A Moça De Aquário

A Moça De Aquário e eu, antes da Pandemia, reunidos no lançamento de “Confissões”.

Eu vi uma foto sua postada em que o meu neto de quatro patas, o Bambino, está diante da velha entrada da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, local onde você estudou e se formou em Direito. Respondi à postagem dizendo que nunca imaginei na época que fiz três ou quatro eventos musicais por lá, que um dia uma filha minha estudaria naquela prestigiada instituição. Já havia utilizado outras áreas do Campus, mas quando sonorizamos a apresentação de Os Demônios da Garoa no sagrado TUCA, o teatro que foi incendiado à época do regime de exceção, em 1968, além de sofrer dois outros incêndios em 1984, no aniversário do primeiro e dois meses depois senti uma forte emoção ao ver as paredes laterais crestadas, gritando a sua relevância. Foram tentativas de calar movimentos libertários nascidos no seio artístico e estudantil um marco de nossa História. Também nunca imaginei que reviveríamos as mesmas ameaças da época da Ditadura, com a arte sendo atacada da mesma forma. Hoje, devido à Pandemia de Covid-19, o Campus inteiro da PUC-SP se encontra fechado. A vida está fechada. Vivemos uma Quarta-Feira de Cinzas depois de um não-Carnaval. Vivemos tempos nebulosos, entregues à sanha de um dos cavaleiros do Apocalipse Peste, Fome, Morte e Guerra. Para quem revelou que o negócio dele é matar, não duvido que represente a Morte. A Peste, já a estamos vivendo. A Fome é nossa companheira constante, mas crescerá diante do atual quadro recessivo e a Guerra já não é um desejo tão secreto do sujeito ao qual me refiro.

Quando você se formou há seis anos, lhe disse que estávamos deixando uma pesada herança para quem viesse depois de nós. E que também que não acreditava que veria um País melhor antes que eu viesse a morrer. Mesmo não sendo tão otimista, não passava por minha mente sequer metade dos problemas que presenciamos hoje no Brasil. Porém, quando a vejo diante de mim e testemunho a sua força, determinação e preparo, alguma coisa se acende em mim. Não diria esperança, porque não sou do time dos esperançosos, muito talvez por ter visto tantas vezes os brasileiros ludibriados por seus representantes, que deixei que esse sentimento se esvaísse pelos bueiros de nossas cidades sujas. A Democracia a ser aviltada por usurpadores de direitos e que colocam os seus desejos pessoais à frente dos coletivos uma nação tão rica, mas tão desigual. O fenômeno que eclodiu como pústula em 2018 não é causa, porém consequência de nossa condição de indigentes éticos. Como nasceu com o signo que carrega o futuro nos olhos e por tudo que realizou em sua vida, acompanhada de amigos e amigas talentosos e lutadores, o destino deste país pode não estar totalmente perdido.

Ingrid, meu amor, como eu gostaria de lhe fazer votos de felicitações, de alegria e alento! E apenas isso! Contudo, a realidade se impõe e não gostaria de ser desonesto consigo se não me mostrasse como o faço agora, inteiro. Ainda que um tanto ácido. Este é o meu presente! Você sabe que eu não tenho como lhe dar, neste momento, nada de regalo material… Eu lhe desejo saúde, sim; paz, sem dúvida; amor, mais do que já tem, se isso for possível! Eu lhe desejo o melhor do mundo. Mas sei que, como eu, você gostaria que o mundo todo também tivesse o que lhe desejo. Por isso, além de amá-la, eu a admiro. Pois você, aquariana, acredita na redenção dos contraventores, na inocência dos despossuídos, punidos antes mesmo da pena imputada, condenados por apenas existirem. Você é uma mulher ímpar, um ser do Bem, alguém que é devotada ao outro, que ama, amável que é! Se errar, será por amar, o melhor motivo. Já disse algumas vezes que sonhei com vocês três em minha vida, ainda um garoto imberbe, antes que pudesse entender o que isso significava. Cria num Brasil emancipado, equânime e justo para vocês. Apesar de tudo ou por causa de tudo que passamos para chegarmos até aqui e agora, não desejaria outras pessoas ao meu lado. Vocês me fazem renascer todos os dias! Especialmente nos dias em que recordo os seus nascimentos. Mas hoje, os meus parabéns serão somente para você, meu amor!

Cópula

Estou a flutuar
como um espírito despregado
de seu corpo…
No entanto, sou eu, ali…
a pairar sobre outro corpo,
a penetrar o seu colo…

Momento
em que a matéria se faz etérea
e a alma se percebe pesada…
Transição entre mundos,
entre gemeres,
entre quereres
entre entes…
Entre mentes…

Entrementes,
somos nós,
entre nós
e ataduras,
a nos libertar…
Livres,
somos vivos,
somos deuses,
somos pós…
Presente,
passado
e futuro…

Foto por Farzad Sedaghat em Pexels.com

Projeto Fotográfico 6 On 6 / Em 2020, Eu…

… sobrevivi. Até agora… Com o advento de Março, chegou a Pandemia de Covid-19 no Brasil. E ela mudou tudo. As relações interpessoais sofreram o abalo que para alguns povos não significa tanto, mas para os brasileiros resultou em uma mudança brusca de comportamento — como assim, não podemos abraçar? Como assim, não podemos beijar? Como assim, não podemos respirar o mesmo ar? Como assim, não podemos trabalhar? Restou ficarmos em casa, reclusos, montando verdadeiras estratégias de guerra para simplesmente circularmos pelas ruas para irmos até uma padaria, farmácia ou supermercado. Como criminosos do colarinho branco, fomos condenados a cumprir a pena de prisão domiciliar. E como alguns bandidos, vários de nós fugiram de suas celas para enfrentar o vírus, por necessidade ou negação. E, chegamos ao final do ano, devendo anos de condenação.

Flor de maracujá

5 de Fevereiro, quarta-feira
Emoção na Casa Ortega: respondendo com beleza à atenção e ao carinho dispensados ao maracujazeiro, ele começou a florescer. Quem vive na cidade, costuma perder os pequenos milagres que a Natureza nos proporciona. As emoções são compradas e os sentimentos adquiridos como se fossem utensílios. Mas são escolhas, muitas vezes feitas por outras pessoas ou por ideias generalizantes de como a vida deva ser levada. Nós escolhemos ter quintal. As nossas plantas agradecem e os pássaros, também.

Olhar em vagas…

8 de Abril, quarta-feira
Decretado o isolamento, eu estava na Praia Grande, realizando algumas tarefas na casa da família. Fiquei isolado por quase um mês. Sem trabalho, já que os eventos do ano todo estavam suspensos até que tudo voltasse ao normal — que imaginávamos ser dali a pouco. Munido de máscara, comecei a circular de bicicleta pelas vias vazias da cidade para que pudesse me manter ativo. Ajudava o fato de os dias serem sequencialmente nublados, úmidos e frios. Escrevi, como legenda dessa imagem: “Fiquei recluso dentro de mim, mas o meu olhar vagueou por aí…”.

Parte da Turma do Curso de Educação Física da UNIP – Marquês, em 2010 — Clube Speria

16 de Julho, quinta-feira
Em boa parte do ano, eu passei a relembrar etapas da minha vida pregressa. Ressalto isso porque relembrar o futuro, também faço — ao viver o presente. Silogismos duvidosos à parte, houve etapas que cumpri com o prazer de um menino que descobre o novo quando este veterano se tornou calouro, em 2009, no curso de Educação Física. Passei quatro anos aprendendo bastante sobre o corpo em movimento e sobre convivência. Mais maduro, diferente dos meus 20 anos, quando fiz História, na USP, época que passei por várias crises existenciais, aos 50 anos levei adiante o curso ainda que a diferença de gerações pudesse trazer algum entrechoque o que, sinceramente, não senti acontecer. Pelas redes sociais mantenho contato com muitos deles, acompanhando os vários caminhos que tomaram, torço para que alcancem os seus objetivos.

Encostado, dolorido e, ainda assim, fazendo pose…

22 de agosto, sexta-feira
Quem disse que lavar roupa não é perigoso? Ontem, quinta-feira, lavei roupa e a água que resultou da lavagem utilizei para lavar o chão da varanda do @boilerlaje, escadas e churrasqueira. Após terminar uma parte, lá estou eu de chinelão, distraído, a descer, quando um passo em falso na escada escorregadia e, de uma queda, fui ao chão, quatro metros abaixo, batendo costas, pernas e braços até o final dos degraus. Não bati a cabeça porque o judô praticado na infância sempre me ajudou a protegê-la em todas as muitas quedas desde então. Acudiu-me uma cavalheira, a @liviaortega e um cavalheiro @pablittz. Pensei que houvesse apenas escoriações superficiais, mas à noite não consegui dormir direito devido às dores que surgiram depois. Hoje, estou melhor. Mas tive que reviver na boca da @tanort, da @romyzeta e da @ingriidortega, além da Lívia, poucas e boas. Acabei por me lembrar da minha mãe, Dona Madalena, que ralhava comigo todas as vezes que eu aparecia “quebrado” em casa por causa de carrinho de rolimã, patins ou futebol em campo de várzea ou quadra. Quase cheguei a confundir a dor aguda e passageira do corpo com a dor tênue e permanente da saudade. Se chorasse, talvez fosse mais pela última… no mais, gemi bastante.

O ovo azul…

29 de Outubro, quinta-feira
Produção de ovos recolhida hoje pela manhã, botados pelas galinhas garnisés Irmãs KardashiansKim, Kendall e Kylie — nomes dados por minhas filhas. Sim, um dos ovos é azulado. Provavelmente da Kim, que é misturada com galinha comum. Instalamos um galinheiro em nosso quintal. Além das fêmeas, veio também o galinho Elton John. Coincidentemente ou não, o galinheiro fica no final do Yellow Brick Road, que dá nome ao jardim. Esse ovo azul me fez lembrar meu avô Humberto, pai do meu pai, que disse ter trazido ao Brasil as galinhas que botam ovos azuis. Ele me relatou esse fato à época em que passou seu tempo final de vida conosco. Um pouco antes, uma a uma das três mulheres mais visíveis de sua vida haviam falecido – sua última companheira, a mãe do meu pai e a madrasta que ajudou a criar seu filho. Já enfraquecido, cuidei dele, ajudando a lhe dar banho, caminhar e comer. Desde que mudamos para a periferia, para ajudar no orçamento de casa, minha mãe tornou-se granjeira. Chegou a ficar conhecida como a Dona Madalena das Galinhas. Essa tradição perdurou por anos. E, aparentemente, está retornando.

Dezembro de 2020 e sorrir está difícil…

06 de Dezembro, domingo
Eis que chegamos ao final da primeira semana do último mês do ano mais incrível do Século XXI, por enquanto. Muitos utilizam o termo “incrível” com sua conotação positiva, mas ele significa exatamente o que expressa: algo que não é crível. Não é crível que não consigamos agir da maneira correta. Não é crível que tenhamos um governo tão inepto quanto o comandado pelo miliciano que está na presidência. Não é crível que as pessoas não aceitem a Ciência para balizarem as medidas preventivas para sobreviverem a esta crise sanitária. Não é crível que não aprendamos com os erros. Aliás, não seria crível, se não fôssemos brasileiros… Somos terríveis! Em todas as suas acepções: assustadores, fastidiosos, funestos, péssimos e, principalmente, invencíveis. 

Participação de 6 On 6 de:

Lunna GuedesMariana GouveiaDarlene Regina

O Mais Pesado Que O Ar

Noite feita,
quase relego ao esquecimento
a imagem da tarde…
Crepúsculo recuperado,
o passado
se faz presente e arde…
Revejo a nave que não sei se chega ou se parte…
Pinceladas compostas de água e luz — a arte —
pontua o fundo da paisagem
ao oeste.
Eu, poeta do poente,
sei que apenas o amor é combustível poderoso o suficiente
para fazer voar
o mais pesado que o ar…

Corpo Presente / Posições

Corpo presente…

Tirante o pensamento, nada viaja mais rápido no Universo observável do que a luz. Para nós, na Terra, a luminosidade do Sol nos atinge quase tão imediatamente quanto é produzida. As estrelas mais distantes são imagens do passado que admiramos durante anos mesmo depois de muitas terem se extinguido ou absorvidas por algum buraco negro. Tanto quanto o que vivemos tem como referências imagens que não mais são o que são, mas o resultado de experiências passadas de corpo presente…

Posições…

Tudo o que nomeamos, discriminamos, classificamos, justificamos, estabelecemos como tal o que é, seja lá o que for. Passar por cima do que está estipulado como líquido e certo, atravessar o significado das estruturas fixadas pelas palavras não é fácil. O Sol, a Lua, o dia, a tarde, a Terra, a manhã, as horas, os minutos, o Tempo, os segundos, o sexo, o homem, a noite, a mulher… É o Sol que se põe? É a Terra que se move? Quem come quem?…