Projeto Fotográfico 6 On 6 / Atos / Abraços

Este texto e imagens também são uma homenagem à minha mãe.

É a respeito dum ato prosaico, do dia a dia, feito tantas vezes inconscientemente, poucas vezes repetido por mim ao longo de muitos anos abraçar. Quando novo, eu vivia uma relação tumultuada com os meus pais, no meio da guerra constante entre eles. Isso a tal ponto me influenciou que havia decidido me abster de não seguir a trama do enredo da maioria das pessoas me casar, ter filhos ampliar a família para além da que já tinha, tão cheia de conflitos. Levado a um beco sem aparente saída no meu caminho de me afastar do contato humano mais íntimo, mudei de ideia e consegui vencer essa barreira através de minha companheira e filhas. Voltei a exercer um ato que só empreendia na infância, com a minha mãe. Expressão de amor, também voltei a abraçá-la e abraçar às outras pessoas, aceitando-as. Ainda é difícil aceitar a mim mesmo, mas acho que até o último dos meus dias, eu chegarei lá…

Nascida a 6 de julho de 1932, Dona Madalena faria hoje 89 anos.

Pelas expressões que carrego nos registros de pequeno e pela lembrança que eu tenho até ter feito uma das minhas “viradas” de personalidade/comportamento, fui uma criança feliz. Naturalmente, eu não sabia disso. É comum, apenas depois do contraste revelado por experiências pessoais, que descubramos que o ouro sempre esteve à flor do chão. Quase 50 anos separam as imagens desses abraços. A mais recente ocorreu perto do passamento de minha mãe, em 2010.

Nesta imagem de 2016, em um domingo em que eu aniversariava, o meu presente foi ter presente a minha família reunida junto a mim, algo cada vez mais raro, já naquela época, em que as “minhas” meninas começavam a ter vidas autônomas da familiar. Pois não criamos as “nossas” crianças para que assim sejam, delas mesmas?

Em 2015, comecei a ser publicado pela Scenarium Plural Livros Artesanais. Um dos lançamentos foi o projeto dos 7 (Pecados Capitais), com irmãos de letras. Então, começava a abraçar não apenas pessoas, mas a escrita como caminho irreversível a ser trilhado. E novas pessoas para abraçar vieram junto com o prazer (e a dor) de escrever. O bom filho a escrita volta…

Em 2010, no último dia de aula prática de Ginástica Artística, há este registro de congraçamento entre os estudantes. Eu, um deles, que voltei a ser depois de velho, me sentia bastante à vontade entre os (bem) mais jovens, renovado por contatos que mantenho até hoje, mesmo que alguns ocorra apenas por redes sociais.

Luiz Coutinho, à esquerda e Marineide, ao centro da imagem

Falando em redes sociais, ela acabou por gerar contatos virtuais que geraram abraços presenciais. Tive o prazer de encontrar amigos especiais que enriqueceram a minha vida de várias maneiras, como o Luiz Coutinho. No caso da amiga Marineide, cremos firmemente que foi, na verdade, um reencontro de outras vidas, depois de termos sido deixados na Terra pela Nave Mãe.

Registro de um dos últimos eventos realizado antes do advento da Pandemia de Covid-19, no final de fevereiro de 2020

Outra família que formei ao longo dos anos foi no trabalho. Várias das pessoas nesta imagem foram e são importantes na formação de minha personalidade mais abrangente em termos de desenvolvimento emocional e profissional. É apenas representativa de um círculo bem maior de relacionamentos que, acredito, nunca são por acaso, como tudo na vida, aliás. Com a Pandemia, o meu métier foi um dos que mais sofreram porque lida justamente com o congraçamento, a alegria, a festa, o abraço um ato que muitos deixaram de exercer por ser estranhamente quase mortal. Muito mais estranho são os tempos que vivemos, intencionalmente ampliado por vontade e (maus) atos de alguns.

Também participam:

Lunna Guedes / Mariana Gouveia / Darlene Regina

Notícia Velha*

Praia Grande, São Paulo, em 20 de Julho de 2020

Estamos envolvidos no enredo da Pandemia desde meados de março de 2020. Essa marcação seria desnecessária, se o eventual leitor deste texto estiver no Presente. Porém, quem estiver correndo os olhos por estas palavras no Futuro, estará em seu presente sem uma doença que afligiu a população de todos os países, com dolorosas perdas pessoais, sociais, depressão econômica e instabilidade política. Estabelecido o “quando”, cumpre dizer “onde”. Estou no Brasil (ou estive) e talvez quem me leia repercutirá o que leu no meu hipotético futuro em que estarei fora deste território ou, fortuitamente, fora desta dimensão.

Estou no meu Passado alguns dias fora de São Paulo, em Cidade Ocian, na Praia Grande, no litoral que, com o tempo, ganhou o nome de Litoral Santista, por influência da cidade mais importante da região. Quanto ao tempo, me refiro à importância que este local representa em minha história pessoal. É como se o que experimentei aqui tenha sido tão forte que retorno às vivências ensolaradas e delas me alimente no Presente, mesmo neste dia frio de julho. Aproveito o tempo para ler, escrever e fazer exercícios localizados (músculos superiores), ciclismo e caminhada. Estes últimos, com o uso de máscara, atento que estou ao contato com os aerossóis. 

Você, do Futuro, que talvez não esteja entendendo ao que estou me referindo, saiba que o contágio pelo Novocoronavírus podia ocorrer de variadas maneiras pelo ar, no contato com objetos infectados (infimamente) e, principalmente, no contato físico próximo (sem o uso de máscara). A depender do futuro que esteja vivendo, o uso de roupas impermeáveis ou objetos similares já é uma realidade para uma parcela da população, a se considerar que as diferenças sociais não terão sido superadas, como é, aliás, característica intimamente ligada às sociedades humanas, permanentemente.

De certe maneira, o que na Índia milenar tornou-se o padrão na formação de sua sociedade a divisão em castas foi reproduzida pelas sociedades modernas, principalmente nas Capitalistas de forma mais premente, mas também naquelas que buscou adotar o Socialismo como caminho. Eu deverei morrer sem ver alguma mudança para melhor no meu País com relação a essa questão. Não ajudou em nada a eleição de um sujeito despreparado, sub-reptício e claramente propenso a não cuidar da sua nação em que existe, na verdade, a vontade de radicalizar as diferenças.

Incisivamente, percebo que no segundo ano de seu mandato, o Ignominioso investe no quanto pior, melhor. Desconfio que as falas toscas que caga por sua boca visa provocar a situação em que ele se sente mais à vontade a desorganização, a mentira e o engano a confusão, enfim. Mas não apenas por palavras, mas também com ações, o Ignominioso busca aplicar exatamente o plano que alardeou na campanha o desmonte de todo o sistema de suporte à população em estado vulnerável, a invasão da Amazônia por motosserras e a liberação indiscriminada de garimpos nas reservas indígenas. A chegada da Pandemia de Covid-19 para ele foi praticamente um bônus que aliviou o caixa do INSS no pagamento de muitas aposentadorias com o “cancelamento de CPFs” (numa expressão comum entre os milicianos como ele) em massa de idosos.  

Há a chance da chegada da vacina antes do previsto, até o final de 2020. Se pudermos manter o distanciamento social, o uso constante de máscara (apesar do capitão de milícias a tê-la como símbolo de oposição à sua diretiva) e álcool em gel regularmente, nós poderemos iniciar uma vacinação no início de 2021. O que me preocupa é que a capacidade de produção mundial de imunizantes é de dois bilhões por ano. Seria importante haver a aquisição o maior número de doses possível para que, com o tempo, possamos atingir a imunidade vacinal em vez da tese ridícula de imunidade de rebanho por contágio propalada pelo Governo Federal, o que levaria a centenas de milhares de mortos.

Sozinho, refugiado na casa da praia, sem poder ir às águas do mar que tanto amo, mesmo neste frio de inverno, fico a viver um humor pendular ao sabor das notícias cada vez piores que prevê que cheguemos a incríveis 90.000 mortos até o final do mês. Estamos sem ministro da Saúde e não sei que pessoa séria assumiria a pasta neste governo inoperante e sinistramente adepto de uma política negacionista que poderá levar o Brasil a um estado de indigência planetária.

*Texto de 20 de julho de 2020, que deixei de lado por achar cansativo ao repisar assuntos repetitivos. Quase um ano depois, não perdeu a atualidade. É como se estivéssemos presos num Limbo.

Fala Sobre O Falo

Freud explica”, razoavelmente o comportamento dos adeptos da atual linha ideológica defendida pelo Ignominioso e sua gangue. O médico Victor Sorrentino (cirurgião plástico), amigo do presidente e defensor das teses estapafúrdias do controle da Pandemia de Covid-19 através das medidas cientificamente ineficazes propaladas pelo núcleo duro do Governo Federal, foi preso no Egito por assédio moral contra uma vendedora de papiros. Falando em português, para desconforto da moça que o atendia, “brincava”, como os meninos criados numa cultura machista fazem, versando sobre o tamanho e a dureza do artefato de papel. O vídeo foi gravado como se fosse um momento de descontração. Obrigado a pedir desculpas, está detido enquanto o seu caso é analisado pelas autoridades egípcias.

“Homens” sexistas como ele costumam se defender usando argumentos como a roupa que a mulher veste, o que o incentivaria realizar esse tipo de violência moral. A vendedora usava uma vestimenta tradicional em que só o rosto aparecia. A esposa do “doutor” veio à público defendê-lo declarando que “as pessoas veem maldade em tudo”. O que leva a outra constatação muitas mulheres, além de vítimas, incorporam esse tipo de comportamento como “normal” ou seja, uma norma sobre a qual não devemos discutir porque é próprio dos machos. Eu, como ser humano do gênero masculino, posso dizer que os homens também são vítimas desse sistema educacional e moral engendrado no bojo do Patriarcado, misturado a regramentos religiosos, ambos umbilicalmente unidos no desvirtuamento da nossa formação psíquico-social. 

Outra médica (pediatra), a Drª. Mayra Pinheiro chamada de Capitã Cloroquina por defender o medicamento tanto para tratamento precoce como para a cura da Covid-19 — protagonizou piadas e “memes” ao ser inquirida sobre a avaliação de sua visita à FIOCRUZ quando, em vez de fazer colocações acerca das questões técnicas e de trabalho da centenária instituição, relatou sobre a presença “pênis” inflados à porta do Pavilhão Mourisco, tapetes com o rosto de Che Guevara, cartazes de “Lula Livre” e “Marielle vive”. A passagem sobre o símbolo fálico foi levantada na CPI sobre as ações e omissões do Governo Federal em relação à Pandemia e virou manchete em meio ao caos administrativo em que vive o País, em todos os aspectos. O mais triste é que médicos utilizaram a nebulização por cloroquina um processo experimental a la Mengele — que levou várias pessoas à óbito, além de inúmeros casos relatados de pessoas internadas gravemente por terem se fiado da cloroquina em associação com a ivermectina como panaceia no tratamento precoce à Covid-19.

O sexo é um assunto candente, praticamente uma fixação, que atende as demandas comportamentais dos defensores da atual gestão. A defesa de um estilo de vida hipócrita, dado os aspectos nada virtuosos dos seus praticantes — pastores que, em nome de Deus — acabam por camuflar desvios moralmente condenáveis, envolvendo recursos financeiros e poder. O próprio Ignominioso, sob a “inocente” figura patronal do “tiozão do pavê”, solta frases de viés sexual a torto e à “direita”, sendo que a última é “sou ‘imorrível’, ‘imbrochável’ e também ‘incomível’”. Declaração feita diante do cercadinho do gado, sem máscara, pelo sujeito de cu virgem, mente e boca suja. Enquanto isso vem paulatinamente alicerçando as condições para um possível golpe de Estado.

A possível confusão do logotipo homenageando os 120 anos da FIOCRUZ com a figura de um falo pela doutora em questão e a insistência do seu chefe supremo em colocar certas questões através de citações envolvendo sexo em variações pervertidas me faz lembrar o que já li sobre a teoria de Freud que em 1905 lançou luz sobre as fases do nosso desenvolvimento psíquico intrinsecamente ligado à sexualidade. À época de sua publicação, a teoria freudiana sofreu críticas pela frente puritana e, mais tarde, por seus seguidores e pares, em relação a algumas questões contraditórias e estereotipadas. O que não invalida a sua importância e alcance. Ao contrário, demonstra riqueza ao chegar a nossos dias identificando tipos canhestros que cabem como exemplo das fases de desenvolvimento psíquico-mental-sexual a frente (e atrás) dos asseclas palacianos — pai, filhos e “espíritos santos” do (des)governo. São como crianças na praia brincando de construir e destruir castelos de areia, enquanto comparam o tamanho de seus pintinhos.

No entanto, para mim, essa não é a questão. Mas sim a demonização do caralho. Lembrando que “caralho”, termo da língua portuguesa usado para designar o membro viril masculino era, até a Contrarreforma, em meados do Século XVI, usado até em documentos oficiais. Encontra correspondente no castelhano carajo, no galego carallo e no catalão carall, sendo exclusivo das línguas românicas da Península Ibérica, não se encontrando em nenhuma outra, incluindo o basco. Caralho também designava a cesta no ponto mais alto possível das naus portuguesas onde ficava o marinheiro com a tarefa de observar o mar em torno das naves. Na história de Portugal dos descobrimentos, foi o marinheiro que estava no caralho o primeiro europeu a avistar o Brasil. Sintomático, não?

Em muitas culturas, o falo é simbolicamente objeto de culto por representar a procriação, ainda que quem venha a gerar a descendência seja a fêmea da espécie. Ao mesmo tempo, após se desenvolverem no útero materno, a grandíssima maioria dos seres humanos nascem pelo encontro dos gametas masculinos e femininos através da ejaculação e fecundação. Para isso, é intrinsicamente necessário que o órgão masculino esteja ereto, a demonstrar potência. Sendo que o intumescimento do pênis é eventualmente saudado como uma espécie de elogio ao atrativo da parceira ou do parceiro no ato sexual. Diferentemente de outros animais, que passam por épocas específicas de acasalamento, o estímulo nos seres humanos ocorre primeiro na mente. O poder de fantasiar quanto ao ato sexual pode ser tão ou mais prazeroso que o próprio, a depender de quem o sente, apesar de haver os que o pratiquem de forma automática. Como o sexo começa na cabeça e é gerador de prazer para além da procriação, não há impedimento — a não ser por questões pessoais e/ou religiosas para que seja praticado por pessoas do mesmo gênero, por dois ou mais parceiros ao mesmo tempo.

No Patriarcado, tirante as questões quanto à mecânica do ato, ao transformar a ação reprodutiva em matéria de prazer, a mulher passa a ser vista como objeto de desejo por ser, justamente, a reprodutora da vida. Maior valor adquire caso tenha formas atraentes, variantes a depender do período, ligadas a características culturais. De forma abrangente, o prazer e sua busca solapam a organização social de tal modo que as religiões incorporaram sua interdição ou a restrição somente à procriação. Mais uma vez a mulher sofre o anátema por ser quem é e seu comportamento libertário passa a ser condenado. Tudo o que se desenvolveu a partir dos impedimentos moralistas ocasionou e causa muito mal à sociedade, como o uso do corpo como artigo mercantil. Bundas (cus), mamas, vaginas, “pau” ganharam a pecha de órgãos capazes de instabilizar a sociedade ao mesmo tempo que, como fonte de curiosidade mal resolvida, tornam-se caminho para perversões.

Contrário ao mandamento monogamista, tão caro e um tanto contraditório à postura comportamental ideal embandeirado por seus seguidores sectários, o Ignominioso gerou filhos de relações diferentes, algo perfeitamente afeito à característica do macho reprodutor que despersonaliza suas crias ao numerá-las em série. Assim como os males em série produzidos pelo Patriarcado e o ideário fascista, bases ideológicas de seu (des)governo.    

A Teoria da Sexualidade preconizada por Sigmund Freud e o desbravamento do entendimento de nossa intimidade mental revolucionou o mundo, mas não chegou a todos ainda por ter certa aparência sectária, concorrente, portanto, de outras religiões. Como antecipei, Freud pode e deve ser revisto em suas teses e posturas em muitos de seus tópicos, mas seu postulado consegue explicar muita coisa quanto ao subdesenvolvimento psíquico — infantilizado, mesmo — mas não menos perigoso, do grupo que tem levado o Brasil à encruzilhada macabra entre escolher o caminho para o precipício e consequente aniquilamento ou para o atraso puro e simples — social, político, econômico, educacional e institucional — da nossa nação.

A Terceira Onda E O Efeito Dallas

Fila de vacinação em Duque de Caxias, RJ, com espera de cinco horas e consequente aglomeração (Fonte: O Globo)

Nosso país está diante da enorme possibilidade de viver uma terceira onda de casos de Covid-19, que já partirá de um nível alto de ocorrências. E não será porque queiramos imitar o que já aconteceu na Europa, mas porque parece que o nosso espírito “macunaímico” nos impede de que sejamos prevenidos ou suficientemente articulados para adotarmos estratégias de sobrevivência saudável. Essa seria uma boa desculpa. Macunaíma é um herói sem caráter, não que seja intrinsecamente mau. Ele se parece mais com uma criança recém nascida que, por estar ainda em formação, aparenta ter nenhum caráter. Dessa maneira, se exime de culpa, já que assim como um incapaz, não é responsável jurídica e civilmente por qualquer falta. “Não é minha culpa, é de outros!” é a desculpa usual da criança peralta que comete alguma traquinagem.

Quando vemos uma situação se repetir sucessivamente estabelece-se um padrão. Quando se trata de uma conjuntura importante e potencialmente letal, é nosso dever nos defendermos. Diz-se popularmente que a pessoa inteligente aprende com os próprios erros, a pessoa sábia aprende com os erros dos outros. Quando advertimos aos jovens que não ajam de tal e tal maneira porque sabemos que o resultado não será bom “meu filho, vai dar ‘ruim’!” é comum a resposta ser: “pai, mãe, aconteceu com vocês, não acontecerá comigo” ou “eu não sou vocês, deixem eu viver a minha vida!”. O fato é que quando alguém quer fazer algo, quando o desejo se faz imperativo, não há nada que impeça o bom senso, os possíveis efeitos perniciosos para si ou as consequências desastrosas para os outros simples assim.

Se falamos de crianças que podem aprender a se comportar com o tempo ou de jovens em processo de amadurecimento é uma coisa. Quando versamos sobre adultos com vontade de fazer o mal e poder de materializá-lo é outra. Antes, o atual Governo Federal Brasileiro era reconhecido apenas como incompetente nas áreas de atuação governamental básicas, mas para quem soube identificar o perigo que o bando representava muito tempo antes de ter sido colocado na posição que ocupa, tem consciência de que havia um projeto de destruição do país, em suas diversas áreas. O que me espanta é a desfaçatez com que o plano é posto em prática e o fato de ainda arregimentar apoiadores pessoas de “bem”. De uma parte, com a defesa comprada à soldo junto aos representantes do povo no parlamento. De outra, com a anuência de quem fecha os olhos para o mal e absolve de antemão, não importando o resultado, todos os atos e omissões do Ignominioso e seus asseclas. É como se pudéssemos compreender embrionariamente o que se desenvolveu na Alemanha nos anos anteriores à Segunda Guerra Mundial, assim como a compreensão cabal do que Hannah Arendt quis dizer com a expressão “banalização do mal”.

Que uma porcentagem de cidadãos colabore com um projeto genocida não é inédito na História mundial. Já vimos isso acontecer antes. Mas nunca imaginei, nem em meus piores pesadelos, que isso viesse a ter sucesso no Brasil. Dentro do desgoverno brasileiro há pessoas que seguem a “cartilha da destruição” criada por um louco influente entre os filhos-numerais-cardinais do Ignominioso e que estrutura todas as tomadas de decisões levadas avante durante a Pandemia Olavo de Carvalho. Parece o enredo de um filme de terror distópico se não tivéssemos protagonizando a trama como simples coadjuvantes, tendo como resultado final o cheiro putrefato de quase meio milhão de mortos.

A falta de controle na gestão da crise sanitária causada pela SARS-COV-2, as idas e vindas (propositais) quanto aos rumos a serem tomados no combate à Pandemia: a falta de medidas preventivas eficazes, como o distanciamento social e o uso de máscara, substituído pela propaganda de remédios sem efeitos corroborados por estudos científicos sérios cloroquina e ivermectina , além da falta do suporte de um auxílio emergencial razoável; a criminosa protelação do uso de testes de Covid-19 até ocorrer o término do prazo de validade; a recusa em anunciar o número de vitimados pela doença, tanto infectados quanto mortos, o que impediria seu controle eficaz; a omissão quanto a compra de vacinas antecipadamente, sem respostas aos produtores dos imunizantes; o ataque aos prefeitos e governadores que promoveram ações preventivas; a troca de ministros da saúde como se fossem jogadores de futebol machucados e a adoção da ideia estapafúrdia de “imunidade de rebanho” que viria a “dar certo” somente quando morressem milhões de brasileiros. Tudo isso se houvesse apenas um tipo do vírus causador da doença. Contudo, eis que o vírus parece ser mais “inteligente” do que homens que se auto intitulam como tais e criam variantes que são mais letais do que as anteriores. Como a brasileiríssima amazonense e a indiana, diagnosticada em tripulantes de um navio malaio que aportou esta semana no Nordeste e que já foi detectada em outros pontos do País.

Se estivéssemos em processo de vacinação em massa, com pelo menos um milhão de imunizados todos os dias, teríamos como esperar que o Brasil voltasse a ter uma vida quase normal até o final do ano, como prometeu o atual perna-de-pau no time do ministério da doença. Considerando o ritmo vacinal de hoje, terminaremos de imunizar os adultos somente em 2023. Mas o Ignominioso, num movimento que alguns interpretam como cortina de fumaça, mas que para mim é de incendiário, voltou a ofender o principal fornecedor de imunizantes do mundo, fazendo com que a China atrasasse o envio de insumos IFAs para a fabricação da Coronavac (Butantã) e da AstraZeneca (FioCruz) como uma espécie de advertência diplomática, anunciando que destinará apenas um terço do programado.

O objetivo óbvio da quadrilha no poder é o de evitar o protagonismo de um inimigo político, não importando quantas vidas sejam perdidas por causa disso. Com a interrupção dos insumos, vivemos uma espécie de apagão, um hiato na vacinação que tem como resultado o avanço das variantes em todas as regiões. O que é um desastre para o País, veio a calhar para o desenvolvimento da “política” de fazer “passar a boiada” decretos que desmantelam gradativamente projetos sociais e conquistas justas obtidas pela sociedade civil organizada além de promulgar a destruição do meio ambiente. Devemos ficar atentos quando os milicianos filhos e pai se contorcem ao ser citado o Rio de Janeiro como um dos locais em que se dá a malversação de fundos ligados ao Ministério da Saúde. A “famiglia” atua diretamente na região. E como dizem os americanos “follow the money” e poderemos encontrar o lado B da corrupção. Acabamos por conviver com dois tipos de vírus que penetram no corpo da nação e nos destroem de dentro para fora.

Porém, há algo que o Ignominioso não poderá evitar e que, com o tempo, provocará a sua ruína e a nossa redenção algo ao qual chamo de “Efeito Dallas”. Dallas foi uma série americana que durou de 1978 a 1991. Era centrada nas tramas espúrias em torno de uma grande e rica família texana os Ewings que lidava com petróleo e gado. Com o tempo, o enredo trouxe para o centro a personagem de J.R., cujos esquemas e negócios obscuros se tornaram a marca registada do seriado. Sucesso no mundo todo, os governantes albaneses, promotores de uma República fechada em si mesma, controlada com mão-de-ferro por Enver Hoxha, decidiu que a produção americana era um bom exemplo da decadência moral capitalista e permitiu que fosse exibida no país. Para além das veleidades cometidas pelas personagens em nome do deus dinheiro, o povo albanês percebeu que, apesar das diferenças socioeconômicas, mesmo os empregados tinham casas razoavelmente confortáveis, aparelhadas com eletrodomésticos e automóveis na garagem.

A defasagem entre os estilos de vida na América e na Albânia deu ao povo albanês a consciência de haver uma outra possibilidade de viver menos austera. Um triunfo inesperado do Capitalismo, apesar dos esforços em demonstrar a decadência moral do “american way of life”. Isso ajudou na mudança do regime, principalmente depois da morte de Hoxha, em 1992. No Brasil, o “Efeito Dallas” está em andamento e, paulatinamente, mostrará a discrepância entre a política negacionista do Governo Federal e a de países como os Estados Unidos, de Biden, defensor da vacinação massiva de seus cidadãos. Graças a isso, os Estados Unidos estão reabrindo a economia e voltando ao estágio anterior de convivência social. Mais do que as negações dos governistas em seus depoimentos na CPI do Senado sobre as ações e omissões do Ignominioso e sua gangue, por comparação acabará por ser demonstrada a atuação danosa ao longo desse processo angustiante para as nossas famílias, através da contaminação monstruosa da ideologia assassina ora implementada. Espero que sobrevivamos para ver surgir um amanhecer menos tenebroso em futuro próximo.                                            

Mamãe*

Dona Maria Madalena, Ingrid (uma das minhas três filhas) e eu, em 1997

Em 12 de maio de 2019 mais um dia comemorativo dedicado às mães eu tentava lidar com as minhas precariedades e escrever me ajudava bastante a segurar a barra, ao identificá-las. Um ano antes de estarmos envoltos na Pandemia de Covid-19, estava a caminho de um evento em que haveria aglomeração de pessoas, festa e alegria coisa de outra vida e tento expressar o amor que pouco consegui revelar enquanto a minha mãe estava presente fisicamente.

“Estou sozinho, um pouco antes de estar rodeado de muita gente. Mas, a bem da verdade, sempre estou só. Por uma dessas coisas que não consigo evitar, não me distancio muito de mim, na maior parte do tempo. Quando consigo, fico aliviado e sofro… muito. Porque tudo e todos ganham gravidade e peso. Ou o excesso de peso é diretamente um efeito da gravidade de ser, multiplicada milhares de vezes.

Então, me sinto como se fosse ser esmagado. Tento superar, porém ao ser bombardeado pelos votos, disparados a torto e direito, de “Feliz Dia das Mães!” remeto meu olhar diretamente às mães que amam os filhos, apesar de tudo. Porque há mães que sequer gostam de seus filhos, como há filhos que não gostam de suas mães, quando as conhecem ou porque as conhecem. Ou que gostam muito, contudo não dão o braço a torcer declarando, simplesmente: ‘Mãe, eu amo tanto você!’

Tenham certeza não há presente mais caro e raro que valha tanto quanto se mostrar presente com todo o amor que seja possível declarar. Eu, de minha sorte, não perderei essa oportunidade: ‘Eu a amo, Maria Magdalena Nuñez Blanco Y Prieto Ortega… para sempre!’…”.

*Texto de 2019