BEDA / Separação

dry rose flower next to broken heart shaped cookie

Eu me separei…
Deixei casa – paredes, nas quais lembranças pendiam paralisadas…
Portas, por onde muitas vezes passei com desejo de amar e que,
em tantas outras ocasiões, tive urgência de sair,
com vontade de nunca mais voltar…
Janelas, pelas quais divisei paisagens, movimentos, sol, chuva, vento –
protegido das intempéries e dos olhares alheios…
Naquela casa me sentia acolhido ou albergado,
a depender dos olhares, dos humores, dos tons e frissons…

Eu me separei…
Deixei aqueles braços que acolhiam e afastavam,
que imperavam e hesitavam,
que mentiam avidez enquanto aceitavam as minhas obrigações…
Amor ainda existe, ainda nos queremos, queremos amar…
Porém, não quero que, de legado delicado,
tudo se transforme em prisão, a vermos nossas pernas atreladas a grilhões…

Eu me separei…
Mas sei que nunca serei independente do que recebi como patrimônio –
memória de paixão, cumplicidade, comunhão, vivência de amorosa divisão…
Ao perceber que o nosso amor está ameaçado de ser auto fagocitado,
não posso permitir que a incapacidade de ser menos para ser mais
devaste a nossa união…
Amor, por amor, hoje me separei…

 

Beda Scenarium

O Livro

livro

Dois homens altos ladeavam um menor, o segurando pelo braço. Era noite e eles entraram, sem pedir permissão, pela casa adentro. Eu tinha por volta de nove ou dez anos, a luz era difusa, mas logo pude perceber que o homem ao centro era o meu pai. Quase não o reconheci, de tão magro que estava. Corri a abraçá-lo, mas ele me afastou rapidamente, sem dizer palavra, que eu me lembre. Um pouco mais, os dois homens começaram a fazer perguntas que eu não pude ouvir direito. Buscavam alguma coisa nos armários, debaixo da cama e os outros poucos móveis pelas poucas dependências.

Estávamos passando por sérios problemas financeiros, muito devido ao fato do nosso pai não estar conosco. À época, estava preso na sede do DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna), que fazia parte do aparelho de repressão do Regime Militar. O homem de porte atlético, que me ensinou a jogar bola e que sempre me vencia no gol-a-gol, parecia alquebrado. Fraca, não conseguia ouvir a voz do bom cantor amador ao responder às perguntas. O violonista que me ensinou às primeiras notas tinha as mãos trêmulas e indecisas.

Um terceiro personagem estava postado junto à porta de entrada. Todos vestiam roupas civis. A revista durou mais ou menos dez minutos ou quarenta e cinco anos. Sem se despedirem, saíram os três levando o meu pai. Minha mãe desatou a chorar, depois de manter a pose de mulher forte que era, afinal, o tempo todo. Perguntei a ela se papai não iria voltar. Ela disse que sim, logo, logo.

Visitávamos regularmente os quartéis, pois Dona Madalena tinha receio de que o meu pai se perdesse nos traslados que diziam que ele fazia, de lá para cá, de cá para lá, quando, verdadeiramente, quase sempre tenha ficado no prédio de Santa Efigênia, onde era torturado. Quando ele voltou, não voltou inteiro. Metade dele se perdeu, realmente. E a metade que ficou um dia também foi embora.

Com doze anos, me tornei o “homem” mais velho da casa, pelo menos por algum tempo. Papai voltou apenas para construir um retiro – uma cobertura no terreno ao lado, onde montou uma criação de galinhas e patos, a qual chamava de “Fazendinha”. A família, formalmente, deixou de existir. Mais algum tempo, ele se mudou para a casa de uma senhora, Vinha quase todos os dias apenas para fazer visitas recreativas, posando de granjeiro.

Certa ocasião, a minha mãe permitiu que eu visse um dos itens que os agentes procuraram com tanto afinco. Eu não sei onde fora guardado, mas o fato é que naquele momento ele se encontrava na prateleira de nossa estante de livros. Era um calhamaço enorme, mais ou menos intitulado “Dicionário Filosófico Materialista”, de origem russa e traduzido para o Português. Tive a curiosidade de ler alguns verbetes. Em um deles – Vida – dizia que era a manifestação de um ajuntamento de átomos, que formavam moléculas, que configuravam um corpo com tecidos, órgãos e sistemas, dotado de capacidade de se reproduzir e, no caso do homem, manifestar inteligência. Ou mais ou menos isso. Achei reducionista, mesmo sendo um garoto.

O meu pai fora preso por isso? Aquele objeto era perigoso? Fora por aquilo que minha família se esfacelou? Na verdade, o meu pai fazia parte de um movimento de viés comunista. Pretendia levar o povo a se revoltar contra o regime, pegar em armas e derrubar o governo para instaurar a ditadura do proletariado. Dizia sempre que quando o movimento vencesse, eu iria estudar na Rússia. Sentia pavor desse seu intuito. Eu, amante de sol e mar, teria que enfrentar o inverno russo, vencedor de exércitos. No entanto, como todos sabemos, a Revolução não aconteceu. Hoje, eu sei que, além do perigoso objeto proibido, buscavam armas, de acordo com a confissão de um dos outros companheiros torturados.

Desenvolvi uma simpatia sempre à esquerda no espectro político, porém, ao mesmo tempo, percebi que a verdadeira revolução é interna, pessoal e intransferível. Ao mesmo tempo, comecei a ter ojeriza a qualquer ditadura que nos reduza as perspectivas, controle o nosso saber, categorize nosso pensamento. O Totalitarismo opressor, em nome de quem quer que seja, me parece insano e vazio. Alguns diriam que os radicais de direita talvez tenham conseguido o que pretendiam, ao convencer que o filho de um revolucionário não pense como o pai. Eu diria que ser independente em questão de opinião é a batalha mais difícil que se desenvolve durante toda a vida, tendo soldados tão atentos, de lado a lado, a tentar fazer prevalecer o radicalismo como visão política. Nesse caso, sei que posso me tornar um alvo visado por qualquer deles. Como sei que o homem, além de fazer Deus à sua semelhança, muitas vezes fala em nome Dele, como se fosse o Próprio.