14 / 03 / 2025 / Repercussões De Uma Pedra Jogada No Lago

O Mundo nunca foi, comparativamente, um lago sereno localizado entre montanhas que o guarda. Antes tem se assemelhado a Mar enfurecido, tempestuoso e sem regras. Bem, não estamos longe da verdade ao constatar que em breve o desequilíbrio climático fará com que de onde surgiu a vida no planeta poderá ser o fator desencadeante da morte da vida como a conhecemos na Terra.

Porém, apesar da imagem do Lago não se aplicar aos nossos tempos — os últimos 200 anos —, é condizente com a imagem que quero colocar: o da pedra no jogada que provoca em sua superfície o efeito de ondas concêntricas repercutidas ao longo da extensão que será mais extensa em distância tanto quanto maior o peso e/ou força com que for lançada sobre a sua face líquida.

E qual seria a pedra da vez? Um homem que guiado à cadeira de Presidente da nação atualmente mais influente do planeta tem como plano sub-reptício destruir os parâmetros econômicos comerciais sobre as quais se assentam as relações entre os países. Não que fossem perfeitas, ao contrário, mas a base sobre a qual quer erguer as novas diretrizes é sobre terra arrasada, tendo como entidade superior ao final do processo as fronteiras do seu País que, aliás deseja ampliar como se estivéssemos em nova etapa do Colonialismo. O que já acontecia em termos culturais, mas que não lhe dá a chance de aproveitar as riquezas minerais às quais quer ter acesso.

Acesso a commodities que estimulam a exploração predatória faz parte da agenda do tipo a qual chamo de “ultra branco supremacista”, com com características típicas do neonazismo como perfil político ideológico. As suas ações em pouco de “governo”, com todas as aspas possíveis, desestruturou várias agências regulatórias, demitiu muitos funcionários públicos responsáveis pela sustentação da Burocracia americana. Eu me lembro de uma vez em que se falava sobre o mau governo de um dos presidentes e o fato dos EUA continuarem com a sua estrutura funcional era o trabalho da administração pública que entrava presidente, saía presidente, continuava incólume.

Pelo poder e tamanho dessa pedra no caminho da nossa História, não duvido que o seu lançamento provoque não apenas aquelas simples e pequenas ondas concêntricas, mas expulsão da água do lago. Não gosta de ser pessimista, mas tudo irá piorar antes de melhorar, se não nos organizarmos para nos proteger dessa nova onda Imperialista.

Foto por Vilius Liulys em Pexels.com

28 / 01 / 2025 / A Farsa E Os Farsantes

Moro no Brasil. Aqui nasci e nunca pensei em daqui sair. Aliás, regionalizando um pouco mais, minha nação é a cidade de São Paulo, onde todas as etnias, crenças, imigrantes, saberes e ausências se juntam para criar essa amalgama de referências que são os paulistanos. Não é estranho que muitos “oriundi” — termo italiano para aqueles que saem da Itália para algum lugar, que aqui generalizo para todos os forasteiros — se tornem mais paulistanos que os aqui nasceram. A minha editora e mentora, Lunna Guedes, é um excelente exemplo. Em nossos encontros, ela me mostra uma São Paulo a qual não teria acesso se não fosse por ela. Incluindo as pessoas, as de “dentro” e as de fora da Scenarium. Quem pertence a esse grupo veio a se tornar a minha tribo.

Como num jogo em que as regras são falseadas, o “grande irmão” do Norte — no poderio de influenciar, criar e destruir — veio a colocar no comando um sujeito desqualificado (se formos utilizar as regras básicas de avaliação), mas que se sente como porco na lama a determinar destinos de multidões. Na terra que um dia foi pulsante pela chegada de estrangeiros em busca de oportunidades e gerou tamanho poder de renovação que durante os últimos 200 anos foi qualificado de maior nação da Terra está, como numa doença autoimune, a rejeitar a sua gênese de existir.

Tirante o fato de ter sido, desde a sua ascensão, um país que se destacasse pela violência e tendência à expansão após se unirem com o fim a Guerra de Secessão — os Estados Unidos da América do Norte — desenvolveram uma “personalidade” impositiva e se arvoraram em defensores da Liberdade, ainda que tivessem que suprimi-la nos lugares que invadissem. O novo Império Romano do Futuro, no entanto se dará conta de que perderam a oportunidade de continuarem a ser “o Farol do Mundo” ao reproduzirem as mesmas linguagens geradoras de revoltas e mazelas.

Amado pelo antigo governante deste País como referência de comportamento, o vemos como a que reproduzir a mesma linguagem, comportamento e fixações tão freudianas que o próprio Freud se surpreenderia por serem tão explicitamente reveladores de casos de neuroses propostos pelo inaugurador da Psicanálise. A conexão básica é a sexual. Principalmente a fixação anal. São fascinados com o controle das identidades de gênero, com o comportamento íntimo do povo, como se não fossem a nação que mais promove a indústria pornográfica como produto. Porque lá tudo é passível de ser comercializado.

O produto da atualidade é o Ódio. Talvez nunca tenha deixado de ser. O Ódio os movem e os comovem, os mobilizam acima de qualquer outra expressão humana. Com requintes de crueldade, exercem o “direito” delegado por “Deus” em determinarem o destino de milhões. Sem a alegada “invasão” que dizem sofrer, talvez não tivessem agenda. A própria mãe do homem-cenoura era alemã e só regularizou a sua situação no EUA após doze anos de estadia. O seu pai tem origem escocesa e a esposa é eslovena. A mulher-troféu creio ser a mulher mais triste nessa história toda. Vivendo em uma gaiola dourada, a sua linguagem corporal não deixa transparecer a antiga exuberância de ex-modelo.

O mesmo aconteceu por aqui. São tão típicos que não deixa espaço para a imaginação, a não ser pelas demandas assustadoras de se assemelharem a movimentos que já aconteceram 100 anos antes, com dramáticos resultados para o mundo. Ao acompanhar o Golpe de Estado que levou Napoleão III ao poder, na França do Século XIX, Karl Marx chegou a perturbadora conclusão de que a História acontece primeiro como tragédia e se repete como farsa. Afinal, numa crise de pouca autoestima e consequente ego inflado, a farsa vitaminada pelo poder atômico, pode determinar o início de uma terceira e fatídica tragédia humana — guerra generalizada no planeta. Nos encontraremos num novo Holocausto

23 / 01 / 2025 / Mister T. E As Indicações Ao Oscar

Como se fora um roteiro de um filme nonsense, um sujeito com todos os predicados de um clown, assumiu a cadeira mais visada do planeta Terra. Está deixando gradativamente de ser a mais importante e, com a sua posse, ingressará num período de decadência “moral” — parte da Filosofia que trata dos costumes, dos deveres e do modo de proceder dos homens nas relações com seus semelhantes — muito pela influência pernóstica que o “líder” da nação dá como exemplo comportamental. Único presidente americano a tomar posse tendo uma condenação na Justiça, tripudia da Lei libertando aqueles que tentaram impedir a nomeação do eleito em 2020, invadindo o Congresso Americano. Seis pessoas morreram e dezenas ficaram feridas.

Fazendo um discurso que prima pelas palavras ditas com a calma de um canibal prestes a devorar a sua vítima, enumerou as decisões que agridem a dignidade humana de um País que se desenvolveu através da imigração de povos de todas as latitudes. O viés Supremacista de sua fala destoa da tradição de uma nação que foi à guerra contra os nazifascistas que agora ocupam vários cargos na alta administração americana. Antigos aliados europeus já se preparam para se oporem à ameaça de uma radicalização baseada na extemporaneidade de um homem pequeno mas poderoso e que, por isso mesmo, é mais perigoso.

Eu achei ridícula a expressão “as outra nações terão inveja de nosso país”. Por mais que eu admire a pujança dos EUA, a eleição de um tipo desqualificado como o homenzinho-cenoura os deixam menores. Há setores que resistirão ao avanço da agenda neofascista, como os artísticos. As indicações de alguns dos filmes ao Oscar demonstra a opção por divergir de falas como “a partir de agora, só existirá ‘homem’ e ‘mulher'” — “Emilia Perez” (França), está aí para afrontar a diretiva tacanha. “Ainda Estou Aqui” (Brasil), que explicita as consequências da Ditadura na vida das pessoas, alterando as mais simples atividades, sonhos e percursos de uma família pareceu indicar claramente a sua nomeação como peça de resistência. Os decretos do Mister T. serão contestados, como já estão sendo pela Justiça, já que ofendem a Constituição e agridem os códigos tradicionais do País.

Um recuo óbvio que realizou foi não taxar os produtos importados, já que causaria inflação de forma imediata. Bem se percebe que ao ser eleito, o sujeito cria que estava sendo entronizado, como se Imperador fosse. O seu gestual e sua falta de habilidade para lhe dar com contrariedades, o torna uma figura fácil de ser ridicularizada. Mas assim como o personagem de “It“, é um monstro. Teremos que conviver com essa ameaça por pelo menos mais quatro anos ou mais, lembrando que o efeito da condução semelhante de um tipo de mesma (falta de) visão aqui no Brasil, trouxeram repercussões que ainda reverberarão por mais de uma década.

BEDA / Fernanda Young*

Em 2019* escrevi: “Precisamos sempre confirmar a beleza, mesmo que haja momentos que não a toquemos. Como o crepúsculo de hoje, após dias nublados, ainda que nos faça lembrar que nosso país esteja a arder em chamas. Para Fernanda Young.”

Parece que após os eventos inaugurados um ano antes, em que por uma série sortilégios e atividades subterrâneas ligadas às instituições comandadas por asseclas, ascendeu um movimento que jazia no esgoto da Sociedade brasileira e que eclodiu feito vulcão de dejetos ideológicos, vindos diretamente de nossa tradição de País a ser o último a declarar o fim da Escravidão, oficialmente.

Formas de aprisionar parte da população continuam em atividade e quaisquer iniciativas que visam desmontar o sistema escravista — agora mantido através de baixos salários — são atacados por todos os lados, incluindo setores supostamente independentes, em tese, como a imprensa “oficial”. Para os que escapam do que seja correto, restaria a prisão, mas ela é utilizada para encarcerar a população mais diretamente afetada pelo Sistema.

Na época do enunciado acima, a notícia do passamento de Fernanda Young me deixou um tanto abalado, aliado ao fato de estar cada vez mais surpreso ao perceber o quanto boa parte de nossa população tinha abraçado ideias tão antiquadas que deixariam George Orwell estupefato por ver as suas previsões serem demonstradas, ao estilo de 1984, de forma tão canhestra. Pessoas como Young, sensíveis, inteligentes, antenadas, sofreram muito durante o tempo que o Ignominioso Miliciano percorreu a vida brasileira com as suas ações de cunho fascista.

Mas a sua presença em liberdade continuou a estimular a propagação da ignorância como algo a ser elevada à condição de predicado a ser comemorado. E então, seguidores dessa tática de desmonte da sanidade como linguagem atraente para tantos, com a mentira como mantra comandante das estratégias de suporte, mais novos e preparados para atender às expectativas daqueles que preferem “tiro, porrada e bomba” em vez de argumentos cabíveis para a intermediação de conflitos, se sobressaem. Temos percebido esse fenômeno acontecer ao observar os novos candidatos às próximas eleições municipais de 2024.

Fernanda Young não merecia ver o que aconteceu após o dia 25 de Agosto de 2019, dia de sua partida. Talvez tenha sido o único benefício de vermos uma das vozes mais incisivas da nossa geração nos deixar órfãos de seu talento.

BEDA / Meus Anos 50*

Vivo meus anos 50. Mais um pouco, inaugurarei a sétima edição anual da década. Este decênio foi totalmente diferente do que idealizei. E completaria: graças a Deus! Ao final dos meus Anos 40, tive um episódio de saúde que modificou minha interação com a vida. Cinquenta anos em cinco – emblemática frase de Juscelino Kubistchek — apenas emprestava números ao desejo de fazer crescer o país dos Anos 50 — cuja a inauguração de Brasília, no início dos 60, foi um marco. Nestes meus Anos 50 particular, esperarei ter crescido, ao final de tudo, cem anos em dez — a crise hiperglicêmica foi a minha marca inicial, em 2007.

Definir datas como pontos cardinais, com números redondos parece ser uma tentativa para justificar situações que teriam começo e fim, sem causas anteriores e repercussões posteriores — uma espécie de “Big Bang” histórico, assim como anuncia a frase: “nunca antes, neste País…”. O Brasil parece ser uma nação de ciclos, sempre a se repetir, rota sem saída para o mar, com o apoio luxuoso de nossa falta de memória. Tento manter a lembrança daquilo que me levou a enfrentar determinadas situações. Sem isso, não há como saber como cheguei aonde estou. Adotei a imprudência de me arrepender apenas do que não fiz. No mais, apesar da tentação de deixar tudo ao “acaso”, se é que ele existe, sei do rumo que tomei. E das consequências que ele gerou.

O contexto em que vivo os meus Anos 50 tem sido incrível. É como se tivesse aberto os meus olhos apenas agora, nos meados do meu século de vida. Eu me deixei levar pela aventura de amar — dizem que o mocinho morre no final. Eu retomei os estudos, entre compromissos profissionais e pessoais. Lancei o meu primeiro livro e estou prestes a lançar o segundo, dia 25, antes que este Agosto se encerre**. Nunca me senti tão pleno, talvez viva o ápice que todos visitam, antes do fim.

Ainda aguardando as surpresas que me reservam esta era, já vislumbro as possibilidades dos Anos 60. A década histórica do século passado, na qual nasci, foi uma das mais importantes dos 1900. De alguma forma, aglutinou todos as potencialidades que vivemos depois. Marcou mudanças estruturais que ainda repercutem nos dias atuais. Guerras (frias e quentes), luta pelos direitos civis, emancipação da mulher, revoluções político ideológicas e comportamentais, viagem à Lua e a propaganda da ideia do “País do Futuro”, entre tantos fatos possíveis.

Saúdo a todos e a todas que estão chegando aos seus próprios Anos 50. Saberão que a vida ganha frescor, com o início de novos e estimulantes formatos e término de antigos e infrutíferos projetos. Muitas vezes, com pesar, porém com convidativos e bem-vindos significados.

*Texto de 2018

**O livro de contos curtos “RUA 2”, editado pela Scenarium Plural Livros Artesanais, foi lançado em 25 de Agosto de 2018