João Sorriso*

Humberto, João Soares e eu… há um ano.

— Tira umas fotos para mim?

— Claro, João!

Não importava o cenário — uma escadaria imponente de um clube antigo do interior; ou o palco com os dançarinos na pista como fundo; ou a parede simples, desencarnada de adereços — ele assumia a mesma pose: braços cruzados sobre o peito, as pernas levemente afastadas em gesto de confiança e um imenso sorriso. Se pudesse dar um apelido a ele, ainda que não esteja mais fisicamente entre nós, seria João Sorriso.

Conhecido como João Soares, nós, da Ortega Luz & Som — Humberto e eu — o acompanhamos nos últimos quatro anos, juntamente com Tânia Mayra, Cláudio Albuquerque, Rafael Ortega, Vagner Mayer. E Marcos Oliveira e Edu, como bateristas (entre outros) na empreitada de levar a Banda Ópera Show para todos os recantos onde éramos chamados a atuar, desde a grande São Paulo, Interior e Litoral. E assim foi até a chegada da Pandemia de Covid-19, em março.

Os eventos caíram um a um e ficamos à espera de que as coisas voltassem ao normal logo mais. O que nunca aconteceu, como sabemos, apesar de muitos se iludirem a respeito. Em determinado momento, percebi que o “novo normal” não seria o antigo normal sem que a vacinação ocorresse. E que isso não será se efetivará rapidamente. Principalmente porque não houve planejamento para isso, o que fará que demoremos para voltarmos aos eventos com grande público antes que os riscos sejam diminuídos substancialmente. E entreter o público é o que o João sabia fazer de melhor e teve que deixar.

Entre os vários cursos que eu fiz, houve o de Marketing Pessoal. Uma das tarefas previa que eu fizesse “Lives”, uma por mês, projeto que seria levado avante em 2021. Uma delas, intitulei: “Setembro: Histórias De Um Cantor Profissional Que Não Faz Sucesso Na ‘Mídia Oficial’” — com o cantor de bailes de salão, João Soares. Esse “Live” não se realizará. João representa uma classe de muitos e talentosos artistas que não ganham acesso a grande mídia atualmente, cheia de personagens inventados, sem lastro. A sua história foi rica. Participante de grandes bandas e de programas de auditório de anos passados, nos encantou desde cedo através da televisão. Até que um dia, o encontramos como companheiro de trabalho. Isso, há 30 anos, em que nos contratou para diversos eventos. Desde o final de 2016, retomamos o contato mais estreito.

Em um mês, a Banda Ópera Show chegava a realizar de seis a dez bailes, com um público médio de 500 pessoas, às vezes mais, às vezes menos, a depender do tamanho do baile. Ou seja, a voz de João Soares chegava a ser ouvida por cerca de 12.000 pares de orelhas por mês que recebiam o tom grave de sua entonação. A sua vibração, faziam corpos de casais se movimentarem em coreografias em que imperavam boleros, sambas, cha-cha-chas, entre outros ritmos. Os que apenas permaneciam sentados, ao ouvi-lo, eram transportados para outros tempos, sentimentos e emoções. Eu mesmo, acostumado a acompanhá-lo na parte técnica, a depender da canção, ficava arrepiado com as suas interpretações.

Um dia antes dele ir para a Bahia, em 1º de novembro, o encontramos em sua casa. Ele nos chamou para tomar um café e conversarmos sobre o futuro. Anunciou que pararia com o projeto da banda, já que além da escassez de eventos, os valores que já eram baixos, haviam caído ainda mais. De certa maneira, foi um alívio para nós já que só permanecíamos a atendê-lo por sermos amigos de longa data. Seria complicado continuar como o mesmo cachê diante da defasagem econômica — insumos para a manutenção de equipamentos e transporte, alimentação, combustível e pagamento de auxiliares.

Ele Estava bem, aparentemente. Disse que gostaria de rever os familiares — painho e maínha — já idosos. Tinha orgulho da família, todos bem postos, incluindo a irmã médica. Foi a ela que recorreu por causa de uma dor persistente no abdômen há alguns meses. Realizados os exames, ela não gostou da imagem e pediu uma ressonância magnética que revelou câncer no Pâncreas, com metástase no fígado. Em um mês e meio, o quadro evoluiu até o óbito que se deu na madrugada de hoje.

O menino de Chorrochó, que veio para São Paulo buscar o seu sonho, foi vendedor ambulante, chegou aos programas de calouros da TV, gravou um disco de forró, conseguiu agregar amigos e construir uma sólida carreira na noite paulistana, com quase 50 anos de estrada, cantou para quem quisesse ouvir, encantou plateias, testemunhados por vídeos de fãs e frequentadores encantados com o seu talento. Entre eles, eu. Agora, está trilhando outra estrada, abrindo com o seu vozeirão o caminho para a eternidade.

*Texto de 20 de Dezembro de 2020, por ocasião do passamento de João Soares.

B.E.D.A. / Romaria

Interpretação de Romaria por Elis Regina, no show Transversal do Tempo, gravado ao vivo em 1978.

Eu tive a oportunidade de ouvir Romaria em sua primeira audição e senti uma comoção tão grande, que me vi na pele daquele romeiro da canção de Renato Teixeira. Foi por ocasião de um programa radiofônico da Jovem Pan*, chamado O Fino da Música, de 1977, interpretada por Elis Regina, que já era a minha cantora favorita, então. Foi uma verdadeira comunhão.

Quase ao final da apresentação, ao ressoar retumbante de um prato, no belo arranjo de César Camargo Mariano, já não podia controlar a minha emoção e verti algumas lágrimas sentidas. Assim, desbragadamente. Ali, também estava eu, ajoelhado e, da mesma forma não sabendo rezar, tentava enternecer a Santa mostrando o “meu olhar, meu olhar, meu olhar”… Aliás, comecei a me envolver logo aos primeiros acordes: “É de sonho de pó, o destino de um só…” — em crescente comoção. Talvez fosse um sinal da mudança de sentido que se prenunciava — de minha postura abertamente cética à transcendência espiritual como visão de vida…

Elis cantou várias canções que embalaram a minha imaginação e me fizeram compreender o quanto a música pode transcender o fato de ser muito mais que composições de frequências vibratórias que mexem com a nossa estrutura física. As músicas também carregam mensagens que nos elevam a alma, que nos fazem transbordar sentimentos profundos ou emoções rasas. Muitas nos arrastam para o prazer ou para a dor sentida-imaginada, alcançando, enfim, os recônditos mais discretos de nosso ser.

Vinte e cinco anos após esse momento, mais ou menos, tive o imenso prazer de sonorizar uma apresentação do próprio Renato Teixeira em um show, no qual ele mesmo cantou Romaria. Na primeira ocasião, ele fazia a segunda voz no refrão — “Sou caipira Pirapora, Senhora de Aparecida…” — na composição que o elevou como compositor ao primeiro time da MPB pela voz da Elis. Ah, as voltas que o mundo dá, nesta eterna Romaria que vivemos…

Com a morte de Elis em 1982, criou-se um vácuo no lançamento de novos nomes na MPB. Apenas alguns compositores, em comparação ao período em que ela esteve viva, conseguiram emergir do anonimato. Por algum tempo, eu cheguei a ter raiva dela por ter morrido tão estupidamente. Hoje, sabemos que estava depressiva há tempos e nós, seus admiradores, não conseguíamos perceber sua condição. Só nos resta a saudade…

*Durante alguns anos, desde os 8 ou 9 até os 13 ou 14, eu tive um radinho de pilha japonês, com o qual ouvia programas de rádio aos finais de semana e durante a semana, logo de manhã e antes de dormir. A programação preferida se dividia entre a esportiva e a musical. Minha emissora favorita era a Rádio Panamericana AM, de São Paulo. No esporte, ouvia as narrações de Osmar Santos e Edemar Annuseck, com comentários de Orlando Duarte e Cláudio Carsughi; reportagens de Cândido Garcia e Fausto Silva (o hoje famoso apresentador dominical), além de outros nomes. O Show de Rádio, com os tipos criados por Estevam Bourroul Sangirardi e interpretados por ele e vários outros humoristas, como Serginho Leite. Na programação musical, aprendi muito com Zuza Homem de Mello e vibrei com o Fino da Música — shows com a participação de grandes nomes da MPB. Depois de cinquenta anos, o alinhamento da emissora com o atual (des)governo fez com que eu me afastasse de sua audiência. Um rompimento doloroso, porém necessário.

Participam do B.E.D.A.:
Cláudia Leonardi
Darlene Regina
Lunna Guedes
Roseli Pedroso
Adriana Aneli
Mariana Gouveia

Sem Rodeios*

Estádio do Morumbi / Cícero Pompeu de Toledo

SEM RODEIOS

As minhas interlocutoras me pedem: “Pai, fale sem rodeios!”…

Respondi com outra pergunta: “Vocês acham que faço muitos rodeios para falar?”…

Não precisei ouvir a resposta, que, aliás, foram risadas de escárnio carinhoso, como só pessoas que são amadas incondicionalmente dão sem temerem represálias. Eu mesmo respondo: sou um homem que faz muitos rodeios. E isso não é algo novo em minha história.

Para nascer, a fórceps, fiz rodeio… Aliás, havia rodado pela barriga da minha mãe e me encontrava invertido. No começo da adolescência, fiz tantos rodeios para dizer que amava uma coleguinha de escola que depois a vi beijando outro rapaz… No entanto, foi por volta dos meus 14 anos que talvez tenha feito o meu maior rodeio…

Eu e mais dois amigos com os quais jogava futebol, decidimos fazer um teste no São Paulo Futebol Clube, meu clube do coração. Nunca fui um jogador notável. Não nasci com a habilidade natural para o jogo que muitos meninos demonstram desde cedo. Mas era aplicado e tinha visão estratégica do jogo. Na falta de outras capacidades, achava que isso deveria bastar para chamar atenção dos selecionadores.

Ao contrário dos dias atuais, o acesso à informação não era tão fácil e por não sabermos onde poderíamos fazer a “peneira”, decidimos nos dirigir ao Estádio Cícero Pompeu de Toledo, no longínquo bairro do Morumbi, principalmente para quem morava do outro lado da cidade, como nós.

Ao chegarmos à região do Clube, não soubemos com quem falar sobre o que pretendíamos. Na verdade, creio que ficamos intimidados diante do “gigante de concreto armado” e decidimos caminhar junto ao muro que o cercava e o rodeamos inteiramente. A circunavegação por nossos sonhos durou cerca de uma hora, mais ou menos… Talvez pudéssemos ver alguma movimentação em algumas das várias entradas, perceber algum garoto da nossa idade vestindo um uniforme de jogador… sei lá…

O que sei é que voltamos para a casa sem termos coragem de pedir alguma orientação a algum funcionário ou mesmo a algum transeunte. Eu, pessoalmente, já míope desde os 12 anos, escudado no conhecimento de que Pelé era igualmente falho de olhos, já havia ultrapassado a minha cota de ousadia apenas pelo fato de acompanhar os meus dois colegas naquela empreitada…

Poderia continuar a descrever várias ocasiões em que fiz rodeios intermináveis para chegar a algum lugar. Em uma dessas situações, não fosse pela mãe das meninas me imprensar contra a geladeira, eu provavelmente não estaria aqui para contar esta história para as minhas filhas…

Texto de 2016*

Bom Dia! (Ou Como Zeca Baleiro Salvou Duas Vidas) — Parte Três

Miau

Raul retornava de sua jornada pautada pelo refrão de “Telegrama”. Pela janela da casa antes da sua, era observado por Carla em seu primeiro dia de férias que imaginava, horas antes, ser para sempre. Raul passou pelo pequeno portão e antes de entrar, retirou a máscara, deixando que ela pudesse observar um homem bonito de barba longa e revolta, assim como os cabelos, pontuados por fios brancos. Devia ter a sua idade. Parecia sorrir. Ela não sabia, porém ele voltava de sua última parada, na Casa de Pães, onde esteve com Joaquim, um português da Província de Algarve, que viera já moço para o Brasil, a convite de um primo. Deixou as praias do Mediterrâneo rumo a cidade desconhecida e descomunal em tamanho e complexidade. Imediatamente, se apaixonou por São Paulo. Padeiro desde garoto, montou o negócio que começou pequeno, mas que cresceu bastante em prestígio a ponto de se tornar um ponto de degustação “gourmet”. Suas criações eram apreciadas por muitos que faziam questão de vir de todo lados da cidade para participarem dos lançamentos — um programa imperdível.

O caso de amor com os pães, tornou Raul um frequentador assíduo. O interesse em conhecer histórias e pessoas diferentes, o aproximou de Joaquim há alguns anos. Tornaram-se amigos. Este, vivia preocupado com “Rauzito”, continuamente cabisbaixo, açoitado que era por sua sensibilidade à flor da pele. Quando a Casa de Pães foi visitada por ele, pelo amigo de Raul e sua noiva, não gostou do jeito da moça, mais atenta ao outro rapaz que propriamente a ele. Quando foi deixado por Flor, foi Joaquim que o amparou. Fez questão de dividir algumas taças de vinho do Porto a portas fechadas com o amigo arrasado. Devido á amizade, Joaquim não se surpreendeu com o chamado de Raul a um dos balcões e sem dizer palavra, pegou a sua mão, a aproximou do peito e lhe desferiu um beijo estalado no rosto, ambos mascarados. Sabia que aquele gesto significava algo importante, ao qual explicaria quando pudesse.

É claro que entrar em casa e não encontrar Miau sentado em seu trono-sofá era sempre algo que o surpreendia como se a partida do amigo não tivesse acontecido. Mas sentiu que o vazio era compensado com o enorme amor que deu e recebeu durante mais de uma década. Ele o encontrou dentro da casa que acabara de alugar quando chegou de Bragança para dar aula na faculdade. O pequeno ser deve ter entrado por uma fresta da janela traseira que dava para um pequeno quintal. Devido ao muro alto, ele achou que o pequeno felino tenha sido jogado. Foi sua companhia desde então. Sequer viajava muito tempo para não o deixar só, o que exasperava Flor. O estranho é que tenha partido logo depois dela tê-lo deixado. Provavelmente não havia conexão, mas a sequência dos fatos, quase encavalados, foi demais para ele. Saudoso, se deitou no sofá forrado de lembranças em pelos de Miau e, como há muito tempo não acontecia, pegou no sono. Sonhou com o amigo sentado no braço de sofá de nuvens. Ele o olhou como da vez que perdera as forças para continuar vivo. Pediu para que atendesse a um pedido, a qual Raul respondeu: “Eu prometo!”…

Carla, ainda mais agora que o vira rapidamente, não tirava Raul da cabeça. Francisca ainda fazia o seu serviço, enquanto ela pesquisava pela Internet pessoas próximas com o nome de “Raul”. Francisca estranhou que estivesse tão calada. Todas as vezes que vinha, ela falava o tempo todo como se precisasse desabafar. Relatava as situações pelas quais passava, muitas das quais não compreendia. Sabia que só de a ouvir já ajudava àquela mulher tão complicada quanto bonita. Boa gente, sem dúvida, mas que devia ser um “pé no saco” de conviver, enquanto pensava nos homens que conhecia, os quais nem a deixavam completar uma frase inteira. A maior parte, só valia pela foda, aliás muitos, nem para isso. Poucas vezes vira a Carla (que fazia questão que a chamasse dessa forma) conversando com alguém no celular que não fosse para chorar e se dizer arrependida. Palavras entrecortadas por colossais lágrimas que banhavam seu lindo rosto.

O que tanto procura no computador, Carla?

— Ah, Francisca! Isso nunca me aconteceu antes, mas estou obcecada pelo vizinho do lado. Ele se chama Raul. Parece ser um fantasma. Não há nada parecido com o perfil dele nas redes sociais. Não tentei isso antes, mas já ouvi falar. Localização remota. Encontrei gente que eu conheço que nem sabia que morava por perto.

Sem citar que se suicidaria uma hora antes de sua chegada, que se deu antes do normal, Carla contou o que aconteceu anteriormente a Francisca surgir como um anjo salvador.

— Você não disse que ele voltou para a casa? Por que não chama o cara?

— Será que ele não achará uma intrusão?

— Quem se meteu na sua vida, foi ele! Conversa e veja se vale a pena investir…

Investir? Parecia que Francisca falava de uma transação financeira. De repente, Carla percebeu que ela fazia algo parecido — investimentos em possibilidades sempre acima das expectativas. Percebeu que buscava no outro a compensação por gastos emocionais que afundavam a relação mesmo antes de começar. Se deu conta que ela só teria “sucesso” se não sentisse necessidade de encaixar o outro ou a outra em suas necessidades. Não era o caso de se desvalorizar, mas pelo contrário — o de se sentir tão autônoma que não precisasse de outrem para se sustentar como pessoa. Por que temer ir conversar com o vizinho? Isso era ridículo para uma mulher que estaria morta se não fosse a intervenção de Raul.

O vizinho acordou com a campainha. O sonho com Miau, apesar das características estranhas, sentiu como se fosse real. Acordou em paz. Sabia que o amigo estava bem e que voltaria a encontrá-lo quando fosse o tempo, ainda que o nosso tempo não fosse o do plano no qual Miau estava. Foi até a porta e viu uma mulher usando máscara a chamá-lo no portão. Ela pediu que se aproximasse. Esquecido de que estava sem máscara, Raul caminhou pelo caminho de tijolos amarelos, até ficar a um metro dela.

— Oi, Raul, como está?

— Eu a conheço?

— Ah, desculpe! O meu nome é Carla! E você me salvou, hoje…

— Achando que ainda estivesse sonhando, Raul sorriu timidamente…

Ao perceber que tinha dito mais do que pensava em fazer e de maneira tão franca, Carla tirou a máscara.

— Sou a vizinha à esquerda. Você me deu bom dia, de manhã…

Sim, aquela era a bela vizinha que fez com que perdesse o rebolado, o empurrando em direção ao outro portão antes que ela dissesse algo. “Eu a teria salvado de que?” — pensou. Mergulhou no sonho como se fosse a realidade e respondeu:

— Não estou entendendo…

— Olha, perdão! Acho que falei demais!

— Não, não falou… Talvez você não acredite, mas lhe desejar bom dia, me salvou, também…

Carla estava definitivamente envolvida por aquele homem. Adulto, sim, mas ao mesmo tempo parecendo ser tão desprotegido quanto um menino.

Este dia está sendo tão inesperado, ainda mais porque nem estaria o vivendo neste momento…

Tomado pela coragem de quem estaria morto, Raul perguntou se ela não gostaria de entrar. Carla aceitou, observada pela janela por Francisca, que exibia o seu maior sorriso, que torcia pela amiga…

Ao entrar na casa de Raul, Carla percebeu que era gêmea da sua em espaço interno, como devia ser a do Fábio, o outro vizinho. As três compunham um cenário de interior àquela rua movimentada de Santana. Poucos móveis, uma mesa central, com quatro cadeiras desarranjadas, uma velha televisão a um canto, um sofá de três lugares e outro junto à janela, ambos cheios de pelos de gato. Do lado do sofá menor, uma mesinha redonda com um frasco de tranquilizantes. Procurou pelo bichano e não o viu. Mesmo assim, perguntou:

— Como é o nome do gato?

Miau… Conversei com ele um pouco antes de você me chamar. Mas ele não está mais aqui… Ele partiu há alguns dias…

Sem se importar com os tempos verbais divergentes, Carla percebeu, pela porta entreaberta, que a cama do quarto estava arrumada, enquanto o sofá apresentava uma depressão no formato de um corpo. Há um mês, desde que Flor o deixara, Raul não usava a cama de casal, que comprou justamente para o dois. Dormia com o gato no sofá. E, depois, sem ele…

— Quer uma água, suco? Tenho uma garrafinha do de laranja.

— Você teria vinho?

Carla não acreditava no que estava dizendo. Quem era aquela pessoa que tomou conta de seu corpo? Raul, da mesma maneira, se sentia perfeitamente à vontade como quase nunca acontecera antes. Parecia estar presente diante de uma velha amiga… ou de uma antiga namorada.

Por acaso, se é que existe acaso, tenho um vinho do Porto, me dado por um amigo querido. Ele disse para que eu o tomasse numa ocasião especial. O que seria mais especial do que celebrar renascimentos?

Aquelas palavras impactantes, ditas tão naturalmente, deixaram os dois como que paralisados um diante do outro. Carla, que ao voltar colocá-la, ainda não havia retirado a máscara, mostrava os olhos fulgindo em faíscas. Raul se afastou relutante e se dirigiu até o armário da cozinha, de onde retirou o vinho. Ao lado, perfilavam exatamente duas taças. Alguns pratos e poucos copos completavam a composição que denunciava o ambiente de um homem sozinho, abandonado a si.

Raul puxou a mesinha redonda, a pôs em frente ao sofá, abriu o vinho, encheu as taças com a mão trêmula. Deixando-se levar por ondas de inebriamento em que o vinho apenas vinha a realçar, ele e Carla, tendo os seus quadris assentados sobre as lembranças de Miau, conversaram abertamente sobre tudo. Discorreram sobre gostos e gozos, música, teatro e cinema, percalços, avanços, retrocessos e estagnação no lodo humano no qual todos chafurdávamos. Viajaram para países que nunca viram, divagaram sobre a profundidade da existência e de como sofriam por verem como eram todos conduzidos para a insensatez coletiva, a ponto de não conseguirem lidar com aquela realidade. Descreveram todas as quedas dentro da queda no abismo, todos os desvios do caminho da lucidez, a extrema transparência de suas personalidades fragilizadas, os abraços sempre adiados com a morte, incluindo as mais recentes, que os uniu em vida. E se deliciaram em perceber como Zeca Baleiro os salvou, com “Telegrama”.

Enquanto conversavam, os seus corpos foram magneticamente se aproximando até estarem tão próximos que os hálitos se confundiram. Os olhares venceram os limites da retina e adentraram à alma de cada um, como se trocassem de matéria. Atendendo ao desejo da pele, desmascarados de artifícios, se desvestiram de seus casulos de proteção e se entregaram à pequena morte, intensamente. Mudaram de plano e se reconheceram suados, descabelados, untados de fluídos corporais. Sorriram um para o outro em bocas unidas. Só, então, Raul falou sobre a promessa que fez a Miau quando falou com ele, em sonho. Miau pediu para que deixasse o coração aberto para a vida.

— O meu amigo sabia de sua chegada, Carla

Deixaram cair lágrimas de agradecimento ao Todo. Tarde da noite, exaustos, adormeceram abraçados.

Quando Raul acordou, o trânsito na rua já começava a se intensificar. Carla não estava. Tomou um banho, se vestiu rapidamente com um agasalho de corrida e saiu, ansioso para chamar a vizinha e lhe dar bom dia. Em sua porta estava pendurado, colado com adesivo um papel que dizia:

“Telegrama

Nego, sinta-se feliz
Porque no mundo tem alguém que diz
Que muito te ama
Que tanto te ama
Que muito, muito te ama
Que tanto te ama”.

Raul se sentiu um homem em sua plenitude. Não chegou a dar volta até o portão e nem apertou a campainha. Pulou a mureta que separava as duas frentes e bateu à porta de Carla. Em pouco tempo, surgiu a mulher que achou ainda mais linda do que antes. O sol matutino incidia sobre seus olhos e boca, irradiando alegria para toda a Santana. Raul esticou o braço em sua direção:

— Vem! Me dê a mão, vamos sair prá ver o sol…

O Salto

Vivo quase o final da minha quinta década.
Estou, como nunca antes na minha vida,
me sentindo em plenitude.
Não que tenha tanto fôlego quanto antes,
porém nunca tive, como agora,
consciência de minhas limitações.
Além de certeza de minhas possibilidades…
Sei que sou falível.
Por isso, me cuido mais
e cuido mais de quem está a minha volta.
Tento não deixar nada ao acaso.
A não ser quando sinto que é o acaso
que deva comandar a trama.
Como disse alguém deste sertão,
“a felicidade se acha nas horinhas de descuido”…
Então, antes de voltar para a realidade
do sonho,
sem cuidado,
saltei para a precariedade
da vida real.
Só não esperava que o mergulho
nessas águas sem termo
fosse tão profundo,
que talvez não possa retornar…