Projeto Fotográfico 6 On 6 / A Hora de Ouro

A hora do crepúsculo é a minha preferida do dia. Nem sempre estou a postos para ver o Sol declinar no horizonte. <as quando posso, fotográfico aquele momento fugidio que anuncia a chegada da noite logo mais. É um momento de reflexão sobre o dia que se esvai feito areia na ampulheta.

A hora dourada também pode ser performada por objetos que imitam a luz do entardecer. Como aqui na imagem do Teatro Municipal de São Paulo. Poderia ser uma cor diferente, mas não como deixar de enaltecer que a luz dourada valoriza o edifício que este ano completa 115 anos de fundação.

O dourado parece ter sido sempre uma tendência na arquitetura de São Paulo. Do lado do Elevado Presidente João Goulart, conhecido como Minhocão, encontramos várias construções em que essa cor predomina, ainda que estejam desgastadas. A hora de ouro, ainda que esteja nublado, ajuda a tornar os momentos mais suaves.

A paleta de cores do entardecer apresenta variações que transitam entre o verde, o vermelho, depois que o dourado se pronuncia como o padrão crepuscular. É algo que vivencia-se com a sensação de que o mundo tem muito mais a oferecer do que a escuridão d’alma humana.

Numa tarde de sábado, a Tânia, eu e o Bambino, meu neto, passeamos ao longo do Minhocão sem carros. A tarde nublada impedia que víssemos o declínio do Sol. Mas o nosso caramelo representou o toque amarelado necessário necessário para representar a hora de ouro.

Quando passo pela Marginal dos Rios Tietê ou Pinheiros na hora de ouro, o trânsito ganha a configuração de veículos que vão ao encontro de um mundo em que a vida parece caminhar para um estágio quase espiritual de ser. Não há como nos deixarmos se transportar mentalmente para um outro lugar que não haja tanto sofrimento.


Participação: Claudia Leonardi / Mariana Gouveia / Lunna GuedesSilvana Lopes

BEDA / Crepúsculo De 12 De Agosto De 2020

12 de Agosto de 2020.
Este dia existe, o mês também.
O ano, já não sei.
Estamos vivos, eu, que escrevo, vocês, que me leem.
Ou não.
Aniversário da Romy,
trigésimo primeiro ano de existência,
todas as estações vividas aqui,
na Periferia da Zona Norte.
Trinta e uma vezes a Terra girou em torno do Sol.
Onze mil, trezentos e trinta e dois crepúsculos,
contando os anos bissextos.
Porque com ela é assim —
todo dia é dia de comemoração da energia vital.
Parabéns para nós que a conhecemos, meu amor!

12 / 12 / 2025 / O Mar

uma terça-feira perdida da semana no início de dezembro — um inesperado dia solar
empurrado pelo vento vindo do interior me encaminhei em direção ao Mar
pela previsão do tempo à tarde choveria como choveu
mas para mim não importa eu não busco o Sol
vou em direção ao líquido amniótico como a criança com saudade do útero da mãe
as águas límpidas já prenunciavam a chegada da frente que baixaria a temperatura
e revolucionaria o movimento das ondas em desencontros
como se um gigante balançasse um copo descomunal
sabia que mais tarde as águas estariam mais interessantes para quem busca o embate
líquido que me jogaria de um lado para o outro como acontecia com a criança fui-sou-serei
porque sei que assim morrerei
não que me considere jovial mas porque continuo a ver a vida como novidade
caminhando olhando para os lados com imensa curiosidade
um garoto perdido em corpo envelhecido…

10 / 12 / 2025 / PESO

“Querido Dia, me traga coisas leves”.
Logo respondi que sentia falta de algum peso.
“Fortes emoções?”
Não!
Peso físico… de um corpo sobre o meu…a emoção é condecoração…
Sentir-me-ia recebendo uma medalha no peito — ou uma facada no coração —
mas seria algo para sentir…
Tive uma sensação de leveza ontem à noite,
ao ver a Lua no horizonte ao mesmo tempo que sentia em minha cabeça desnuda
uma brisa calma e fria do Outono que se aprofunda a caminho do Inverno,
de estrelas brilhantes em céu limpo de nuvens…
Tenho sentido o peso das notícias excruciantes
que me açoitam diariamente a pele d’alma…
Mas a minha pele física quer outra pele contra a dela,
em conjunção planetária de corpos celestes,
signos em Sol… planetas que lhe circundam o fogo da noite,
passional, energético, explosivo, contumaz, inevitável…
Quem eu bem quero está longe…
Quem eu tenho por perto, se distancia…emocionalmente,
não me lê, é bem provável que não me queira mais…
qualquer dor que sente me acusa, porque estou junto…
seria o caso de separar caminhos…criar expectativas, sonhar a comunhão
e não a solidão…
Quero em outro corpo me emancipar,
quero o âmago do gozo, penetrar,
quero o peso de amar…

Foto por Ketut Subiyanto em Pexels.com

20 / 11 / 2025 / Blogvember / Fiz Misérias Nos Caminhos Do Conhecer

a mais difícil jornada do conhecimento é conhecer a si mesmo
sou um ser curioso quero saber (as versões) de tudo
a ideia do que fazem de mim por minhas exterioridades e intimidades
estão no plural por sou muitos ao longo dos tempos
tanto que muitas vezes não me reconheço
ao acordar tento comprovar se estou mesmo lidando comigo
ou um outro que se esqueceu de mim apesar de estarmos no mesmo corpo
fico espantado com o sol estrelas a lua fico a registrá-los imageticamente
a me atrair magneticamente
por suas versões ilusórias são meus sóis minhas estrelas luas
minhas ideias de mundos não apenas as referências deste que comungamos
estamos juntos mas separados nós mesmos mundos estanques
saber que somos múltiplos iguais mas diferentes
e que o conhecer é um processo infinito de infinitos espaços-tempos
e só seremos plenos de conhecer ao nos tornamos igualmente infindos…

Participação: Lunna Guedes