18 / 12 / 2025 / O Solitário Cão

O Humberto e eu encontramos o Beto pelo caminho e, junto a um muro, paramos para prosear um pouco. Um metro à frente, percebi um cão encostado a um pequeno portão . Parecia nos ouvir, interessado, como se sentisse falta da voz humana. Depois de algum tempo, comecei a conversar com ele que, com um olhar demasiado humano, agradecia a minha atenção, abanando o rabo. Olhei para o grande terreno em que morava e fiquei sem saber se era um espaço ocupado ou não. Terminada a conversa, nos despedimos, nós do Beto, e eu, também do cão solitário.

Já separado do meu irmão, na minha rua, um outro cachorro solitário começou a me acompanhar, para logo se adiantar. Ele sabia para onde ia, mas parava aqui e ali, sob a condução de seu faro em busca de algo interessante que o atraísse. Independente, livre de amarras e gradis, permanecia com o rabo empinado, confiante. Em casa, os “meus” cães (ou que moram conosco) me receberam com a festividade costumeira e, por algum motivo, senti vontade de me demorar um pouco mais nos afagos que lhes agradam tanto. Assim como a mim, que me identifico tanto com os solitários…

10 / 12 / 2025 / PESO

“Querido Dia, me traga coisas leves”.
Logo respondi que sentia falta de algum peso.
“Fortes emoções?”
Não!
Peso físico… de um corpo sobre o meu…a emoção é condecoração…
Sentir-me-ia recebendo uma medalha no peito — ou uma facada no coração —
mas seria algo para sentir…
Tive uma sensação de leveza ontem à noite,
ao ver a Lua no horizonte ao mesmo tempo que sentia em minha cabeça desnuda
uma brisa calma e fria do Outono que se aprofunda a caminho do Inverno,
de estrelas brilhantes em céu limpo de nuvens…
Tenho sentido o peso das notícias excruciantes
que me açoitam diariamente a pele d’alma…
Mas a minha pele física quer outra pele contra a dela,
em conjunção planetária de corpos celestes,
signos em Sol… planetas que lhe circundam o fogo da noite,
passional, energético, explosivo, contumaz, inevitável…
Quem eu bem quero está longe…
Quem eu tenho por perto, se distancia…emocionalmente,
não me lê, é bem provável que não me queira mais…
qualquer dor que sente me acusa, porque estou junto…
seria o caso de separar caminhos…criar expectativas, sonhar a comunhão
e não a solidão…
Quero em outro corpo me emancipar,
quero o âmago do gozo, penetrar,
quero o peso de amar…

Foto por Ketut Subiyanto em Pexels.com

29 / 06 / 2025 / Poentes No Cais

Foto por Talha Resitoglu em Pexels.com

Sentado no cais,
todas as tardes,
eu me coloco a observar a linha do horizonte…
Lusco-fuscos da minha perdição…

Todos os dias,
a essa hora,
há essa hora
em que revivo o momento da despedida…
Ela se foi…
sem ter a delicadeza de desaparecer
em barco a vela silente…

Foi para o continente,
célere como o pendular instante,
em ronco de motor potente…
Fiquei na ilha, ilhado…
Solidão por todo o lado…

Em dias nebulosos,
não há diferença entre o firmamento
e o mar,
entre a noite que chega
e o dia que vai…

Então, me sinto melhor…
Porque mergulho em um mundo
de oceano sem fundo,
um buraco negro,
de luz abduzida…

De nosso amor,
restou pores de sol,
tempestuosos e brilhantes,
de raios fugidios,
figuras de corpos esguios…
assim como o seu,
que espero voltar,
até anoitecer
ou o Tempo acabar…

18 / 04 / 2025 / BEDA / Se Não For Para Causar, Nem Me Caso*

Maria, figura esfuziante e autossuficiente, trazia o sol atrás de si onde quer que chegasse. Era desejada por homens e mulheres, mas não se prendia a ninguém. No trabalho, sorriso aberto, conseguia conduzir aos seus comandados com facilidade e seriedade. Ao chegar de sextas à noite, saia com um grupo de amigos, muitos, antigos colegas de escola. Todos a amavam. Quase todos a tiveram nos braços, mas sabiam que ela era quase um patrimônio da humanidade. Como conseguia equilibrar tantas emoções que provocava, era um mistério que nunca conseguiram desvendar. Ou se aceitava Maria ou se afastava para tentar nunca mais vê-la. Porém, tamanha a sua força atrativa, poucos a deixavam. Era fogo que aquecia.

José, recolhido e triste, enviuvara há pouco tempo, sem filhos. A sua personalidade plasmada em gesso sem acabamento, ganhou feições de grandiosidade de um deserto aberto. No entanto, sempre prestativo, era querido por muitos. Gostavam de tê-lo por perto porque era aquele que parecia concordar com tudo o que fosse dito, calado que era. Poderia se dizer que fosse uma figura decorativa, porém indispensável. Eficiente em suas funções de contador, não sabia contar quantas dores já sentira na vida, sensibilidade à flor da epiderme mais basal. Era gelo que não queimava de frio.

Ora, pois então, deu-se que um dia acabaram por se encontrar em uma tarde de outono, Sexta-Feira Santa. Maria, reservava um dia por semana para estar só ao sol – amigos estelares que eram. José, ainda que companheiro silente preferido de muitos, se sentia melhor quando confirmado em sua solidão tranquila. Ela, a buscar a luz por entre o arvoredo do parque; ele, a se sentir acolhido pela sombra oferecido pelas folhas – encontram, peito com peito, distraídos dos dois, absortos pela Natureza. Olhos nos olhos, antes da queda… ou quase, já que ele, em um movimento de insuspeita agilidade, a segurou nos braços. Fogo e gelo em pleno Horto Florestal. Desculpas recíprocas. O sorriso dela a queimar a pele dele. A profundidade do olhar dele a abarcar a energia dela.

Tão diferentes, que não se estranharam. Antes, curiosos por viajarem por terras tão distantes, se sentiram atraídos pela aventura de se conhecerem. Decerto, não era algo que faltasse a uma e outro. Ambos se sentiam completos, ao seu modo – uma, pela opulência; outro, pela falta. Perceberam que não precisavam trocar palavras ou gestos efusivos. Apenas o dançar suave de mãos e olhares, jogo de silêncios e risos sem motivos aparentes. Ela, em sua presença, brilhava ainda mais; ele, na dela, se aprofundava mais firmemente em sua segura e sólida guarida. Longe da multidão que os cercavam, no entanto, se reconheceram amantes de si para si. Já, naquele dia, o finalizaram em batismo de fogo e gelo. Queimaram e umedeceram os lençóis noturnos e, mais tarde, matutinos. Final de semana prolongado da Paixão.

Celulares religados, mensagens e chamadas perdidas os fizeram perceber que o mundo os queria por perto – familiares e amigos, carentes do corpo caloroso de Maria e da presença refrescante de José. Logo, perceberam que não queriam se separar, talvez não conseguissem. Ambos estavam surpreendidos pela força que os uniam, ainda que não precisassem o que fosse ou como denominar aquilo que sentiam. Talvez fosse amor, uma doença grave ou uma dependência psíquica e mental, vício imediato, feito crack. Decidiram revelar ao mundo entorno de um e de outro que, a partir daquele instante, estariam juntos… Quase em uníssono, se perguntaram, como se tivessem uma plateia a inquiri-los: “Até quando? ”… Quase que imediatamente, se responderam: “Não sabemos! ”… Riram gostosamente.

Feita a excursão por seus respectivos planetas, souberam que a aliança entre as partes não seria facilitada por seus habitantes. Seguiram em frente, alheios ao antagonismo – puro egoísmo de quem se acostumara a companhia constante de seres tão especiais. Com o tempo, a percepção de que ambos os lados não perderam uma amiga ou um amigo, mas ganharam outro, trouxe paz ao sistema solar.

A contrariar todas as expectativas e as suas próprias convicções pessoais, quiseram fixar um núcleo central. Um lugar de reconhecimento como sendo a casa do Sol e do Gelo. Um ponto de referência. Já que não precisavam casar, porque não casarem? Reuniram a turma e anunciaram o enlace. Com o seu jeito faceiro, ela completou: “ Se não for para causar, nem me caso! “… “ E quando será? “… “ Está a ser ”… E foram declarados: Vida e Paixão

Foto por Abraham Aguilera em Pexels.com

*Conto de 2017