BEDA / Se Eu Já Me Relacionei Com Mulheres?

Se eu já me relacionei com mulheres?

Sim, mas não tão profundamente quanto gostaria, por minha própria incapacidade de alcançá-las. A mulheres são seres multidimensionais e multifuncionais. Nada da simplicidade do pobre homem, que jamais compreenderá o que é ser uma mulher. Resta-nos admirá-las, ajudá-las no que puder ou temê-las como tantos que quase sempre reagem com raiva e frustração por tamanho poder.

Não é por outro motivo que estes últimos prefiram agredi-las. Ou até matá-las. Eu me relacionei com a mulher que me gerou e me amou durante cinquenta anos. Eu me relaciono com a mulher a qual me entreguei pela primeira vez, com a que gerou as minhas filhas e que esteve comigo durante os últimos trinta e quatro anos… Ainda assim, ela não me deixa de me surpreender. Assim como as “minhas” filhas.

Eu me relacionei com a alma da mulher nos momentos de medo e de tensão, nos momentos de alegria e tesão, de afeto e medo, empatia e rejeição… Gosto de conversar com a sua mente e o seu corpo, porém na intimidade são os olhos que me seduzem ao dizerem “sim!”. E ainda que a boca venha a contestar o que expressam, respeitarei se ela disser “não!”.

Não me sinto enganado, mas sim estimulado em compreender esse jogo de opostos, apenas um pequeno exemplo de como o relacionamento com a mulher é enriquecedor, já que se constitui no mais delicado e próximo no contexto mais usual de um homem e uma mulher – o amoroso.

Ao respeitar as mulheres, gênero que os homens tradicionalmente alcunharam de frágil – talvez para fazê-las crerem nisso – essa consideração se espraia para as relações humanas em todas as suas estâncias, incluindo os grupos minoritários que são relegados à marginalidade social por não se posicionarem dentro das raias que deveriam correr de acordo com o sistema Patriarcal.

Por esses e outros tantos motivos, por ter exemplos desde pequeno da demonstração da grandeza que as mulheres detêm, eu as amo e me sinto um homem enriquecido por amá-las.

Participam do BEDA: Lunna Guedes / Alê Helga / Mariana Gouveia / Cláudia Leonardi / Darlene Regina

BEDA / Mentiras

Mariana, o título de sua missiva – as mentiras que esquecemos de dizer – me remete aos mecanismos da convivência social que utilizamos para que nos sintamos mais confortáveis diante da “violência” que é aceitar um ao outro, com todas as suas-nossas contradições. Referente ao Dia da Mentira, como resposta a uma postagem do nosso companheiro escritor, Joaquim Antônio, expressei que convivo com a mentira há sessenta anos, desde que eu nasci. Tempo que depreendi que a mentira é um sustentáculo da Sociedade.

As mentiras que dizemos tem a ver com o que desejamos. Os momentos de lucidez podem a vir a resultar em situações até engraçadas, pela quebra de poderosas regras não escritas. No meu casamento, a minha mãe recomendou para que o responsável pela condução da cerimônia pedisse a nós que repetíssemos as palavras: “na doença e na doença, na riqueza e na pobreza…”. Percebi que seria o momento do escritor intervir e tasquei: “na riqueza e, muito mais provavelmente, na pobreza”. Provoquei o riso dos convidados, descontraí o ambiente, mas no fundo era naquilo que eu acreditava.

E isso diz respeito às promessas feitas – “Mentimos que era para sempre, mentimos que a emoção seria sempre a mesma e mentimos que não sofreríamos”. No fundo, queremos acreditar e eternizar o instante, ainda que “saibamos” que esse não seja o padrão. O poder da crença carrega a força necessária para que o ser humano sobreviva. A fé seria outra mentira? Não é para quem crê que crê. Especulo que se vivemos a mentir e esquecemos de fazê-lo, mentimos que somos melhores do que somos. E me pergunto se mentimos ao deixarmos de ser francos sobre determinadas situações

Mentir seria como viver alternativamente. Porém, se essa é a norma, acaba por se tornar a realidade com a qual lidamos. Não é por outro motivo que os embates ocorrem e ficamos admirados quando encontramos quem mente a nossa mentira e podemos trocar impressões sobre as gradações das verdades alternativas. Filosoficamente, essa questão é discutida como possibilidades do devir, mas no sentido prático é manipulada por pessoas que controlam ou desejam controlar as demandas diárias de nossos sentidos, sentimentos, emoções e necessidades, na busca de maior poder.

A franqueza, a transparência nas respostas às circunstâncias, inviabilizaria que continuássemos unidos através de contratos materiais e imateriais não ditos, mas que concordamos em cumprir. Destruiríamos a Sociedade como a conhecemos se assim não fosse. Ou instauraríamos a liberdade de ser. As relações talvez se tornassem parecidas com as dos primeiros grupamentos humanos. No entanto, como a mentira é poderosa e é o viés de como percebemos o mundo, no tempo provou-se ser mais efetiva como regra da expressão da personalidade humana.

Para intermediar essa forma de comunicação, criamos linguagens em que a luz da verdade se consubstancia em arte e a autenticidade de cada um pode vir a se identificar nas obras de arte de todas as vertentes culturais. “Mentiras sinceras me interessam”…

Que saibamos reconhecer as nossas verdades em meio a tantas mentiras, Mariana!

Imagem: Foto por Florencio Rojas em Pexels.com.

Bento Quirino*

Em 2013*, eu estava tentando encontrar um caminho para superar a minha decepção com os rumos que o Brasil havia tomado politicamente. Ao lado do avanço social empreendido com a chegada de personagens alternativos à História elitista do País, que prometiam criar novas perspectivas quanto ao exercício do Poder, ficou na boca o travo amargo no uso de práticas corrompidas e corruptoras. Com o tempo, isso daria ensejo à chegada do lixo em forma de pessoas aos cargos mais altos da República. Em 2013, eu apenas me encontrava desiludido. Nada parecido com o que ocorreu um lustro depois. Voltei passos atrás, para enfrentar a ameaça real de vermos perder avanços, e projetos inovadores, ainda que tenham sido conspurcados por interesses espúrios misturados às boas intenções. Eu votei contra o que se prefigurava maléfico em vários sentidos. Mas viver essa condição superou quaisquer suposições negativas.

Homenagem ao humanista com lixo humano

“Estou em Campinas, à trabalho, onde sonorizaremos uma colação de grau para os cursos técnicos de nível médio do Colégio Politécnico Bento Quirino. Não é a primeira vez que trabalhamos para a instituição e, desta vez, me interessei por saber mais sobre aquele que dá nome à ela.

Nascido em Campinas, Bento Quirino dos Santos foi um homem exemplar. Segundo o Wikipédia, ‘quando da epidemia de febre amarela que assolou a região em 1889, o então comerciante prestou tão elevados serviços à cidade que a população, agradecida, fez colocar uma placa alusiva na fachada de seu estabelecimento. Adepto dos ideais republicanos, de que foi ativo propagandista, foi eleito vereador pelo Partido Republicano, ainda à época da Monarquia. Fundou a Santa Casa de Misericórdia de Campinas e foi diretor da Companhia de Iluminação a Gás. Foi um dos fundadores do Colégio Culto à Ciência e da Companhia Campineira de Água, além de presidente da Companhia Mogiana e sócio benemérito de todas associações campineiras. Após a sua morte, grande parte de sua fortuna foi destinada à fundação do Instituto Profissional Bento Quirino e à manutenção da Escola Técnica de Comércio Bento Quirino, assim como diversos orfanatos, hospitais, maternidades e a Creche Bento Quirino.

Ao sair do Auditório Bento Quirino para comer um lanche, cheguei à um largo em que se dividia em duas partes por uma via, formando duas praças. Em uma delas, erguia-se uma igreja – Basílica Nossa Senhora do Carmo – e em outra, postavam-se duas estátuas. Caminhando para perto de uma delas, vi que se tratava do próprio Bento Quirino representado em bronze. Estava devidamente homenageado por alguém que nunca procurou saber que se tratava de uma figura tão eminente, com lixo postado à seus pés.

LABORE MUS UNIS PRO PATRIA

Esse monumento a Bento Quirino ergue-se na Praça Antônio Pompeo. Inaugurado originalmente em 18 de abril de 1914 no saguão do Instituto Profissional Bento Quirino, foi transferido para o seu atual local no dia 18 de abril de 1937, no contexto das comemorações do centenário de seu nascimento. Compondo a figura sentada, encontramos em sua mão esquerda uma divisa em latim – LABORE MUS UNIS PRO PATRIA – que poderia ser traduzido livremente como ‘Trabalhemos unidos pela Pátria‘.

Sim! Decididamente, ele era um idealista…”.

Poder Particular

talvez digam que eu não saiba amar…
talvez me considerem um imaturo
ser 
que desperdiça o olhar
em coisas desimportantes
talvez…
o que eu sei
é que tenho o meu poder
particular 
o de enxergar o planeta
Terra
numa banqueta
de bar…

O Jacaré*

Quem é você, quem sou eu?
Sou homem, mas não filisteu.
Sou de Libra, sou de cabaré.
Sou menino, sou Jacaré.
Aquele que cocou sete vezes,
não pagou, enfrentou revezes.
Sou um tanto estimado,
um pouco odiado.
Tranquilo em minha raiva,
barco a vela à deriva.
Sou réptil a sobreviver
de resto, do frágil, de cadáver.
Melhor símbolo pantaneiro que podia haver,
agora me tornei opositor ao poder.

*Poema de 2020, que apenas tem lógica na falta de lógica nos tempos de quem nos (des)governa.