24 / 05 / 2025 / Coqueiros-Lua

Imagem de 2015

A Lua entre coqueiros.
Desta vez, os meus olhos carnais saíram ganhando,
pois puderam apreciar uma imagem mais nítida e evocativa.
Porém, comigo, os olhos da mente também têm vez…
Os três banhados de beleza luminar e placidez.


Tínhamos um belo coqueiro no quintal, visitado por abelhas, maritacas e outros pássaros que, além de nós, se deliciavam com os seus coquinhos amarelinhos, quando maduros Seus cachos viviam carregados, até que um dia… uma senhora, a nos visitar, lançou um olhar indeterminado e exclamou: “Que lindo!”. Na semana seguinte, de forma avassaladora, ele começou a definhar e secou. Tivemos que cortá-lo, já que ficou irrecuperável! Abaixo, podemos ver dois pedaços cortados, que conservamos como lembrança de sua bela existência. 

Imagem de 2012

28 / 03 / 2025 / Dulce*

Dulce — doce, em espanhol — era realmente uma presença doce. Pequena, com as patinhas defeituosas, o peito e a barriguinha peladinha, ela não sobreviveria se vivesse livre. Sendo uma calopsita, de origem australiana, não encontraria espaço e clima ideais para sobreviver por aqui. Nós a recebemos novinha e ficou com conosco por pelo menos 13 ou 14 anos.

Discreta, nos últimos anos estava sozinha, sem o companheiro Horácio, que faleceu inesperadamente. A relação entre eles não era muito harmoniosa ou, pelo menos não era interativa. A gaiola onde ficavam, nós a colocávamos para fora de manhã e a recolhíamos à tarde. Quando a temperatura estava mais alta, ficava até mais tarde e, às vezes, até passava a noite fora.

Acredito que ela gostasse de ficar no quintal, já que reclamava quando não a púnhamos em contato com os outros pássaros, as árvores e plantas do local, principalmente quando percebia movimento na casa. Ao encontrá-la, ela esticava uma das patinhas e uma das asas, que eu soube se tratar de um ato de satisfação. Normalmente, colocava comidinha no seu potinho, mas quando esquecia, também se fazia ouvir, reclamando.

De vez em quando, a soltávamos dentro de casa. Mas ela não gostava de que a pegássemos, dando picadinhas delicadas, como se protestasse. Vez ou outra, conversava com ela através de assovios, porém nunca consegui me comunicar convenientemente. Era comum, a Bethânia correr em direção à sua gaiola para assustá-la, por pura diversão. Quando a gaiola se esvaziou de sua presença, ela correu, mas parou assim que percebeu a sua ausência. Assim como ao passar no corredor que ela ficava, também a senti.

Ela compunha a nossa paisagem emocional e visual. Tentava me aproximar dela e entender o que ela estaria “pensando”, “sentindo”. Será que a sua solidão seria igual à nossa? Será que sabia estar presa a um espaço restrito ou aquele mundo era suficiente para sua expressão? Já que sempre viveu assim, institivamente sequer “imaginaria” que seus irmãos voassem livres, buscassem o seu próprio alimento, namorassem, procriassem e estavam à mercê de predadores, principalmente os seres humanos? Era feliz ou felicidade é uma quimera tipicamente humana?

Ontem, a Tânia compôs um memorial com a gaiola da Dulce. Ela a preencheu com plantas. Acho que é uma linda homenagem à vida. A nossa promessa é que nunca mais teremos pássaros presos em nossa casa, mesmo porque tudo começou em atendimento a um desejo das meninas quando mais novas, que receberam as calopsitas de presente. Em nosso jardim, temos pássaros constantemente a nos presentear com seus cantos e voos. Prendê-los para mim é um ato de pura inveja de nossa parte pelas asas que possuem.

*Texto de 2021

10 / 01 / 2025 / Retribuição

Quando construímos a casa onde moramos, decidimos preservar duas mangueiras ainda em fase de crescimento, apesar de já estarem já um tanto altas, não tanto quanto hoje. Para isso, para ocuparmos uma área maior na parte de cima da casa, avançamos cerca de um metro, com o uso de “mãos francesas” para isso. Eu já intuía que as plantas fossem seres sencientes, mas quando li “A Vida Secreta Das Plantas“, obtive corroboração através de experimentos realizadas por quem escreveu o livro, dois botânicos: Peter Tompkins e Christopher Bird (que sobrenome incrível!).

Com o tempo e o alargamento de seu tronco principal, fomos adaptando o piso do quintal, assim como realizamos podas necessárias para que se desenvolvesse bem. Como resposta, está firme e forte, de copa ampla, onde abriga pássaros e até morcegos, e toda a mini fauna decorrente dessa estrutura. A produção deste ano está sendo bastante frutífera, para ficar num lugar comum. Não apenas nós a consumimos, mas para quem doamos aqui e ali para quem deseja. Essa retribuição me deixa bem comigo mesmo, o que já é um agrado a mais nessa minha batalha para construir a minha relação benigna com o mundo.

Nessa última imagem, uma manga caída no jardim central, está mordida ou roída por um dos moradores e/ou frequentadores da “nossa” mangueira.

Projeto Fotográfico 6 On 6 / Quintal

Quando a minha mãe quis nos oferecer o terreno ao lado da nossa casa, também pertencente à família, conjecturou dividi-lo em duas partes. Eu respondi que preferia que ela o cedesse inteiro, nesse caso, para o meu irmão. Argumentei que sendo criado com quintal, caso fosse dividido, teria a configuração típica e opressora de casa assobradada e garagem para o indefectível automóvel com passagem estreita para a movimentação das pessoas. O meu irmão iniciou as obras para a fundação da casa. Sem recursos para continuar, cedeu a mim o terreno em troca da compra de uma casa já pronta.

Dessa maneira, idealizei desde o início a formação do quintal com uma área para um jardim intermediário e outro (fechado) na parte da frente. Lá, plantamos várias árvores frutíferas envasadas para não se desenvolverem demais, com exceção de duas bananeiras — uma prata e outra, nanica — além de jabuticabeira, mexerica, amoreira, goiabeira, ameixeira, pitangueira — além de abrigar muitas outros tipos de plantas, entre trepadeiras, como o “ora pro nobis”, “jiboias”, “sapatos de judia”, “costela de adão”, bem como ornamentais. Viver na Periferia me deu essa oportunidade de poder conviver com esses incríveis seres do Reino Vegetal.

A primeira visão que tenho ao acordar é o do quintal, tendo a Mangueira, rainha do meu espaço, moradia de pássaros que vivem nela, além dos visitantes eventuais. Vivemos a temporada de colheita e da chuva de mangas que despencam quando amadurecem. A cachorrada se refestela delas com vontade. Aqui, o cão chupando manga é lindo de se ver!

Ter uma árvore grande como a nossa mangueira implica em termos varrer sempre para não forrar o chão de folhas que caem em profusão. Essa mangueira já existia antes da construção da casa e fizemos questão de conservá-la, há mais de 30 anos. Ela nos retribui com um fruto saboroso, doce. Além comê-lo in natura, fazemos sucos que nem precisam ser adoçados. Sinto que é um agradecimento à nossa decisão.

Esse é o Alexandre. Resgatado há mais de dois anos, bem magro e descomposto, ganhou ares confiantes dignos de um Pincher do qual parece descender, misturado. Ele é o que toma a iniciativa de proteger o quintal, latindo para qualquer coisa que se move na rua. O seu latido é forte e encorpado. Não parece sair do seu pulmãozinho. Nem parece que passou duas semanas sem emitir um som quando chegou…

Outros frequentadores do quintal incluem desde o Tortuga, nosso jabuti de prováveis 100 anos (meu falecido pai que morreu com 82 anos o conheceu quando menino), passando pelos outros companheiros da turma — Arya, Bethânia, Dominic, Lolla, Alexandre e do velho Nego (que apareceu na foto da varrição) e, eventualmente, o Bambino, meu neto, que aliás está de visita. O Tortuga é bastante curioso e gosta de caminhar bastante. É mais rápido do que se imagina e “some” de uma hora para outra.

Na varanda junto ao meu quintal consigo apreciar o crepúsculo sempre que tenho oportunidade — esse registro foi feito hoje, dia 6. É um horizonte ainda não tomado por construções mais elevadas, mas considero que seja questão de tempo a chegada dos perfis alinhados de edifícios a tornar a linha uniforme e retangular.

Ao Sol se por ainda conseguimos delinear plantas como a jabuticabeira com floração que logo se tornarão apetitosas jabuticabas. É de uma hora para outra e muitas vezes não chegamos antes dos pássaros que não são bobos de bicá-las antes de nós. Capturei sem querer a Bethânia que não sei o que fazia parada no degrau da escada. As samambaias também comparecem, além de uma parte da mexeriqueira que, infelizmente, deixou de produzir…

Participam: Claudia Leonardi / Mariana Gouveia / Lunna Guedes / Roseli PedrosoSilvana Lopes