Volto para a casa – Avenida dos Bandeirantes. Hoje, noite de sexta, como todas as noites, antes, um garoto a vender flores na chuva, encharcado. Caminha entre os carros, passo largo, trânsito parado. Investe em quem tenha algum desses sentimentos: saudade, amor, carinho, culpa ou arrependimento…
há momentos em que me desconfiguro como ser pensante passo a ser um animal que quer não ser apenas agarrar parte de mim me tornar tornado pelo toque me satisfazer por inteiro em frêmito arrepio arrancar galhos folhas troncos raízes árvores bosque sem identidade pedaço de carne seios em pele recobertos corpo esponjoso antros cavernosos lado a lado rios a se preencherem de sangue vou por uma única mão em direção ao prazer solo chão sentido centro-periferia todas as forças concentradas fantasio a outra pessoa em intenção ausência presente feito saudade dor desejo de auto compensação de proximidade consciência da imensa distância entre mim e o sim permaneço em êxtase suspenso resisto à chegada do fim pressão entre os dedos me agarro em respiração profunda permaneço corro é quando por ele eu-falo sou totalmente certeza vigor anima em movimentos cada vez mais rápidos fibras retesadas veias intumescidas talo rigidez da madeira troncos separados imagino invadir a fenda do tempo-templo macio escuro com a delicadeza de quem morre tão livre e brevemente feito vida e voo de borboleta expulsando pelos canais condutores lágrimas de quem chora um choro solitário…
Em 17 de Maio de 2016, escrevi: “Pois, é!… Aconteceu de novo… A Tânia e a Romy se compadeceram de uma doidinha de saudade perdida na região… Uma pediu, a outra a resgatou… Agora, Bethânia parou de chorar, sentada em meu colo… A academia adiada, enquanto descansa de seu sofrimento a nova fêmea da família, pelo menos por um tempo…”.
Hoje, a Bethânia cresceu, mas nem tanto. Gosta de agir como se fosse uma gata e, apesar de suas perninhas curtas, salta a mais de um metro de altura, subindo em muretas, telhados, pias e, eventualmente, em mesas. Destruiu praticamente sozinha um conjunto de sofás e vez ou outra acusa travesseiros e almofadas de atacá-la, os rasgando. Sofre bastante com o frio, odeia roupinhas e prefere ficar debaixo das cobertas nas camas que a aceitar. Quando a Romy foi resgatá-la perguntou para uma senhora que estava próxima se era dela. A resposta que ouviu foi: “ninguém quer isso daí, não!”.
Nós quisemos “isso daí”, bicho ciumento que ganhou um capítulo no meu primeiro livro pela Scenarium Livros Artesanais – REALidade – por essa característica. Teimosa, late sem parar normalmente quando a Lívia está em reunião no HomeOffice. Complexa, é difícil explicar a personalidade forte dessa “pessoa”…
Dias desses, eu me lembrei de você, em mim… Mentira, eu lembro de você, de mim, de nós, todos os dias. E sabe o que é mais estranho?… Tenho saudade de nossos sonhos não realizados. Viveríamos à beira do mar, teríamos uma vida simples, criaríamos os nossos filhos, fossem eles adotados ou não. Formaríamos um vínculo eterno no tempo terrestre e além. Quando estava com você, sentia vontade de cantar. Músicas de Alceu Valença nos representavam. Lembra quando a conheci, numa tarde junto ao mar? Você olhava para o horizonte e quando cruzei com você, vi o azul do céu e do mar em seus olhos. Sem querer, falei baixinho ou apenas pensei, não sei: “la belle de jour…”. Você parece ter ouvido, sorriu e respondeu: “adoro essa música!”… Fiquei enrubescido… Você sorriu mais ainda: “você ficou vermelho! Que gracinha!”… E começamos a conversar. Percebi que seus olhos eram, na verdade, castanhos esverdeados, às vezes mais claros, às vezes menos, e que tinha a capacidade de resplandecer o sol, fundir o azul do céu e do mar, o verde da vegetação, avermelhar-se com os últimos raios do entardecer, como descobri ao ficarmos sentados em uma pedra, conversando, até anoitecer… Quando voltamos a nos encontrar, lhe cantei “Anunciação” porque a letra fazia todo o sentido. Na mesa do restaurante, eu me voltei assim que entrou pela porta. Brinquei: “eu escutei os seus sinais…” / “Sou tão barulhenta assim?” / “Não! O meu coração bateu tão forte que cheguei a ouvi-lo…”. Seus olhos furta-cores se expandiram e você me beijou. Ficamos juntos por maravilhosos dois anos, fazendo planos para o futuro, cantando músicas do Alceu, assistindo aos seus shows, saindo pela noite cantando “mar e sol… gira, gira, gira, gira, girassol…”, flores que teríamos no jardim de nossa casa à beira-mar, com as nossas roupas quarando no varal. Até que… algo aconteceu. Você parece ter despertado do nosso sonho. E disse que ele havia acabado. Simples assim… Não quis explicar, talvez não quisesse me magoar por dizer que não gostava mais de mim. Ou que se apaixonara por outro. Eu devia ter escutado as mensagens enviadas por seus olhares, ainda que a boca não se pronunciasse. Eles começaram a ficar nublados como a estação chuvosa. Mas do que valeria? A dor seria a mesma. Sei que tudo passou. Prefiro que seja assim. Será um sonho eterno, realizado somente em minha mente. Guardarei o seu olhar-sorriso-ladrão-de-corações em minha lembrança. Aquele sorriso que foi só para mim, aquelas cores que foram só minhas… Adeus, meu sonho!