BEDA / Nuvens

Outros tons de cores…
Outros ângulos da luz solar…
Entre as nuvens e a poluição,
poemas visuais se fundem
e se dissolvem
diante de nosso olhar…

Algo de muito perturbador existe em mim
Que prefere um céu nublado a azulado
As nuvens me trazem a ilusão de festim
Enquanto limpo, parece de tempo fechado…

Adriana Aneli / Alê Helga / Claudia Leonardi / Darlene Regina
/ Mariana Gouveia / Lunna Guedes / Roseli Pedroso

Projeto Fotográfico 6 On 6 / Portas Dão Samba

Eu me lembro de um samba de Luiz Ayrão pelo qual me apaixonei assim que eu o ouvi. Ainda que fosse uma canção dedicada a Escola de Samba da Portela e eu fosse um fã da Império Serrano; ainda que eu fosse um garoto de 12 anos, inexperiente e tímido, me identifiquei com a imagem do coração escancarado: “Pela porta aberta / De um coração descuidado / Entrou um amor em hora incerta / Que nunca deveria ter entrado / Chegou, tomou conta da casa / Fez o que bem quis e saiu / Bateu a porta do meu coração / Que nunca mais se abriu”. Portas são para isso — servem para entradas, saídas, poemas, romances e canções.

Igreja de São Benedito – São Bento de Sapucaí / MG

Em uma brincadeira antiga se perguntava: “Por que um cachorro entra na igreja? Ora, porque a porta estava aberta”. Não mais, em muitos lugares. A igreja era terreno sagrado tanto para os malfeitores quanto para os vampiros. Diante do aumento da violência, mesmo em cidades pequenas, há horários específicos para que seus portais sejam abertos e fechados. Atualmente, as orações tem tempo marcado. No começo de outubro, fui cumprir um contrato pago antes do advento da Pandemia de Covid-19. Foi o primeiro evento depois de meses inativo. Realizou-se em lugar aberto, com poucos convidados, no Sul de Minas, onde registrei a imagem acima. Cumprimos todos os protocolos de segurança e estou aqui para contar a história.

Pórtico de um hotel no Centro de São Paulo

Há pórticos, portas ou portais que não precisam serem abertos para nos mostrar o exterior. Envidraçados ou vazados, a visão externa se nos apresenta em recortes como telas de cinema, a vigiar os passos de quem passa pela ruas. Carros passeiam pelo leito carroçável e desconhecidos se tornam personagens de comédias ou dramas mudos. A luz projeta sombras e para quem viaja nas linhas de versos ou prosas, criam caminhos de infindáveis labirintos nos quais acabo por me encontrar…

Prédio do início do Século XX reformado – Rua Santa Ephigênia / São Paulo

Portas que fazem igualmente a função de janelas, já que a saída não lhe dá uma saída viável, a não ser você seja um pássaro ou um suicida. A possibilidade de sair sem ir a lugar algum não é uma deferência de portas em varandas elevadas. Muitas vezes, ao sairmos, não temos para onde ir, mesmo que tenhamos liberdade para isso. Portas, diríamos, exigem que as usemos. Que saiamos por elas. Mas nem sempre que retornemos…

Residência de Elton John & Irmãs Kardeshian

Trabalhei nos últimos meses no Yellow Brick Road Garden. Ao fim do caminho dos tijolos amarelos, montamos a residência do galo e galinhas garnisés Elton John, Kim, Kendall e Kyllie. Eu abro a portinhola pela manhã e fecho depois que se recolhem — questão de proteção. Durante o dia, fazem recreação em seu jardim particular, vedado à entrada dos bichos peludos de quatro patas, que observam os bichos penados de duas com o olhar atencioso de quem gostaria de ficarem bem mais próximos do que ficam.

A porta da minha sala…

Para viajar, costumo fechar as portas da minha sala ao mundo exterior. Abri-la não me atrapalharia, supunha. Até que percebi que a minha atenção era presa fácil de borboletas, pássaros ou aviões, folhas farfalhantes ou cachorros com olhares amorosos. Ou qualquer outra coisa. Tenho tentado exercitar a minha atenção o máximo que posso. Não apenas para escrever. Quero sinceramente me esforçar para estar no presente da conversação, da ação, do acontecimento. Valorizar quem está comigo — o tempo em comum. Creio que essa seja a porta de entrada para viver. Ou a saída para não morrer em vida.

Um dos túmulos do Cemitério da Consolação

Certo dia fiz uma incursão ao Cemitério da Consolação. Uma enorme concentração de portas especiais — portas para a Eternidade. E a paz. Foi o que encontrei por lá… Não cruzei com quase nenhuma pessoa. As alamedas entrelaçavam-se em um emaranhado de caminhos para o passado — presente em cada conjunto das obras tumulares. A antiga família mais poderosa de São Paulo tem o maior jazigo da necrópole, feio feito um pesado prédio soviético. Acho estranho que quisessem causar admiração dos vivos, ainda que mortos. Vaidade além do túmulo. No entanto, as que mais gostei foram aquelas que jaziam em ruínas. Como a da imagem acima.

Participam desse projeto:
Lunna GuedesMariana Gouveia e Darlene Regina

Fora De Órbita*

Academia de pobre…

Ao cruzar a cidade para ir trabalhar, tenho reparado que tem aumentado o número de pessoas com alterações no humor (para pior) e outras tantas decididamente fora de órbita. A variedade de manifestações exacerbadas com desvios de comportamento aos ditos “normais” tem se mostrado bastante amplas e muito peculiares.

Vejo o catador de papel que veste uma espécie de fralda e empurra um carrinho sem rodas, a fazer manobras imaginárias na rua. Tem o malabarista do semáforo que tenta, sem muito sucesso, equilibrar uma chapa arredondada na cabeça. Ou aquele outro que, travestido em um fictício guarda de trânsito em molambos, enquadra os infratores, a anotar em seu bloco de nuvem e caneta de graveto os pecados dos motoristas. Do meu lado, enquanto aguardo a abertura de outro semáforo, ouço e me assusto com o grito lancinante de um sujeito em andrajos que, com dicção perfeita, vocifera: “Por que é que você voltou?”…

Com este último, me reconheço… Porque já vivi tantas histórias de amor em minha imaginação e sofri tanto com os (m)eu(s) personagens, que senti a sua dor… “Por que é que você voltou?”… Mais adiante, passamos por outro maluco no qual também me vejo porque usa um veículo igual ao nosso — uma Kombi — e trabalha transportando objetos assim como transportamos os nossos equipamentos de som e luz. Tanto quanto ele, vivemos na loucura de manter a vida a circular, de acordo com o que “Sistema” (esse algo sem rosto) nos impõe… Enquanto isso, exercito o meu olhar…

*Texto de 2015

Em Observação

Olhamos, somos olhados
Buscamos, somos achados
Encontramos, somos deixados
Chegamos, estamos atrasados
Permanecemos, estamos acabados
Estamos eternos, seremos passados…

Amor Na Feira

Amor Na Feira

Ao vê-lo, logo demonstrou interesse. O seu corpo passou a reverberar a atração, vibrando das pontas dos pés à ponta do nariz. Ele, mais contido, permaneceu estático, mas com o olhar fixo de quem vira a expressão mais excelsa da beleza. Foi amor à primeira vista. Passado o primeiro momento do encontro, ela buscou acariciá-lo. Mais um instante, saíram correndo entre as gentes, contentes com a presença um do outro, alheios aos afazeres prosaicos dos humanos. Foram e voltaram algumas vezes, sempre atentos aos movimentos de seus amigos cuidadores. Mais um pouco, ao chamado destes, se despediram, a se olharem com as cabeças voltadas para os extremos da rua que se alongava cada vez mais. Na próxima terça, dia de feira, talvez voltem a se encontrar…