10 / 03 / 2026 / Lola Maria

Lola Maria e a sua língua de rapidez sônica.

Na madrugada, deitada em sua caminha, junto à cama do casal, a Tânia pôde constatar que Lola Maria fez a sua passagem. Sou daqueles que entendem que a consciência evolui a cada vivência em seres de organizações físicas cada vez mais sofisticadas. Quem convive com cães, gatos e outros animais de estimação percebem que, de alguma forma, eles se comunicam conosco, desenvolvem a intimidade de quem compreende quando estamos emocionalmente abalados, tristes, depressivos e, da mesma maneira, ao contrário. E nem é preciso a expressão verbal, mas o olhar de quem não tem medo de nos ver como somos ou estamos.

Lola Maria foi encontrada há dez anos correndo esbaforida pelas ruas. Encontrada pela Romy e pela Ingrid, foi trazida para nós. Assim, a cachorrinha magrela e sapeca foi crescendo… para os lados. Muito gulosa, o seu cardápio era extenso em termos de gostos: banana, mamão, abacaxi, melancia, ovos mexidos e ração molhada. Quem chegava em casa nem sempre era bem recebido. Para alguns, os “lambeijos” mais rápidos da Zona Norte de São Paulo muitas vezes invadindo as bocas desavisadas das visitas. Ou, para a nossa chateação, mordidas traiçoeiras em calcanhares menos protegidos.

Nas últimas semanas, começou a crescer a nossa percepção de dores nas costas. Há mais tempo ainda, uns meses, havia começado a engasgar até ao tomar água. Com a nossa crescente preocupação, iniciamos consultas com veterinários para minimizar seu sofrimento, mas certamente a idade de cerca de 12 anos começou a cobrar o seu preço. Lola Maria, minha netinha, filha adotiva da Lívia, deixará saudade, que eu considero um sentimento de “presença na ausência”. Assim como os amores anteriores — Tarzan, Gita, Fofinha, Sandy, Lua, Penélope, Dorô, Frida, Dominic, Elvis, Baleia, Cotoco, Índie e vários outros amores — esses seres nos fazem pessoas melhores, mais atentas às nuances de sentimentos tão delicados quanto poderosos como o amor incondicional que eles nos devotam.

Lola, você nunca deixará de passear pelos pensamentos nas ruas da memória de nossa família enquanto vivermos!

Lola Maria junto às mangas que caíam da nossa mangueira, às quais amava se lambuzar…

12 / 12 / 2025 / O Mar

uma terça-feira perdida da semana no início de dezembro — um inesperado dia solar
empurrado pelo vento vindo do interior me encaminhei em direção ao Mar
pela previsão do tempo à tarde choveria como choveu
mas para mim não importa eu não busco o Sol
vou em direção ao líquido amniótico como a criança com saudade do útero da mãe
as águas límpidas já prenunciavam a chegada da frente que baixaria a temperatura
e revolucionaria o movimento das ondas em desencontros
como se um gigante balançasse um copo descomunal
sabia que mais tarde as águas estariam mais interessantes para quem busca o embate
líquido que me jogaria de um lado para o outro como acontecia com a criança fui-sou-serei
porque sei que assim morrerei
não que me considere jovial mas porque continuo a ver a vida como novidade
caminhando olhando para os lados com imensa curiosidade
um garoto perdido em corpo envelhecido…

14 / 06 / 2025 / Antes À Tarde*

Porque a tarde sangrou
feito saudade…

Eu,
que não vivo de esperança,
verso sobre o que passou
como alguém que sabe que já viveu
tudo o que tinha para viver —
da negação à entrega,
da dor de não amar ao amor
e a dor de amar.

Entre as estações,
não há vida,
apenas um segundo de noite infinda.

Fui feliz,
ainda que tarde,
antes à tarde que nunca
sob o céu que nos protegia…

*Poema de 2021

12 / 06 / 2025 / Dia Dos Namorados Distantes

os namorados distantes do que vivem?
de lembranças dos encontros espaçados
no tempo?
do desejo reafirmado a cada diálogo roubado
nos intervalos das obrigações diárias?
dos descaminhos da volúpia pela presença
não materializada
como se fosse uma foto beijada
esmaecida pelas lágrimas de saudade?  
quem vê de fora não acredita na permanência
feita muito mais de ausências
do que das presenças
mas os cheiros 
as intumescências de bicos e membro
o êxtase reafirmado a cada reencontro
a resistência do desejo
os pelos eriçados a responder que sim
não se acredita no fim…
é uma ilusão?
mentes doentias como se vivessem um vício
pelo vazio
em que a distância não vence
ou afirmação do gosto do prazer
entre os namorados
distantes amantes da dor de amar
e bem quererem-se…

Foto por Yan Krukau em Pexels.com

06 / 03 / 2025 / Projeto Fotográfico 6 On 6 / #TBT

Desfilarei por aqui algumas imagens através do tempo. As imagens têm o poder de preservar uma idade, uma feição, um corpo, um tempo, um lugar. Tanto quanto deveria preservar a memória. Mas isso cabe a nós que passamos por ele. E isso varia de acordo com a capacidade de cada pessoa. Há a condição de envolver certas cenas em torno de fantasias ou desejos. A memória prega peças e é comum que fiquemos saudosos de certas épocas ao rever-nos mais jovens. Eu, que tento viver um dia de cada vez, vou deixando a saudade de lado sempre que possível. É comum sentir que estou tratando de outras pessoas em cada visão.

E essa cabeleira? Pois, é! Devia ter meus 22 anos. Estou do lado de meu irmão, Humberto. Essa imagem foi produzida no centro da cidade de Matão, onde o meu pai herdara uma fazenda, a qual estava arrendada para uma usina de produção de etanol. Nessa visita, constatamos que a fazenda, antes distante da cidade, estava cada vez mais perto. Mais alguns anos, certamente os bairros se aproximariam do canavial. Nunca voltei por lá para constatar. Tempos depois, a fazenda foi vendida para usina.

Mais uma foto com o Humberto. Este registro foi feito no salão do Clube Piratininga, por ocasião de uma apresentação de uma orquestra de baile de salão, em 2005. Foi um tempo gostoso de ser vivido, apesar do desgaste físico que representava subir equipamentos pesados até o palco pelas muitos degraus de suas escadas.

Estava eu em frente ao mar, um sol para cada um, tempo de sobra depois de ter montado o palco… o que poderia fazer? Mergulhar nas águas quentes de São Sebastião, no Litoral Norte. O tempo gasto no trabalho pode ser também de usufruto de bons momentos. Fiz bem! Depois desse mergulho, trabalhei por 30 horas seguidas…

Em 2021, completei 60 anos. As minhas filhas me deu de presente uma viagem à Paraty (RJ), cientes de meu apreço pelo Mar. Foram dias incríveis que eu e a Tânia usufruímos com prazer. Nessa viagem também tive contato com a História e a Natureza em momentos inesquecíveis.

Houve uma época que era totalmente avesso a fotos. Fugia como se quisesse proteger a minha alma, feito um indígena que imaginava que ela ficaria refém da imagem. Nessa, devo estar com 19 anos, num visual típico dos Anos 80. Na época, era vegetariano e acreditava que sequer namoraria, quanto mais que me casaria. Mas o mundo dá voltas…

Para finalizar, volto ao início, de onde trago esta foto junto àquela através da qual aprendi amar às mulheres. Eu devia ter por volta de um ano de idade (1962 ou início de 1963) e as praças de São Paulo eram lugares bem mais aprazíveis do que são agora. Ao fundo, provavelmente, pelo que pesquisei, apesar de não haver sequer uma foto para identificá-la, está “Mulher Nua“, de Charis Brandt. Ela desapareceu da Praça da República em julho de 1994; era uma obra em bronze com 1,70m de altura e pesava cerca de 105 Kg; ficava sobre um pedestal de granito rosa.