Careca

Nasci no início dos Anos 60. Vivi, garoto, a efervescência do movimento da Contracultura. Entre as miríades de transformações, esse tempo foi marcado pela rebeldia contra o Sistema Capitalista e da busca de filosofias que pregavam o desapego material. Uma das consequências visíveis foi alteração do modo de comportar-se, vestir-se e apresentar-se à Sociedade, influenciado pela postura Hippie de ser. Filosofias, roupas e badulaques à parte, no aspecto visual, o que mais me marcou foi o cabelo. Desde cedo, deixei os meus crescerem. Durante 40 anos, deixar o cabelo comprido servia como marca registrada de alguém que eu queria preservar e homenagear – o rapaz que queria mudar o mundo.

Desde os meados anteriores aos cinquenta, passei a cortar os cabelos bem rente. Não deixei de querer deixar um mundo melhor para os que vierem depois de mim. Tendo já criado as minhas filhas, as preparando para enfrentar o Patriarcado de cabeças erguidas, quero que os meus eventuais netos (os netos de qualquer um) venham a viver um planeta Terra mais equilibrado – ambiental, social e economicamente. A minha luta continua, mas não mais com o meus antigos e longos fios. Agora, careca, com a quantidade de cabelos cada vez mais reduzida e com o que resta embranquecido, continuarei a ostentar a minha rebeldia contra o Sistema. Ainda que esteja careca de saber que não verei um País melhor antes de morrer…  

O Assediador

Quem o olha de relance, estando só, sem saber o que faz, poderia dizer se tratar de um homem comum, talvez um executivo, vestindo de forma desleixada um terno caro. Se o visse cercado de seus comandados, logo perceberia que quem gira em seu entorno mantém um olhar atento, até nervoso, para o atender em seus mínimos gestos e intenções. O sorriso público esconde uma postura de um ser que não admite menos do que uma reverência de súditos para um rei. A exceção que abre é para o Imperador supremo, aquele que, apesar de ser maior em poder, é tão pequeno quanto ele, e lhe dá sustentação em sua administração em que o terror domina as relações humanas.

O Assediador se sente à vontade para avançar em sua pauta de monstro devorador de paz. Predador no topo da cadeia alimentar, feito um tubarão que encontra seu local de caça, quando está para chegar as presas fogem, os corredores se esvaziam, os banheiros se tornam celas de refúgio e apenas os desavisados topam de frente com o sorridente perseguidor de mulheres e homens, enquanto os cúmplices fazem questão de obter a sua atenção. Aos subordinados, a palavra dura e chula de quem quer demonstrar autoridade pela força do xingamento. Para as subordinadas, a ignomínia da palavra doce, o gesto delicado, mas invasor, a insistência na dominação dos corpos como referência. Como se fosse um galo solto no galinheiro, quer espargir o líquido de seu poder, como se participasse do coro dos anjos, impondo a soberania de seu desejo.

Criado no caldo de cultura do Patriarcado, encontrou no cargo de um governo exemplar nesse tipo de política, as circunstâncias especiais para que pudesse estar como “um pinto no lixo”. Foram anos em que pode exercer seu domínio sem que houvesse qualquer impedimento ou ressalva, até que se tornou tão sufocante que houve a iniciativa de alguns para que tudo mudasse. O assédio moral e sexual é parte de um grande concerto que foi permitido e até incentivado como demonstração de qualidades que deveriam fazer parte do perfil de comando. Para o homem crescido nesta Sociedade é quase natural que aja, diga ou minimamente insinue e por fim imponha esse caráter de “domínio superior”. Em alguns casos, há mulheres que assumem essa postura impostora imposta por tradição de chefia machista, “batendo o pinto na mesa” metaforicamente. Como se o falo fosse sinal de potência. Para todos nós, é muito penoso mudarmos as nossas ações e mentalidades, acostumados que fomos, desde a família na mais tenra idade, a estarmos cercados de tantos maus exemplos.

O importante é que mudemos de Política – a arte da convivência, segundo os gregos – para arejarmos nossos ambientes familiares, amistosos e profissionais. O organograma deve atender um direcionamento, com certeza. A linha de comando deve ser mantida, porém a prática deve obedecer a um bem maior, a do respeito à pessoa humana. Que o sorriso não seja de escárnio. Que a alegria não se dê por um malfeito. Que a felicidade de alguns não seja obtida à custa da expropriação de direitos da maioria. Que a revolução se dê na consciência de cada cidadão brasileiro. Que os assediadores sejam punidos por assédios morais, sexuais, comportamentais.

Parece que novos ares se avizinham no horizonte. Que 2023 não sejam números que apenas apresentem mais do mesmo dos últimos anos. Caso contrário, será cada vez difícil respirar, prática e socialmente, neste País.

Foto por Brian Jiz em Pexels.com

BEDA / DESMAIO

Bom dia, L.!

Último dia de abril e de Blog Every Day April. Maratona que se repetirá em agosto: uma postagem por dia, em que reciclei textos antigos, acrescentadas de novas crônicas que relatam práticas das pessoas a repisarem temas crônicos — a cíclica seara humana de velhas práticas como se novas fossem — nossa sina de maldição. Ou poemas que celebram um homem que ama a Natureza ou a natureza humana de amar por amar. Ou histórias em que invento a vida real.  

Maio será inaugurado com um ataque de rutilantes e frias adagas a cortarem o ar seco de São Paulo com um pouco de umidade. Ainda assim será de pouca chuva e fartura de notícias de ofensas do bandidinho do Planalto Central ao sistema democrático, ainda que precário, mas ainda em vigor até a segunda ordem de velhos de pijamas, em dia com próteses penianas e doses de Viagra para colocarem as suas armas em riste, além das canetas. 

Não tenho por maio um apreço especial. O último dia dele marca o nascimento de meu pai, em 1932. Ou pelo menos, foi o dia que o meu avô inventou para o menino que ganhava a nacionalidade brasileira com já seis anos de idade. De qualquer forma, parece que as características de Gêmeos se sobressaíram em meu pai. Então, o homem idealista, estratégico e oportunista, sacrificou a família em seu projeto sendo instável, nervoso e egoísta. 

A Tânia recordou-me que seu pai morreu num 8 de maio. Coube a mim a dar a fatídica notícia. Não sabia como fazê-lo. Decidi ser direto e reto. Vi a mulher forte se desmanchar em meus braços, em prantos. Eu a segurei firme, solidário a uma experiência que ainda viveria primeiro com a minha mãe e depois com meu pai.   

Maio perdeu o status de mês das noivas para dezembro, já que as cerimônias de casamento recebem o aporte do décimo-terceiro salário para financiá-las. Era o mês das noivas pela influência da Igreja Católica, que o considera o mês de Maria. Pelo “viés feminino” que carrega foi associado às noivas, no intuito de trazer boa sorte para a mulher que se casa — se tornar mãe. Catolicismo e Patriarcado associados para consagrarem o casamento na única opção digna para a mulher: procriar. Quanto às flores, seria apenas no Hemisfério Norte que mereceria esse título. De fato, o nome maio vem de Maia, deusa romana da terra e das flores, celebrada nesta época. 

Por fim, a maior batalha de maio diz respeito ao seu primeiro dia. É um dia disputado por capitalistas e socialistas por causa de apenas um “R”. Para uns, é o Dia do Trabalho, para outros, Dia do Trabalhador. O contexto para os capitalistas é de que o trabalho dignifica o homem, não importando o salário. Para os socialistas, que o trabalhador prescinde do trabalho para se tornar homem. Enfim, importamos aparências desde sempre, aparências que nos enganam. Simbolicamente, quanto melhor contada a mentira, mais aceitável se torna, preferivelmente se for bem mirabolante. No entanto, o dia da mentira é o primeiro dia deste mês que e encerra hoje.

Participam do BEDA: 
Lunna Guedes / Alê Helga / Mariana Gouveia / 
Cláudia Leonardi 

BEDA / Marido De Aluguel

O texto anterior acabou por me fazer refletir sobre o termo genérico de “dono de casa”, derivado do feminino “Dona de Casa“. Este, talvez tenha sido criado para dar um lustro de nobreza para designar uma atividade permanente, integral e desgastante de dar suporte à casa e atenção ao amo e à descendência. Merecia uma consideração mais profunda e sobre esse tema tratarei aqui. De forma correlata, a moderna atividade de “Marido de Aluguel” também suscita considerações nas quais não consigo deixar de perceber a ironia que carrega em todos os sentidos.

Eu vejo passar veículos com esse slogan que pressupõe a realização de tarefas que apenas o homem faria – conserto de torneiras danificadas, troca de chuveiros, restauro da fiação elétrica, colocação de parafusos e pregos, pintura, pequenas obras de alvenaria e, por aí, vai. Em casa, a Tânia realiza algumas dessas tarefas, filha de um homem que a ensinou, por exemplo, a erguer uma parede.

Eu não deixo de realizar outras tantas dessas atividades, mas não me sinto mais marido ou mais másculo por isso, como não me sinto mais feminino por lavar, estender e passar roupa, cozinhar, lavar panelas, talheres e louça, regar as plantas, cuidar dos bichos, varrer e passar um pano no chão ou arrumar a cama. Ajudante de minha mãe quando garoto, declarava a ela que queria me tornar um “homem total”. A pequena análise que faço diz respeito a como o Patriarcado exerce sobre nós, homens e mulheres uma dominação absurda.

Emprestando da matriz patriarcal determinadas formulações, fico a imaginar se o termo “Marido de Aluguel” não ensejaria interpretações dúbias e piadas de bar feitas por homens e mulheres que atuam sobre a égide do Patriarcado, que perpassa todas as ações sociais de adultos que não conseguem escapar ao seu domínio. Sempre se aventou entre os deveres da esposa o de atender sexualmente ao marido, assim como a do marido em “comparecer” ao ato como a comprovar a sua masculinidade. Em conversas de botequim a função do profissional poderá ser tratada mais extensivamente, bem como se dizia em tempos idos dos filhos gerados na visita de leiteiros ou padeiros.

O que para o homem significaria carregar a peja de marido enganado, para a mulher talvez fosse como uma válvula de escape da dominação machista imposta por casamentos arranjados, sem conexão de gostos ou pelo abandono em vida por um companheiro que a considera apenas a parideira de seus filhos e que muitas vezes instituíam lares ou relações paralelas. Num texto curto como este, que é mais provocativo do que elucidativo, as questões do nosso envolvimento com as consequências da máster cultural distorcida por milênios de abusos de um gênero por outro, simplesmente por carregar maior força física não são resolvidas, somente são testemunhadas.

E me incomodam…

Participam do BEDA:
Claudia Leonardi / Lunna Guedes / Mariana Gouveia / Darlene Regina

Projeto 52 Missivas / São Dias De Olhar Pelo Buraco Da Fechadura…

E o que vejo pelo buraco neste primeiro quarto… de século, Gaia?

Próximo a mudança das estações, mais uma invasão. Homens, tanques, mísseis, blindados, irmãos matando irmãos. Passado o primeiro mês da guerra, não há solução na linha do horizonte…

Enquanto neste quadrante, a invasão de biomas inteiros aumentam dia-a-dia desde há muitas estações com motosserras, fogo e tratores, reduzindo a cinzas no solo empobrecido ou arrancando nossas irmãs árvores de seus lugares de origem para servirem aos que se intitulam senhores de seu corpo. Mais um efeito do Patriarcado, não importando a ideologia?

O clima tem se modificado, como sabe, por nossas interferências indevidas no fluxo natural da vida. Os ciclos não se cumprem, a não ser o de guerras de tempos em tempos para lembrarmos o quanto é fátuo matar e morrer por causas delirantes e ilusórias. Enquanto isso, a ferimos inoculando veneno em suas veias-rios, agredindo os seus úteros-mares, os entulhando de lixo.

Armamos armadilhas improvisadas as quais chamamos de casas em encostas de zonas degradadas que certamente virão a ruir mais cedo ou mais tarde. Ou próximos de nascentes e mananciais de água, as degradando. Sempre achei corajosa a opção de pessoas virem a viver em zonas com possibilidade de terremotos, como os residentes da cidade de São Francisco, localizada sobre a Falha de San Andrés. No Brasil, não é opção, mas falta de…

O buraco da fechadura tem se alargado e o que era para ser reservado e preservado, é escancarado e arrancado como se fosse infindável. Sei que nosso estilo de vida causa a morte de nossos companheiros de jornada. E que esse cortejo de seres extintos nos levará à nossa própria extinção.

O que eu especulo é se conseguiremos sobrepujar nossa atração pelo abismo e pararemos para voltarmos a nos conectar na mesma vibração que seu corpo emana, quando nos sentiremos como células-filhas acolhidas em seu corpo luminoso de azul.

Gaia, até onde deixará que iremos antes que faça o que for preciso para sobreviver?…

Participam: Mariana Gouveia / Lunna Guedes