02 / 11 / 2025 / Blogvember / O Rei

sentado em meu trono me pergunto
ora quem é o dono de meu destino
aproveito para forçar a saída e em um segundo
defino que é meu intestino
evacuar definiu o caminho da humanidade
civilizações que criaram meios de como recolher nossos dejetos
e encaminhá-los para longe de nós
se tornaram as mais desenvolvidas
as mais aptas a dominar às outras
por saber lidar com seu cocô
o intestino que bem funciona impulsiona o poder mental
de quem o carrega não há intriga
não há dúvidas nem desvios o sorriso prevalece
se sente feliz por poder evacuar com regularidade
com o prazer de deixar marcas em barro por onde passa
constato o que é claro o que sempre se soube
quem é senhor de sua mente não desmente —
sabe que tem o rei na barriga.

Foto por Gratisography em Pexels.com

Participação: Lunna Guedes / Mariana Gouveia

28 / 08 / 2025 / BEDA / A Lua, A Louca

A Lua, a louca…
— esqueceram de avisá-la
que o dia se fez,
…terminou o seu turno!
Não basta ter delirado
a noite toda…
e ter perseguido o olhar
— dos desavisados!
De ter feito saber-se
o quanto é bela — e atrativa
O quanto seduz e cativa…
Amanheceu —
…mas quem disse que o Tempo
se deu conta do Sol?
— quem atravessava o rio…
de águas cristalizadas
— percebeu
que a Doida Discípula —
Disputava o Reino celeste
com o Rei.

04 / 07 / 2025 / Independência?

A independência dos Estados Unidos foi a separação política das Treze Colônias da América da sua metrópole, a Inglaterra. A Foi declarada em 4 de julho de 1776, quando deputados das Treze Colônias, reunidos no Segundo Congresso Continental, aprovaram a Declaração de Independência. Em 1845, houve a anexação do Texas, que se tornara independente do México. Em seguida criou-se a expressão “compra da Califórnia” referindo-se a dois eventos históricos: o Tratado de Guadalupe Hidalgo e a Compra de Gadsden. O primeiro, assinado em 1848, encerrou a Guerra Mexicano-Americana em que vastos territórios do México foram cedidos aos EUA, incluindo a Alta Califórnia

O segundo, em 1853, envolveu a compra de terras no sul do Arizona e Novo México, adicionando áreas que seriam cruciais para a construção de uma ferrovia transcontinental. Quase cem anos depois da independência, entre 1861 e 1865, a Guerra Civil Americana, também conhecida como Guerra de Secessão, travada entre a União vencida por esta, que defendia a Abolição da Escravatura contra os Confederados, formada por territórios que relutavam conceder tal prerrogativa. Apesar da rivalidade entre os vencedores e os derrotados ao final de tudo a expansão territorial se tornou um consenso comum.

Desde então os Estados Unidos da América do Norte se desenvolveu absorvendo ilhas do Caribe após a Guerra Hispano-Americana, ocorrida em 1898, que resultou na perda das Colônias espanholas após o conflito contra os Estados Unidos, aumentando gradativamente sua influência na região, que passou a se expandir para além do Oceano Atlântico, chegando à Europa.

Com o advento da Primeira Guerra Mundial, os Estados Unidos da América do Norte desenvolveu a indústria armamentista para fornecer aos países europeus que se digladiavam numa guerra que foi considerada uma das maiores carnificinas já havidas com a utilização pela primeira vez de gases mortais, bombardeamento por aviões, mesmo que de forma precária, pelas mãos dos próprios pilotos. O cenário dessa guerra foi crucial para o desenvolvimento de armamentos com cada vez maior poder de morticínio. O País para além do Oceano Atlântico foi o maior beneficiário da Primeira Guerra Mundial no Continente Europeu.

O seu crescimento, como se pode observar, se deveu a uma série de conflitos que ajudaram o natural pendor bélico americano, já utilizado na absorção de terras indígenas através da invasão, extermínio de várias tribos e transferência de populações autôcnes inteiras de um ponto a outro do País. De fato, nada diferente da História em várias eras de lutas entre os seres humanos no desenvolvimento de suas várias civilizações. Mas o que acontece atualmente é que vivemos um momento em todos os eventuais avanços civilizatórios já alcançados após tantos conflitos parece ganhar impulso na manipulação da realidade através do poder econômico bélico do Grande Irmão do Norte com a assunção de um sujeito que se autoproclama como Rei do Mundo.

Esse sujeito passa o aniversário da Independência dos Estados Unidos comemorando a inauguração de uma prisão em uma região inóspita, cercada de pântano habitada por enormes jacarés que, segundo a boca do próprio ridículo ser, trabalharão de graça para conter as eventuais fugas. Essa prisão está designada para imigrantes criminosos, segundo a sua ideia. No entanto, para ele qualquer imigrante é criminoso. Ou seja, o País que cresceu absorvendo populações inteiras de imigrantes (incluindo o seu próprio pai) que ajudaram a desenvolver o poderio norte-americano, agora empreende uma política de erradicação de uma influência cultural que gostaria de ver expurgada.

A sua beligerância é respondida com a violência que empreende em suas relações, incluindo as “amigáveis”. O seu trato com a realidade é permeada por uma visão de invasão e conquista, aviltar e validar uma postura que é, em essência, tudo os que odeiam a “América” propagam como um “Mal“. A bandeira em chamas é, de fato, a marca da História desses Estados unidos desde o início na conflagração. E talvez o sujeito que agora está no poder, guindado pela “maioria” da sua população, incluindo aqueles que estão sofrendo a implantação da política que jurou implantar — ataques à seguridade, aos imigrantes, à Classe Média e benefícios aos ricos e aos muito, muitíssimos ricos — represente firmemente a “melhor” característica americana. Sinceramente, não vejo independência num lugar preso a uma História pesada de aniquilação das mais básicas regras civilizatórias, mas que marcam o caminho que trilhamos desde o desenvolvimento do Homo sapiens.

02 / 06 / 2025 / Robertão*

Roberto, atualmente com 84 anos

Em 2015* foi chamado a publicar sobre as minhas influências musicais. Mesmo muito novo, a minha preferência sempre recaiu sobre a MPB. Mas não pude deixar de demarcar umas das que mais me marcou, lançando mão de um artista que se fez presente desde que comecei a “cantar”, no chuveiro, no meu quarto, no quintal, de mim pra mim, aos quatro ou cinco anos de idade.

Quase me propus postar algo referente aos grandes festivais da Record dos Anos 60, que também foram muito importantes para mim, porém, decidi pelo coração, contra o intelecto. Pois já andei de “Calhambeque”, já praguejei e disse “Quero Que Vá Tudo Para O Inferno”, desci perigosamente, a toda velocidade pel“As Curvas Das Estradas De Santos”, para encontrar a minha “Amada Amante”, “Quando” expliquei: “Por Isso Corro Demais”!

Eu poderia construir inúmeras histórias através do que cantou o Rei, como vários temas cantados por ele pontuaram a minha vida e, acredito, de quase todo brasileiro nos últimos cinquenta anos. Relevem um pouco o Roberto institucional dos últimos anos. A energia que ele gerou com a sua Turma da Jovem Guarda, antes, e posteriormente em carreira como cantor predominantemente de canções românticas, pelo menos até os Anos 80, permitiram que construísse uma carreira sem precedentes e, creio, sem nenhuma chance de que volte a acontecer novamente na MPB.

Eu, quando garoto, queria que a minha mãe comprasse calças “Tremendão”, do Erasmo Carlos e camisas de franjas, como as que o Roberto Carlos usava e imitava certos trejeitos dos meus ídolos. Anos mais tarde, um dos componentes da Jovem Guarda, Prini Lorez, tornou-se meu professor de judô e muitos anos depois, o encontrei, bem como a vários outros do movimento, em shows que sonorizei e iluminei, incluindo a Wanderléa (lembra, Sidão Yshara?). Tirando Roberto e Erasmo, creio que já tenha trabalhado com a grandíssima maioria dos componentes da Jovem Guarda, além de vários músicos que os acompanhavam. Foi um prazer impróprio para quem trabalha, já que é praxe que devamos sofrer para ganhar o nosso pão…

Apenas quem, como eu, viajou vinte e quatro horas seguidas de ônibus e se distraiu com fitas cassetes com músicas do Robertão, sabe a grandeza e grandiosidade da obra desse grande cantor nacional. A música que preferi escolher entre tantas é “Detalhes”, do disco de 1971 –– Robert Carlos. É um LP (Long Play) emblemático para mim porque foi o primeiro que a minha mãe pode comprar, já que a coleção que tínhamos era apenas formada por antigos “bolachões” e passávamos por uma difícil fase econômica na época. Além desse clássico tínhamos, nesse disco, as seguintes faixas: “Como Dois E Dois”, “A Namorada”, “Você Não Sabe O Que Vai Perder”, “Traumas” (que a minha mãe adorava!), “Eu Só Tenho Um Caminho”, “Todos Estão Surdos”, “Debaixo Dos Caracóis Dos Seus Cabelos”, “Se Eu Partir”, I Love You”, “De Tanto Amor”, “Amanda Amante”. A grande maioria, clássicos da carreira do Rei! A grande maioria, sei cantar até hoje, “decór”!

BEDA / Para Fernanda Young*

*Em 26 de Agosto de 2019, escrevi:

“Precisamos sempre confirmar a beleza, mesmo que haja momentos que não a toquemos. Como o crepúsculo de hoje, após dias nublados, ainda que nos faça lembrar que nosso país esteja a arder em chamas. Para Fernanda Young“.

Um dia antes, um domingo, a atriz, escritora, roteirista e apresentadora de TV Fernanda Young, de 49 anos, havia morrido pela madrugada, em Minas Gerais. A autora de séries de sucesso, como “Os Normais”, “Minha Nada Mole Vida”, “Os Aspones” e “Shippados”, teve uma crise de asma, da qual sofria desde criança, seguida de parada cardíaca. O corpo foi velado em São Paulo e o enterro foi no Cemitério de Congonhas, na Zona Sul da Capital paulista. (Fonte: G1)

Estávamos vivendo o desgoverno do Ignominioso Miliciano. Mas nada está tão ruim que não possa piorar. Ao final daquele mesmo ano, surgiria no horizonte a ameaça de uma Pandemia em escala global, que acabou por se confirmar. Poderia se dizer que Fernanda Young tenha sido poupada daquele processo que acabou por gerar quase 800 mil mortos, além de outros tantos atingidos por sequelas. A Covid-19 roteirizou um drama que talvez a escritora inventiva e talentosa não conseguisse superar. Tivemos no Brasil o que poderíamos chamar de “tempestade perfeita” — uma doença de origem externa unida a uma doença de origem interna. A que veio de fora agudizou um processo doentio que jazia subjacente desde a formação do País social e economicamente. Progressivamente, entranhada na mente do brasileiro, a nossa enfermidade jazia subjacente apenas esperando as condições dadas para que eclodisse como pústula.

Fernanda Young, de certa maneira, brincava com as nossas precariedades emocionais e psicológicas. Ríamos das atitudes de suas personagens, em composições em que nos percebíamos com nossas fraquezas estruturais, nossos preconceitos e maledicências. Creio que entendia perfeitamente o brasileiro classe média típico — que carrega todas as contradições de pertencerem a um estrato social amorfo — que se sente perto do Paraíso, que apenas observa da janela de seu carro usado, assim como se sente rei ao passar pelas zonas depauperadas. Classe mal informada ou que preferencialmente é chegada a má informação, recheada de fofoca, falsidades, desejos reprimidos e crimes. Mas seu olhar, apesar do gosto amargo, tendia a perdoar essa caracterização pendular entre o bem e o mal (ou o que é bom e o que é mau) como se fosse inevitável. Talvez, tivesse razão…

Texto participante de BEDA: Blog Every Day August

Denise Gals Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Lunna Guedes / Bob F / Suzana Martins Cláudia Leonardi