visão do final de tarde crepúsculo escavado em fogo… duas horas depois noite feita o clima mudou chuva se abateu zona norte atingida clima — palavra que termina com o artigo “a” — substantivo masculino humor feminino… indeterminado terrível exuberante.
… levantar cedo e promover andanças por meu tempo de calma (Flávia Côrtes)
O braço e a mão da tarde, registro de 2016
Tenho acordado cedo, apesar de estar indo dormir tarde. Mas logo inicio a fazer tarefas deixadas pelo dia anterior e outras que já estavam programadas. É uma rotina que de vez em quando apresenta variações, mas não deixam de ser previsíveis. Parte da manhã tenho costumado escrever. Durante o dia, faço outras coisas e volto a escrever depois da meia-noite, quando a noite normalmente está mais calma. Mas é durante a tarde, que procuro olhar para o horizonte e vivenciar as mudanças de cores e o jogo de impermanências – nuvens, luz e sombra – em movimento.
Algumas vezes, as formações se “humanizam” em figuras de rostos. Pedaços de corpos, pernas, braços, mãos, olhos. Há também os bichinhos – cães, gatos, girafas, elefantes, pássaros, borboletas… até aranhas e formigas. Plantas – árvores, flores – ou seja, o céu habitado por nossa imaginação. Levantar-me cedo e andar por meu tempo de calma não me é permitido. Compenso com as tardes de vacância. Fotografo, faço imagens em série, encontro uma trilha sonora, provoco uma lembrança que reverberará em futuras idades. Como quando surgiu diante de mim braço e mão da tarde crepuscular. Um prémio para o observador tardio.
Ofereço o veículo de Luz acima do muro. Para além dos fios. Na linha do horizonte, o óvulo solar gesta o seu ocaso. Como se estivesse Yemanjá presente no mar celeste, boia a oferenda da tarde que viajará até o outro lado do planeta. Tantas vezes brigamos, outras tantas, voltamos… A cada despedida, aprofundamos a voragem, a cada volta, aumentamos a voltagem… Somos, todos nós, amantes – eu, de você, você, de mim, nós – em que somos outros – de nós mesmos… Apesar de viajarmos para fora dele, amamos o mundo, amamos no mundo… Amor fecundo, amor imundo, amor sofrido amor redivivo… A minha mãe me pariu, você, mulher, me recriou… Sou pedaços dela, sou inteiramente seu…