Projeto Fotográfico 6 On 6 / Equinócio

Em 2020, entre o equinócio do Outono, que se deu em 20 de Março, e o equinócio da Primavera, que se dará em 22 de setembro, o Brasil viveu e vive a experiência da Pandemia da Covid-19, causada pelo novocoronavírus. A previsão macabra é que no próximo equinócio alcancemos a marca de 140 mil mortos pela gripezinha, como um dia nomeou o pandêmico J.M.B., atual presidente da República Federativa do Brasil. Enquanto isso, os dias passam como se fossem iguais, mas irregulares, como se fora um sonho perplexo-randômico-estático a cada dia que amanhece, entardece e anoitece.

Sol de verão nos últimos dias de Inverno. Alijei seus efeitos luminares na fímbria do mar-preto-do-morro. E eis que se vê a mostra um crepuscular Sol da meia-noite deslocado de seu tempo. Absoluta bola avermelhada de fogo cristalizada.

Júpiter e Saturno se apresentaram em conjunção visual com a Lua nos últimos dias de Agosto. Astros distantes entre si, brincaram unidos no firmamento. Ausente um equipamento que pudesse captar a majestade do momento, registrei o brilho lunar emprestado do Sol entre folhas de bananeira e goiabeira, como se fosse uma fruta de luz.

Dias secos. Minhas plantas clamam silenciosamente por água. Eu, que tenho ouvido vozes inaudíveis para muitos, as compreendo e as banho com o líquido vital. O rejubilar das folhas se me assemelham a aplausos. Com a espada d’água, as reverencio.

No equinócio do Outono, eu estava no litoral sul de São Paulo. Foi decretado o fechamento das faixas de areia, o comércio, o funcionamento de pousadas e hotéis e foi impedido o translado entre as cidades. Fiquei preso junto à imensidão do mar. Após retornar a Sampa, voltei outras vezes para a Baixada. Por algum motivo singular, a visão da Serra do Mar — a Muralha — vinha a ganhar um significado inaudito.

Despudoradamente, os sapatinhos-de-judia se abrem também à noite. Ao sair para o quintal, uma delas me encara como cara de quem não sabe o quanto é atraente. Ou apenas dissimula a sua inocência para oferecer beleza íntegra, a narcísica flor.

Forçado a deixar de trabalhar fora de casa, passei a ser uma “dona-de-casa” modelo. Ou pretendi. Sei que o termo usado entre aspas carrega o peso de uma função que no patriarcado significou o máximo que uma mulher poderia alcançar como status social. Tirante as “donas-de casa” que tinham empregadas domésticas. Neste período pandêmico, as tarefas caseiras que fazia para ajudar, tornou-se minha função primordial. O que sempre acreditei, se confirmou: a louça se reproduz incessantemente.

Ale Helga— Darlene Regina — Mariana Gouveia — Lunna Guedes

BEDA / Scenarium / O Vírus Do Amor

Vírus

Moravam no mesmo andar do antigo edifício. Velhos conhecidos por olhares, pouco se falavam. Os jovens, filhos do interior, vieram para São Paulo para estudar. A instauração da Quarentena foi apenas mais um capítulo na marcha de acontecimentos. A súbita decisão governamental pelo isolamento social os encontrou hesitantes entre ficarem ou retornarem às suas famílias. A capital apresentava o maior número de casos e, receosos que pudessem eventualmente infectar pais e avós, decidiram ficar. Tudo isso foi tema da primeira conversa mais longa que tiveram, a voz meio difusa pelo uso das máscaras. Iniciada no elevador, continuou no corredor junto às portas de seus apartamentos, com a distância protocolar.

Surgiu uma conexão imediata entre os dois desgarrados. Estabeleceram o hábito de conversarem postados nas respectivas varandas, em entardeceres ultrajantes de tão belos, espraiados em céus outonais-vanilla–sky. Certa noite, madrugada silente, ele a ouviu chorar. Tiago chamou por Ana. Não obteve resposta. Bateu na porta da vizinha. Ao abri-la, se derramou em seus olhos avermelhados e inchados. Indo contra os protocolos, dispensadas as palavras, se abraçaram. As bocas se procuraram. As línguas caladas-eloquentes trocaram saliva e sorveram prazer. Desobedientes civis, mergulharam sem máscaras no desejo um do outro. O amor a iluminar a noite, virulento. Sentiram-se eternos.

Revezavam os leitos, alastrando ambos os apartamentos do fogo da paixão e da alegria da entrega. Camas e lençóis, contaminados de seus joviais fluídos, refletiam as primeiras luzes da manhã em composições cada vez mais inauditas de corpos entrelaçados. Apesar do sofrimento coletivo, os dois quase abençoavam a quarentena que os uniu. Planos para o futuro naturalmente surgiam em meio a longas conversas e beijos amiúde. Ainda assim, omitiram das respectivas famílias o encontro proibido. Esperariam tudo passar para que não ficassem aflitos com os jovens amantes. Por isso, os pais de ambos receberam com surpresa a notícia da internação dos filhos como sendo um casal de namorados com insuficiência respiratória.

Os jovens não apresentavam tosse. A febre confundia-se com o calor que geravam na sofreguidão do amor. O mal estar se instalou quase ao mesmo tempo. Preocupados um com o outro, procuraram os postos de saúde. Lotados. Devido ao fato de serem jovens, foram dispensados. Voltaram para casa, cansados e ofegantes. Quando pioraram, pediram ajuda ao porteiro que chamou a ambulância. Permaneceram intubados por alguns dias e vieram a óbito com um intervalo pequeno entre as partidas. Entre tantas mortes, a história dos estudantes apaixonados passou despercebida, a não ser entre os habitantes das pequenas cidades de onde vieram.

O País, enlutado, ainda teria que passar por outras tragédias – resultantes de uma doença incubada dois anos antes.

Projeto Fotográfico 6 On 6 / O Inverno De Cada Um

Até outro dia, vivíamos um dos invernos mais quentes e secos dos últimos tempos. Praticamente, um veranico de meio de ano. Apregoam que é culpa do El Niño. Para mostrar como a Natureza se manifesta em uma escala bem maior do que as marcações diminutas de nossos dias, o que acontece no Pacífico reflete nas costas do Atlântico – um continente inteiro pelo meio. No entanto, para cada um de nós, existe um inverno diferente. Para quem gosta do frio, hoje está sendo um dia ideal, assim como para os lojistas, que estão a se livrar do estoque abarrotado de peças deste “inverão” de 2019.

Inverno (3)

Apesar da quentura que envolve a cidade, as sombras das manhãs invernais não se enganam. Oblíqua, a luz do sol, sombreia os corpos dos edifícios da cidade que amanhece. Para quem acha que a sombra esconde algo talvez não se dê conta que é a própria sombra que está a se mostrar como protagonista.

Inverno (2)

Ainda sobre a luz invasora que antes se mostrava soberana – os obstáculos se tornavam adornos ao seu toque. Os perfis banhados, lambidos, vestidos e desnudos pelo sol ganhavam outra identidade. A vida acontecia tanto sob seu brilho como à sua sombra. Contraste digno de pintores renascentistas – “chiaroscuro” de Caravaggio – imposto mesmo aos olhos dos incautos-incultos.

Inverno (4)

As nuvens nos dias claros do início do Inverno, antes do cinza total que se apresenta agora, desenhavam quadros que têm um quê de tempos idos e são bem-vindos aos novos olhares. Creio, mesmo, que enquanto puder ver, tudo se apresentará a mim como símbolo da novidade de existir.

Inverno

Outro dia, em uma dessas manhãs frias, um jovem casal passou por mim em passos céleres. O rapaz carregava o filho no colo, enquanto a companheira ao seu lado, bolsa e mochila. Iam de mãos dadas, algo tão incomum nos dias que passam, que chamou minha atenção. Em determinado momento, o moço trocou o filho de braço. Soltaram as mãos por instantes, até as unirem novamente. Dobraram a esquina e logo chegaram à porta colorida da casa onde entregaram a criança, a beijaram e a viram entrar confiante entre abraços das “tias” da creche. De novo de mãos unidas, encetaram o caminho em direção ao ponto de ônibus. Essas cenas aqueceram meu coração…

Inverno (1)

Inverno de eclipse solar total. No entanto, aqui, em Sampa, às 17h39 do dia 2 de Julho – quando o fenômeno natural atingiria seu auge – o meu olhar em direção ao horizonte não viu o astro-rei encoberto pela Lua. Encontrei a tarde a declinar como sempre, nublada e tenuemente clara. E ela me encontrou meditativo e levemente obscuro. Certas manifestações ocorrem e não ocorrem: questão de ângulo e lugar.

Inverno (5)

Finalmente, o Inverno chegou ao seu tempo. Aqui em Sampa, por onde passa a Linha do Trópico de Capricórnio e abaixo, nos Estados sulistas, costumamos sentir as estações mais ou menos delineadas em seus parâmetros “ideais”, somente que de modo bem mais suave que as terras do Hemisfério Norte costumam apresentar – Primaveras floridas, Verões “callientes”, Outonos desfolhantes, Invernos nevados. A chegada da frente fria à cidade, trouxeram chuvas torrenciais, o maior índice pluvial para um único dia desde 1976, quando eu tinha de 14 para 15 anos de idade. Tentei lembrar se a mesma situação foi marcante, mas tantas águas passaram por mim desde então que não consegui me deter sobre qualquer fato relevante em qualquer das estações daquele ano. Estou muito ocupando com o hoje-agora-instante, pesado o suficiente para dar alguma importância a fatos passados, ainda que influencie meu Presente. Temperaturas de -4ºC no Rio Grande do Sul, geadas e eventualmente nevascas intermitentes atraem pessoas que se sentem transportadas para fora do Brasil tropical. Enquanto pessoas, entidades e campanhas do agasalho tentam minimizar os efeitos do frio naquelas que sofrem a condição de viverem no Brasil real. É o Inverno de cada um – dores, amores perdidos, corações conquistados e partidos – frio e calor. Antes assim, que o que é morno não me move…

BEDA / Se Não For Para Causar, Nem Caso

Fogo & Gelo

Maria, figura esfuziante e autossuficiente, trazia o sol atrás de si aonde quer que chegasse. Era desejada por homens e mulheres, mas não se prendia a ninguém. No trabalho, sorriso aberto, conseguia conduzir aos seus comandados com facilidade e seriedade. A chegada das sextas à noite, saia com o grupo de amigos, muitos, antigos colegas de escola. Todos a amavam. Quase todos a tiveram nos braços, mas sabiam que ela era uma espécie de patrimônio da humanidade. Como conseguia equilibrar tantas emoções que provocava, era um mistério que nunca conseguiram desvendar. Ou se aceitava Maria ou se afastava para tentar nunca mais vê-la. Porém, tamanha a sua força atrativa, poucos a deixavam. Era fogo que aquecia.

José, recolhido e triste, enviuvara há pouco tempo, sem filhos. A sua personalidade plasmada em gesso sem acabamento, ganhou feições de grandiosidade de um deserto aberto. No entanto, sempre prestativo, era querido por muitos. Gostavam de tê-lo por perto porque era aquele que parecia concordar com tudo o que fosse dito, calado que era. Poderia se dizer que fosse uma figura decorativa, porém indispensável. Eficiente em suas funções de contador, não sabia contar quantas dores já sentira na vida, sensibilidade à flor da epiderme mais basal. Era gelo que não derretia.

Ora, pois então, deu-se que um dia acabar por se encontrarem, em uma tarde de outono, Sexta-Feira Santa. Maria, reservava um dia por semana para estar só ao sol – amigos estelares que eram. José, ainda que companheiro silente preferido de muitos, se sentia melhor quando confirmado em sua solidão tranquila. Ela, a buscar a luz por entre o arvoredo do parque; ele, a se sentir acolhido pela sombra oferecido pelas folhas – encontrão, peito com peito, distraídos dos dois, absortos pela Natureza. Olhos nos olhos, antes da queda… ou quase, já que ele, em um movimento de insuspeita agilidade, a segurou nos braços. Fogo e gelo em pleno Horto Florestal. Desculpas recíprocas. O sorriso dela a queimar a pele dele. A profundidade do olhar dele a abarcar a energia dela.

Tão diferentes, que não se estranharam. Antes, curiosos por viajarem por terras tão distantes, se sentiram atraídos pela aventura de se conhecerem. Decerto, não era algo que faltasse a um e outro. Ambos se sentiam completos, ao seu modo – uma, pela opulência; outro, pela falta. Não precisaram trocar palavras ou gestos efusivos. Apenas o dançar suave de mãos e olhares, jogo de silêncios e risos sem motivos aparentes. Ela, em sua presença, brilhava ainda mais; ele, na dela, se aprofundava mais firmemente em sua segura e sólida guarida. Longe da multidão que os cercavam, no entanto, se reconheceram amantes mutualmente. Já, naquele dia, o finalizaram em batismo de fogo e gelo. Queimaram e umedeceram os lençóis noturnos e, mais tarde, matutinos. Final de semana prolongado da Paixão.

Celulares religados, mensagens e chamadas perdidas os fizeram perceber que o mundo os queria por perto – familiares e amigos, carentes do corpo caloroso de Maria e da presença refrescante de José. Logo, perceberam que não queriam se separar, talvez não conseguissem. Ambos estavam surpreendidos pela força que os uniam, ainda que não precisassem o que fosse ou como denominar aquilo que sentiam. Talvez fosse amor, uma doença grave ou uma dependência psíquica, vício imediato, feito crack. Decidiram revelar ao mundo de entorno de cada um, a partir daquele instante, estariam juntos… Quase em uníssono, se perguntaram, como se tivessem uma plateia a inquiri-los: “Até quando? ”… Quase que imediatamente, responderam: “Não sabemos! ”… Riram gostosamente.

Feita a excursão por seus respectivos planetas, souberam que a aliança entre as partes não seria facilitada por seus habitantes. Seguiram em frente, alheios ao antagonismo – puro egoísmo de quem se acostumara a companhia constante de seres tão especiais. Com o tempo, a percepção de que ambos os lados não perderam amigos, mas ganharam outros, trouxe paz ao sistema solar.

A contrariar todas as expectativas e suas próprias convicções pessoais, quiseram fixar um núcleo central. Um lugar de reconhecimento como sendo a casa do Sol e do Gelo. Um ponto de referência. Já que não precisavam casar, porque não casarem? Reuniram a turma toda e anunciaram o enlace. Com o seu jeito faceiro, Maria completou: “Se não for para causar, nem caso!”… “E quando será?”… “Está sendo”…

E foram declarados: Vida e Paixão…

Imagem: https://magawallpaper.wordpress.com

BEDA / A Amante Da Luz

MINHAS NOITES (6)

A amante
da Luz recebe em seu corpo
os oblíquos raios solares
desta manhã outonal…
Ela ama o calor que aquece
mas não queima…
Que preenche os seus lábios,
cabelos
e olhar
de amor luminar,
a escorrer por seu colo,

peito

e umbigo…

A amante
da Luz vive, também,
o Outono de sua vida…
Já foi Primavera,
Verão…
Os seus olhos já viram
muito mais do que verão…
A amante da Luz sabe,
e, mais do que isso,
deseja,
não ver chegar do Inverno,
a escuridão…