Solitários

Nesta foto, estou muito bem acompanhado junto ao espaço ao qual chamamos de Yellow Brick Road Garden, mas ocupado por uma velha tartaruga e pelas galinhas garnisés Elton John & Kardashians. Do meu lado, estende-se a teia de Ariadne, uma aranha preta e branca, em fase de crescimento.

Caríssima L.,
desde muito cedo nesta jornada que costumamos chamar de vida, percebi que somos sós. Ou melhor dizendo, eu me sentia só, único, como se fosse mera testemunha de um grande espetáculo do qual estava apartado, ainda que sofresse as consequências das ações externas a mim. Egocentrismo típico de criança.

No entanto, esse entendimento me acompanhou conforme ultrapassava as gradativas etapas do desenvolvimento físico e psicológico, acompanhado de equivalente sofrimento. Comecei a evitar me colocar em situações “perigosas” ao meu ego. Eu o protegia com rituais que me transformaram em um sujeito excêntrico, ainda que atraente para muitos.

Conseguia participar de grupos maiores para atender às minhas paixões – futebol, jogos lúdicos, estudar – tanto nas classes de aula, como nos times que jogava como médio-volante de estilo refinado, conseguido à muito custo com treinos que fazia sozinho chutando a bola alternadamente com as pernas esquerda e direita contra as paredes do meu quintal horas a fio, já que não havia nascido com o talento natural de muitos.

Porém, a minha maior paixão sempre foi uma atividade isolada: escrever. Ainda que eu sentisse me conectar com algo maior do que eu – uma espécie de repositório energético e criativo – do qual vertia uma fonte contínua de histórias. Minhas campainhas, sendo eu mesmo um deles, eram meus personagens. Os outros, autônomos, ao ganhar vida, me abandonavam.

Corajosamente, decidi encontrar as pessoas, empreender o caminho que me arrancaria da solitude. Sabia que muitas vezes me esfacelaria como se atirado a um triturador de carnes. A boa notícia (para mim) é que sobrevivia a cada esfacelamento, o que me ajudava a criar sobre o meu personagem mais próximo histórias que se multiplicavam em sujeitos-nomes diferentes. Essa abstração me fazia sentir um tanto absolvido de uma culpa atávica, em que me sentia responsável pelos males do mundo.

Assim como no futebol, sabia que deveria melhorar a minha técnica de escrita. Hopper (que amamos) nos uniu e o resto são histórias – publicadas ou não. O meu ritual do chá não é tão primoroso quanto o seu. Mas sei que temos os caminhos cruzados tendo São Paulo como cenário. É uma história que gosto de vivenciar com todos os seus altos e baixos. Com você, sou o aprendiz desejoso em aprimorar a técnica da criação literária.

Sobre essas pessoas esquisitas que se digladiam-desencontram pelas ruas, casas, shoppings, condomínios e esquinas, também chamados de ser-humanos, espero que sejam mais do que personagens de destino marcado pelo desamor de um escritor louco que escreve com sangue suas páginas de um romance eterno.

Enquanto lhe escrevo esta missiva à mesa, olho para baixo e encontro Dominic aos meus pés. Viveu quase dez anos com a minha irmã e era um ser arredio. Comigo nos últimos dois a três, mudou o comportamento e vive por um carinho no pelo, um afago na cabeça. Poderia talvez ser qualquer um, mas quase me sinto especial por isso…

Almodóvar No 9501

Pedro Almodóvar, El Caballero

Neste mês de Março de 2022, completa cinco anos do lançamento de REALidade, meu primeiro livro pela Scenarium Plural — Livros Artesanais. Nele, está reunido várias crônicas que escrevi em anos anteriores a 2017. Quando as releio, encontro aqui e ali coisas que mudaria na formulação de alguns, mas não há como alterar o contexto porque foram totalmente baseadas em experiências pessoais. Algumas, estranhas, como a que exponho abaixo.

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A caminho da Faculdade, pela manhã… encontrei o cineasta Pedro Almodóvar na condução.

Ele vestia uma camisa bege clara, com gravata-borboleta de mesmo tom. Portava óculos escuros e um fone de ouvido. A barba bem escanhoada e o cabelo embranquecido, bem aparado, completavam o visual do diretor de “Mujeres al borde de un ataque de nervios“.

Encostado junto a uma das pilastras do ônibus articulado, bem ao centro — onde as curvas mais suaves davam a impressão de ser tão radicais quanto se estivéssemos em um carro de corrida — pude vê-lo ainda a segurar firme a barra superior com a mão esquerda… e a carregar uma pasta preta na mão direita.

Como olhava insistentemente para ele, cheguei a perceber que esboçou um sorriso, provavelmente, crente que eu o paquerava.

Ele deve ter notado a comoção interna que provocava em mim, por estar a dividir o ambiente comum com um dos meus ídolos. O estranho é que só eu parecia ter a noção de que estava ali, diante de mim, um dos maiores nomes da cultura mundial!

Certamente, para aquele povo espremido em tão pequeno espaço, teria um efeito espantoso o fato de ver Michel Teló a se deslocar para o Centrão de “busão”, às sete e meia da manhã! No entanto, Almodóvar não era atentado por olhares tão intensos quanto os meus.         

O que traria o Señor Caballero para São Paulo? Um festival de cinema que eu desconhecesse… o lançamento de um documentário sobre a sua vida… ou estaria buscando inspiração para um novo filme, longe dos temas da Espanha reinventada por ele, ou mais próximo da minha antiga, atávica e maldita origem?

Disfarçado de um improvável promotor de vendas ou um atarefado dono de lojas de eletrônicos, o criador de “Hable con ella” desceu um pouco antes do ponto final, no Largo do Paissandu.

Fiquei a penar se voltaria a vê-lo… acompanhando seus passos enquanto pude. Concluí que ele volverá para a pele que habita, como aquele que dirige com má educação os caminhos do nosso prazer estético e emocional. Talvez, um dia, um personagem parecido comigo, — um senhor vestido com roupas de estudante de Educação Física —, apareça em algum novo filme lançado por ele… e, então, terei certeza de que não foi apenas mais um sonho meu…      

Notas Sobre A Vida Em Janeiros Passados

SOBRE OS JESUÍTAS (2019)

Este painel se encontra à esquerda do saguão de entrada da Casa de Portugal. Mostra o jesuíta português Manoel da Nóbrega entre os gentios da terra, em postura de força impositiva, apesar de apresentar, humildemente, os pés descalços. Se visitarmos um estabelecimento oficial espanhol em São Paulo, lá encontraremos a figura do espanhol José de Anchieta, a catequizar os nativos dos Campos de Piratininga. Oficialmente, os dois jesuítas foram os responsáveis pela fundação desta cidade que hoje completa 465 anos de nascimento, na inauguração da choupana que servia de escola e moradia. Por uma confluência de fatores, São PauloSampa, para os íntimos — tornou-se o que é. Qualquer definição que se dê a ela, em pouco tempo deixa de ter sentido, pois a metamorfose permanente é seu único traço definitivo e definidor. Em São Paulo nasci, vivo e espero morrer, a saber que já fui muitos e serei outros tantos até o fim — quando dispersarei meus átomos por esta terra que me formou.

SOBRE IMAGEM (2019)

Subo ao coletivo, passo a catraca, me sento junto à janela, a qual deixo entreaberta para sentir o vento e me refrescar neste dia quente. Começo a suar mais do que devia e percebo que a janela do meu lado estava fechada. Imaginei que tivesse acontecido pelo movimento do ônibus. Voltei a abri-la. Mais alguns minutos, a vejo novamente fechada. Estranhei e olhei para o banco de trás, onde havia uma moça que sorriu amarelo e murmurou: “o vento estava bagunçando o meu cabelo…”. Realmente, ela estava com os fios retos postos lado a lado como se fossem desenhados. Sorri de volta, outro sorriso amarelo. Não tive coragem de dizer a ela que a sua maquiagem, devido ao calor, estava escorrendo um pouco…

IN PLANET OF THE APES (2020)

“A primeira foto data de 2014. Treinava regularmente. Faz três anos, justamente em janeiro, que não entro em uma academia. O ritmo de trabalho aumentou tanto que não tive mais tempo para sentir a dorzinha gostosa da atividade física regular. Quando estou em casa, me dedico a escrever ou a realizar tarefas caseiras. Quando subiu a primeira imagem, de seis anos antes, percebi que usava a mesma camiseta — uma das minhas favoritas. Registro feito, não imaginava que a camiseta fosse tão velha. Já o velho, tenta viver um dia de cada vez. In Planet Of The Apes…”. Dois meses à frente, o mundo pararia…

463 ANOS (2017)

Nesta imagem, homenageio a minha cidade. Eu a produzi às 6h da manhã do horário de verão, ao passar pela Ponte da Freguesia do Ó. Quis captar a Lua, em sua fase crescente. Quase não conseguimos percebê-la. As luzes das Marginais roubam a cena, separadas pela escuridão do leito do Rio Tietê. De forma indireta, é uma maneira de reunir símbolos importantes desta metrópole — um rio morto pela poluição, vias de locomoção que estão normalmente congestionadas, luzes que nos confundem em vez de revelar, a beleza dos astros, esmaecida pela fumaça. Contudo, não viveria em outro lugar.

CLIMÁTICA (2017)

E o dia entardece como ontem. Depois de um dia nublado e/ou chuvoso, a luz deu o ar de sua graça sobre a terra paulistana dos quatro elementos e diferentes climas cotidianos.

FILME NOIR (2015)

Ao lado do Hotel Manchete, a Lanchonete E Bilhar Ideal. Com esse aspecto de filme noir dos anos 40 ou 50, já imagino que o cidadão sentado à frente da entrada seja um exímio jogador à espera do próximo “pato” a ser depenado em uma aposta — “bola sete na caçapa do meio!”.

SOBRE O LIXO (2016)

Sem cabeça para ficar… Sem pés para onde ir…

NOTAS SOBRE JANEIRO DE 2022

É bem significativo e nada contraditório (no Brasil) que o Carnaval seja transferido para o dia em que se comemora o enforcamento e esquartejamento de um homem que lutou pela liberdade. Assim como seja tradicional que Judas seja malhado no Sábado da Aleluia por ter cumprido o percurso da Paixão daquele que pregou o perdão.

Prestes a ser comemorado o aniversário da cidade de São Paulo, podemos ver a reprodução atualizada dos grupos de homens e mulheres da terra, nômades se reunindo em coberturas em torno do Pátio do Colégio. A diferença é que há 468 antes, elas eram eficientes por ser o estilo de vida que as comunidades dos originais da terra conheciam. Atualmente, as tendas são moradias improvisadas, a única maneira que os desvalidos da terra encontraram para se abrigarem das intempéries.

Como a conta sempre chega, os não vacinados ou com vacinação incompleta contra a Covid-19 ocupam mais de 80% dos leitos de UTI e Enfermagem, retirando espaço de outros tratamentos. O Negacionismo ocorre em todas as frentes — social, econômica e psicologicamente — o que não impede que a realidade sempre se imponha, não sem muitas dores.

Monkey’s Motel

Garoto, há um pouco mais de 50 anos, íamos pela principal avenida da Vila Nova CachoeirinhaDeputado Emílio Carlos em direção à Barra Funda, onde eu estudava na Canuto do Val e meus irmãos, ainda antes dos 6 anos, ficavam no Parque Infantil Mário de Andrade. Depois, eu também era levado para o Mário de Andrade e lá passava o resto do dia, até nossa mãe vir nos buscar depois do trabalho. Projeto educacional dos Anos 30 implementado pelo mesmo Mario de Andrade que o nomeia, o então Secretário da Educação acreditava num ensino abrangente em tempo e profundidade — alfabetização, teatro, música, artes plásticas, esportes e jogos-brincadeiras.

Na ida e na volta, passávamos pelo Monkey’s Motel e curioso como sou até hoje, minha mãe não sabia o que responder quando lhe perguntava o que representava os três macaquinhos e o que era aquele lugar com uma entrada tão atraente, uma espécie de boca de caverna pela qual se adentrava em um mundo novo e divertido. Então, a nossa região era isolada e o asfalto era raro, exceção feita a da “Deputado” desde o Largo do Japonês. Quase à mesma época, começou a construção do Hospital Maternidade Escola de Vila Nova Cachoeirinha, com uma concepção futurista para a época. A distância dos dois estabelecimentos não era grande, cerca de trezentos metros. A região parecia progredir. O antigo estábulo no Largo deu lugar a uma construção que abrigou mais tarde um banco e o asfalto começava a chegar a algumas ruas abaixo, incluindo a minha. Nessa época, vivia dias de emoção descendo com carrinhos de rolimã por ela desde a atual Avenida Ministro Lins de Barros. Apesar do perigo das quedas, que não eram poucas, havia mais segurança, já que circulavam poucos carros e as carroças em maior número eram lentas. Como dado adicional para comprovar que a vida era outra, as entregas de leite, frutas, legumes e verduras eram feitas antes da abertura dos estabelecimentos comerciais, mas ninguém tocava nos produtos.

Por meu turno, continuava com a minha ingenuidade à flor da pele. Porém, cheguei à adolescência sabendo do que se tratava um motel (da maneira que é utilizada essa denominação no Brasil) um lugar de encontros sexuais. Ficava imaginando a razão das pessoas irem a esse estabelecimento a não ser pelo fato de encontrar condições mais favoráveis do que teriam em casa. Até que a “revelação” de que ali não somente pessoas com “laços oficiais” praticavam o sexo. Normalmente, com a aparência de algo proibido, de fato, a grandíssima maioria que frequentava o Monkey’s não eram casados, a não ser com outras pessoas. Se consideram que a minha inocência fosse incomensurável, concordo. Tinha uma visão romântica da vida e o meu senso do certo e do errado era totalmente irreal. Mais tarde, entendi o que os três macaquinhos queriam demonstrar: que ali, quem entrasse, teria a sua intimidade preservada — nada seria visto, ouvido ou dito — sobre os encontros que testemunhassem.

No entanto, na tradição da sabedoria budista, os três macaquinhos representam características comportamentais exemplares que nos levariam à elevação de caráter. Iwazaru, o que tapa a boca, significaria “não falar o mal”. O que cobre os olhos, Mizaru, expressaria: “não ver o mal”. E Kikazaru, o que tapa os ouvidos, revelaria que deveríamos “não ouvir o mal”. Que nossa boca jamais fale o que possa prejudicar os outros. Que meus olhos nunca vejam nada além das boas intenções. Que jamais possamos dar ouvidos ao que atente contra a nobreza espiritual. De uma forma um tanto enviesada, mas totalmente afeita às características sociais de nossa civilização, os macaquinhos se prestam às nossas contradições, carregadas de regras religiosas e normas de conduta morais que engessam a manifestação da liberdade da pulsão mais poderosa que carregamos — a sexual ou libido — enquanto quase que diariamente é estimulada a pulsão agressiva em nossas atividades formais para “vencermos na vida”. O outro, em vez de ser a possibilidade de um encontro amoroso, é considerado um inimigo em potencial.

Essa característica de algo que passeia por nossas questões psicológicas, desejos e fantasias, se estendem a nomes de vários motéis: Álibi, Obsessão, Delírio’s, Êxtase, Frenesi, Romance, Éden, Feitiço, Fuego, Secreto Amor, Sigilus, Paixão, Sonhos, C Q Sabe, Devaneio, Libidus, Paraíso, Sedução, Nirvana, Planeta Sex, Swing, Posições, Yes Bumbum. De fato, quem vai a um motel dificilmente será para fazer outra coisa que não seja a prática de sexo. As modalidades variam, o número de participantes, assim como os gêneros envolvidos. O motel é um local de celebração da vida. Para corroborar o quanto se identificava com a cidade, nos últimos anos, um mural homenageava monumentos paulistanos. No Monkey’s, eu nunca fui e nunca irei. O imóvel está sendo demolido. Em seu lugar, surgirá um condomínio residencial. Com o tempo, o local que ficava num ponto afastado da cidade, tornou-se cercado de farmácias, supermercados, um outro condomínio, residências de bairro. Foi perdida a sua natureza reclusa. Ficará em minha memória o encantamento infantil com os macaquinhos, a estranheza adolescente da descoberta de seu caráter proibido e sua posição social de atividade adulta.  

No mural, se lê: “Motel Monkey’s dedica esta obra à cidade de São Paulo

Entrevista Sobre O Lançamento de Curso De Rio, Caminho Do Mar

Como surgiu o título do livro?

Eu estava escrevendo uma das crônicas proposta pelo curso de crônicas da Scenarium  —Livros Artesanais e essa sentença surgiu ao final de uma delas. Percebi a conexão que havia entre os rios canalizados nas várzeas de São Paulo, frequentemente transformadas em avenidas de fundo de vale, uma característica bastante acentuada na região na qual moro, na Periferia da Zona Norte. São os rios cinzas pelos quais transito na cidade. Caminho do Mar é o sentido que realizei em busca de salvamento.

Quais são os personagens do livro?

Os personagens somos todos nós, intermediados por minha voz. Quando falo de nós, me refiro à comunidade humana, ao País, em particular. Evidentemente, alguns nomes mais próximos pontuam mais evidentemente porque participam do meu olhar do tempo imediato ao qual aludo, além de personagens aleatórios que surgem sem pedir licença. Quase um diário de viagem.

Como foi o processo de feitura do meu livro?

Como já citei, eu precisava escrever para exteriorizar a minha dor, o processo de desalento pessoal, muito guiado pela situação que via se agravar no País. Antes, eu era um ser recluso, alheio ao que acontecia ao meu redor, que só observava como se fosse um voyeur. Não interagia com ninguém, apenas convivia. Após perceber que era um caminho sem volta para o fim, decidi me salvar abrindo meu peito ao mundo e às pessoas. Não sem muita dor, igualmente. Mas era uma dor redentora, enquanto a outra era egoísta e sem propósito. Com isso, sofro quando vejo o mal grassando como praga. Para nós, brasileiros, não bastava a Pandemia, tinha que haver um ser abjeto que conduzisse todos nós à catástrofe. Como digo sempre, nada acontece do nada. É um desenvolvimento paulatino. Criamos as bases, os precedentes e demos chance para que o fenômeno que estamos vivendo acontecesse.

Um trecho do livro…

“Reverencio a luz, a energia visível e invisível de tudo o que me envolvia água, árvores, seres que pululam entre meios e veios a transitarem entre as dimensões. Saio da água renovado e agradeço à Marina e à Alice, juntando as mãos em sinal de gratidão… por me levarem até lá. Voltamos repisando passos de milhares antes ainda que fosse um lugar mais segredado iguais a mim, humildemente gratos e largamente agraciados.

Reencontramos a mulher que nos chamou a atenção isolada, a conversar com seres invisíveis ou consigo mesma. Quando chegamos, ela posicionava a placa de “PERIGO”, a declarar que se as mulheres não o fizerem, não serão os homens que o farão. Fui ao mar. Dentro d’água, a vejo exortar as ondas:

Sai doença! Venha cura! frase repetida algumas vezes.

Ao voltar, interrompi a leitura para observá-la a recolher conchinhas. Vez ou outra, conversava com as águas. E eu me interessei por sua história. Soube que era amante do mar. Que garota, o pai não gostava que a família fosse à praia ao invés das serras de Minas. Ao primeiro contato com o oceano, se apaixonou. Morava em São Paulo.

Mas decidiu deixar a metrópole quando percebeu que aquilo não era vida.

Cantava o trecho de ‘Exagerado’, de Cazuzapor você eu largo tudo: carreira, dinheiro, canudo’, em alusão ao mar. Formada e pós-graduada, a Sacerdotisa desceu definitivamente há três anos para Ubatuba.
A família foi para Portugal. Olhando em torno disse que nunca poderia deixar aquele paraíso.
Eu pensei a mesma coisa.” — Trecho de A Sacerdotisa

O que se espera encontrar ao ler Curso de Rio, Caminho do Mar?

Identificação com o tempo e o lugar em que estamos. Porque simplesmente “estamos” e as pessoas parecem se considerar eternas no sentido material da realidade que nos é dada a ver. Tento ultrapassar o véu que nos ilude e chegar ao cerne de Ser, para além de ser um humano ser.

Qual a emoção que esse livro pretende provocar?

Empatia. De minha parte para os outros. Espero receber sinais de empatia de retorno. Mas já aprendi que não devemos criar expectativas. O que sei é que esse livro me salvou. O que pode mais se esperar de palavras impressas em folhas de papel, enlaçados artesanalmente?