BEDA / Scenarium / O Regresso*

Foto por Lisa Fotios em Pexels.com

A chefe de redação me designou para fazer uma matéria sobre Tarot. Sabendo que eu era avesso a jogos de adivinhações e sortilégios, achou que seria interessante contrapor a minha descrença a algo que ela acreditava. Na verdade, ela cria em Madame Blue. De antemão, a consultou antes sobre a reportagem em que submeteria seu trabalho a um escrutínio materialista. Madame Blue não apenas aceitou como se sentiu especialmente impelida a demonstrar a conexão com o intangível para um céptico. Eu, por meu turno, adoro um desafio e lá fui encontrar a velha senhora que consultava em uma casa em Moema, numa dessas ruas com nome de pássaro.

A linda residência era uma das muitas da região que ainda não havia se transformado em espaço comercial, se bem que eu considerasse essa coisa de jogo de Tarot uma atividade que visava arrancar dinheiro de incautos. Apertei a campainha e me atendeu um homem alto e bonito, um tipo africano com a tez negra como a noite sem luar. Anunciou-se como Maurice e me levou até a sala onde Madame Blue já me esperava. Não se tratava de uma velha senhora, porém uma mulher que devia ter a minha idade, uns 35 anos, se tanto. Seu nome se fazia entender pelos profundos olhos azuis que me fulminaram assim que entrei.

Sem dizer muitas palavras, me pediu para sentar e que tocasse as Cartas do Destino, as embaralhasse, as dividisse e as reagrupasse. Após o que sacou uma a uma  ̶  “Mundo, Temperança, Sacerdotisa, Carro”. O que significava? Segundo Madame Blue, o retorno de uma mulher de minha vida que se afastara no tempo. Normalmente, eu não ligaria para aquele presságio, se não fosse o tom estranhamente grave empregado pela atraente vidente. Durante uma pausa que pareceu bastante longa, fiquei especulando sobre qual mulher seria, dentre tantas que conhecera. Retroativamente, fiz minha memória retornar do último afeto, meses antes, até às anteriores. Meu passeio pelo passado foi interrompido pela voz de Madame Blue que me chamou até sua presença azulada. Perguntou se, após a demonstração pessoal do seu afazer, não gostaria de realizar o questionário que preparei.

Ainda um tanto perturbado com o que a vidente dissera, continuei a perscrutar a minha lista bastante grande de antigos amores. De fato, apenas uma, dentre todos os bem-quereres, eu gostaria de reencontrar  ̶  uma menina do tempo de escola que havia me tocado especialmente. Uma que, como Madame Blue, tinha o céu nos olhos. Um pouco depois, apesar de certo temor inspirado pela figura a minha frente, mergulhei no mar de seu olhar. Nesse momento, foi a bela mulher que pareceu se incomodar. Parece ter visto algo que não esperava e me senti como que atravessado, como se ela buscasse algo atrás de mim. Perguntei o que estava acontecendo. Ela respondeu que via uma estrada de terra, longa e sinuosa, através da parede. Respondi que havia uma estrada de terra como essa na cidade onde nasci, no interior de São Paulo.

— Eu a percorria para ir à escola todos os dias. A minha casa ficava em uma de suas entradas. Eu estava justamente me lembrando dela agora. A sua predição da volta de uma mulher que amei me levou de volta à Dourado  ̶  a “Cidade Coração”.

Madame Blue pareceu ficar um tanto desconcertada. Baixou os olhos e repetiu: “Cidade Coração…”.

— Sim! O pessoal da região chama Dourado dessa maneira. Ela fica no centro geométrico exato do Estado.

— Você amou uma moça de lá?

— Não amei… Eu a amo. De certa maneira, o que disse sobre a volta de uma mulher importante me fez pensar a respeito. Dentre todos os relacionamentos que tive, apenas o que senti por minha vizinha de sítio valeria a pena reviver. Era um amor puro. Éramos muito jovens. Praticamente crianças. Mas foi tão intenso… Foi por causa dela que comecei a escrever. Quando vim para São Paulo, trocamos algumas cartas, porém fui me desfazendo dos meus laços com Dourado. Quando voltei para o funeral do meu pai, dez anos depois, Valquíria já havia partido para destino desconhecido.

Eu, enquanto falava, me ausentei de tal maneira que não havia percebido que os olhos de Madame Blue haviam se transformado em espelhos d’agua. Estranhei seu comportamento. Perguntei se estava passando mal. Ela acenou afirmativamente e perguntou se não poderíamos continuar em outra ocasião. Respondi que sim, que teríamos tempo. A reportagem estava programada para uma semana depois. Marcamos para dois dias adiante.

Na data marcada, fui recebido novamente por Maurice. Desta vez, seu rosto de deus africano estava iluminado por um sorriso indescritível. Caminhei até a sala que estava bem diferente da primeira vez que a vi. As amplas janelas estavam totalmente escancaradas, deixando a mostra um belo jardim interno. Madame Blue estava em pé, de costas, olhando para ele. Eu a chamei e ela se voltou lentamente. Sorria um sorriso familiar. O cabelo, solto e despenteado, me lembrou uma pessoa. A mesma da foto que ela me passou assim que me aproximei — me amor douradense. Ainda que tentasse me conter, meu coração desembestou feito o alazão Corisco com o qual brincávamos. Lágrimas desceram feito as cascatas do Rio Boa Esperança. Valquíria e eu nos abraçamos. Nossas bocas com gosto salgado nos lábios se embebedaram de nós. As cartas haviam cumprido sua previsão, resgatando o meu passado e inaugurando o meu futuro…

*Texto derivado do Curso de Narrativas Em Primeira Pessoa, de Lunna Guedes.

B.E.D.A. — Blog Every Day August

Adriana Aneli — Claudia Leonardi — Darlene Regina — Mariana Gouveia —

Lunna Guedes

BEDA / Scenarium / Conversa Entre Nós*

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Foto por Brett Sayles em Pexels.com

Conversa entre o eu atual e o do futuro, sobre o nosso passado.

“— Obdulio, se lembra como conhecemos a Tânia? Dois ou três anos antes de nos casarmos, sequer a conhecíamos. Fico imaginando se, depois de tanto tempo, ainda estejam juntos.

— Não responderei da maneira que quer. Digo, como você reconhece, que tudo passa e não passa.

— Essa forma de responder é bem típica de minha parte e percebo o quanto é irritante. Quanto à Tânia, ela veio com a nossa prima Vanir e uma amiga de Volta Redonda, onde viviam, para fazerem testes de admissão em hospitais de São Paulo.

— Ainda me lembro… a Vanir era filha da branca tia Ermelinda, com o nosso tio Manoel, preto. Eu sempre achei a história dos dois incrível  — aos 12 anos, idade que tinha ao chegar ao Porto de Santos, vinda da Espanha com a Vó Manuela e nossos outros tios… ela se assustou ao ver o primeiro homem preto de toda a sua vida.

— Sim! Talvez, um estivador. A Tia me disse que aquele ser lhe pareceu impressionante. Como era impressionante o grande Tio Manoel! Ele trabalhava na Companhia Siderúrgica Nacional e se distinguia pela inteligência. Eu gostava de ficar ao seu lado e ouvir suas  histórias quando visitava aos tios e primos, todos muitos bonitos e enormes. A prima Vanir me adorava e quando me apresentou à Tânia, se referindo à minha eventual beleza e personalidade, revelou mais tarde que chegou a rir por dentro.

— Hilário, não? Aquele sujeito que nós éramos, de cabelos desgrenhados, a usar camisas postas ao contrário e atitudes um tanto ríspidas… não era bonito e muito menos interessante..

— Ao vê-la, não me lembro e não sei se você se lembrará — já que a nossa memória é um tanto randômica — de emitir alguma palavra. Talvez tenhamos grunhido algo. Com certeza, aquela magrela com voz de taquara rachada não chamou a minha atenção…

— Para você ver… Como você dizia e ainda digo: “a vida tem sempre razão”.

*Texto derivado de um exercício do Curso Narrativa Em Primeira Pessoa, ministrado por Lunna Guedes.

B.E.D.A. — Blog Every Day August

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Lunna Guedes

Dark, Now

Dark

Estamos envolvidos no enredo da Pandemia desde meados de março. Apenas para reafirmar, estamos em 2020. Essa marcação seria desnecessária, se o eventual leitor deste texto estiver no presente. Porém, quem estiver correndo os olhos por estas palavras em um futuro distante deste episódio da vida planetária, estará vivenciando em seu presente, consequências advindas deste passado. Estabelecido o quando, cumpre dizer que estou no Brasil (ou estive) e talvez quem me leia repercutirá o que leu no meu hipotético futuro, em que estarei fora deste território ou, fortuitamente, fora desta dimensão.
Estou passando uns dias fora de Sampa. Mais propriamente, na Praia Grande, no litoral sul paulista. Quanto ao tempo, me refiro à importância que este local representa em minha história pessoal. É como se o que experimentei aqui no passado tenha sido tão forte que retorno às vivências ensolaradas e delas me alimento na minha atualidade, mesmo sendo este um dia frio de julho. Nesta vacância forçada pelo isolamento social, aproveito para ler, escrever e praticar atividade física. Faço exercícios localizados, caminhadas e ciclismo, com o uso de máscara, atento que estou ao contato com os aerossóis.
Você, do futuro, que talvez não esteja entendendo ao que me refiro, saiba que o contágio pelo novo coronavírus poderia ocorrer de variadas maneiras  ̶  pelo ar, contato com objetos infectados e pelo toque. A depender do futuro em que esteja, o uso de roupas impermeáveis ou objetos similares já é uma realidade para uma parcela da população, a se considerar que as diferenças sociais não terão sido superadas, como aliás, é uma característica intimamente ligada às sociedades humanas e a brasileira, em particular.
No atual contexto, o uso de máscara e a incorporação de medidas preventivas quanto à Covid-19  ̶  doença ocasionada pelo novo coronavírus ̶ tornou-se questão política. Não quanto ao modo de como implantá-las, mas se faz para negá-las. O grupo político então no poder do governo federal, comandado por um celerado com ideais ditatoriais de viés fascistas-milicianas, associa sua implementação a reivindicações ligadas à esquerda, como se viver em condições sanitárias ideais, com a coordenação de um programa público de saúde se confunda com ela. Contudo, nem sei qual tipo de sociedade acabou por se desenvolver. Se me lê no futuro, é bem capaz que a Democracia tenha sobrevivido.
O fato de nós, brasileiros, termos nos metido nesta armadilha da Democracia, mesclada à nossa pobreza estrutural ̶ social, ideológica e econômica ̶ talvez tenha sido inevitável. De certa maneira, foi a consequência de ações equivocadas por parte de quem estava no poder anteriormente, que não percebia a História como resultado da lei de causa e efeito, em que os tempos ̶ passado e futuro ̶ se misturam no presente, com repercussões dramáticas. Porém, nada mudou e a atual direção caminha no mesmo sentido equivocado.
O vento e a chuva do dia anterior mexeram na posição da antena da TV Digital, impossibilitando que eu assistisse os canais da rede aberta. Quando quis acompanhar o noticiário da tarde, não consegui. Para verificar se a Internet estava ativa, fui aos aplicativos da programação. Estavam funcionando. Entre eles, a Netflix, que me sugeria Dark, com 99% de aceitação.
Bem, naquele momento, não tinha nada a fazer e cliquei no primeiro episódio da primeira temporada. Nesse mesmo dia, assisti aos 7 primeiros. Da tarde até a noite, a assistência foi acompanhada por uma anacrônica festinha dada pelos vizinhos da casa da frente, com músicas de todos os tempos ̶ de Disco dos anos 70 a Sertanejo atual (para nós). Como tenho certa capacidade de abstenção (um tanto criticada por quem convive comigo), só percebia o tempo presente entre um intervalo e outro. Como a série é (ou foi) popular entre os expectadores que a assistiu estará a entender este texto certamente imperfeito, mas que carrega conjecturas que pareceria sem nexo, antes.
Ainda que a série tenha investido no improvável uso de máquinas e vórtices ou “buracos de minhoca” tempo-espaciais para que os efeitos sejam vividos por seus participantes, o enredo faz com que reflitamos em como as nossas ações, por menor que sejam, repercutem ao longo de nossa vida, criando círculos concêntricos tal qual uma pedra jogada no lago existencial. Cavernas que aludem ao Mito de Platão e ao Fio de Ariadne, constantes do riquíssimo repositório das antigas filosofia e cultura gregas, entre outras citações (das que percebi até agora) introduz fortemente a viagem do passado humano em nosso presente, alterando o nosso futuro passado. Como budista iniciático (faz uns 40 anos), busco viver o presente. Aliás, como propõe o título de um dos episódios da primeira temporada, sei que tudo acontece agora.

Caminhando Pelo Passado Presente*

Caminhando II
Ontem, fui procurar um produto na tradicional Rua Florêncio de Abreu onde, há alguns anos, podíamos encontrar os mais diversos itens relativos a equipamentos e ferramentas das mais diversas ordens. Já sabia que não poderia mais contar com a Casa Thomaz, logo ali no número 20, que me encantava pela discrepância da fachada antiga, a conter os mais modernos aparelhos e utensílios para o campo e a cidade. A crise (no sentido do que “crise” significa originalmente – desenvolvimento para pior ou melhor), havia feito mais uma vítima. No entanto, ao caminhar em direção aos números mais altos da Florêncio, percebi que outras lojas do mesmo segmento haviam deixado a região, substituídas por galerias com produtos de uso imediato e descartáveis, tal qual as lojas da 25 de Março, próxima dali. Depois de fazer a minha pesquisa, sem encontrar o que pretendia, decidi retornar ao Largo de São Bento.
Caminhando III
Sendo uma rua antiga, já havia fotografado algumas das construções que resistiram ao tempo, dei preferências a alguns detalhes e logo o meu olhar foi atraído para uma delas, uma das mais antigas e mal preservadas. Na lateral, percebi que haviam aberto um estacionamento. Ao chegar mais perto, observei as janelas e a entrada da parte de baixo da casa. Suspeitei do que se tratava. Mesmo sem carro, entrei pelo portão. Um homem assomou à entrada e perguntou o que queria. Respondi que estava encantado com a construção e que gostaria, caso permitisse, fotografá-la externamente. Creio que o homem já estivesse acostumado com a visita de esquisitos a demostrarem emoção, talvez incompreensível para ele e me deixou a vontade. Para ele, era algo que não lhe estapeasse a cara de forma tão contundente.
Caminhando IV
Perguntei àquele senhor, de aparência rude, se sabia o ano de construção da propriedade. Ao contrário do que eu esperava, sabia e me informou ̶ 1864. Quase a gaguejar, apontei para o porão e perguntei: “Então, aqui era a…”. Sem me deixar completar a frase, disse: “Sim! A senzala!”… “Ela parece ter um pé direito mais alto do que as senzalas normais…”… “Era bem mais baixa! O nível do chão foi escavado.”… E completou: “Era de teto baixo para que o escravo andasse curvado. Servia para quebrar sua resistência.”… Emudeci, mesmo já conhecendo esse usual procedimento da escravatura. Tentei fazer que não percebesse a minha comoção. Perguntei se poderia entrar para fotografar o interior. Retorquiu: “Rapidinho, tá?”… Agradeci e adentrei…
Caminhando VI
Não fui um bom repórter fotográfico. Estava mais comovido do que esperava. Tem acontecido cada vez mais. No Facebook, para não colocar o rostinho de choro, tenho respondido com a do espanto às postagens dos amigos. Ou talvez o peso do teto de grossa madeira ou a submissão das pesadas colunas ou o ar desconsolado que pairava no ambiente (ou tudo isso) tivessem me afetado de tal maneira que fiquei quase paralisado. O meu peito se encheu de reverente respeito por todas as histórias vividas ali… Logo depois de sair, comecei a refletir sobre o sentido de tanto assombro. Chegado ao Largo do Mosteiro de São Bento, a menos de cem metros do casarão, vislumbrei a grandiosidade física de São Paulo e percebi a eterna contradição de nossas vidas, que vivemos sobre os escombros de antigas estruturas demolidas e vultos sem vida.
Caminhando VII
Da mesma maneira que muitos de seus participantes viveram a palavra de Cristo, a Igreja emaranhou-se na incoerência de crescer junto à opressão. Paralelamente à cidade, se desenvolveu com a ajuda do sangue derramado por seres escravizados, com a submissão de corpos de homens e mulheres, com o jugo humilhante das gentes. A bandeira paulista, no alto do edifício mais alto, tremula sobranceira, desde sempre indiferente a tanto horror. Enquanto, as estátuas passeiam impassíveis por nossas mentes, as pedras gritam tão eloquentemente quanto podem, mas passado nem tanto tempo assim, as suas vozes ficam cada vez mais inaudíveis para a maioria de nós…
Caminhando VIII
Texto de 2016*

Projeto Fotográfico 6 On 6 / Através Da Minha Janela, Eu Vejo…

São muitas as janelas pelas quais enquadramos o nosso olhar. A depender de onde estejamos, as paisagens mudam. Atualmente, vivemos o isolamento social provocado pela Pandemia de Covid-19. Os cenários são quase sempre os mesmos. O ano de 2020 vai pelo meio e é como se estivéssemos em compasso de espera para um novo tempo… ou não. Voltaremos a ser os mesmos? Nós nos comportaremos como se nada tivesse ocorrido ou mudaremos nosso relacionamento social? Por qual enquadramento veremos a “nova” realidade?

Janela A

… um urubu!

Da casa da minha irmã, a oeste, um urubu pousou no telhado da vizinha. Seria mau agouro ou apenas uma parada para descansar de seu majestoso voo? A ave feiosa e de má fama, apenas por ser a lixeira da Natureza, quando alça voo e plana, ganha nobreza, acima das sujeiras humanas.

Janela B

… a Bethânia.

Essa companheira de forte personalidade de quatro patas dorme dentro de casa, mas costumeiramente a coloco para fora a fim de tomar o fraco sol de outono. Ao abrir a janela do meu quarto, lá está a Bethânia a observar atenta aos meus movimentos. Espera que eu a chame de volta, apenas para pedir para sair novamente a qualquer som de movimento na rua. Então, a bisbilhoteira só quer correr e emitir irritantes e poderosos latidos, algo inesperado para um ser tão pequeno.

Janela C

… o sol tímido de outono.

Pela janela da cozinha, observo luz cada vez mais inclinada indica que o outono avança apesar de permanecermos estanques. Nossas folhas pessoais caem pelo chão a cada pequeno passo em pequenos espaços aos quais estamos confinados. Se bem que não possa reclamar. Tenho muito mais metros a meu dispor do que muitos. Minha prisão está acompanhada de pássaros nas árvores, borboletas e pipas, empinados pelos meninos em férias eternas.

Janela D

… o rio do passado.

A saudade é um rio. Caminho permanente, de águas passageiras. Pode ser uma imagem em preto e branco. Pode ser colorida ou furta-cor. A imagem acima foi de um rio que passou muitas vezes em minha vida, na ida ou na volta do trabalho ̶ o Tietê. Na ocasião, o sol se levantava a leste, a direita de quem se dirige para a periferia da Zona Norte, onde eu moro. Há meses que não exerço a minha atividade. Provavelmente, por atuar na área de eventos festivos, motivo de aglomeração, serei um dos últimos a voltar a trabalhar.

Janela E

… sombras fracionadas.

Pombas arrulham e a luz do sol inclinado faz assomar suas sombras. Alinhadas no telhado da casa de praia, esperam os cães se afastarem para capturarem a comida dos atentos Fred e do Marley no comedouro. Logo, batem asas, investem, refreiam, arremetem. Não será dessa vez. O vidro canaleta da janela do banheiro torna tudo um jogo fracionado, como se fosse um quebra-cabeças de peças soltas. A imaginação inteira voa.

Janela G

… o nada.

No quarto de hóspedes, onde guardava meus equipamentos de trabalho, há uma janela peculiar. É a única janela térrea em nossa casa que não tem uma grade de proteção. Não podemos deixá-la impunemente aberta, ainda que resida em uma rua tranquila. Devemos pensar como o ladrão. No entanto, a visão direta dá de frente para a parede de outra construção. Areja, mas não faz o olhar divagar. A não ser que projetemos sobre ela nossa visão particular ̶ da memória, dos sonhos, da imaginação, do esquecimento ̶ transgressão ou morte.

Participam desta edição de 6 On 6:
Ale Helga — Lucas Buchinger —  Mariana Gouveia Lunna Guedes