#Blogvember / O Braço Da Tarde

… levantar cedo e promover andanças por meu tempo de calma (Flávia Côrtes

O braço e a mão da tarde, registro de 2016

Tenho acordado cedo, apesar de estar indo dormir tarde. Mas logo inicio a fazer tarefas deixadas pelo dia anterior e outras que já estavam programadas. É uma rotina que de vez em quando apresenta variações, mas não deixam de ser previsíveis. Parte da manhã tenho costumado escrever. Durante o dia, faço outras coisas e volto a escrever depois da meia-noite, quando a noite normalmente está mais calma. Mas é durante a tarde, que procuro olhar para o horizonte e vivenciar as mudanças de cores e o jogo de impermanências – nuvens, luz e sombra – em movimento.

Algumas vezes, as formações se “humanizam” em figuras de rostos. Pedaços de corpos, pernas, braços, mãos, olhos. Há também os bichinhos – cães, gatos, girafas, elefantes, pássaros, borboletas… até aranhas e formigas. Plantas – árvores, flores – ou seja, o céu habitado por nossa imaginação. Levantar-me cedo e andar por meu tempo de calma não me é permitido. Compenso com as tardes de vacância. Fotografo, faço imagens em série, encontro uma trilha sonora, provoco uma lembrança que reverberará em futuras idades. Como quando surgiu diante de mim braço e mão da tarde crepuscular. Um prémio para o observador tardio.

Participam: Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Suzana Martins / Lunna Guedes

Mar Vermelho*

Tarde, quase noite,

saí para pescar no mar vermelho

do céu…

Por entre retas paredes de corais

e rochedos de formas estranhas,

balançava a vegetação

ao sabor do vento acidental…

Por fim,

quando já alcançava

o seu refúgio final,

consegui capturar,

através do olhar,

a estrela do mar continental…

Poema de 2017, baseado na imagem registrada em Indaiatuba no início da Primavera.

Sangue Na Tarde

O Inverno anuncia tardes

derramadas em delírios…

Mal podemos perceber

que o tempo seco nos arranca

a umidade da pele

que se arrepia ao toque do frio…

Os olhos desejam

que se torne espelho a beleza

que se apresenta,

enquanto vemos que a paixão

do Sol pela Terra termina

vertida em sangue…

Recriação

Ofereço o veículo de Luz
acima do muro.
Para além dos fios.
Na linha do horizonte,
o óvulo solar gesta o seu ocaso.
Como se estivesse Yemanjá
presente no mar celeste,
boia a oferenda da tarde
que viajará até o outro lado do planeta.
Tantas vezes brigamos,
outras tantas, voltamos…
A cada despedida, aprofundamos a voragem,
a cada volta, aumentamos a voltagem…
Somos, todos nós, amantes –
eu, de você,
você, de mim,
nós – em que somos outros – de nós mesmos…
Apesar de viajarmos para fora dele,
amamos o mundo,
amamos no mundo…
Amor fecundo,
amor imundo,
amor sofrido
amor redivivo…
A minha mãe me pariu,
você, mulher, me recriou…
Sou pedaços dela,
sou inteiramente seu…

Telas

a cada tarde a luz pinta
novas telas
colore de íons
perspectivas passagens paragens
como se fundisse
mar céu caravelas
camadas saídas entradas países
sombras raízes
de nosso inconsciente
linhas descontínuas lavras
como palavras
que não chegam à boca…