BEDA / Meu Blogue

Reprodução de uma das fotos que tirava com celulares nos anos finais do século XX.

Lunna,

após dez dias em que atuei em doze eventos diferentes, sem tempo para escrever ou ler da maneira que queria, passei os olhos pelos textos das participantes do BEDA. A sua postagem de segunda-feira me estimulou a falar sobre como iniciei o meu périplo nesta plataforma. Aliás, foi você mesma que me ajudou a moldá-lo, sete anos depois de ter me inscrito no WordPress, sem fazer nenhuma publicação até então.

A minha intenção desde o início foi o de criar uma espécie de diário de bordo, com pequenos textos que buscassem interpretações alternativas sobre fatos prosaicos, como o de colocar no centro do meu olhar os óculos como o que aparecem na imagem. Não me lembro exatamente o que escrevi, mas parece que ao descrever o objeto que usava para ver melhor, eu o tornasse um personagem autônomo, com personalidade alternativa à minha.

Essa e outras “viagens” em torno do meu ego, uma visão de mundo pessoal, muitas vezes sem conexão com os dados verificáveis da realidade plausível, eu imaginava serem pertinentes e foram formuladas de forma esparsa, aqui e ali, em um período que havia me distanciado do exercício da escrita. Eram como se voltasse a um vício do qual queria me distanciar. Depois, com o surgimento das redes sociais como Orkut, Facebook e esta, percebi que me faltava justamente expressar as minhas expressões de mundo.

O problema é que não sabia a mecânica de como postá-las. O que creio até ter sido benéfico em termos, já que pude amadurecer o processo da feitura dos meus textos suficientemente sem ter o desejo de jogá-los fora. A sua chegada em minha jornada de escritor, até aceitar que eu fosse ser chamado como um, não foi apenas pelo lançamento de um livro que eu escrevi e você editou e lançou. Mas porque eu aceitei o ser.

O WordPress se tornou para mim uma espécie de Arca de Noé, onde os meus bichos são guardados, navegando por anos até aportar em terreno seco quando as águas baixarem… seja lá o que isso signifique. O mais certo que eu o considere uma Cápsula do Tempo onde guardo o que eu escrevo ou escrevi, de produção um tanto irregular em termos de qualidade, mas que determina o meu desenvolvimento – para melhor ou para pior – no meu caminho para me tornar o melhor escritor que eu possa ser.

O meu blogue – Serial Ser ¡Com licença, poética! – é a minha herança. Quando os meus próximos ou qualquer um tiverem curiosidade em me conhecer, um ser errático em constante ebulição, por amor a mim ou por curiosidade sobre mim, muito do que eu penso ou penso entender, evocará a lembrança do eu pensei ser e escrever…

Bacio!

Participam do BEDA: Roseli Pedroso / Suzana Martins / Lunna Guedes / Darlene Regina / Mariana Gouveia

BEDA / ¿?

Estamos em época de crisântemos
Que florescem como loucos pelos campos
Em tempo de crisálidas soltos pelos cantos
Em troca frenética de roupas em desencanto

Na temporada de cantos de pássaros enamorados
De shakespearianos namorados encantados
Período de sol e de girassóis que se beijam
Era de mudanças externas e interiores

Mutações profundas e avassaladoras
De mundos novos criados
Mundos novos vencendo velhos mundos
Estrondosa e silenciosamente, grande e miudamente
Destemperada, cuidadosa e minuciosamente

Estamos em época de novidades e de obviedades
De antigas e permanentes novas idades
De temperança, de esperança, de fazer diferença
Em fase de viver o melhor tempo que há de vir
Se assim viermos a permitir…

Participam do BEDA: Darlene Regina / Roseli Pedroso / Mariana Gouveia / Suzana Martins / Lunna Guedes

BEDA / Reflexos Do Tempo

Enquanto caminhava para o prédio em que trabalhava, o homem muito sério viu ou imaginou ver, do outro lado da rua, uma imagem que o fez viajar no tempo. Aquela era uma manhã de inverno, porém ensolarada, em que a luz incidia inclinada por entre os transeuntes, atravessando-os, como o vento o faria, lambendo-os com o seu calor tépido. Essa luz encontrou o seu lugar nos cabelos da mulher que um dia ele amou, ou que um dia pensou amar, ou não seria aquela a moça que amou e imaginou que fosse, mas a sensação que trazia aquela visão, o precipitou para vinte e cinco antes, quando não era tão sério, mas apenas tímido o suficiente para nunca declarar que a amava. Porque percebeu exatamente naquele instante fugidio, que ele, sim, a amou profundamente, tanto que nunca quis se entregar a esse amor, que covardemente imaginou que desmoronaria com as vicissitudes da convivência mútua. Assim, o manteve intocado pelo tempo, tão forte quanto à época que o sentiu pela primeira vez. Agora, naquele momento crucial, estava para decidir se iria ou não correr atrás daquela que pensou ser a sua amada eterna, naquela manhã de inverno morno…

Foto por Tim Gouw em Pexels.com

Participam do BEDA: Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Darlene Regina / Lunna Guedes / Suzana Martins

BEDA / Scenarium / Eventualmente*

Eu costumo usar o termo “eventualmente” muitas vezes. É um advérbio que evidencia algo que ocorre de maneira ocasional, fruto de uma casualidade ou incerteza. Que possivelmente aconteça, mas não é provável. Gosto do sinônimo “porventura”, que seria o contrário de desventura, ainda que represente muitas vezes também uma situação perigosa além de feliz. Talvez seja o caso de sabermos o quanto é perigoso ser venturosamente feliz.

A insistência em utilizar “eventualmente” se dá porque, apesar de a priori crer que nada seja por acaso, a teoria quântica é mais do que atraente para deixar de ser contemplada como possibilidade de escrita. O uso do “se” como caminho a ser tomado, geralmente sobre acontecimentos passados, é igualmente prerrogativa de um exercício de antecipação ou interpretação. Modificar o Tempo é uma tentação a qual muitos gostariam de ceder. Desejo de experimentar uma viagem temporal em que o Presente, o Passado e o Futuro são interdependentes e modificáveis.

Viajo nas palavras como verbos-mundos que terminam por decidir destinos de meus personagens e de nós mesmos, personagens que somos de algum louco escritor. Crer que nada seja por acaso também se aproxima da loucura. O “sim” talvez possa levar ao “não” e vice-versa.  Ou não. A matemática da vida por vezes não casa com a geometria dos corpos, sendo que os algoritmos atuam como as novas estrelas do nosso palco. O imponderável ganha voz em meus contos e poemas. As eventualidades e as incertezas marcam frequentemente a estrada que percorrem. A casualidade é permeada sincronicidade. São trilhas pelas quais caminho e que avivam ou matam a minha expressão. Porventura ou por desventura.

Apesar de parecer ficção, a própria realidade brasileira de hoje é baseada fortemente na interpretação dos fatos a depender do viés ideológico. Como tema de livro distópico, uma guerra do bem contra o mal em que os dois lados se arvoram no direito de empunhar a bandeira do que é certo, ainda que venham a distorcer a realidade. Eu mesmo, que brinco com o dito anarquista — “si hay gobierno, soy contra” — encontrei uma boa desculpa para combatê-lo Sua plataforma de atuação — de aniquilamento dos avanços sociais e desmonte da estrutura administrativa participativa — vai contra tudo o que acredito.

Seus apoiadores creem que travam a boa luta contra a corrupção e o solapamento moral da sociedade, ainda que saibamos que os critérios que utilizam, humanos que são, sejam um tanto permissivos, principalmente porque escolheram alegoricamente o caminho do mito. De início, apontam para a instabilidade civil por não acreditarem na igualdade social e por defenderem que o desnivelamento econômico seja abençoado por Deus.

De debatedor ideológico, o agente miliciano passou a ser uma ameaça para a estabilidade democrática do País, além de colocar em perigo a vida da população diante de uma grave crise sanitária. É a aplicação do jogo do “se” de maneira dolorosa. A Física Quântica a embaralhar as probabilidades eleitorais de 2018 e, se houver, a de 2022. A eventualidade de uma facada a decidir o destino de um país. Enfim, se conseguirmos ultrapassar todas as possibilidades contrárias de virmos a sucumbir ao destino ou ao acaso, porventura possamos ser felizes. Eventualmente.

*Texto publicado pela Scenarium.

Participam do BEDA: Mariana Gouveia / Lunna Guedes / Suzana Martins / Darlene Regina / Roseli Pedroso

BEDA / Projeto Fotográfico 6 On 6 / Ah! Gosto Deste Mês!

O longínquo Agosto de 1989 me tornou pai. Mais precisamente do dia 12 para 13 — domingo de Dia Dos Pais — nasceu a primogênita das três filhas da Família Oliveira Ortega, a Romy. E esse “detalhe” foi definidor de uma das características que mais prezo em mim. Creio que seja um bom pai. Referenciado pelo depoimento das próprias.

Apesar da secura climática, mental, social, econômica que sentimos na pele atualmente, este mês nos compensa com visões de crepúsculos espetaculares, devido à luz indireta do que deveria ser um Inverno, mas que tem apresentado temperaturas de Verão, em torno dos 30ºC.

“12 de Agosto de 2020. Este dia existe, o mês também. O ano, já não sei. Estamos vivos, eu, que escrevo, vocês, que me leem. Ou não. Aniversário da Romy, trigésimo primeiro ano de existência, todas as estações vividas aqui, na periferia da Zona Norte. Trinta e uma vezes a Terra girou em torno do sol. Onze mil, trezentos e trinta e dois crepúsculos, contando os anos bissextos. Porque com ela é assim — todo dia é dia de comemoração da energia vital. Parabéns para nós que a conhecemos, meu amor!”

A temperatura política também está altíssima. Estamos às vésperas de um novo pleito para a eleição para cargos executivos e legislativos majoritários. No entanto, como desde há muito tempo, estamos dubiamente polarizados, em que os extremos se tocam na radicalização. A decisão estará com eleitor, apesar de haver quem não queira que cheguemos a escolher ninguém em Outubro. Ou porque pessoalmente não queira ou porque não queiram que as eleições ocorram.

Registro de 2015

Eu gosto muito de treinar musculação. Mas infelizmente, a falta de tempo, antes, e o advento da Pandemia nos últimos tempos, fizeram com que eu buscasse a me exercitar em casa. Depois de uma crise de Tendinite, que me impediu de fazer exercícios superiores por quase dois meses, voltei com atividades leves. Gosto das dores musculares — reflexo-resultado do esforço. No curso de Educação Física, descobri que os sintomas dolorosos é a resposta do corpo ao rearranjo ou adaptação celular, com consequente aumento da capacidade muscular em suportar cada vez maiores cargas e repetições. Diante dos fortões que me viam utilizar cargas baixas, já me perguntaram, meio debochados, se eu estava fazendo Fisioterapia. Respondi com naturalidade: “sim, sempre!”. Não falaram mais nada. Lembrando que com a baixa umidade do ar, a hidratação tem que ser constante.

Média da umidade relativa do ar atualmente — 27%

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o nível ideal de umidade do ar para o organismo humano gira entre 40% e 70%. Acima desses valores, o ar fica praticamente saturado de vapor d’água, o que interfere no nosso mecanismo de controle da temperatura corporal exercido pela transpiração. Além disso, proporciona a proliferação de fungos, mofos, bolores e ácaros. Com a umidade muito baixa (menos que 30%), as alergias, sinusites, asmas e outras doenças tendem a se agravar. Com o desequilíbrio climático pelo qual estamos passando — estiagem extrema em uma parte do Brasil e chuvas torrenciais em outra — causado pelo desmatamento desenfreado, talvez estejamos antevendo o “spoiler” de filme-catástrofe a estrear com “sucesso” nos próximos anos.

Maria Bethânia, fazendo festa na laje, sobre a qual elucubrei sobre o ciúme que sente por mim em REALidade

“… De modo geral, além da inteligência básica, são seres-repositórios de emoções e sentimentos puros e sem medidas. Amor e ciúme, sem dúvida, estão entre eles. Nos cães, a força da irracionalidade se expressa de maneira ainda mais acintosa. Amor, ciúme, posse — onde começa um e termina outro? Há a eterna discussão se o amor é uma construção sociocultural ou uma condição intrínseca aos seres humanos… se a sua base é espiritual ou físico-química, se é algo substancial a ponto de ser verificado expressamente ou uma ilusão mental… Creio que a ligação que desenvolvemos com os outros animais, — principalmente os mais próximos de nós, “aculturados” —, diga muito sobre a própria condição humana. Talvez possa vir a desvendar se o amor e as suas emoções subsidiárias, como o ciúme, revela-nos animais básicos ou, contrariamente, que somos animais confusos demais para sabermos o que sentimos, quando sentimos…” — (REALidade, lançado pela Scenarium, em 2017).

Crepúsculo do início de Agosto de 2022 — Lua Quarto Crescente

Termino esta postagem como comecei — mostrando um entardecer-anoitecer — porém atualizado. Este Agosto promete ser intenso em várias medidas. Todas exageradas. Que saibamos vivenciá-lo com parcimônia de emoções, ainda que dificilmente conseguiremos. Porque mesmo que nos controlemos na aparência, as revoluções vulcânicas internas não deixam de apresentar os seus efeitos em algum momento. Sei disso de forma cabal — o corpo e a mente sofrem as consequências de estarmos vivos e conscientes — benção disfarçada em sofrimento.

Participam do BEDA: Suzana Martins / Roseli Pedroso / Lunna Guedes / Darlene Regina / Mariana Gouveia