#Blogvember / Vida & Sonho

Mas você não sabe se viver é melhor que sonhar (Lua Souza)

Vivemos a deixar as nossas impressões digitais por aí… (2011)
— em São Paulo.

Um dos meus letristas preferidos compôs e uma das minhas cantoras favoritas cantou: “viver é melhor que sonhar”, em “Como Nossos Pais”. Belchior até hoje me surpreende pela atualidade de suas composições. E Elis está cantando cada vez melhor. Que ambos já tenham nos deixado fisicamente é irrelevante. A vida é um sonho e sonhar creio ser a condição perpétua da existência. Os Hindus dizem que vivemos um sonho de Krishna.

Há certas ocasiões que nossos sonhos que se desenrolam dormindo são tão poderosos que “parecem ter sido reais”. Entre a aparência e a realização, mesmo que não os tenhamos protagonizados tendo como testemunhas apenas nós mesmos, o impacto que tem nossa vida é enorme. Vai para o repertório de verdadeira vivência. Comigo, aconteceu várias vezes.

Após o passamento de minha mãe, eu estava preocupado com a condição dela na outra dimensão. Sonhei que ela se apresentava a mim como se estivéssemos na antiga casa. Perguntei o que fazia ali e como ela estava. Respondeu que queria me ver e que estava em paz. A consequência direta desse encontro é que acordei com o espírito acalmado, leve, em paz.

Eu tenho me ressentido de não me lembrar muito dos meus sonhos, ultimamente. Sinto falta de vivê-los como acontecia antes. Eu tinha a capacidade de continuá-los noites após noites. E de interferir nos seus caminhos. Em outros, mesmo que disfarçados, percebia que os locais se referiam a pontos específicos, reincidentes. Que fossem estranhos e que encontrasse pessoas que nunca as havia visto antes, não impediu que eu me lembrasse delas até hoje.

A condição onírica da vida muitas vezes se apresenta tão fortemente que confundo sonhos com ações na versão “desperta”. De qualquer forma são lembranças e ainda que quem contracenou comigo no sonho não “se lembre” porque para ela não aconteceu eu me lembro. Essa condição um tanto dispersa de atuar na vida contribui para que eu apresente um quadro “preocupante” de memória claudicante. Talvez eu devesse também me preocupar, mas ao mesmo tempo, tenho certo “carinho” com essa característica que não interfere na minha vida funcional, que consigo separar devidamente, com a criativa, que vem ao meu auxílio quando preciso “conversar” com as minhas personagens.

Não digo que não sei se viver é melhor que sonhar, simplesmente porque não há separação entre um estado e outro de consciência para mim. Vivencio as duas condições da mesma forma, com efeitos que demarcam bem a minha passagem pelo terceiro planeta desde o Sol, neste cantinho da Via Láctea, que fica na borda do superaglomerado Laniakea  um conjunto que tem 500 milhões de anos-luz de diâmetro e massa de 100 milhões de bilhões de sóis. No total, 100 mil galáxias fazem parte dessa estrutura. Não é um sonho?

Participam: Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Suzana Martins / Lunna Guedes

#Blogvember / Amanhecer

E meu movimento primeiro é passear pelas ideias matinais (Flávia Côrtes

Voltando do trabalho, com o dia a amanhecer, no centro de São Paulo – uma das faces da Praça da Sé (2011)

Quando estou amanhecendo não estou necessariamente acordando. Muitas vezes, estou indo dormir, nessa lida de horários trocados que é trabalhar para a festejar a vida. Durante um bom tempo, eu que quis ser professor de História, fiquei pensando se o que eu tinha como atividade profissional tinha algum valor para a sociedade. Tratava o meu trabalho com o rigor de um asceta que realmente era.

A alegria alheia não me afetava, principalmente aquela movida pelo álcool. Decerto, bêbados me causavam enjoo. Eu era diretamente remetido ao tempo em que trabalhei no bar de minha mãe. Eu não entendia por que os homens se interessavam por aquelas bebidas de odor penetrante. Apesar de ter acesso a elas, nunca cheguei a me interessar em experimentar uma pinguinha sequer.

Gostava das cores, das texturas, das transparências e dos desenhos das garrafas, mas não ousava colocar em minha boca os líquidos que, mesmo adolescendo aos meus 12 anos, sabia ser o responsável por liquefazer famílias. O mal liquefeito. Nos meus eventos – casamentos, aniversários, congraçamentos, réveillons, formaturas – os abeberados se multiplicam. As máscaras caíam no decorrer da noite, gravatas eram retiradas, saltos altos era trocados por pés no chão, o acanhamento se transformava em atrevimento – “in vino veritas”.

Não foram poucas as vezes que via o sol nascer no horizonte ao me movimentar pela cidade enquanto o meu movimento primeiro era o de passear pelas ideias matinais, concebidas no lusco fusco artificial das luzes robotizadas e eventualmente transformadas em textos. Isso, quando não escrevia diretamente no computador durante o evento, depois que a sonorização ficava afinada. Principalmente após o meu ingresso na Scenarium, tornou-se uma rotina que deu vazão à minha voz inaudível, mas enfim materializada.

Projeto Fotográfico 6 On 6 / Anatomia Dos Passos

De supetão, a Lunna proclamou: haverá “6 On 6”! Mal acreditei que já estaríamos no sexto dia de Novembro, sendo que não faz muito tempo, era 6 de de Janeiro. O que fiz foi produzir os passos de um só dia, o de hoje mesmo, uma segunda-feira em que estou no Litoral Paulista (que a maioria chama de Baixada Santista) para cuidar da casa que frequentamos há, pelo menos, 50 anos. Este é um lugar que me remete a um período importante para mim.

Passando pela antiga região do Ipiranga, vejo que as velhas casas estão dando lugar a empreendimentos residenciais em forma espigões — símbolo da anatomia retilínea e sem graça de uma cidade-monstro-transmutante — que usou uma fórmula de cientista louco. A vetusta chaminé, símbolo do antigo progresso que antigamente até parecia feia, mas atualmente ganha contornos de saudade.

Indo em sentido do Litoral pela Rodovia dos Imigrantes, nome mais do que perfeito, passa-se por Riacho Grande, tão grande que parece um imenso lago. Quando eu o vejo, já sinto um frisson com a perspectiva de encontrar muito mais água logo mais — a do mar de amor de menino.

Logo, descendo pela Imigrantes, os contorlitoral

nos da Serra do Mar nos invade a visão e o espanto devocional a desbravadores que a transpuseram para chegar ao alto do Planalto Ocidental Paulista no qual a cidade de São Paulo (nunca) adormece em berço esplêndido, a 725 metros de altitude. Ainda bela e com o mesmo aspecto que os habitantes originais da terra frequentavam quando eram senhores de toda ela, me emociono pelo simbolismo que apresenta.

Após as curvas que abraçam as laterais do promontório, antes dos tuneis longos que adentram a Serra do Mar vislumbro as linhas das cidades litorâneas ao oceano. O Sol como testemunha. Na sequência, por túneis sinto me intrometer no corpo de um ser mitológico. A Muralha silenciosa ecoa o som dos carros que a atravessam sem a minha reverência que me faz pedir perdão por aquela invasão.

Assim que a série de túneis termina, na entrada que tomamos em direção à Praia Grande, à direita vê-se um pequeno conjunto de casas que formam uma tríade de perfeito sonho de lugar. Marca uma visão idílica, uma imagem para onde fugir a imaginação e ficar.

Na casa da praia volto a ser menino, tiro a camisa, decomponho o ser austero, voltado para as tarefas sérias em série que surgem como se fossem minas plantadas para explodirem aos meus pés. Com o celular deixado de lado, vou ao mar, esqueço de mim e de todos em mim. Converso com as ondas e me remodelo ao som de seus rugidos. Hoje, as águas estavam especialmente revoltas, puxando o meu corpo para mais para dentro, me expulsando como se eu fosse um brinquedo jogado por uma criança birrenta. Entendo a sua força, deslizo a favor da espuma ondulante, branquidade em forma de felicidade.

Participam: Lunna Guedes

#Blogvember / Promessa Cumprida

“À beira das palavras… um gole de café… (Suzana Martins)

Foto por John-Mark Smith em Pexels.com

Querida,
antes de nos separarmos, com aquele abraço que relutei em dar porque talvez não quisesse me desvencilhar dele, eu sabia que seria difícil não pensar em você nos momentos em que meus olhos pousassem no vazio que se alargou a minha frente depois dele. Para não perceber que sinto a sua falta, não paro para nada. Continuo a fazer e a refazer tarefas que apenas me distraem um pouco.

Notícias da antiga guerra perderam protagonismo, apesar das mortes continuarem em escala pontual. A nova guerra, tão velha quanto é o mundo civilizado, é mais poderosa em referências, ocupando o espaço entre uma lembrança e outra de nossos momentos de entrega, prazer e dor, que se apequenam, envergonhados do imenso sofrimento em terras distantes e mais próximas.

Porém, quando amansa as horas do dia e olho para o Sol a perder-se no horizonte me perco viagens para o centro da Terra. Foram dez anos mesmo ou toda a eternidade? Tudo me faz recordar dos nossos encontros. São tantos os marcos por onde passeamos o nosso desejo de consumação impertinente que fica difícil não sorrir para depois morder os lábios na tentativa de me vingar da boca que me trai o sentimento de saudade.

Você cumpriu a sua promessa, quando lhe pedi: “me deixe ao menos lhe ver passar” – como cantou Roberto. Torço tanto por você encontrar a paz de espírito que buscava. Quis que não me odiasse por você me considerar um dos motivos de sua constante e incongruente desarmonia emocional, enquanto seu belo corpo bailava a beleza de ser artista no rosto luminoso. Como imaginava que também desejasse não mais me desejar, concordei com o fim…

Seremos velhos que, feito carvão encerraremos todo o amor em brasa que nos queimou durante a última década. Ou desfilaremos a nossa imaturidade de amantes perdidos em nós para todos verem, sem fugas e sem segredos, pelas esquinas da cidade? Frequentaremos restaurantes e cafeterias, à beira das palavras… um gole de café e um afago nas faces experientes? Acordo, sei que é apenas um sonho.

Cumprimos um ciclo – forte e tempestuoso. Tantos em sorrisos quanto em lágrimas. Agora apenas caberá nos deitarmos na rede das lembranças, descansarmos os nossos corpos alquebrados em novo ciclo, em que cada minuto será de gozo doloroso por não mais estarmos juntos, em peles encanecidas conflagradas na peleja do prazer…

Participam: Lunna Guedes / Mariana Gouveia / Suzana Martins / Roseli Pedroso

Graças

Qual a graça?
Estar grato por ser amado, eu, um sujeito tão ferido?
Contraditório desde o início,
que oscila entre a descrença no amor
e por chorar a cada canção de coração partido?
Por admirar a sua fala
ou quando cala, o seu sorriso?
Ou quando chora, se desmancha,
enquanto rio de tamanha candura?
Quando, mesmo no escuro, vejo o brilho
dos seus olhos faiscantes de desejo?
Sim, sou grato!
Grato por sentir o seu amor
e por amar estar consigo quando podemos
nos desnudarmos de vestes e do Tempo
Grato por me fazer sentir que importo
a uma mulher tão linda
por fora e por dentro
e plena de graça que me enleva
e me abraça…
Eu me lembro de seu corpo a pulsar
em contato com o meu e sorrio
para a parede como se observasse ali um quadro –
A Origem do Mundo.
Nosso mundo…
De conversas sobre o mundo,
nesses momentos, tão distante…
Ser gracioso, sou grato
por conhecê-la, por você oferecer
o seu encanto a mim,
suas palavras de apoio,
a advertência sincera e franca,
porque me ama
e agradeço por me apresentar o amor
que retribuo em pensamentos amorosos
que se espraia pelo campos e rios,
céus e vales,
montanhas e mares,
pela intimidade do Sol
de um sentimento tão ofuscante
quanto misterioso…

Imagem de A Origem Do Mundo (1866), de Gustave Coubet: AP Photo/Francois Mori