10 / 02 / 2025 / 15 Anos*

Raquel,
as mulheres, aos quinze anos,
adquirem alguns poderes…

O poder de concentrar
quinze séculos de paixão
em quinze segundos de olhar…

O poder de paralisar
quinze homens ativos
ao toque de quinze beijos furtivos…

O poder de levar
quinze viajantes à Lua
à vista de seus quinze primeiros passos
dados na rua…

O poder de remover quinze montanhas
à caminho do Mar para mergulhar
em seu desejo de amar…

Mas, enfim, use com cautela
os seus novos poderes
para o bem da rapaziada…

*Versejar encontrado em um papel, de ano indeterminado, em homenagem ao aniversário de uma prima, mas que eu poderia estender a todas as mulheres.

Foto por Connor McManus em Pexels.com

31 / 01 / 2025 / Gentrificação Urbana

Outro dia, fui até a região de Pinheiros e observei um processo comum em toda a São Paulo — a substituição gradativa de vilas de casas e ruas tranquilas pelo excesso de veículos em vias estreitas para a passagem de carros em asfaltos irregulares, resultado de ruas mais frequentadas pelo adensamento urbano.

A chamada Gentrificação Urbana faz com que as características de bairros em que a vizinhança que se conhece, que se frequenta, que monta quermesse na igreja ou na escola, que mantêm laços afetivos, geram namoros entre os moradores, integram times de futebol — a rua de cima contra a rua de baixo — o acompanhamento no crescimento das crianças, o conhecimento do vendedor de pipoca, da vendinha ou da mercearia, a solidariedade nos momentos mais difíceis. Tudo se esvai como areia na ampulheta…

A radical obliteração de estilos de vida mais leves e saudáveis por um estranhamento de pessoas que não se reconhecem mais torna-se praticamente irreversível. A pressão pela própria decadência da qualidade de vida, a alienação dos residentes uns dos outros, encastelados que acabam por ficar nos novos edifícios, configura uma tendência intrínseca ao formato esquemático de quadrados dentro de quadrados dentro de quadrados.

A urbanidade se perde em sentido inversamente proporcional à demolição dos antigos imóveis construídos ao gosto do morador. A não ser os mais aquinhoados de poder econômico, as celas com janelas para outras janelas se multiplicam como se devêssemos aceitar que um apartamento configure o símbolo máximo de status do cidadão. Normalmente, quem participa da construção de um edifício dificilmente terá condição de adquirir aquele imóvel.

Apesar disso, a construção participa da ocupação de uma volumosa mão-de-obra em todas as suas etapas. É interessante notar que além da consequente segregação socioespacial de quem adquire um imóvel, ocorre o afastamento de pessoas de orçamentos familiares menores contribuindo para a expansão da desigualdade econômica.

Eu me lembro que um dos objetivos de Oscar Niemeyer ao construir o COPAN ao colocar no mesmo andar apartamentos maiores e menores, contribuiria para pessoas mais pobres morassem ao lado de pessoas mais ricas. Não sei se isso chegou a acontecer em algum momento, mas com o tempo houve uma homogeneização das classes econômicas dos moradores. Isso se processou de uma maneira quase “natural”. O que talvez se distinguisse um pouco no agrupamento tradicional suplantado pela verticalização.

Enfim, existe uma planificação dirigida de fora para dentro tanto por parte dos empreendimentos em que a classificação econômica das pessoas é clara, obviamente com a participação do interessado em adquirir a propriedade. Um dos quadros mais interessantes do jornalismo versa sobre os direitos e deveres de moradores de condomínios. Os síndicos têm que se desdobrarem como se fossem administradores de uma pequena cidade para fazer reinar a boa convivência dos condôminos.

Viver em grupo não é fácil…

Arte Anônima*

Em 2021* publiquei:

“Ao varrer esta plataforma, encontrei marcas que não havia percebido antes. Como faz alguns anos que foi feita, fiquei me perguntando quem teria deixado este registro para a posteridade. Lembrei das amigas que nos deixaram fisicamente. Não deve ter sido a Penélope, labradora de tinha o corpo e o coração grandes demais. Talvez fosse da Dorô, tão doce e amada por ter crescido junto com as crianças humanas. Ou da Frida, as de olhos de avelãs, quieta ilusionista, que surgia do nada em algum ponto da casa. Da Domitila, que ainda está conosco, também não, pelo tamanho maior do que está marcado. Enfim, o que sei é que daquele patamar as marcas poderão sumir um dia por alguma reforma. Do meu coração, enquanto eu existir, jamais!”.

Olha que esqueci das menores, a Lolla e a Bethânia, tão curiosas que é bem capaz de terem produzido a arte anônima. Infelizmente, Penélope e Dorô nos deixaram fisicamente por causa de câncer. Frida, atropelada quando saiu para cheirar as novidades da rua. Mas continuam existindo enquanto o meu coração bater.

Antônio De Godói*

Em setembro de 2022*, eu voltava da Rua Santa Efigênia quando quis tomar um café. Entrei em uma lanchonete que fica quase em frente ao terreno baldio onde antes ficava a antiga sede da Polícia Federal que, depois de abandonada, foi ocupada por moradores em situação de rua. No dia 1° de Maio de 2018, após um incêndio, o edifício de ferro, concreto e aço, desabou matando nove pessoas. Informação lateral, na parede da lanchonete vi este pôster da rua congestionada em direção ao Largo do Paissandu registrada dois dias depois de eu nascer, a 9 de Outubro de 1961, quando John Lennon fazia 21 anos. O garoto de Liverpool havia formado um ano antes com Paul McCartney, George Harrison e Pete Best, Os Beatles. Um ano depois, Rindo Starr substituiu Best e, a partir daquele 1962, Os Beatles se tornou a maior banda pop de todos os tempos. Atualmente, a Antônio Godói tem mão de trânsito invertida e serve mais como estacionamento do que via de passagem de carros. Os Beatles passeiam por todas as criações pop que já foram compostas desde então…

BEDA / Elocubrações

Tenho por mal hábito discorrer sobre tudo e nada. Produzo elocubrações confusas e rasas, em muitas oportunidades. Em outras, viajo para fora do contexto ou acerto sem querer em coisas mais profundas e interessantes. Feito um pescador, tenho recolhido antigas publicações antes que sejam deletadas pelos seres invisíveis do Senhor Algoritmo ou seja lá quem for quem comande a Rede. Na época de BEDA, na falta de ideias novas, essas recordações vem bem a calhar.

PRISIONEIROS (2016)

Quem está solto? Quem está preso?…
As calopsitas passeiam pela gaiola a se sentirem seguras, mesmo com a aproximação de um suposto predador. As plantas do jardim estão cercadas para que elas não sejam prejudicadas por invasores. Da mesma forma, nós nos imaginamos protegidos por grades nas janelas, portas e portões de ferro… O que diferencia uns prisioneiros de outros? O que é liberdade?…

LUNAR (2016)

Pode ser a última Lua
A última vez que atua…
Pode ser a sua última noite…
A derradeira hora do açoite…
O último abraço e o colo quente…
O último suspiro e o beijo ardente…
A última chance de perdoar…
A última oportunidade de amar…

PRINCESA ISABEL (2011)*

Vista da Praça Princesa Isabel, onde vemos o Duque de Caxias estacionado com o seu cavalo e seu braço em riste com uma espada, para sempre. À esquerda, abaixo, um catador de papel, figura onipresente na região e, mais ao longe, no horizonte, Cristo, no topo do prédio do Colégio Sagrado Coração de Jesus, observa o domingo na Cracolândia. Bem ao fundo, temos o perfil da Serra da Cantareira — Em registro fotográfico de Março de 2009.

*Atualmente, a Praça Princesa Isabel está cercada por todo o seu perímetro por grades. Meses antes, estava ocupada por um acampamento de pessoas em situação de rua, viciados e traficantes de drogas, num amálgama que demonstra a evidente falha em solucionar as contradições do Sistema.

Participam: Danielle SV / Suzana Martins / Lucas Armelim / Mariana Gouveia / Lunna Guedes / Alê Helga / Dose de Poesia / Claudia Leonardi / Roseli Pedroso