BEDA / Scenarium / Baile De Máscaras

Baile de máscaras - BEDA
O médico Li Wenliang, que divulgou a existência do surto, morreu por efeito do Corona vírus.

Sim, hoje é 1º de Abril. Não, não é mentira: estamos em quarentena. Ou deveríamos estar. Há pessoas que não acreditam que seja necessária. Há pessoas que creem que se trata apenas de mais um surto de “gripezinha”, entre tantos que se sucedem ano a ano. Há os que indicam os efeitos danosos para a economia ao se propor um “isolamento ou distanciamento social horizontal” em contraponto a um “vertical”. Outros buscam termos em inglês (como lockdown) para potencializarem seus discursos a favor da volta à vida normal (ainda que venhamos a redefinir o que seja “normal”). Há os otimistas-espiritualistas, que estão a crer que estamos no limiar de uma Nova Era, com reflexos positivos para a o convívio social daqui por diante. Há os que afirmam peremptoriamente que estamos à beira do precipício. Há os que veem oportunidade para lucrarem financeira ou politicamente – se é que consigamos separar uma coisa da outra no atual sistema. No resumo de tudo, a grandíssima maioria das pessoas está ciente que passamos e passaremos por tempos turbulentos.

O novo coronavírus – nome do personagem central – transformou-se em pandemia de Covid-19 – nome da doença, criando um pandemônio. Começou em uma província de Wuhan, na China, e reconhecida como ameaça social, buscou-se isolar seu epicentro. Antes disso, quem a identificou – o médico Li Wenliang – chegou a ser preso pelos dirigentes chineses. Acabou morrendo por ter desenvolvido a doença enquanto atuava no cuidado aos seus pacientes. Em dezembro do ano passado, ele enviou uma mensagem aos colegas médicos alertando sobre um vírus com sintomas semelhantes ao da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS, na sigla em inglês) — outro coronavírus mortal. Mas foi orientado pela polícia a ‘parar de fazer comentários falsos’ e foi investigado por ‘espalhar boatos’”. – BBC News. Ou seja, o crime não foi descobrir o surto, mas divulgá-lo, em um sistema de governo que preconiza controle total sobre a população. Aliás, sonho dourado de muitos dirigentes nacionais.

No entanto, quando chegamos a este ponto que estamos, o direcionamento a ser seguido é o da preservação da vida. Para evitar o colapso econômico, muitos instrumentos estão a disposição dos governantes. O horrível disso tudo é que a questão ideológica interfere nas medidas a serem tomadas. Quando houve a crise bancária, em 2008, salvar os bancos foi entendido como prioritário para que a estrutura econômica de então não ruísse. Agora, além da coragem para estabelecermos meios para bloquear a expansão do contágio, deveríamos ter a grandeza política ao decidir usarmos as reservas financeiras do Estado para dar sustentação à população mais vulnerável. O que vai contra o lema dos chamados “liberais” que estão no poder – donos da chave do cofre. Se tivessem estudado História, não teriam dúvidas quanto a lançar mão de um plano que traria alívio aos brasileiros, ainda que parcial, além de substancial crédito político. Porém…

… não vejo nos elementos do atual governo nem grandeza nem condições intelectuais para ações criativas ou, ao menos, óbvias para sairmos deste imbróglio com o menor prejuízo possível. Sequer percebo coerência nas declarações, postura de estadistas a levar em conta o bem coletivo ou mesmo equilíbrio psicológico. Aliás, temos tido provas cada vez mais evidentes que o atual “presidentezinho” deveria sair do Palácio do Planalto em camisa de força. Até Trump, ídolo do Bolsonaro, junto com o Congresso americano, incluindo os Democratas, aprovou o maior plano econômico emergencial desde o New Deal, engendrado para dirimir a recessão provocada pelo Crash da Bolsa, de 1929. Diferente de seu posicionamento inicial, o presidente americano incentivou o distanciamento social, principalmente nas áreas mais infectadas, como New Jersey e, principalmente, New York. No pronunciamento (ou leitura claudicante) em rádio e TV de ontem, contemporizou em relação às declarações feitas anteriormente. Talvez, um recuo tático em vista da postura que sabemos ser diferente quando é acometido de verborreia.

Hoje e nos próximos trinta dias subsequentes, participarei do BEDA, com publicações diárias no Seria Ser. Pensei até em chamá-lo de BEDA da Quarentena. Mas as histórias continuam para além da reverberação do novo coronavírus em nossas vidas. Por isso, não postarei apenas sobre o período programado para se encerrar no dia 7 de Abril que, provavelmente, deverá ser prorrogado por mais tempo, a depender da evolução dos fatos. Mesmo porque, as informações e dados se avolumam não somente semana a semana ou dia a dia, contudo de hora em hora. Estamos no vórtice de um furacão…

Beda Scenarium

RACHADA

A Rachada

Há momentos que a minha mente, que se pretende poética, cede lugar à escatológica. Só assim para tentar entender como funciona a cabeça do brasileiro, que costuma entremear ações, acontecimentos e procedimentos graves com um quê de humor sacana. Essa postura seria louvável – teria certo teor de leveza – se não fosse trágico. Principalmente quando se trata da administração da coisa pública – a considerar algo que não pertença a ninguém e que sobre ela a ninguém se deva dar satisfação ou prestação de contas.

O humor se dá, em muitas ocasiões, de forma provocativa. Na Assembleia Legislativa do Rio, o local específico onde se dão os acertos nada republicanos para o fatiamento dos saques promovidos pelos piratas em terra firme – também chamados de legisladores – ganhou o epiteto de “Furna da Onça”. “Furna” é uma palavra que pode ser substituída por “toca”, “caverna” ou “antro”. Aos momentos dos acordos evocou-se a expressão “a hora da onça beber água”.

Ao se autodenominarem “onças”, os tais membros do Legislativo estão cientes que estão no topo da cadeia alimentar. O dinheiro auferido pelos impostos pagos pelos cidadãos, além de outros recursos, constitui o alimento que lhes garantirão não apenas a subsistência, como também a criação de uma confortável rede de sustentação-compadrio que abarca milhares de pessoas, em detrimento do resto da população. Esse domínio se dá sobre o corpo e o destino do “amado” povo que os elege – um amor de ocasião com tempo limitado de duração.

Outra maneira de alimentar vereadores, deputados e outros membros eleitos por nós é a chamada “rachadinha”. Aparentemente, trata-se de uma operação tão tradicional nas relações político-partidárias, que se inclui entre as vantagens constituintes de quem é eleito. É o processo de preenchimento de cargos com salários em que metade do montante retorna ao pagador – à figura política-administrativa do nosso representante.

O mais distraído dos cidadãos talvez não perceba que essa nomeação remete ao órgão sexual feminino – objeto de desejo sexual do macho humano. Para esse tipo, a mulher é apenas aquela que carrega a porta de entrada para a satisfação de sua sanha. Ah! Não é simplesmente uma rachada, mas uma “rachadinha” – o diminutivo carrega a ideia de algo desimportante, mesclada à evocação de conteúdo carinhoso e certo viés pedófilo.

A conotação sexual, é uma clara característica do humor nascido no âmago das relações do patriarcado brasileiro. Junta-se ao conceito de algo que é naturalmente aceito como sendo reservado a quem é poderoso – tal qual a figura do pai na tradicional família brasileira. Já disse, em várias ocasiões, que um aspecto do poder “é o poder de poder foder”.

Alguns dirão que apresento um entendimento doentio-pornográfico da situação. Pornográfico é o que acontece diante de nossos olhos, como se estivéssemos assistindo a uma dionisíaca foda tendo como pano de fundo a manipulação da eterna esperança que temos por um país melhor. Mãos, dedos, bocas e línguas atuam diligentemente na escuridão para que milicianos da palavra, à esquerda e à direita da furna, se aproveitem do apagar das luzes morais – no sentido do bom procedimento dos homens nas relações com seus semelhantes – para promover o bacanal onde invariavelmente todos saímos fodidos para o prazer dos abusadores eleitos.

Rachada, é a sociedade brasileira.

Projeto Fotográfico 6 On 6 / Urban Art / Arte Na Pólis

 

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Grafite em Campinas

É comum ouvirmos notícias de descobertas de afrescos em paredes de ruínas nas cidades históricas da Europa, como Pompéia, por exemplo – “congelada” no tempo pelo fogo, cinza vulcânica e lava do Vesúvio – em 79 D.C. Nesses afrescos, temos provas figurativas da vida intensa da cidade, interrompida e, no entanto eternizada-petrificada para sempre. Se acontecesse uma hecatombe que paralisasse nossas cidades num átimo, que histórias poderiam ser contadas pelos arqueólogos do Futuro através de nossa arte urbana? Seria tão rica em significados quanto apresenta a cidade italiana? A vontade de fazer de arte, ainda que com função utilitária, é um dos mais fortes pendores humanos. A vida real não basta. Desejamos recriá-la de diversas formas. A “pulsão” pela expressão é uma das características que nos distingue das outras espécies animais. As pinturas rupestres de quase quarenta mil anos são provas cabais disso.

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Estação Júlio Prestes

Eu acho incrível quando são criados espaços para expressões artísticas à partir de outros construídos para propósitos diferentes. Na imagem acima, à direita observa-se a torre da Estação Júlio Prestes, projetada para servir ao embarque e desembarque de passageiros de trens, em uma época que as estações ferroviárias equivaliam aos aeroportos atuais. Atualmente, boa parte do edifício é ocupado por uma maravilhosa estrutura para concertos de música clássica, com uma sala (São Paulo) que apresenta uma das melhores acústicas do mundo. Na imagem seguinte, a parede de um de seus grandes halls, que apresenta um belo vitral – arte à serviço do utilitário – a exprimir a sensibilidade de seres para os quais não basta a praticidade de deixar passar a claridade externa. Haverá sempre o desejo de requalificar a luz…

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Cavalo Rampante

A imagem acima é a do Cavalo Rampante, escultura do artista italiano Pericle Fazzini. Doada pelo Governo Italiano em 1974, fica em frente ao Edifício Itália, cujo o nome oficial é Circolo Italiano. A própria edificação, de linhas circulares, é uma obra de arte arquitetônica. Situada na esquina da Avenida Ipiranga e São Luiz, diante da Praça da República, perto do Copan, compõe um conjunto arquitetônico simbólico do poder econômico de uma cidade que se projetava como a capital financeira do País no Pós-Guerra. Naquela ocasião, formavam o chamado Centro Novo, hoje conhecido como Centro Velho ou Centrão, a referendar o quanto esta cidade devora a si mesmo.

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Linguagem dos espelhos

O centro da cidade foi se deslocando gradativamente para a região da Avenida Paulista, principalmente à partir dos Anos 70. Na antiga passarela de carroças puxadas a cavalo do início do Século XX, de grandes casarões pertencentes aos Barões de Café, depois demolidos, surgiram altas torres de aço e vidro, que tomaram conta do cenário. É comum esses edifícios se olharem frente a frente, dialogando em uma língua espelhar que transforma seu significado a cada olhar e posicionamento, tal qual na arte cinética.

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Os Michaels

A arte urbana não se manifesta somente através das artes plásticas, mas também por meio de outras expressões – dança, música e teatro – em todas as horas do dia, principalmente aos finais de semana. São Paulo revela seus personagens-atores-bailarinos-cantores a cada esquina ou calçadão. O público passante homenageia os artistas doando seu tempo – o bem mais precioso do paulistano – que está sempre na correria desenfreada na busca de sua sobrevivência. A contrapartida em dinheiro será sempre vinda para aqueles que se expõem ao olhar crítico dos consumidores de cultura.

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Trio de Forró

Na região do Limão, encontra-se um espaço destinado a shows e outras manifestações artísticas típicas do Nordeste – culinária, artesanato e música – bastante frequentado por parte da população bastante influente no crescimento de São Paulo, através de sua cultura e força de trabalho – o Centro de Tradições Nordestinas. Junto à entrada, foi erguido um conjunto de esculturas homenageando o artesanato típico nordestino, ao mesmo que se refere a formação típica do Trio de Forró – músicos com acordeão, zabumba e triângulo. Creio que a influência do povo nordestino seja pouco mencionada, mas é de suma importância de várias maneiras, principalmente no aspecto humano. São Paulo detém a maior população nordestina fora do Nordeste. Não duvide se descobrir que os melhores sushimen ou pizzaiolos sejam nordestinos, por exemplo.

 

Participam dessa interação:

Maria Vitória | Mariana Gouveia | Lunna Guedes