BEDA / A Janela*

Vivia o homem em cavernas e as desejava protetoras, sem possibilidades de serem devassadas. No escuro segredado por elas, desenhava em suas paredes o mundo que acontecia lá fora. Com a evolução dos grupamentos humanos que foram se tornando em gregários, na sua grande maioria, as habitações foram sendo construídas para atender as necessidades específicas de cada grupo. E ter janelas — comunicação visual com o mundo exterior — pareceu ser uma solução perfeita para muitos deles.

De simples recortes na madeira ou buracos nas paredes de pedra, o homem passou a criar janelas mais sofisticadas em variações de formatos, tamanhos e soluções para devassar o mundo o mantendo protegido do sol, da neve, do vento ou da chuva. Em alguns lugares, como em igrejas, vitrais tinham a intenção de jogar luz para o interior da nave, criando imagens coloridas pelo reflexo que buscavam uma experiência visual transcendente de religiosidade e misticismo.

Tão aferrada à captação da realidade pelos olhos humanos, as janelas foram adaptadas para as máquinas desenvolvidas para transportarem o homem. Navios, veículos automotores e aviões precisaram apresentar esse item muito mais pela necessidade de contato visual do transportado do que pela praticidade. A não ser pelos veículos que são conduzidos por quem os dirige, quem confiaria entregar sua vida nas mãos de um condutor de “olhos fechados”?

Complementares às janelas envidraçadas, surgiram as cortinas para obstar a luz excessiva, proteger o interior da casa de olhares indiscretos, embelezar a moldura da janela, entre outras funções. Cortinas dão um toque de requinte e aconchego, muitas vezes retratados em desenhos infantis, como os que eu mesmo fazia em criança. Cortinas são tão perfeitas para as janelas que se não soubéssemos que estas surgiram antes, poderíamos dizer que elas só existem para poderem abrigar àquelas…

Dessa forma, quando passo em frente à loja d’A Janela — Cortinas, sorrio sempre, como se me sentisse portador de uma estranha sabedoria, como se desvendasse cada segredo abrigado por trás de cada cortina de cada janela, guarnição adentro…

Imagem: Foto por Marta Wave em Pexels.com

*Texto de 2015

Participam do B.E.D.A.:

Lunna Guedes / Cláudia Leonardi / Mariana de Gouveia /

Darlene Regina / Adriana Aneli / Roseli Pedroso

Espelhos*

Espelho de outros tempos, na academia…

Neste jogo de imagens
que é a vida,
o nosso corpo
é apenas uma miragem
que se desvanece
entre outras…
Todos os anos nos deparamos
com as mesmas datas
a se repetirem na folhinha,
na agenda da bolsa,
no calendário do celular,
em marcas de nossa pele…
Costumam variar os dias da semana,
mais velhos,
o Sol nos recebe cotidianamente.
Os espelhos
insistem nos mostrar
diferentes versões
de quem imaginamos ser…
Que importa?
Espelhos foram feitos
para serem quebrados
e nós,
para sermos amados,
ainda que não nos reconheçamos…

*Poema erigido de cacos de palavras ao longo dos anos 10 do terceiro milênio.

Tamanhos*

“Paê, para onde está indo o sol?”

“Filho, nem sempre as coisas são o que parecem ser… É a Terra, o planeta onde a gente vive, que está a dar uma volta sobre si mesma, enquanto viaja no espaço em torno do Sol. E ele é apenas uma estrelinha entre milhões de outras neste trecho da Via Láctea, em torno das quais giram outros tantos planetas como o nosso. E a nossa galáxia é apenas mais uma entre milhões de outras, neste canto do Universo… Sendo assim, somos muito pequenininhos…”.

“Pôxa, paê, isso eu sei… Sou o menor da escola…”.

*Texto de 2016

O Pancadão De Van Gogh*

Sentado numa cadeira na varanda, esperava o entardecer avançar sobre nós. Ansiava que nuvens, que até então não se faziam presentes, viessem a adornar o crepúsculo de final de outono. Sempre a provocar excitantes e variadas formas como pano de fundo que avivam a imaginação. Uma brisa fria me deixava desperto ainda que o Sol intenso me forçasse a fechar as pálpebras-cortinas do palco de 80% da minha percepção sensorial. Sobre elas, a luz dos olhos meus não competia, mas adivinhava o brilho daquela estrela que emprestava o calor gerador da vida na Terra.

Observar o entardecer era um ritual que repetia sempre que estava em casa, mas que consegui exportar para outros lugares sempre que o tempo e o horizonte aberto me permitissem presenciar o efeito da revolução terrestre que cotidiana e silenciosamente ocorre sem que os seres que se dizem inteligentes a sintam. Sapos, tubarões, viúvas negras, borboletas, abelhas, alces e elefantes, golfinhos e beija-flores a sabem por uma questão de sobrevivência. As aves, seres revolucionários, descendentes diretos dos senhores do planeta por milhões de anos os dinossauros a conhecem para poderem migrar de um ponto a outro do hemisfério ou até entre os hemisférios. Baleias, salmões e tartarugas a usam para encontrarem o lugar ancestral para procriarem. Resta a mim, como um mísero animal ignorante dessa sofisticada ciência, aplaudir os ocasos como mapas de percurso.

Como era sábado, outros rituais humanos menos silenciosos que o meu, principiavam. Para além do estímulo visual, a audição ganhava preponderância. O som de gêneros musicais diversos e seus praticantes forrozeiros, sambistas, sertanejos e funkeiros competiam para ver quem venceria uma batalha perdida. Era como se para se deslocarem da vida comum necessitassem de colossais massas sonoras para se transportarem. O Sol, tão distante quanto pode ser um astro-rei, se despregava de seu ponto ilusório até outro. Abstraído-encantado, me ausentava de onde estava, surdo para as brigas de casais, o molejo da morena, as descidas até o chão e arpejos de sanfoneiros verdadeira barafunda de acordes em desacordos.

Mal pude acreditar quando pela chegada discreta da nebulosidade e do vento alto que a dispersava, a visão do entardecer se transformou em obra impressionista, em que fios de cabelos luminosos vangoguiavam a paisagem. Por mais furioso que tivesse o volume sonoro, nada impedia que me sentisse embevecido pela Natureza a reproduzir na tela rota da Periferia de Sampa, pinceladas do triste e belo pintor holandês, ao ritmo do pancadão.

*Blogagem Coletiva 
Tema: o que faz brilhar seus olhos?

Lunna Guedes / Mariana Gouveia / Roseli Pedroso

#TBT

Nesta quinta-feira, dia internacionalmente conhecido nas redes sociais para a postagem de #TBT, mostro aqui alguns registros esparsos no tempo. A expressão “TBT“, é a abreviação, em inglês, de “Throwback Thursday” ou, em tradução livre, “quinta-feira da nostalgia”. São, como serão estas aqui, imagens que nos remetem a comentários sobre a vida — que aprendemos a identificar como algo quase indecifrável enquanto a vivemos sem sabermos o fim em si. A não ser que tenhamos fé que assim não seja. Fé prova a existência da fé, mas não o que o objeto da fé trata. Criar algo que possivelmente não tenha alguma finalidade é de uma teimosia insanamente admirável…

BELO HORIZONTE EM SP (2015)

Peço que me desculpem o abuso, mas não posso deixar de partilhar com vocês a visão que tive do final da tarde de hoje, um sábado do início de inverno de 2015. Esta é uma São Paulo de belos horizontes, quando nos é dado presenciar. Boa noite!

COCÔ-ARTE (2012)

Quem vive com cachorros, sabe que nem tudo são flores no relacionamento com esses seres especiais. Como são artistas em vários aspectos malabaristas, atores, palhaços e produtores de arte muitas vezes eles têm rompantes criativos. Hoje, logo de manhã, contemplei essa arte das minhas cadelas em um lugar que deveria estar vedado ao acesso delas, já que colocamos um gradil que deveria impedi-las de acessar (esqueci de dizer que também eram acrobatas). Chamei essa criação de cocô-arte, mesmo porque, arte cocô está cheia por aí…

SANGUE NA TARDE (2016)

O inverno anuncia tardes
derramadas em delírios…
Mal podemos perceber
que o tempo seco nos arranca
a umidade da pele
que se arrepia ao toque do frio…
Os olhos desejam
que se torne espelho a beleza
que se apresenta,
enquanto vemos que a paixão
do Sol pela Terra termina
vertida em sangue…

O ESTIVADOR (2016)

Esta é uma homenagem aos trabalhadores do cais, que carregaram nas costas a riqueza do País. Esta estátua se encontra em um trecho do longo percurso junto aos cais do Porto de Santos. Normalmente relacionado ao trabalho em embarcações, “estiva” refere-se à primeira camada de carga que se mete em um navio, e que é geralmente a mais pesada. Em decorrência disso, o trabalho físico de transporte de toda a sorte de objetos — sacas, fardos, móveis, madeira, ferro, etc — acabou por designar a atividade-profissão de “estivador”.  Durante séculos, seres escravizados ou pagos à soldo, embarcaram a riqueza sempre mal distribuída por todas as nações do mundo. Eventualmente ainda realizada em lugares sem o maquinário adequado, a estiva me é bastante próxima, já que de forma semelhante, carregamos, eu, meu irmão e outros, equipamentos de sonorização e iluminação para a montagem de apresentações evanescentes, como se fossem eventos mágicos que só se confirmam se filmados e/ou fotografados. Provas totalmente refutáveis, ainda mais que a memória se dilui ao longo do tempo…

EM LUA, ARADO (2017)

Céu enluarado,
vasto campo arado
de estrelas enterradas nas nuvens…
Um dia, brotarão em luz
as sementes de um tempo
limpo,
sem dolo e má intenção…
Não, hoje…

DANÇANDO, SEMPRE (2014)

Voltando da academia, pensando sobre o atual momento político, as eleições de domingo e sobre o destino de nosso país, concluí que vamos dançar. Todos! Decidi que vou aprender balé clássico. Se for para dançar, que seja com estilo e arte, praticando um “arabesque par terre”.