03 / 12 / 2025 / Carta Ao Velho Que Sempre Fui

Eu nasci velho. Banguela, meu sorriso de menino era de quem suspeitava que as coisas aconteceriam como se fosse uma reprise. Eu, quando comecei a crescer, encarava como se vivesse um dèjá-vu diário. Não era incomum que me imaginasse revisitando situações já vividas. Quando novo, já havia decidido não me casar. Não queria participar de um jogo de cartas marcadas, mesmo porque nunca fui bom em carteado. Aliás, pouco aprendi a viver e a jogar. Cheguei à vida adulta totalmente despreparado para viver sob as regras de um homem maduro. Aliás, quando me vejo em situações de adulto mais velho, como aquele que estou a me tornar, percebo que sou mais sensato do que os que jogam sob as regras do Sistema. A medida é não passar por cima das pessoas para me sentir melhor, como é comum acontecer frequentemente. Tanto no trânsito, quanto nos espaços que frequento como cidadão. Ser homem deveria ser uma vantagem neste mundo, mas como me envergonho muitas vezes de pertencer a esse gênero, tento passar despercebido como tal. É claro que sendo alguém que não se permite deixar de ver as degradações de nosso País, protesto, escrevo textos, converso a respeito, me coloco como antípoda desse processo degradante sob o qual vivemos. Mesmo que soubesse que dificilmente as circunstâncias mudassem radicalmente — estudante de História desde sempre — já tive esperança de que mudássemos de rumo, mas o animal humano não consegue deixar de ser autodestrutivo. É bem possível que essa capacidade nos leve à extinção. O pior é carregar conosco todos os outros seres que compartilham o planeta como residência. Eu sei que podemos desejar nos matar. Já passeei por essa trilha. Sei o quanto podemos visitar a escuridão e o desejo (mas já não mais) de cessar tanta dor.

Registro de 2019, com a presença de Cheetara.

16 / 10 / 2025 / Gratidão*

Quando alguém demonstra por ações claras a gratidão que sente por chegar onde chegou, muita gente critica.

Vejam só, anistiar quem deixou de usar máscara de proteção em meio a uma Pandemia que matou (oficialmente) mais de 700 mil pessoas, ainda mais sendo a autoridade suprema do País, dando um exemplo negativo, é apenas ser grato ao seu padrinho. Eu acho lindo!

Anistiar multas lavradas às concessionárias que prestaram péssimos serviços à população do Estado, deixando de arrecadar milhões de Reais, eu acho justo! Afinal, estamos nadando em dinheiro. Somos um Estado rico e estamos sinalizando que podem continuar a fazer o que não fazem.

Assim como querer entregar nas mãos da iniciativa privada uma empresa superavitaria para cumprir promessa de campanha e devolver o investimento feito no seu projeto, tudo bem! São exemplos de gratidão. Quem critica, são pessoas que não entendem que ao receber, é digno ter que devolver.

*Postagem de Outubro de 2023

08 / 10 / 2025 / Negacionismo*

Enquanto mangas que deveriam ser colhidas apenas a partir de Setembro caem bicadas por maritacas, a Amazônia e o Pantanal pegam fogo, produzindo mais gás carbônico do que recolhem do ar. A China e a Europa ficam inundadas por chuvas torrenciais, destruindo cidades e matando pessoas. Por aqui, o ex-ministro do Meio Ambiente, que deveria protegê-lo, está envolvido com o contrabando de madeira. O Brasil sempre carregou a marca da corrupção e da busca de benesses desde a carta de Pero Vaz de Caminha em que, junto ao anúncio da “descoberta” ao Rei da terra “em que se plantando, tudo dá”, pede um emprego para um parente. O que temos atualmente é um desgoverno propositalmente levado adiante por um Ignominioso Miliciano no Poder. Além da seca terrível ela qual o País passa, o desastre é que não temos perspectivas no horizonte enfumaçado porque isso interessa a muitos agentes dos dois lados — os que querem permanecer no poder e os que querem vê-lo desidratar para sucedê-lo. Caso contrário, não apoiariam a aprovação de um fundo partidário — que já é uma excrescência por si só — de quase 6 bilhões de Reais, enquanto falta dinheiro para o Censo Demográfico, sem o qual não sabemos como estamos como Sociedade. Traria a constatação de nossa decadência como Povo e isso faz parte do projeto negacionista.

*Texto de 21 de Julho de 2021

05 / 09 / 2025 / Independência Em 2020

Em 2020, por ocasião da comemoração do 7 de Setembro, o Google colocou na página de buscas essa imagem ilustrativa. Perguntei: “O que é que é isso, Google? Hoje é aniversário de independência dos Estados Unidos ou do Brasil?

Sintomaticamente, tanto naquela época, como agora, há uma parcela de cidadãos que expressam seu amor ao País de Trump com muito mais fervor e admiração do que para o nosso. Não se importam de prejudicarem a nossa Pátria em busca de ganhos pessoais — tanto economicamente quanto pessoalmente. Aliás, muitos dessas personagens confundem uma coisa com a outra — família e Pátria — aduzindo ganhos econômicos como tempero indispensável. Afinal, tudo gira em torno do dinheiro, mesmo. A Ideologia passa longe dos projetos políticos para se tornarem mecanismos de apropriação de meios para faturamento financeiro. Enquanto isso, vamos tentando sobreviver a tanta negociação entre as forças que dominam o País — políticos que passeiam entre as demandas populares e os interesses particulares.

28 / 07 / 2025 / Ódio (Ou Desprezo)

O ódio é um sentimento pessoal e intransferível? No meu caso, sim. Eu procuro não sentir ódio porque me sentiria intoxicado a ponto de adoecer. E nem quero exportar o meu sentimento íntimo ao próximo. Odiar me faz mal. Mas não deixo de sentir raiva. Para evitar um ciclo vicioso da raiva se transformar em ódio acabo por cultivar um sentimento que me desgastaria inutilmente, eu acabo por desenvolver um sentimento pior — o desprezo.

O desprezo é um sentimento pior porque pressupõe uma manifestação de superioridade em relação ao outro que não faz parte dos meus princípios. Além disso, sei que ninguém deve se considerar acima das forças da vida que equaliza a todos nós como seres pequenos demais para nos sentirmos superiores aos semelhantes. Ser um convicto também é algo que carrega um peso extra — o da imobilidade mental. É uma característica dos loucos.

Em contraponto, alguns considerariam que mudar de posicionamento seja uma questão de fraqueza moral. Por outro lado, a imagem que eu tenho é de estarmos sendo atacados com bolas de fogo jorrados por um vulcão em erupção e mudança de opinião é um movimento de autodefesa, evitando ser transformado em cinzas. Mas não fujo do campo de batalha. Pode parecer contraditório, mas considero uma maleabilidade racional, principalmente em tempos em que temos informações demais e, muitas, falsas, jogadas ao ar como se fossem bombas.

A batalha que mais se aproxima de soldado de uma guerra é a de me colocar contra o movimento de Ultra-Direita capitaneada a partir dos EUA pelo Agente Laranja. Assim como o veneno usado pelos EUA durante a Guerra do Vietnã,que ocorreu de 1962 a 1971um herbicida desfolhante que até hoje, segundo recentes pesquisas realizadas continuam a contaminar o solo e os habitantes do País asiáticoas suas ações, ainda que combatidas de frente, terá repercussões durante décadas.

Esse movimento encontrou dentro do Brasil aliados entusiasmados que mesmo ao prejudicar a nação não se importam em não apenas aceitarem como colaborarem com o movimento de ataque de guerra econômica ao País. O Agente Laranja, aproveitou seu posicionamento ideológico para justificar taxar em 50% todos os produtos exportados por nós ao País “amigo” por conta de uma suposta perseguição do Brasil ao seu “amante” –– como o próprio amante se coloca.

Essa tarifação supera qualquer outra impingida aos outros países e se configura como uma chantagem, como se fosse o resgate de um sequestro. O movimento que lidera, o MAGA, em suas bases carrega um grupo que mais se assemelha a componentes da Ku Klux Klan. Ou até do Neonazismo. Carregam a mesma raiz — ódio dirigido aos diferentes de suas convicções, com exponencial viés racial e um ideário religioso que avilta os mandamentos cristãos que dizem aceitar buscando, em última instância, a “purificação” do povo americano.

Querer a “América Grande” outra vez de fato idealiza deixar todos os outros países abaixo os seus pés. Isso não acontecerá. O inimigo anterior era a Rússia, agora é a China que cometeu o grandíssimo pecado de levarem o Capitalismo à sério, o transformando em política de Estado. Sua imensa população de 1,5 bilhão de pessoas tem saboreado com a paciência desenvolvida em 5.000 mil anos de existência alcançar pouco a pouco um patamar de desenvolvimento positivo como nunca na História da Humanidade.

A ideia de que se trata de um País comunista — apesar de não entenderem do que Comunismo se trata — faz com que encontre temerosos agentes de combate contra a sua ideologia. Mas a política empreendida pelo País asiático tem um método que não é usado pelos EUA — o de capacitar seu parceiro de negócios com estruturas que viabilizem as trocas comerciais como a construção de portos e vias de transporte como ferrovias e rodovias, além de fábricas locais. Talvez seja o comportamento mais próximo do que se significa, ainda que com características capitalistas, do que seja Comunismo.

O meu desprezo aos recalcitrantes de plantão, daqueles que estão à serviço do retrocesso, negociadores da pobreza para se sentirem ricos, de comerciantes do racismo e da negação de que somos iguais em direitos, aos defensores da religião como modo de desunião em vez de comunhão entre os cidadãos de um País e entre os povos do planeta.