Vila Madalena / O Matheus

Meu filho estava cada vez mais distante. Ele me procurava apenas episodicamente. Berenice também reclamava de vê-lo cada vez menos. Será que estava preferindo ficar com o pai biológico, tentar recuperar o tempo perdido com o pai ausente? Será que se soubesse que Raul não queria que nascesse, mudaria de atitude? Quando tinha esse tipo de pensamento me sentia desprezível. Não seria assim que voltaria a ter a atenção de Matheus. Além do que o rapaz já era adulto o suficiente para escolher como viver a sua vida. Matheus era muito bom estudante. Mais dois anos, se tornaria Bacharel em Direito. Sua maior diversão era ir a espetáculos de música e a peças de teatro. Colecionava amigos da área – músicos e atores. Tocava um pouco de violão, se bem que há algum tempo não cantava uma canção nova para mim e Berenice nas tardes de domingo.

Decidi ligar para Ella para sondá-la a respeito de como estava a convivência com o filho. Disse que ele estudava muito, mas estava com alguma atividade paralela, a qual não sabia dizer qual fosse. Por isso, quase não parava em casa. Perguntou se estava ficando no quarto dele em meu apartamento. Devolvi que também estava menos presente. Por isso, liguei.

— Bem, talvez seja a faculdade esteja o absorvendo mais do que antes…

— Raul está ressabiado, achando que estivesse preferindo ficar com você.

— Devo confessar que a recíproca é verdadeira! Rs…

— Vamos confiar! Ele é um menino incrível!

— Sim, ele é! Obrigado, Ella!

— Igualmente, Chico!

Esse diálogo pareceu frio e distante assim colocado, mas havia carinho de parte a parte. Ella sempre que podia me agradecia por minha postura compreensiva. Não sabia o quanto fiquei magoado, comendo o pão que o diabo amassou. Foi um período em que a autopiedade me absorveu de tal maneira que me sentia um trapo. A volta por cima se deu quando larguei o escritório e enveredei pela escrita como atividade profissional. Foi uma época difícil, mas consegui segurar a barra.

Com o tempo, minha atitude sem reservas me aproximou de bons amigos e profissionalmente carreio um certo prestígio. Não ganho tanto quanto antes, mas usufruo muito mais da vida. Como frequentar ambientes como o Bar do Pereira, onde voltaria a ver mais um show da Fábia, acompanhada do Carlos e outros músicos. Ele me disse que ela apresentaria um repertório novo, apesar do sucesso que fazia com o antigo. Tinha certeza de que traria gratas surpresas. Desde a primeira apresentação, ficara impressionado com o talento da intérprete de olhar iridescente. As nuances que emprestava à voz de timbre emadeirado, feito flauta doce. Mal sabia que teria outras surpresas.

Cheguei meia hora antes do início da primeira entrada e entre os amigos que estavam na sala reservada aos músicos, encontrei Matheus. Sorridente, meu filho parecia conhecer a todos e conversava, quando entrei, com Fábia, entre olhares e sorrisos cúmplices.

— Matheus, que faz aqui? – o meu sorriso carregava curiosidade e espanto.

— Sou amigo do pessoal. O filho do Benê, o tecladista, estuda comigo.

Olhei para o Carlos, sorridente como se tivesse cometido uma peraltagem.

— Olha, meu irmão… só hoje eu soube disso. O que sei é que o filhão fará uma participação especial na segunda entrada.

Matheus me abraçou e disse que o Carlão havia estragado a surpresa.

— Vou tocar uma canção da Maria Bethânia com a Fábia. Nos tempos livres na faculdade, eu e o Tico, filho do Benê, brincávamos numa das salas do curso de música – voz, piano e violão. Quando viemos num ensaio visitar o Bar do Pereira, o Bianco me deixou tocar na guitarra dele e gostaram do meu estilo. Quem teve a ideia de fazer uma participação especial foi a Fábia.

— O seu menino é muito talentoso, Chico! Desculpa chamá-lo dessa maneira, mas falamos tanto de você que mais parece um amigo íntimo.

Fábia e Matheus trocaram olhares cúmplices que me causaram frêmitos de ciúme. Apenas não soube identificar de quem… ou se dos dois. A diferença de idade de uns dez anos não seria um empecilho para uma mútua paixão. Quando novo, só tinha olhos para as mulheres mais velhas. Talvez fosse uma maneira de mantê-las distantes, mas tenho por mim que fosse admiração de um elã que demonstravam no olhar, no gestual, na postura. O que não faltava para Fábia – uma mulher absolutamente atraente – mesmo que não emitisse sua bela voz.

Quanto a Matheus, um jovem bonito, corpo bem torneado de quem se mantinha em atividade constante – surfe, bicicleta e escalada – inteligente, culto e com evidente dom artístico, certamente interessaria a alguém como a cantora-arco-íris, como a intimamente a chamava. Um tanto desconfortável, cumprimentei Fábia com um beijo no rosto e me arrependi. Seu perfume impregnou as minhas narinas de indefinível sensação de enlevo. Não havia dúvidas. Estava apaixonado. Sorri inadvertidamente pela eventual situação de encontrar um competidor por sua atenção na figura do meu filho. Fábia, atenta, percebeu e me perguntou da razão do sorriso. Disfarcei e disse que era de orgulho por Matheus tocar para ela.

— Seu filho é muito talentoso! – disse, olhando para Matheus com carinho.

O show foi muito bonito. Não sei se os sentimentos envolvidos me deixaram mais sensível, mas a intervenção de Matheus em “Olhos Nos Olhos”, do Chico (o bom) foi linda – precisa, econômica e, ao mesmo tempo, expressiva. Cada nota entregava uma chance para Fábia brilhar. O meu filho me surpreendeu totalmente. Do garoto tímido que emitia os primeiros acordes de músicas antigas – a sua preferência desde sempre – para sua mãe e eu, até o músico que demonstrava personalidade e talento, tudo foi muito rápido. Não pude evitar de derramar lágrimas que marcaram a toalha de minha mesa com o desenho tortuoso da estampa entre ciúme e orgulho, entre flores.

A cada gestual de Fábia buscava encontrar o verdadeiro sentimento que a unia a Matheus. Sem dúvida, algo havia entre eles. Após o final do show fui ao encontro da banda, cumprimentá-los. Estava receoso de não entregar a confusão de sentimentos que me conduzia, quase tropecei umas três vezes. Quando cheguei, perguntaram se havia bebido. Ri e disse que era apenas emoção. Elogiei a performance de todos genericamente, mas um abraço forte em Matheus foi inevitável. Quando me aproximava dele, pude vê-lo abraçado à Fábia, seguido de um beijo dela no rosto dele, carinhoso, mas não tão efusivo que parecesse algo mais íntimo que amizade.

Caramba! Estava me sentindo tão ridículo! Toda a minha inabilidade no relacionamento com as mulheres aflorou em pleno cinquenta anos, mesmo depois de um casamento de quinze. Afora os encontros esporádicos em breves relacionamentos que ocorreram em série como se quisesse recuperar o tempo perdido após a separação, desisti de viver casinhos pelos anos seguintes. A consequência foi vivenciar uma solidão amistosa cercada de pessoas por todos os lados. Matheus volta e meia tentava me apresentar amigas mais velhas. Em algumas ocasiões, dizia que eu tinha que esquecer Ella, desde sempre apaixonada por Raul. Não faltou momentos que percebia o olhar de pena do meu filho. Seria muito estranho encontrá-lo como rival neste quadrante da minha vida.

Quando fui cumprimentar Fábia, fui pego de surpresa por um abraço nada protocolar de mais de trinta segundos. Parecendo quase um pedaço de madeira, fui relaxando a musculatura até me sentir envolvido por uma emoção de adolescente e retribuí a força que empregava. Torci para que ela não tivesse percebido uma ereção inesperada. Mas ao afastar seu rosto do meu, com um sorriso entre divertido e sarcástico, sem que eu não dissesse nada, falou em meu ouvido:

— Obrigado pelo elogio!

Excertos Temporais

Excerto de 2022

Após anúncios de raios e trovões, acabou por chover pesadamente. A luz do Sol ficou escondida pelo corpo da Terra que gira sobre o seu eixo, enquanto passeia pelo espaço nesta parte da Via Láctea a 100.000 km/h. Durante todo o dia a revolução atuou, a translação se perpetuou, as estações representada neste quadrante pelo Verão, nos aqueceu, No entanto, a minha lembrança se fixou na solitária nuvem, desgarrada da grande nebulosidade, tão mais alta e distante. Com o tempo, deve ter sido absorvida pelas outras nuvens, maiores e mais fortes. Não duvido que tenha se precipitado em água agora há pouco, feito lágrimas do céu. Há casos em que a solidão não é uma opção, a liberdade não existe e o fim é compulsório…

Excerto de 2017

A tarde findava em tons de azul. Debaixo da chuva leve, o homem solitário caminhava a esmo, a colher imagens da imensidão azulada… Convenientemente, o último dia de veraneio terminou sem a luz dourada do Sol… A solidão é azul…

Excerto de 2013

A chuva, ciumenta, assumiu o controle do curso do dia. No entanto, agora à tarde, ela não pôde impedir o triângulo amoroso entre a Terra, o Céu e o Sol. Silenciosamente, os três combinaram de se encontrar no leito macio do horizonte… O encontro foi breve, porém… Logo, entre raios e trovões, a chuva, furiosa, reassumiu o controle da situação. Pois é, quem está na chuva, é para se molhar!

Imagem de 2011, em excerto de 2022

Há onze anos, em Outubro de 2011, completava meio século de vida. Como legenda da imagem coloquei que estava me sentindo meio a meio. Estava cursando Educação Física e conseguia, mesmo estudando com jovens com a metade da minha idade, acompanhar as atividades práticas. Esta foto foi feita num ambiente festivo — uma festa surpresa — que reuniu parentes e amigos em um buffet próximo de casa. Nunca imaginei que o sujeito que nunca havia tido sequer uma festa de aniversário quando menino, pudesse participar de uma montada especialmente para si. Agradeço à todos que dela participaram. E, principalmente, à minha família, que pôde me proporcionar esse momento único.

BEDA / Só

L., minha cara,

já lhe disse em outra oportunidade de que somos sós. Mas estarmos fisicamente sós é mais complicado do que ser só. Buscar a solitude em tempos em que somos atordoados por massas sonoras motorizadas, por feéricas luzes artificiais e gente, muita gente, é quase impossível. Somos seres gregários, buscamos estar junto aos outros humanos, mas acabamos por formar comunidades que produzem grupos contra grupos, grupos que servem grupos, grupos que matam grupos. Transformamos a Sociedade em algo que abduz a nossa individualidade, valorizada apenas se exteriormente seguirmos suas regras comportamentais, mesmo aquelas que só deveriam dizer respeito à nós mesmos.

Para nos isolarmos realmente devemos abdicar de nossos anteparos sociais, deixarmos os grupos, buscar nos sustentarmos sem o auxílio de outras pessoas que fazem parte de toda a complexa estrutura que nos serve, enquanto servimos de combustível para seu funcionamento. Devastamos o bioma natural do qual somos dependentes e deveremos extingui-lo se continuarmos nesse ritmo, vindo a extinguir a nós mesmos, transformados finalmente em átomos desaglomerados, sem energia vital.

Aliás, qual seria a energia que nos move? Não passamos disso mesmo — união de proteínas (enzimas), carboidratos, lipídeos e vitaminas — interagindo em órgãos funcionais que formam nossos corpos? Desenvolvemos o cérebro e a consciência de estarmos vivos; criamos a roda e desenvolvemos a civilização para dizermos que não passamos de unidades de carbono sem uma energia mais sofisticada que nos move para além de sentir o que apenas pode ser visto, tocado, ouvido, degustado e cheirado?

Nós nos emocionamos, sentimos algo que, na falta de melhor palavra, chamamos de sentimentos. Nós nos expressamos pela condução de forças que muitas vezes não controlamos. Em grupo, tanto amar quanto odiar demais é intolerável se colocarmos a Sociedade em risco de não sobreviver. Mas somente apresenta valor se estamos unidos pelo fio condutor da companhia mútua. Estar só significaria que não amamos ninguém ou odiamos a todos, menos a nós? Ou que amamos tanto a nós que nos bastamos?

Eu fiquei sozinho muitas vezes desde a adolescência. Por uma série de fatores, permaneci afastado da minha família em duas ocasiões. Na primeira oportunidade, a minha mãe teve um bar que demandava bastante a sua atenção. Eu devia ter uns 14 ou 15 anos e ela passou a dormir no quarto dos fundos. Meus irmãos, depois de um período, passaram a ficar com ela. Com o meu pai já distanciado há algum tempo, me vi só por um período que não sei determinar, mas que durou pelo menos dois anos, na companhia dos cachorros e gatos. Nessa fase, a minha vocação para ser um sujeito isolado se aprofundou. Começar a ter receio em falar com as pessoas, como se fossem ameaças a serem evitadas, se tornou cada vez mais agudo.

Demorou, mas superei esse comportamento e logo após o fechamento do bar, minha família voltou para a nossa casa. No entanto, pouco tempo depois, com o adoecimento de minha avó paterna, a minha mãe foi cuidar dela. Com a sua morte, continuou a residir na casa. Hoje, eu tenho por mim que ela receava que fosse ocupada por pessoas indesejáveis e lá, continuou. Meus irmãos voltaram a acompanhá-la e permaneci um período bem maior isolado de familiares. Entrei para a faculdade de História e permaneci sozinho na casa da família até conhecer a Tânia, com a qual formei o meu próprio núcleo familiar.

A minha aproximação com uma fêmea da espécie foi um imperativo categórico Kantiano. Evitei o quanto pude entrar para o Sistema, mas a solidão não me dava mais as respostas necessárias que passei a buscar justamente quando me sentia menos só. A minha filosofia de vida me ocupava o suficiente, produzindo crises existenciais em série que nunca me deixava solitário. Em determinado momento, passei a sentir necessidade de estar unido a outras pessoas para se anteporem a mim. E me salvarem de mim. A mulher, o mais complexo dos seres, ao qual sempre amei sem conhecer, seria o enigma a ser desvendado para que seguisse às profundezas de ser humano. E compreender que a solidão pode se ampliar na presença de quem acompanhamos… quando nos falta.

Eu achei interessante você citar o termo não-solidão. Eu me lembro de um antigo poema que escrevi em que a personagem tinha a solidão como companheira, Quando inesperadamente passou a não se sentir mais só, morreu — de não-solidão. Será que a solidão é tão necessária e preciosa que morreríamos se em algum instante deixarmos de vivenciá-la?

Imagem: Foto por Jeswin Thomas em Pexels.com

Participam do BEDA: 
Lunna Guedes / Alê Helga / Mariana Gouveia / 
Cláudia Leonardi 

BEDA / Cabeça De Cachorro*

Vivo em uma cidade que é um ser vivo. Mutante. Uma cabeça de cachorro autônoma a ganhar vida como se fosse contaminada por um agente químico que faz caminhar seres inanimados. Como vem a ser desproporcionalmente grande, o seu corpo-cabeça é esquartejado em partes para ser mais bem compreendida. Fatalmente, falhamos nesse intento. Ela é um organismo incompreensível em seu dinamismo energético que se estende de dentro para fora tanto quanto ao contrário, entropicamente. Não a compreendemos totalmente porque enquanto a vemos crescer de um lado, a percebemos necrosar em outras frações, de outro.

A terra existe, mas em sua maior parte é coberta por asfalto, cimento, plástico, madeira morta e metal. A minha cidade se espraia em retângulos, círculos, pirâmides e figuras assimétricas, a se consubstanciar em diferentes facetas, a se organizar em cidadelas e favelas. A Natureza é um acontecimento. Artificialmente, só se manifesta como distúrbio, em nebulosidade e água, em muito ou pouco calor, a luz do sol a se reproduzir em espelhos, a chuva a afogar as emoções. Desviamos as suas veias e artérias, canalizamos o seu sangue e o envenenamos. Expomos os seus órgãos ao ar. Invadimos as suas entranhas.

Percorremos caminhos artificiais para chegarmos a cada célula de seu organismo.  E, nos mesmos, somos organismos menores, gregários – comensais e autóctones. Estabelecemos relações de inquilinismo e simbiose, predatismo e parasitismo. Todos os seus organismos dependentes detêm, em algum momento de suas vidas, algumas dessas prerrogativas. Mas com frequência, todos servimos como substrato de sobrevivência ao monstro que urra em milhões de vozes enquanto nos consome. Cedo ou tarde, deixaremos o seu solo mais fértil, em escamações e ossos. Inutilmente. Nem como adubo serviremos…

Todavia, há o amor, ainda que coisificado pelo organograma geral que insiste em nos conduzir as diretrizes… O amor é buscado como se fosse a melhor fruta a ser adquirida nas feiras livres, o melhor carro a ser conduzido pelas avenidas, a melhor roupa a se vestir pelas calçadas da Paulista. Se todos nós pudéssemos perceber que mais do que amor, há o amar, tão diferente em cada olhar, em cada andar, em cada falar. Se pudéssemos saber nos entregar, nos identificar amados e amantes. Se pudéssemos saber alcançar, ao amar, as nuvens por sobre as nuvens de fumaça das fábricas e do vapor dos motores. Se pudéssemos beijar o Sol e devolver o calor de amar em igual proporção…

Então, e só então, escaparíamos de uma cidade que nos aprisiona e a refundaríamos mais do que imensa, grandiosa em sua melhor tradução, para além de esquinas e praças, parques e estádios, shoppings e dancings. Ocuparíamos os logradouros em danças loucas, avessas às regras, feito crianças travessas. Amaríamos por sermos além do que estamos ou temos. Seríamos felizes proprietários da felicidade, seguidores da alegria, a brincar. Nos tornaríamos inimigos da violência e da solidão, da fome e do ódio. Espalharíamos a virose do abraço apertado, da dissenção apartada. Bandeirantes de nova era, o que éramos se esqueceria. Matar não mais… Morrer, talvez, depois de amar demais…

*Texto de 2017

Participam do BEDA: Lunna Guedes / Alê Helga / Mariana Gouveia / Cláudia Leonardi / Darlene Regina

Dançando Com Aline Bei

Coreografia “Coincidência”, com o marcador de página pego aleatoriamente contendo a Obra “Bailarina de Quatorze Anos”, de Edgar Degas.

Aline Bei escreve como uma mulher. Mulheres como Raquel de Queiroz, Virgínia Woolf, Cecília Meirelles, Lígia Fagundes Telles, Jane Austen, Anaïs Nin, Wislawa Szyborska, Clarice Lispector, Agatha Christie…

Convidado, como a todos os seus leitores, para dançar com ela a Pequena Coreografia do Adeus, foi difícil ao final do bailado dar o último passo. Seria fácil e até prazeroso percorrer todas as páginas de uma só vez, como se fosse um reencontro saudoso e desesperado a se consumar em duas horas. Preferi dançar em quatro atos, em dias diferentes, manhãs silenciosas, ensolaradas e frias deste inverno.

Foi a melhor opção. A contradança de Júlia foi se tornando cada vez mais intricada, num crescendo. Em evoluções solidárias às dores e a solidão dos progenitores — herança de família — encontrei interdependência de percursos como filho, pai, marido e esposa por histórias vividas, próximas, conhecidas. A cada tempo, pedia para respirar.

Na Coreografia…, a poesia é pulsante, inverossímil em sua singeleza, forte. O passo trôpego é belo e preciso.

“em casa

minha mãe arrastava as suas dores como Manto 

ao mesmo tempo que marchava

seu velho soldado…”.

Vemos o Balé surgir como uma possibilidade de expressão para a menina irascível. A bailarina de traje azul jogou seu desespero nesse projeto e colheu o resultado que lhe cabia como presença física. Queria

“provar

com movimentos rítmicos

que sou forte

eu queria entregar

na dança

o medo medo

que sinto…”.

Quando conseguiu deixar a casa que a oprimia — extensão da dominação de sua mãe — ganhou asas que se recolhiam quando a visitava.

“beijo

a sua testa

fecho

o portão e

antes de acelerar o passo

dou uma última olhada

para aquele lugar que

mesmo não sendo mais o meu

e quando foi?

ainda é

a imagem que me vem à mente

toda a vez que escuto ou digo a palavra casa”.

A moça de “corpo inexpressivo” vem a concentrar a sua expressão no diário que escreve, o que acende o desejo de se tornar escritora. Começo a torcer para que esse projeto se concretize. Outro paralelo entre as vivências da personagem e mim. Assim como lidar com o público, trabalhar num Café, campo de observação para as diversas coreografias de presenças e ausências na sua escrita. O surgimento de figuras de mães — Cíntia, Argentina — dá o exato diapasão de relacionamento corrosivo e status de partner principal a dona Vera. Enquanto Sérgio, seu pai, faz o elemento de conexão e hiato. E, sem querer-saber, o de melhor exemplo à filha.

Quem já dançou com Aline Bei tem consciência que em seus passos a vida tem sempre razão. Não há ensaios que nos prepare. A improvisação a la Isadora Duncan, os movimentos circulares de aproximação e distanciamentos são marcações feitas em clima de expectativa, suspense ou estado em suspensão. Ou êxtase. Se houvesse uma música que pontuasse a Pequena Coreografia do Adeus seria um Blues, porém o tema de Eu E A Brisa cairia à perfeição, no desejo-sensação de que o “inesperado faça uma surpresa”.

E como não deixar escapar um sorriso amargo quando a coreógrafa une os Terra — Sérgio, Vera e Júlia — num dramático beijo?

Aplausos!