Uma Breve História de Paixão*

Paixão

A minha irmã, Marisol, vizinha separada por um portão (para não misturarmos os cachorros do lado dela – são cinco – com as minhas cadelas do meu lado, quatro), em busca da nossa poodle Sandy, que sumira, em suas andanças pelas ruas do bairro, acabou por recolher dois outros, aos quais nomeou como Júnior (nome do irmão da Sandy, artista) e Bento pois, católica fervorosa que é, ela o encontrou no dia de São Bento (11 de Julho). Bento foi abandonado provavelmente por causa de uma paralisia dos membros posteriores e só consegue andar por algum tempo com o uso constante de remédios. Boa parte do dia, ele mal consegue se deslocar. Mas isso não o impediu que ele transpusesse o portão e tentasse encontrar a Penélope – labradora que infelizmente está acima do peso – está no cio e este chamado da natureza foi poderoso o suficiente para propiciar o registro dessa paixão.

*A Sandy sumiu em busca de minha mãe, sua cuidadora, que faleceu em Fevereiro de 2010.

A Esfinge

Exposta às intempéries – à luz, à câmera, aos desejosos olhares –
passam todos por sua superfície,
essência que se esconde,
ao se mostrar em pele…
Corpo de mulher, cabeça de azul – esse ser-etéreo-cor –
proclama a antiga máxima, apenas por tradição:
“Decifra-me ou lhe devoro!”
Pois que não deixa de devorar, a quem-qualquer se lhe aproxima –
o pensamento e a atenção – tensão
que não se basta.
Antes, se abastece da atração – se desbasta
de adoradores que se entregam, de bom grado,
à sua devoção-devotamento…

A Esfinge ora a que deus, se ora?
A oratória é de quem quer ser,
mais do que a qualquer divindade – adorada.
De hora em hora, são miríades – mulheres, homens e anjos-de-asas-sem-penas –
entidades-sem-sexo a penarem
por seu olhar-de-terra-à-vista do primeiro astronauta:
“por mais distante,
o errante navegante –
quem jamais te esqueceria?

Eu-o-observador, creio que seu segredo está em não ser decifrada –
A Esfinge –
mas ser aceita em sua complexidade-de-mulher-que-finge
ser quem não é, por profissão
de fé e paixão.
Que esse fingimento é sua essência-de-jogo-de-espelhos que se alheia
e se mistura às gentes, que as consumem por dentro,
enquanto sua beleza de Alien simbiótica-mística-quântica
a reproduzir sua imagem em cada íris de quantos-olhos-outros,
muitos, embarcados em existires sem nexo.
Por que o faz, se mata de amor aos seus hospedeiros e se deixa morrer?
Sua natureza esfíngica explica…
E nada revela!

https://www.youtube.com/watch?v=mWWIi65O5dg

BEDA / O Desamado

DESAMADO
Amanhecer fogoso…
O sol assoma no horizonte,
impetuoso…
fulgurante…
No entanto, para o desamado,
os seus raios não apenas queimam,
mas penetram, feito adagas,
a golpearem o seu corpo cheio de chagas…

Aturdido, o desamado
não compreende como pode tanto amar
e se ressentir tanto
de quem ama…
Padece por estar longe…
Quando por perto, é repelido
e sofre por ver seu amor desperdiçado…

A quem ama,
também o amou…
Ou talvez ainda o ame…
Mas viveu outras histórias de paixão
que machucaram o seu corajoso coração,
tão bravo que insiste em se apaixonar de novo…
Precisa se sentir plena e ímpar,
não apenas distinta entre todas,
mas única e soberana,
feito uma leoa na estepe…
Qualquer olhar lateral a faz desconfiar,
a remete às presas fendidas,
às paixões perdidas…

Como defesa,
prefere boicotar o amor,
substituir a sofreguidão pelo corpo do amado
por outro vício –
cigarro, bebida, sexo sem sentido, qualquer droga…
Afastar o desejo por aquele que a fere sem querer –
o triste desamado, que naufraga
em sua santa ignorância
inepta e juvenil…

Acordo No Céu

Céu

A Natureza vive de nos envolver em brincadeiras
Das calmarias às ventanias de arrancar bandeiras
Nos transporta da estabilidade ao chão fendido
Do acolhimento da sombra ao tronco retorcido

Da temperança do ar à sobrevinda do cataclisma
Da sucessão das estações ao desarranjo do clima
Do calor seco do Saara ao frio da gélida Antártida
É raro a temperatura se apresentar sempre tépida

É como se fora as desventuras do amor e da paixão
Um, o ambiente é a Terra; outro, o lugar é o coração
Hoje, a raridade se fez regra – houve um acordo no céu
Uma trégua no calor, no furor, a fazer duvidar o incréu

Descia suave cortina de chuva enquanto reluzia o sol
Era o entardecer a me oferecer mais um tema de escol
Pássaros cantavam, abelhas bebiam doce vida da flor
Um final de luz natural que carregarei para onde for…

Transformação

Transformação

A metamorfose se deu, de início
pelo olhar…
O movimento dela o paralisou.
Como se fotografasse cada gesto,
aprisionou dentro de si a evolução
do casulo à borboleta –
da flor ao céu –
asas da imaginação…

Quis recuar quando suas vozes
ocuparam o mesmo ambiente –
palco de suas atuações…
Percebeu que fluíam sonoras
conversas de palavras
entrecortadas,
caladas…
As lacunas preenchidas de desejos
perfeitos em suas incompletudes.

Quebradas as barreiras –
distâncias de centímetros-quilômetros –
peles sem proteção,
mentes despertas,
liberta de atavismos
e consequências,
o imediato transformado em eterno,
se reconheceram outros,
os mesmos…

Ele,
transmutado
de Jekyll em Hyde,
de homem em lobo,
de mortal em vampiro,
de Clark em Superman –
todos e ninguém,
vivia ausente de si…
Passou a respirar o vácuo
se não aspirasse o hálito da paixão…

Transformação
irremediável,
perigosa,
instável,
liberdade de viajante
encarcerado,
não trocaria o permanente desconforto
do atual caos da criação do mundo
pela antiga estabilidade da morte
em vida…