BEDA / 8 Ou 80

8 Ou 80

Somos o País do tudo ou nada. Ou quase nada de tudo, se esse “tudo” for o melhor possível. Por outro lado, apresentamos o pior de tudo, muitas vezes.

Se escolhemos nossos dirigentes, votamos nos mais inaptos. Se temos uma empresa entre as maiores do mundo, será uma que arranca sua riqueza da forma mais mortal e predatória. Se temos um dos maiores movimentos de emancipação GLBTQ do planeta, ao mesmo tempo somos os que mais matamos os seus participantes. Se temos uma das maiores populações afrodescendentes fora da África, apresentamos as mais persistentes ações discriminatórias da Terra por uma sociedade hipócrita ao se proclamar igualitária.

Se for para matar um homem preto, que despejemos Oitenta tiros sobre ele. Oito, não bastam – a média de projéteis lançados por cada um dos dez atiradores que confundiram o alvo-negro-no-carro-branco com um assaltante. Condenado por engano – se for para nos enganarmos que seja por muito – por um juízo de valor eivado de preconceitos, incompetência e poder de fogo, um pai de família foi fuzilado em plena luz do dia, diante de testemunhas, por armas que atiram projéteis 7,62 à velocidade de oitocentos metros por segundo, a uma curta distância. Fico a imaginar se houve tempo de Evaldo pensar na segurança da família – filho e esposa – antes de ser assassinado…

Quando tudo aconteceu, na segunda-feira, estava trabalhando muito, em ambiente fechado. Soube no dia seguinte, depois de ter dormido quatro horas por dia desde sexta. Acordei com a repercussão da notícia propagada pelo rádio despertador de cabeceira. Como muitas vezes acontece, pareceu que estava sonhando. Não era possível, mesmo para o “País do 8 Ou 80” que fosse real. A “notícia boa”, diante de tamanha gravidade foi que dos cinco ocupantes, apenas o músico fora atingido. Isso significa que a munição descarregada sobre ele não foi a esmo. Os ferimentos no sogro foi um efeito colateral.

Em uma sociedade organizada, as funções de cada instituição são delimitadas de maneira que uma não invada a outra. Membros das Forças Armadas não deveriam exercer a função de Polícia. “O Exército tem como missão preservar e garantir a defesa da Pátria, zelar pelo cumprimento pleno da Constituição e pela manutenção da Lei e da Ordem. Em tempos de Paz, uma das principais funções do Exército é defender as fronteiras brasileiras, garantindo a Soberania nacional.”. Foi o caso de segunda-feira?

Houve ordem de prisão contra os militares envolvidos na ação. Só não ficou esclarecido quem foi o mandante do crime. Um soldado cumpre ordens. Faz parte do espírito da corporação militar obedecer a cadeia de comando, assim como existe uma natural sequência na cadeia alimentar. Vitórias e derrotas se sucedem dessa maneira. Assim como a sobrevivência das espécies. O triste é que os brasileiros pareçam sobreviver caminhando sobre os corpos ensanguentados dos mais vulneráveis…

BEDA | Terroristas No Brasil

Sopa de Letras
Sopa de letrinhas mutantes…

O Terrorismo tem feito vítimas em todos os cantos. Os atentados se sucedem e tem crescido em frequência. A todo momento são noticiados ataques aos pilares de nosso edifício social. Um a um, vemos ser derrubadas consciências, vontades, virtudes, sabedorias, vivências, convivências, sentidos e sentimentos.

Bombas em série destroem nossa capacidade de compreensão da realidade. O que víamos como ocasional, tornou-se padrão – o mau-caratismo, a vilania, o egoísmo, a podridão nas relações humanas. A falsidade graça como moeda de troca e o Real é bem pago por péssimos serviços prestados contra todos nós.

As instituições parecem plantas atacadas por piolhos, vermes, insetos e outras pragas. Pesticidas matam o hospedeiro e preservam os parasitas. Os nossos radicais não abrem mão de suas benesses, reivindicadas como direitos naturais de bem-nascidos. Em contraposição, o terror, o horror, o torpor, o dissabor, o desamor, se derramam em cascatas reverberantes, destroçando futuros no nascedouro.

Vivemos tempos de barbárie coletiva, de cabeças decepadas em nome da preservação de privilégios, enquanto lâminas afiadas perfuram o nosso intestino, fazendo vazar excrementos na circulação sanguínea da sociedade. Vozes dissonantes transformam-se em utópicas canções de adeus a um mundo inalcançável.

A cada notícia de um caminhão que atropela inocentes em ruas bem pavimentadas da bela Europa, outros tantos, multiplicados por dez são vitimados por nossa hipocrisia que esfacela nossa juventude por atropelos legais, porém ilegítimos. O combate ao crime parece dividido entre os que podem e os que não podem cometê-los. O Poder designa quem a Polícia deve vigiar – é o embate entre os grandes algozes e os bandidos rasteiros.

Comandados aceitam alegremente, de olhos vendados, os mandamentos dos chefes, que dizem representar a luta do Bem contra o Mal. Suicidas não se importam em explodir em mil pedaços o que resta, para a excitante satisfação de prepotentes de egos duros. Os cínicos agem como hienas, a retalhar a carne dos mortos.

Quando finalmente despertarmos de nossa letargia, veremos um País aniquilado em suas forças, conduzido pela politicagem e malversação de nossas maiores riquezas – os bons brasileiros – jogados à margem da estrada, entre escombros de suas identidades.

Participam do BEDA:  Claudia — Fernanda — Hanna — Lunna — Mari