Este quadro, eu encontrei na rua, jogado junto ao lixo para ser levado dali a pouco. Tela simples, traços básicos, paisagem típica de uma marinha. Quase não o trago para casa, mas percebi que havia algo escrito à lápis atrás da tela, que se iniciava assim: “De G… para J… É um prazer muito grande estar lhe presenteando com um pedacinho de mim”. Era uma declaração de uma funcionária para a sua “chefe” que acabou por se tornar amiga. Discorre sobre as razões pelas quais a admira. E se encerra desta maneira: “Continue sempre assim. Te desejo muita paz de espírito e felicidade e a todos que convivem com você. Beijos!” G… 15/03/01″. Imagino que quem quer que tenha jogado fora, não foi J… Talvez, um filho ou neto que não tenha conexão com a arte… da amizade…
A minha mãe está presente, em mim. Tenho dificuldade de me lembrar exatamente o dia em que ela se foi fisicamente. Foi em 2010. Ou poderia dizer que se eternizou. Mas não estou aqui para falar sobre Dona Madalena. Seria como falar sobre mim. Quero exaltar a mãe mais próxima que eu conheço, a das nossas filhas, a Tânia.
A partir de 1989, com a chegada da Romy, começou a sua jornada mais intensa. Mas a gravidez já foi uma fase complicada. Os seguidos enjoos, dores articulares, pés inchados, se mostrou bastante desafiadora. Ainda assim, a Tânia encarou mais duas gestações. Com a chegada da Ingrid e da Lívia, completou-se o triunvirato de “crianças” de nossa família.
A Tânia é uma mulher múltipla. Ser mãe (também função no sentido que ocupa seu tempo mental) é apenas mais uma entre tantas. Profissional exemplar, aonde chega para assumir um cargo, o encara com maestria. O meu olhar externo, em conversas que temos, vejo que se afigura quase como missionária na saúde pública. Quer fazer a diferença e faz. Antes, no atendimento direto, agora, no setor administrativo, que abrange uma parcela maior da população.
Não apenas profissionalmente, a Tânia mulher também quer se fazer ativa. Está cada vez mais envolvida em atividades que a satisfazem, como a jardinagem, além de estar firme na dieta que aplaca as eventualidades mais difíceis da Menopausa. A saúde pessoal como prioridade. Essa fase apenas toca de leve no relacionamento que ela tem com o próprio corpo que a “ataca” com a variabilidade hormonal pela qual uma mulher normal passa.
Aparentemente, pelos efeitos externos que demonstra, tem superado com galhardia e coragem — outra característica sua — o presente que é o nosso tempo, também. A família a quer feliz, satisfeita, ao mínimo. Deseja a ela um presente melhor, um futuro mais promissor em termos pessoais. Feliz dia da Tânia!
carreadouro passeio de formiga rua de cafezal corro por entre alamedas virgens de passos meus violentadas pela indiferença com a qual inauguro mais uma visita que terá de diferente nessas casas geminadas de famílias iguais? o céu divisado por um olhar enviesado de sol inclemente que invade janelas descortinadas e lambe portas fechadas convidando ao não e ao talvez quem sabe haja um mar particular quartos e histórias de dilúvios e aluviões de minas auríferas platinas ou cristais ou lama açude seco areia movediça pasto duro salas de piso de antigos tacos que soltam e revelam relevos incongruentes onde um dia crianças brincaram indelicada a vida tripudia em vez de grandes planos urde mínimas ilusões carrega no quengo concomitâncias com o sofrimento dos escravizados o que era imposto antes agora não apenas é aceito assim como é desejado – quero que me comprem – me consumam um motivo para viver para beber para comer para querer para dever porque eu não me basto como fogo me alastro e destruo o que vem pelo caminho pelo desvio pelo sentido direção e chegada sem fim permissão para fenecer expirar todo o ar dos pulmões enxarcados de vazios desencarno os pés nas pedras hirsutas e candentes de sons inaudíveis como vozes surdas e suspiros partidos intuo que perguntem que será que sou quem estou?
O
onde está que não responde? dedicação de dez anos me usou fui útil agora passei página virada curva fechada some no horizonte o barulho das ondas na arrebentação parece se apequenar em minha memória de sóis poentes e brisas mornas areia macia pés de bailarina arcos impossíveis manobras abissais nesses momentos dançávamos as mesmas notas o último encontro únicos membros tantos quartos desocupados eu dormia no catre ao som das trombetas de jéricó d. pedro que levantava a espada e penetrava no âmago da liberdade prazer que gemidos confirmavam eu ao telefone enquanto me engolia edição de fotos que esbravejava o golfinho como testemunha mergulho abaixo às aguas transparentes da tarde que morria noite a lua enluarava como se predissesse que não seria apenas o fim do mundo mas também dos sonhos de eternidade amor em terna idade houve momento em que pensou que iria morrer a imensidão a cercando pouco a pouco como se o céu caísse em si enquanto os seus olhos esverdeados se agigantavam rompendo nuvens fendendo camadas alcançando a derradeira circunferência de onde não mais voltaria pedi para que lhe visse passar ao menos tripudia de minha distância enquanto aumenta a dissensão se transfere para outra dimensão e fico aqui neste ponto em reticências…
M
mulher que bebeu de minhas melhores emoções refestelou-se fui intenso fui imenso diante de seu corpo nu mais crescia mais me apetecia jogar-me do alto do abismo estive apaixonado uma vitória sobre minhas defesas ao chão prendeu-me seu sorriso desbocado sem dentes naturais feito prótese que o tempo tratou de compor mas amava porque estava você a me beijar debruçada entre as minhas pernas provando-me entre soluços de choro sentido estávamos finando em cada tempo que imaginávamos recomeçar foi como uma descida de um avião sem asas partidas em pleno voo em dor espiral expirávamos em fogo e riso da lembrança do fauno com os cascos sobre o balcão que disse: “ele está lá encima” enquanto a banda marcial executava hinos pátrios foi assim que adentrou ao átrio com saltos altos que ouvia desde o corredor eu a recebi à base de beijos línguas serpenteando seu hálito de cerveja para tomar coragem de invadir a minha vida de vez na segunda incursão do dia revelou o presente do primeiro encontro: “eu amo você!” enquanto pensei ela não precisa de mim para chegar ao ápice queria estar ali mesmo que somente como expectador da performance da artista dedicada ao monólogo o meu corpo como seu palco de atuação teatro moderno a plateia como coator quase sempre contracenava sendo os outros que de mim saltavam pelos poros em desespero de expressão como a gritarem – nós existimos! comecei a sentir o poder do demiurgo a corromper as minhas ações queria comer todo mundo mas recuei me assustei como pode um ser empoderar tanto o outro assim?
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benditos os que amam amar é radicalismo posto em prática caminho sem volta quem amou um dia amará para o todo o sempre congelado no tempo será a sua história tão preciosa quanto dolorosa tão aguda quanto plana tão simples quanto confusa tão extrema quanto definitiva feito o ponto final posto na última palavra da última página de um livro incompreensível que o cupim comeu feito james joyce caminhando no chão forrado de carvão incandescente como prova de humildade intelectual apenas que não ocorre intervenção da mente na paixão é doença cerebral obliteração dos sentidos os sentimentos invadindo as texturas e fibras orgânicas as transformando em vetores sinergéticos para entregar à oblação oferta em sacrifício no altar do gozo tão fátuo quanto viciante desejo de voltar a ter a mesma sensação da primeira vez viagem sem volta mas talvez o esquecimento intervenha e venhamos a percebê-la como cicatriz que coça de vez em quando mais ou menos de tempos em tempos feito o sangue que passa pelo coração percorre o corpo todo atinge o cérebro e repercute em algum ponto da pele dedos cotovelos peito costas barriga coxas e entre as coxas nada que uma das mãos não resolva…
O
ondas do mar invadem o meu peito atravessando as vértebras e banham o meu coração de saudade ainda que não acredite nela como algo que denota falta mas é presença na ausência quando os meus pés ultrapassam as linhas aquosas fronteiras entre as matérias me integro me entrego me torno água perfuro fluo seguro o ar fecho os olhos as três dimensões se dissolvem me santifico batizado pelo sal renovado as avarias lavadas retificadas as pancadas silentes dormentes silenciosamente se curam abençoadas pelo sol clemente beijando a minha tez indígena embranquecida eu sou transfigurado pelo elementos desde a areia para a areia não persigo mais a redenção pessoal sou redimido pela falta pelo vazio criativo prestes a ser preenchido de nadinhas maiores e menores incisivas perfurantes duras feito diamantes ainda a serem lapidados tudo me interessa ninguém me acolhe me sinto só com o tudo a me costurar o mundo nas costas carrego feito sísifo de quinta categoria o peso que rola a montanha abaixo me cristianizo ofereço a outra face para que o sistema me esbofeteie organizo a minha dor uma de cada vez em uma fila da qual não vejo o fim porque redivivas sorriem como bebês satisfeitos após a mamada espero que adormeçam para que continue a subir o morro e morrerei curioso para encontrar a substância ou a escuridão abstrativa isso é encontrar ou se desencontrar? sei que irei para alguma cadeia molecular de carbono ou que talvez integre átomos que se perfaça em flor definitivamente serei deus…
I
independência não existe fome sim dependemos de nos alimentarmos para sobrevivência isso nos torna fracos se dispersos egoístas unidos podemos fazer tudo como destruir o mundo que nos nutri mas criamos estratégias de dependência dos mais fracos a um sistema abjetamente os despossuídos se integram ao paraíso como serviçais tocam mas não podem possuir cheiram mas não podem comer veem mas não podem desfrutar alcançam de forma indireta a fruição da possibilidade isca lançada servem aos senhores dos meios e dos fins a terra inteira destruída em nome do poder de alguns até esses dependem de que a ilusão perdure para que continuem a serem mandatários no entanto se todos tivessem os mesmos recursos o planeta não suportaria tamanha pressão sete gaias não aguentaria a demanda da podre riqueza feita de guerras messiânicas acionadas de forma mecânica para o aumento do fluxo sanguíneo que alimenta a sociedade organizada…
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ocasional o meu futuro o meu presente é solidificado sou o que sou ainda que não me conheça por inteiro estou em construção e desmantelamento agrupamento e dispersão desencaminhado e perseguido por minhas dúvidas e questionamentos continuo em contínua inconstância traço de causa consequência coerência cansado de não perseverar não vejo saída a não ser prosseguir a ser observador da vida que passa passo junto perpasso par e passo sonhando ser pássaro em revoada mas fazendo parte de um comboio acorrentado a vagos vagões viajando em trilhos sem rumo aparente sabedor de minha nossa exiguidade não me sinto perdido a não ser em mim sem sins jardins jasmins e festins não sou enganado porque não estipulo cláusula pétrea para nada y nadie mas carrego um traço de inocência que me deixa surpreso com muita coisa coisa é algo incomensurável indizível coisada se acredito acredito que a vida é um milagre seja sob que forma for sem aforismos ou regras apenas fruição se oro é para o deus mudança transformação transmutação locomovido em locomotiva desgovernada maquinista despersonificado me sinto como se fosse uma novidade no universo sem encarnações anteriores mas com um fim consciente num tempo indeterminado pelo destino se pudesse nomeá-lo que nome daria: sorte de principiante?
estamos… colados você e eu frente e verso e versos nossos corpos a conversar intumescências a versar transpor limites penetrar âmagos nos engolirmos fazer vibrar estômagos liquefazer desejos salivares acessar berços estelares ultrapassar sistemas solares em viagens para além do passado voltar ao útero do nada antes de tudo penetrarmos em presentes possíveis conhecermos futuros acessíveis eu você nós urdidos em fibras transfigurarmos nossos somas sonharmos os sonhos dos deuses somarmos nossos prazeres inaugurarmos o tempo fecundar o solo da matéria criarmos planetas e satélites explodirmos e enfim adormecermos a vida…
Numa segunda-feira como esta, às 2h da manhã, eu comecei a sonhar esta vida terrena. Aos 62 anos, continuo a sonhá-la, vivendo a carregar o fardo do passado, preparando o futuro, o presente como sentido. Vivê-lo é um presente que alguns poucos conseguem receber. Ele não nos é dado. Temos que buscá-lo. Mas não é fácil. Temos que contemplar o passado como experiência, o futuro como possibilidade que, só é viável se, no presente, o direcionarmos. Tudo é presente. Construído minuto a minuto. Ou desconstruído.
O Tempo não é passível de ser descontruído, a não ser os seus efeitos. Feito um impassível Kronos a observar com curiosidade a nossa passagem, somos nós que passamos por ele… até sermos devorados. É nossa prerrogativa empreendermos essa desconstrução. Somos nós, que navegamos o nosso corpo-identidade-mente, que devemos reverter as expectativas, mudar o nosso rumo dentro do Tempo, quantificado em números, aos quais nos referenciamos.
Para confirmá-lo, é comum registrarmos a nossa presença em imagens – algo que nos exterioriza – que nos coloca presentes no mundo, ao mesmo tempo que nos coloca no passado. Ao contrário dos povos que temiam a fotografia por acreditarem que roubavam as suas almas, ela reafirma a nossa presença. A própria visão no espelho nos mostra milionésimos de segundo depois, entre o reflexo e a sua recepção.
O nosso corpo sofre a deterioração física, constantemente pressionado pela gravidade que nos puxa para o centro da Terra. Resta a nossa mente voar, quando não são através das máquinas que inventamos para fazê-lo. Certa vez, saltei de paraquedas. Sentir a vibração do corpo no abismo contra a resistência do ar, me permitiu perceber o quanto somos frágeis. Antes de abrir o paraquedas, contemplei a finitude. Mas me sentia feliz. Livre. Vivo.
Neste marcador temporal, convivo com a permanente sensação de queda no abismo. Diferente daquele salto, estou sem paraquedas. Porém, me sinto no controle da situação. O que não quer dizer que saiba quando pousarei no chão. A contradições existem, dão o tom, mas aprendi a conviver com elas. As balizas que uso para estabelecer certa normalidade se mostram cada vez mais instáveis, como se fossem feitas de areia junto ao mar.
Ser do dia 9 de Outubro é ter como companhia John Lennon e Mário de Andrade. Somente por esses dois nomes, a cota de gente proeminente já estaria preenchida. Mas não sou em vão e nem a minha vida, vã. Sei que importo para algumas pessoas. E graças a elas e por elas, oro. Orar é desejar o bem oralmente ou mentalmente. A oração é circular. Faz bem a quem pratica tanto quanto a quem é dirigida. Devolve boas energias em nosso entorno. Uma forma de amor.
Na contramão, sinto que a minha curiosidade está sendo suplantada pelo cansaço em ver tudo se repetir como novidade, ilusão criada através do uso das novas linguagens. Por mais que venha a rebuscar os termos, talvez esteja vivendo apenas uma crise de meia-idade. Ao pensar dessa forma, consigo até sorrir e esperar a chegada da liberdade da alma ao tempo do corpo fenecer como o sol que ao fim do dia vai repousar para além do horizonte. Mais uma ilusão que se desvanece…