados, em quartos equipados com apetrechos tecnológicos.

Eu também sei que a Vida se transmuta em gamas de frequências das mais densas para as mais refinadas – maneira como a energia se transfere de um estágio para outro. A Vida sempre encontra um meio de expressão, ainda que não pareça Vida. Aliás, com a ajuda do Poetinha, sempre repito: “A Vida tem sempre razão”.

Nesta madrugada, a energia da Domitila mudou de estágio. Refinou-se, como era refinado o amor que sentimos por ela, eterna em nossa memória. Esse amor passado e futuro, sempre presente na Vida que segue…

BEDA / A Melancia Curiosa

Era uma vez uma melancia muito curiosa que decidiu deixar a fruteira onde estava para visitar o lugar a sua volta. Ela já havia viajado bastante, desde o lugar onde nascera e isso estimulou sua natural ainda que insuspeita sede de conhecimento.

O primeiro lugar pelo qual passou foi a cadeira a sua frente. Queria a mesma sensação dos humanos que sempre estacionavam o seu corpo naquele objeto, quando diminuíam de tamanho. Acabou por fazer amigos, os mesmos que cercavam os seus usuais ocupantes quando se alimentavam.

Depois de passar pela sala de jantar, onde viu a imagem dum quadro* que a atraiu bastante, subiu as escadas rumo à parte de cima da casa…

Como era uma jovem melancia, ela se identificou com o quarto descolado das meninas. Ficou especialmente fascinada pela penteadeira com o seu lindo espelho. Percebeu que era bastante vaidosa e admirou a sua forma arredondada com as faixas rajadas brancas em seu corpo verde.

Ao descer, a Melancia Curiosa experimentou voltar a ser uma flor. Lembrou-se de quando foi uma, em sua primeira infância, quando era apenas a promessa de ser uma grande e suculenta fruta.

Gostou de ficar no sofá macio, ideal para o seu formato esférico. Quase adormeceu quando aproveitou para assistir TV.

O que a Melancia Curiosa tinha visto até então, a estimulou conhecer mais do mundo fora da segurança da casa. Ela havia chegado na parte detrás daquele veículo de um lugar onde foi retirada de junto de suas companheiras e achou que pudesse usá-lo para buscar por novos caminhos.

Como não tinha carteira de motorista, o humano a impediu de sair. Mas depois de ver todas as peripécias que experimentou, decidiu não esquartejar a vivaz melancia. Ela ficaria a observar a vida acontecendo em torno de si enquanto tivesse consciência.

Ela explicou que preferia ser comida. Que nasceu para propagar as suas sementes. Espalhar a vida. Tornar-se parte de outros seres, alimentá-los. Ter o seu gosto provado, reverenciado, gerar amor. Viajar por aí através de outros corpos. Cumprir a sua natureza. A curiosa melancia era naturalmente sábia…

*Imagem vista pela Melancia Curiosa ao passar pela sala…

O BEDA é uma aventura compartilhada por: Lunna Guedes / Darlene Regina / Mariana Guedes / Cláudia Leonardi