06 / 08 / 2025 / BEDA / Projeto Fotográfico 6 On 6 / Seis Meses, Seis Fotos (Mutante)

Ao me debruçar sobre o tema acima, fiquei imaginando quais imagens poderia colocar dentre as muitas que produzi de lugares e pessoas. Mas como estou a me sentir um tanto introspectivo sobre a passagem do tempo, decidi colocar a mim como alvo de elocubrações quanto à passagem do tempo marcado no olhar.

Nesta imagem de Janeiro de 2018 estou no camarim de um clube em Campinas, onde logo mais à noite, haveria um baile de salão. Faria a sonorização da Banda Ópera Show. Formada por Tânia Mayra e João Soares como cantores (dos melhores no estilo), permanecemos por mais dois anos, até o advento do isolamento social para conter a temível Covid-19. O resto é uma triste história, incluindo a passagem de João Sorriso, como o chamava, por causa de um câncer no Pâncreas.

Esta segunda foto ocorreu em Fevereiro de 2016. Usei um aplicativo para criar o tom rubro da imagem que já se destacava pela incidência dos raios solares do crepúsculo. Gosto dela porque prospecta o meu olhar de quem quer enxergar para além do imediato, apesar de tentar viver o agora.

Foto da minha primeira identidade com cara de terrorista. Eu a retirei em Março de 1979, tinha 17 anos e uma nascente barbicha. Logo, por efeito de ter me tornado vegetariano, começaria a emagrecer bastante até ficar um tanto irreconhecível. Depois de me adaptar pouco a pouco à alimentação sem carnes de qualquer tipo, consegui ficar menos magro. Essa fase, durou cerca de dez anos, até me casar, em 1989.

Esta imagem tem três anos. Talvez estivesse tentando me levar mais à sério naquele Abril de 2022. Apesar de ser séria a situação do País em que as ações do então (des)governante estava a progredir para a tentativa de Golpe de Estado colocada em pauta dia sim, dia não. A estratégia então empreendida era a de esticar a corda e agir no sentido de alicerçar a sua continuação no poder, obstada por aquele que hoje é o seu algoz quando estava no TSE. O interessante é que, preocupado com um eventual Golpe de Estado por parte da esquerda, promulgou no ano anterior a Lei 14197 que acabou por levar a ele próprio às barras do tribunal do STF.

Um pouco antes do início do Inverno em Maio de 2023, o País já havia superado uma tentativa de Golpe de Estado em 08 de Janeiro. Os raios do entardecer me aqueciam às primeiras brisas frias. Tanto eu quanto a Bethânia apreciávamos os crepúsculos que espero continuar a usufruir num Futuro mais promissor.

Chegamos a Junho de 2025 e esta é a minha última mutação. Envelheço com certa dignidade, escrevendo planos para o Presente, que é como eu vejo o Futuro. Sinto-me bem, mas algumas dores se fazem evidentes no corpo que são menores que as da alma. Assim como no Passado, nada de novo…. Vamos em frente!

19 / 07 / 2025 / Mamãe*

Minha mãe, Dona Madalena, avó da Ingrid, também na foto e eu, seu pai — há tanto tempo que eu até tinha muito cabelo.

Estou sozinho, um pouco antes de estar rodeado de muita gente. Mas, a bem da verdade, sempre estou só. Por uma dessas coisas que não consigo evitar, não me distancio muito de mim, na maior parte do tempo. Quando consigo, fico aliviado e sofro… muito. Porque tudo e todos ganham gravidade e peso. Ou o excesso de peso é diretamente um efeito da gravidade, multiplicada milhares de vezes. Então, me sinto como se fosse ser esmagado pela realidade.

Tento superar, porém ao ser bombardeado pelos votos, disparados a torto e direito, de “Feliz Dia das Mães!” –– remeto meu olhar diretamente às mães que amam os filhos, apesar de tudo. Porque há mães que sequer gostam de seus filhos, como há filhos que não gostam de suas mães, quando as conhecem ou porque as conhecem. Ou que gostam muito, contudo não dão o braço a torcer declarando, simplesmente: “Mãe, eu amo tanto você!”.

Tenham certeza –– não há presente mais caro e raro que valha tanto quanto mostrar-se presente com todo o amor que seja possível declarar. Eu, de minha sorte, não perderei essa oportunidade: “Eu a amo, Maria Magdalena Nuñez Blanco Y Prieto Ortega!”… para sempre! 

* Texto de 12 de Maio de 2019, ao nono ano do passamento físico de minha mãe.

14 / 07 / 2025 / Pela Janela

Pela janela observo o Passado à vista do Futuro.
Estou presente.
Mas nunca estaciono a mente no momento.
Sempre me sinto deslocado.
Quem eu imagino ser?
Aquele que passa…
Passeio pelas passarelas que atravessam vias abaixo.
Transitam monstros transcendentes
de bocas pequenas,
melhores que tantos cheios de enormes dentes.
Dementes.
Mas continuo a ver que a vida se expressa de miríades maneiras,
assim como as estrelas brilhantes,
ainda que muitas, já mortas.
É como relembrar o beijo de um amor de nossa juventude.
Que se foi…
Pela janela, a transparência é opaca…
Minha alma se sente oca.
Mas plena de vazios, carrega possibilidades de ser…
Que seja o que acontecer…

Registro fotográfico de 2018. Arquivo pessoal.


13 / 07 / 2025 / Tempo*

Tento viver um dia de cada vez… mas, ouço, com certa frequência, pessoas argumentarem que devemos planejar o futuro — e não ficarmos totalmente presos ao Presente.

Não vejo melhor maneira de estruturar o futuro que nos dedicarmos ao Presente… da melhor maneira possível.

Um passo por vez, no bom caminho, sempre em frente… com o destino estampando — como se fosse o letreiro luminoso de um ônibus: FUTURO. Afinal, tudo o que ocorre conosco, nos dias que correm, é consequência direta do nosso passado.

O Tempo, para mim, é relativo… alguém já provou, por “a + b”, com muito propriedade, que assim é. Eu diria, até, que o Tempo não existe — pelo menos, não da maneira como o estipulamos, medido em números.

O que chamamos de Tempo diz respeito aos efeitos dessa contagem de números sobre o nosso corpo e sobre a matéria… nesse caso, chega a ter certo fundamento.

Os gregos foram mais espertos ao definirem o Espaço-Tempo de acordo com os deuses e o homem.

Eu prefiro relacionar o tempo a um estado mental e, dessa maneira, em minha mente, os três Tempos — passado-presente-e-futuro — se confundem.

Para simplificar e não parecer uma pessoa fora do Tempo, estipulo que o nosso Passado apenas nos explica o Presente, e o nosso Futuro… acontece agora.

*Texto participante do livro de crônicas REALidade, lançado em 2017 pela Scenarium Livros Artesanais.

13 / 04 / 2025 / BEDA / Em Busca Da Fantasia*

CADA UM LUTA PELO QUE LHE FALTA

Desde garoto, fantasiava. Em determinado momento, comecei a colocar esses arroubos excessivos da imaginação em papeis amarrotados com tocos de lápis e canetas usadas. Nas redações escolares, as minhas professoras-leitoras me incentivavam a continuar a escrever. Mas cria que fossem incentivos costumeiros. Fora as tarefas, escrevia por compulsão ou necessidade textos que não mostrava a ninguém. O meu primeiro ouvinte foi o meu irmão, para quem lia histórias aventureiras que abusava de seres excêntricos, recheados de sustos e finais inesperados. Ele adorava. Cem por cento de aprovação.

Aos 14 anos, comecei a ousar mostrar para outras pessoas o que criava e obtinha certa aceitação. No Segundo Grau — o antigo Colegial — em outra realidade de relações, ficava a poetizar a minha vivência, impulsionada pela imersão na religiosidade. Era comum eu versar sobre a luta entre o desejo sexual e a contestação de sua expressão. O casto experimentava fantasiar sobre o sexo, ao mesmo tempo que se sentia um transgressor que desrespeitava regras autoimpostas. O devaneio com requintes de extravagância transformava tudo em ficção, a realidade adivinhada pela imaginação. Conseguia, talvez por isso mesmo, alcançar a verdade circunstancial do momento, em lúcida loucura. O que constatei ao ler alguns desses escritos depois de algum tempo, já experiente. Eu me sentia como que encantado.

Compreendi que o que poderia chamar de instinto estrutural me dava ferramentas para que a fantasia ficasse bem perto da veracidade dos fatos. Os escritos internamente obedeciam a uma lógica de tal maneira que dificilmente deixava pontas soltas. Embriagado de ficção, me descuidei. Professava a empáfia dos autossuficientes e a realidade dos homens aproveitou a minha distração para me socar na boca do estômago. Fui a nocaute. Permaneci na lona, beijando a morte por alguns anos. Quando me levantei, o sonho parecia ter acabado. Ou se apartado de mim e atravessado uma porta que se fechou. Comecei a desejar reencontrar a capacidade de sonhar feito um poeta doido que perdeu seu amor pelo caminho. 

Sinto falta de fantasia. Uma espécie de senso para o fantástico que se diluiu na nebulosidade dos tempos que envelheceu a mão, endureceu as articulações e empoeirou a eloquência da minha fala. Falhei. E falho a todo instante que deixo de crer na ilusão. Grávido da realidade dos homens, sangro a parir nulidades. Luto para reaver o deslumbrante movimento de estar incompleto em saberes e existir pleno de intuições. Quanto mais me abstenho de sonhar, mais eu me sinto longe da verdade pessoal. Cresci inversamente, para baixo, abismado, enquanto caía. Não acredito em esperança e o presente é como se fosse um limbo. Seco. Se antes fosse úmido feito a vulva da Quimera…   

*Texto participante do Coletivo CADA UM LUTA PELO QUE LHE FALTA, pela Scenarium Livros Artesanais