Projeto Fotográfico 6 On 6 / Crepuscular

Algo de muito perturbador existe em mim
Que prefere um céu nublado a azulado
As nuvens me trazem a ilusão de festim
Enquanto limpo, parece de tempo fechado…

Lateralmente, escanteia-se a luz
Canto o entardecer que me seduz
Enquanto canto, o azul se desmancha
Alcançando a mim a negra mancha…

Enquanto o sol outonal deita o seu brilho
Sobre a ampla cama nebulosa da tarde
O dia, calmo, percorre o mesmo trilho
Daqueles que foram embora, sem alarde…

Certa vez, ainda garoto, escrevi:
“Ao longe
As estrelas brilham
Por perto
As pessoas queimam”…
Hoje, eu beijo as estrelas…
Eu as possuo, em colchões de nuvens!

Na boca da noite, o tardio óvulo solar
Aquece e faz multiplicar a vida celular
Reativa as nossas cíclicas energias vitais
E fecunda o útero plúmbeo dos mortais…

Sonho em dia claro morrer
Sob a luz do Sol esvanecer
Uma noite depois de namorar
A Lua, as Estrelas e o Mar…

Participam do Projeto Fotográfico 6 On 6: 
 Mariana Gouveia / 
Isabelle Brum / Roseli Pedroso / Lunna Guedes / Darlene Regina

BEDA / Só

L., minha cara,

já lhe disse em outra oportunidade de que somos sós. Mas estarmos fisicamente sós é mais complicado do que ser só. Buscar a solitude em tempos em que somos atordoados por massas sonoras motorizadas, por feéricas luzes artificiais e gente, muita gente, é quase impossível. Somos seres gregários, buscamos estar junto aos outros humanos, mas acabamos por formar comunidades que produzem grupos contra grupos, grupos que servem grupos, grupos que matam grupos. Transformamos a Sociedade em algo que abduz a nossa individualidade, valorizada apenas se exteriormente seguirmos suas regras comportamentais, mesmo aquelas que só deveriam dizer respeito à nós mesmos.

Para nos isolarmos realmente devemos abdicar de nossos anteparos sociais, deixarmos os grupos, buscar nos sustentarmos sem o auxílio de outras pessoas que fazem parte de toda a complexa estrutura que nos serve, enquanto servimos de combustível para seu funcionamento. Devastamos o bioma natural do qual somos dependentes e deveremos extingui-lo se continuarmos nesse ritmo, vindo a extinguir a nós mesmos, transformados finalmente em átomos desaglomerados, sem energia vital.

Aliás, qual seria a energia que nos move? Não passamos disso mesmo união de proteínas (enzimas), carboidratos, lipídeos e vitaminas interagindo em órgãos funcionais que formam nossos corpos? Desenvolvemos o cérebro e a consciência de estarmos vivos; criamos a roda e desenvolvemos a civilização para dizermos que não passamos de unidades de carbono sem uma energia mais sofisticada que nos move para além de sentir o que apenas pode ser visto, tocado, ouvido, degustado e cheirado?

Nós nos emocionamos, sentimos algo que, na falta de melhor palavra, chamamos de sentimentos. Nós nos expressamos pela condução de forças que muitas vezes não controlamos. Em grupo, tanto amar quanto odiar demais é intolerável se colocarmos a Sociedade em risco de não sobreviver. Mas somente apresenta valor se estamos unidos pelo fio condutor da companhia mútua. Estar só significaria que não amamos ninguém ou odiamos a todos, menos a nós? Ou que amamos tanto a nós que nos bastamos?

Eu fiquei sozinho muitas vezes desde a adolescência. Por uma série de fatores, permaneci afastado da minha família em duas ocasiões. Na primeira oportunidade, a minha mãe teve um bar que demandava bastante a sua atenção. Eu devia ter uns 14 ou 15 anos e ela passou a dormir no quarto dos fundos. Meus irmãos, depois de um período, passaram a ficar com ela. Com o meu pai já distanciado há algum tempo, me vi só por um período que não sei determinar, mas que durou pelo menos dois anos, na companhia dos cachorros e gatos. Nessa fase, a minha vocação para ser um sujeito isolado se aprofundou. Começar a ter receio em falar com as pessoas, como se fossem ameaças a serem evitadas, se tornou cada vez mais agudo.

Demorou, mas superei esse comportamento e logo após o fechamento do bar, minha família voltou para a nossa casa. No entanto, pouco tempo depois, com o adoecimento de minha avó paterna, a minha mãe foi cuidar dela. Com a sua morte, continuou a residir na casa. Hoje, eu tenho por mim que ela receava que fosse ocupada por pessoas indesejáveis e lá, continuou. Meus irmãos voltaram a acompanhá-la e permaneci um período bem maior isolado de familiares. Entrei para a faculdade de História e permaneci sozinho na casa da família até conhecer a Tânia, com a qual formei o meu próprio núcleo familiar.

A minha aproximação com uma fêmea da espécie foi um imperativo categórico Kantiano. Evitei o quanto pude entrar para o Sistema, mas a solidão não me dava mais as respostas necessárias que passei a buscar justamente quando me sentia menos só. A minha filosofia de vida me ocupava o suficiente, produzindo crises existenciais em série que nunca me deixava solitário. Em determinado momento, passei a sentir necessidade de estar unido a outras pessoas para se anteporem a mim. E me salvarem de mim. A mulher, o mais complexo dos seres, ao qual sempre amei sem conhecer, seria o enigma a ser desvendado para que seguisse às profundezas de ser humano. E compreender que a solidão pode se ampliar na presença de quem acompanhamos… quando nos falta.

Eu achei interessante você citar o termo não-solidão. Eu me lembro de um antigo poema que escrevi em que a personagem tinha a solidão como companheira, Quando inesperadamente passou a não se sentir mais só, morreu de não-solidão. Será que a solidão é tão necessária e preciosa que morreríamos se em algum instante deixarmos de vivenciá-la?

Imagem: Foto por Jeswin Thomas em Pexels.com

Participam do BEDA: 
Lunna Guedes / Alê Helga / Mariana Gouveia / 
Cláudia Leonardi 

BEDA / Coletivo Scenarium / 52 Missivas / Apagão

L.,

nesta segunda-feira, um dia depois do tempo para anoitecer à luz de lâmpadas, lhe envio a missiva que deveria lhe entregar ontem, mas sequer a escrevi. Apesar de estarmos saindo dos piores efeitos da Pandemia, incluindo uma certa sensação de alheamento à passagem dos dias, ainda não consegui desligar o “modo avião” com o qual tenho frequentado os lugares e a vida.

Talvez seja a chegada dos efeitos da passagem do tempo no corpo, pode ser o aprofundamento da minha condição de estar sempre em estado de sonho, como se vivesse outra vida dentro da minha. Atualmente tudo pode ser explicado por fatores condicionais. Eu mesmo cheguei a acreditar que meu comportamento ao longo da vida fosse resultado de um incipiente TDA.

O que sei é que para não parecer muito excêntrico, sorrio nos momentos mais tensos, o que pode levar a crerem que eu seja debochado. O mais comum é que eu me exaspere a ponto de lançar chispas de fogo pelos meus quatro olhos e projete o meu corpo na direção de lugares abertos como se eu estivesse a ponto de fugir do local. Ontem, em uma discussão de família, pedi para pararem o carro para que eu pudesse sair. Depois, calei, porque sei que tropeçaria nas palavras pela falta de roteiro do filme que o meu personagem participava.

Por isso, prefiro escrever. Ainda que, como coloquei numa resposta a uma postagem de M., o que escrevo é como se fossem mensagens guardadas em garrafas que são lançadas ao mar. Um dia, talvez sejam lidas… mas os oceanos costumam guardar nas profundezas os seus (os dele e os nossos) segredos.

Na minha condição de prestador de serviços (ocasionais), as horas se afiguram como canta Morrissey: “Everyday Is Like Sunday“. Tenho dormido pouco e mal. Tomo café compulsoriamente para evitar dormir durante o dia. A vontade do café, o gosto agridoce, que tenho tentado tornar cada vez mais amargo, ao retirar pouco a pouco o adoçante, tudo me faz crer que quando vier o Amargedon, terei uma xícara do precioso líquido pretinho em minhas mãos…

Imagem: Foto por Monstera em Pexels.com

Participam do BEDA: 
Lunna Guedes / Alê Helga / Mariana Gouveia / 
Cláudia Leonardi 

Kairós*

Em minhas caminhadas matutinas, tenho circulado pelas ruas, avenidas e vilas da minha região. Ao subir por uma das inúmeras ladeiras da típica topografia acidentada da Zona Norte de Sampa, encontrei uma loja de cabelereiros. Como era cedo, talvez abrisse mais tarde. Talvez não abrisse. Estamos em fase de restrição devido à Pandemia. O que me chamou a atenção foi o lindo nome da loja  – Kairós  – e seu significado.

Na estrutura linguística, simbólica e temporal da civilização moderna, geralmente emprega-se uma só palavra para designar a noção de Tempo. Já os gregos antigos, tinham duas palavras para o fenômeno da sua passagem: Khronos e Kairós. Enquanto o primeiro refere-se ao tempo cronológico ou sequencial (o que se mede, de natureza quantitativa), o segundo possui natureza qualitativa, o instante indeterminado no Tempo em que algo especial acontece: a experiência do momento oportuno. O termo é usado também em Teologia para determinar o “tempo de Deus” (a Eternidade)  – enquanto Khronos representaria o “tempo dos Homens“. Referência: Wikipédia.

Que se use Kairóz como nome de um “Salão de Beleza” ou Barbearia/Cabelereira é instigante quanto às possíveis interpretações. Afinal, ali se pratica uma ação que se circunscreve a algo de efeito imediato, porém efêmero. Porém, como a intenção é que alguém se apresente mais bela/belo com consequente aumento da autoestima e melhor estado de espírito  – o que poderia ser considerado tão efetivo quanto uma oração  – torna-se “divino”. Dessa forma, atende-se a experiência do momento oportuno, o Tempo de Deus, ainda que se decorra no tempo dos Homens.

O fato é que ainda que tenha sido de maneira inesperada, foi oportuno eu ter feito essa rota escolhida a esmo para lembrar que o Tempo só tem valor se o vivermos intensamente, não em quantidade improdutiva.

*Texto de Março de 2021, revisto.