Etiqueta: poeta
Décio*

Quando vejo qualquer imagem, ouço qualquer palavra, experimento qualquer sabor, cheiro qualquer olor ou aprisiono em minhas mãos qualquer objeto, desenho na parede da minha imaginação a linha reta que desvirtua a realidade, aperfeiçoando-a. Traço o meu caminho colocando cada pedra devidamente plana em direção ao abismo. Homenageio o poeta que não sou e não serei, erijo a porta que não ultrapassarei. Existo e hesito em reconhecê-lo.
No entanto, a expressão do que sinto insiste em se fazer presente, mesmo que seja o sol da manhã emparedado. Esta é a minha singela homenagem a Décio Pignatari, que ajudou a despertar em mim, com a sua obra, o gosto pela brincadeira de escrever.
* Dos tempos que não acreditava ser escritor.
BEDA / Scenarium / Sexton, De Obscuros Tons

Anne, tenho tido um contato mais assíduo com sua poesia nos últimos dias. Inspirado por um dos seus poemas — Mãe — que versa sobre a possibilidade de redenção em sua vinculação com aquela que a jogou ao mundo das pessoas grandes como uma estranha, algo inventado, ou vacilação quando outro alguém está tão vazio como um sapato, imaginei enveredar por um caminho lírico no relacionamento que tinha com o meu pai. Nossa conexão com eles foi igualmente difícil. Não consegui. De nossas almas machucadas, você serviu mel e lenitivo, eu destilei rancor…
A mulher uterina pariu palavras de obscuros tons e claras presenças – versões fidedignas da dor de ser. E de deixar de ser, a versar sobre as mulheres que estiolam suas juventudes em camas de casal-modelo, em amores-pantomimas. Talvez fosse sua voz real, quando disse sobre o companheiro de uma delas, que o deseja aleijado ou poeta, ou ainda mais, solitário, ou, às vezes, melhor, meu amado: morto. Porém, quando ele a deixou, não suportou.
Seus transtornos, suas viagens químicas, seu afogamento em si, quando queria apenas assumir sua própria personalidade — ultrapassar nascimento e criação — pai e mãe. Essa que a gerou e a acompanhou íntegra-integral, poética e materialmente, sonho e permanência transversal pela mãe que se tornou — caminho leitoso.
Cantou às mulheres que violam as leis patriarcais. Cantou às ousadas e insubordinadas que, como você se atrevem a viver. Que ultrapassou o doce peso de ser mulher, que adejou com todas as suas asas para se tornar a poeta peso-pesado, a cantar para a ceia, para o beijo, para a correta afirmação…
Quis morrer em noite estrelada. Sorveu como ar puro de quem queria viver, o gás venenoso que respirou dentro da fera furiosa da noite, engolida pelo grande dragão, cuspidada vida sem bandeira, sem ventre, sem grito, vestida com a pele de sua mãe. Como a retroceder o seu corpo para o útero dela, depois de revisar sua existência em versos. Foi premiada entre os poetas por saber confessar depressão, suicídio, isolamento, desespero, intoxicação e morte — aplaudido espetáculo de quem se desintegra em praça pública.
Anne, necessária, tão nova em minha vida e já tão influente. Saiba que viverá em mim, tanto quanto no coração de quem mergulha fundo nos meandros de nossa absurda existência. Que sua dor seja baliza de quem se permite adoecer e se curar. Mulheres assim de morrer não se vexam. Eu tenho sido desta casta.
In:
Missivas De Agosto
https://scenariumplural.wordpress.com/2019/08/21/sexton-de-obscuros-tons/
BEDA / Scenarium / Carta À Cecília, Mulher Do Olhar Marinho

Eu, menino, apaixonado por mulheres, entrei em contato com os seus olhos claros através da revista “O Cruzeiro”, versando sobre seu percurso de escritora. À época, você já havia fechado seu olhar marinho para o mundo, quando eu contava ainda três anos de idade. A foto era em preto e branco, portanto não tinha como saber que fossem azuis-esverdeados, como testemunham que fossem. Não duvido que a depender da luz que incidisse sobre eles, outras cores se somassem – todas as possíveis do arco-íris. Se chegou a vê-los vazios, talvez os revelasse por espelho comum dos dias mais amargos, do coração que não se mostra.
Mulher de valor ímpar, imagino que achasse graça em ver sua face gravada em notas de 100 Cruzeiros, ao tempo de planos econômicos que a transformaram em Cruzados, depois, em Cruzados Novos e, novamente, em Cruzeiros, no processo de desvalorização contínua da nossa economia, até vir se tornar definitivamente item de colecionador de numismática, ciência-irmã das coisas fugidias. Sua obra literária, no entanto, só cresceu em apreciação e relevância, minha cara poeta. Palavras que ultrapassaram as fronteiras da vida comum e da morte física, para estampar a cara da nossa alma. Sua fala poética não emudecerá, jamais.
Confesso que enquanto você falava de Isabéis, Dorotéias e Heliodoras, eu a confundia com Lygia e Clarice, irmãs na língua e na literatura. Leve dislexia de quem foi dado a ler as três quase ao mesmo tempo. Eu, fascinado, tentava decifrar a mulher ainda garoto e me perdi no emaranhado dos pensamentos-sentimentos-emoções humanos mais profundos – perdição da minha vida. Foi-me dado a conhecer que a mulher apresenta fases como a Lua, que ela se pertence antes de eu querer que pertença a mim e, se ou quando ela viesse a me querer, talvez eu não esteja presente para possuí-la. Desde então a soube fugidia-errante – no céu, na rua.
Sobrevivente entre quatro irmãos, filha da esperança e da melancolia de interminável fuso, amou, foi e é amada, por companheiros e leitores. Que soube que o dia se faz, ainda que o sol estivesse encoberto. Que, de modos rebeldes, tornou-se prisioneira do amor por lutar pela liberdade de viver, nem alegre e nem triste, mas poeta. Que desmoronou e edificou a eternidade – não passou, ficou. A você, Cecília, toda a minha admiração por ter vivido pela palavra e ter aprendido com a inconstância das primaveras a deixar-se cortar e a voltar sempre inteira – desejo de todo o ser.
In: Missivas De Agosto – https://scenariumplural.wordpress.com/2019/08/14/carta-a-cecilia-mulher-do-olhar-marinho/
BEDA / Scenarium / Missiva À Inventada Alejandra

Quando nasceu, no fechamento de abril, Buenos Aires pertencia ao Primeiro Mundo, apesar de ficar fora da Europa. Ou antes, era a mais europeia das cidades americanas. Vos decidiu fechar-se para a vida ao terminar um setembro primaveril do Hemisfério Sul no início dos anos 70. A Argentina vivia a decadência de um governo típico de caudilhos de república das bananas. Nesse ínterim, onde ficou você no passar da História? Inventou-se Alejandra e foi poeta – que é uma maneira de transcender o lugar e o momento.
Anciã, quando criança, lembra? Foi ontem, faz séculos, a desfilar sua dor por féretros banhados em sangue, a se suicidar diante do espelho – solidão alada – boca cheia de flores, na respiração de um animal que sonha. Pintou telas verbais, Alejandra, em que os sóis são negros, pássaros pousam em seus olhos, depois de viajarem em auroras amordaçadas de cinza. Uma tribo de palavras mutiladas buscou asilo em sua garganta para que os funestos donos do silêncio não as cantassem.
Você se vestiu de cinzas e luz ausente, pintou quadros com palavras. Verbalizou pinturas – trabalho de mãos e mente. Mentiu para o tempo que a queria mulher sem peso, enjaulada. A morte, companheira temática, foi mais que desejada, foi cumprida como ritual de ascendência, ao extrair suas veias para chegar ao outro lado da noite.
Esquadrinhou tão intensamente cada palmo da gaiola na qual se prendeu que apenas ser noite eterna lhe conferiria a liberdade de ser morta para que a morte lhe ensinasse a viver. Esquecer de si, desnudada de sua memória e chegar ao Paraíso – coragem de tornar-se a poesia que escreveu…
In: Missivas de Agosto –https://scenariumplural.wordpress.com/2019/08/07/missiva-a-inventada-alejandra/