02 / 05 / 2025 / Só, Mas Acompanhado

caminho só mas acompanhado
circunspecto
quem bem eu quero não está por perto
sei que ela pensa em mim
assim como penso nela sim
em nossos encontros esporádicos
erráticos
arrancados feito saborosas goiabas no pé
aos quais nós comemos até o caroço
deixamos os lençóis em alvoroço
passeamos sem culpa por avenidas e ruas
baixo a sóis e além de luas
quase alcançadas mas nunca vivenciadas
quem sabe um dia?
enquanto isso nos servimos de ambrosia
para mitigar da distância as dores
para nos alimentarmos de sabores
saudosos de beijos e ventanias
que nos abatem por onde formos
porque somos o que somos
a soma de desejo e paixão
e bem querer em demasia
em cortejo de procissão
adoradores do coração
caminhantes e amantes
se quero uma vida alternativa a que tenho
vou em frente não me detenho
sonho e componho
na ausência do toque de sua boca
um poema que me acompanhe…

Foto por Vika Kirillova em Pexels.com

B.E.D.A. / Nino

Nino e Armando Valsani (seu filho), em 14 de Agosto de 2016.

No dia 15 de Agosto de 2017 eu cometi uma ousadia. Ainda impactado pela passagem um dia antes de Nino Valsani, aos 84 anos, tenor brasileiro de carreira consagrada aqui e fora do Brasil, escrevi no celular um poema em sua homenagem no caminho para o seu velório, dentro do ônibus. Isso não foi ousado, mas declamá-lo frente a todos os presentes no espaço onde se encontrava seu corpo presente, sim! Fiquei imaginando onde estaria aquele garoto tímido que continuava existindo dentro de mim e que de vez quando assumia a minha personalidade…

Vários cantores líricos e músicos, conhecidos, parentes e amigos compareceram ao ato no Cemitério da Consolação. Eu, que apenas nos últimos anos havia privado de sua companhia em eventos pela aí com os Três Tenores Brasileiros, só conhecia de relance a carreira de Nino. Ela teve início em 1951, sob orientação do maestro italiano Aldo Petrioli. Na Itália, realizou vários concertos nos principais teatros, além de apresentar-se em rádios e televisões. Já no Brasil, fez parte do elenco da TV Tupi e em 1955 recebeu o Prêmio Roquete Pinto de melhor cantor de música erudita do Brasil.

As homenagens dos seus companheiros da arte do canto enchia o espaço antigo com suas vozes que ganharam ali um palco ideal, apesar do motivo fúnebre. Em certo momento, pedi a palavra e li da melhor maneira que pude as verdadeiramente mal traçadas linhas em versos pensos, muito longe de uma pretensa elegia. Mas fui sincero e isso talvez tenha ajudado em sua boa repercussão. Principalmente quando postei a homenagem no Facebook. Nessa ocasião, uma sobrinha sua chamou a atenção para a foto. Ela é de um ano antes, no mesmo dia da morte de Nino, aniversário de sua mãe, irmã dele. Foi uma estranha coincidência, sem nenhuma intenção, alheio às datas que estava.

NINO

Qual era mesmo o seu nome?
Antônio Valsani?
Eu o conhecia como Nino
O que era perfeito, já que para mim
ele não passava de um menino.
As boas qualidades da criança —
principalmente, a esperança…
E Valsani…
Esse nome dança em nossos lábios…

Ele tinha a voz da bem-querença —
a sua força nos transportava
para um futuro melhor avante,
para um lugar de beleza e temperança,
de sonho e prazer efervescente…
Sim, porque o Nino
só fazia levar emoção e alegria
por onde entoava a sua voz tonitruante.

Já no capítulo final de sua vida terrena,
que seguirá em outro plano (tenham certeza!),
ainda que lhe faltasse o ar,
as notas que emitia atravessava os mares,
derrubava muralhas…
Fico a imaginar, no passado,
o som produzido por seus pulmões,
a preencher teatros e salões,
a arrebatar mentes e corações.

Hoje, dizemos adeus ao corpo do Nino.
Deixou herdeiros e seguidores
que saberão continuar a cantar os amores,
os prazeres e as dores.
Deixaremos de ver
o olhar de soslaio e o sorriso maroto
de sábio e vivido garoto.
Daquele que nunca perdeu a fé na arte.
De seu poder em nos conduzir
pela existência afora…
Exemplo de homem e eterno menino
que ficará guardado em nosso peito
e em nossa memória…

Participam do B.E.D.A.:
Roseli Pedroso
Lunna Guedes
Adriana Aneli
Mariana Gouveia
Darlene Regina
Cláudia Leonardi

O Poetinha E A Patriazinha

Em 2015, o desafio poético a que fui chamado no Facebook fez com que eu me colocasse diante de escolhas reducionistas, mas que, ao mesmo tempo, ampliaram a busca por mim mesmo, perdido por rotas antigas, tortuosas, memórias passadas e rotas. Alguns poemas revistos ganharam, em determinados momentos, uma importância inaudita, como este aqui, de Vinícius de Moraes. Em mais uma “Canção do Exílio”, tanto quanto a primeira, de Gonçalves Dias, o “Poetinha” chora pela saudade de sua terra natal, um Brasil que se reinventava-reinventa sempre o mesmo, como drama antigo, de trama tão clássica quanto canhestra. Este tempo que atualmente vivemos é, de certa forma, também um lugar distante. Nele, lembramos do País que não existe mais, e que, o sei muito bem, para o qual, se voltarmos, voltaremos como farsantes…
Ao pesquisar sobre “Pátria Minha”, encontrei esta informação:
Feito na prensa particular de João Cabral de Melo Neto, em 1949, Pátria Minha é o que então se chamava de plaquete (ou plaqueta). A publicação é feita a partir de um único e longo poema de Vinicius. Amigos desde 1942, quando Vinicius visita Recife com Waldo Frank, os dois funcionários do Itamaraty se correspondiam com frequência nessa época. Era o período em que Vinicius ainda estava em Los Angeles e João Cabral, em Barcelona. Foi a partir do poema enviado para a leitura de João Cabral que ele teve o impulso de fazer os 50 exemplares do poema artesanalmente, na sua prensa e editora caseira conhecida sob o selo O Livro Inconsúntil. O livro foi uma surpresa para Vinicius, com quem Cabral deixou todos os exemplares. Em uma carta escrita em outubro de 1949, o poeta-editor diz em um P.S. para seu amigo carioca que: “Não distribuí o livro a ninguém. Faça-o a vontade. E me mande um com dedicatória”. – In: http://www.viniciusdemoraes.com.br/pt-br/poesia/livros/patria-minha
Em Fevereiro de 2015, eu ainda não havia conhecido a Scenarium Plural – Livros Artesanais – selo que carrega o mesmo teor de O Livro Inconsúltil em sua manufatura artesanal – de Cabral de Melo Neto, um dos maiores poetas do País, que nos presenteou ao trazer à luz esta expressão de brasilidade lírica de Vinícius de Moraes. Em meados daquele mesmo ano, Lunna Guedes, escritora-editora, apresentou a oportunidade de me expressar como escritor. Decidi adotar essa função-missão-querer como definição de meu ser social. Com relação ao Brasil, tenho o relacionamento dúbio de amor-e-ódio-torcedor-distorcedor, amante sem ser amado.
Pátria Minha
A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.
Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.
Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos…
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!
Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação e o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!
Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.
Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu…
Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda…
Não tardo!
Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.
Pátria minha… A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.
Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
“Liberta que serás também”
E repito!
Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão…
Que vontade de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.
Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.
Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
“Pátria minha, saudades de quem te ama…
Vinicius de Moraes.”