13 / 07 / 2025 / Tempo*

Tento viver um dia de cada vez… mas, ouço, com certa frequência, pessoas argumentarem que devemos planejar o futuro — e não ficarmos totalmente presos ao Presente.

Não vejo melhor maneira de estruturar o futuro que nos dedicarmos ao Presente… da melhor maneira possível.

Um passo por vez, no bom caminho, sempre em frente… com o destino estampando — como se fosse o letreiro luminoso de um ônibus: FUTURO. Afinal, tudo o que ocorre conosco, nos dias que correm, é consequência direta do nosso passado.

O Tempo, para mim, é relativo… alguém já provou, por “a + b”, com muito propriedade, que assim é. Eu diria, até, que o Tempo não existe — pelo menos, não da maneira como o estipulamos, medido em números.

O que chamamos de Tempo diz respeito aos efeitos dessa contagem de números sobre o nosso corpo e sobre a matéria… nesse caso, chega a ter certo fundamento.

Os gregos foram mais espertos ao definirem o Espaço-Tempo de acordo com os deuses e o homem.

Eu prefiro relacionar o tempo a um estado mental e, dessa maneira, em minha mente, os três Tempos — passado-presente-e-futuro — se confundem.

Para simplificar e não parecer uma pessoa fora do Tempo, estipulo que o nosso Passado apenas nos explica o Presente, e o nosso Futuro… acontece agora.

*Texto participante do livro de crônicas REALidade, lançado em 2017 pela Scenarium Livros Artesanais.

10 / 06 / 2025 / Tempo & Tempo

Vivemos um minuto após o outro,
entre chegadas e partidas
de dores e amores.
Em tempos como estes,
caminhamos de metro em metro,
quentes ou frios,
em meio a gentes boas e estúpidas.
Que saibamos escolher quais merecem
o nosso melhor esforço… e nosso calor.

19 / 05 / 2025 / Charles Chaplin

participamos todos
de uma grande comédia:
eu, você e o maior de todos —
Charles Chaplin
aquele que ousou ser senhor
do tempo e da palavra não dita
e de quando a usou
foi para denunciar a sanha maldita
do Nazismo
quando nestes tempos de dramas
redivivos vemos que os donos do mundo
encenam a comédia mórbida da morte
e do desterro da boca que cala
agindo no sentido de reproduzi-lo
em larga escala
em multiplicação de corpos destroçados
e enterros de ossos em barrancos
ainda que o mendigo saltimbanco
traga a esperança do riso solto
para o simples e para o douto
nos sentimos presos a liames invisíveis
poderosos apocalíticos
de terras arrasadas —
teatro sem aplauso mas urros de fome e dor —
público de mãos atadas…

Foto: arquivo pessoal (2015)

12 / 05 / 2025 / Um Menino*

Conheci um menino que, por volta dos oito ou nove anos, recebeu a informação, por coleguinhas mais velhos, que a maneira mais comum de fazer amor com uma mulher, seria frente a frente. A principal preocupação do menino passou a consistir no fato de que teria que fazer algo tão íntimo olhando nos olhos da pessoa que viesse a namorar.

Aquela possível futura situação realmente o deixou estarrecido. Percebeu que não teria condições psicológicas de realizar aquela proeza. Seria tão fácil, pensou, se fosse apenas como os cachorros fazem, que era o modo que conhecia, pelo que via nas ruas…

Aliás, olhar nos olhos de outra pessoa era a coisa mais difícil de sua vida. Como igualmente enrubescia com a ideia de que alguém estivesse o observando. Tentou sempre ficar nos fundos ou nos cantos das salas de aula que frequentou. Essa atitude o favoreceu como um observador dos movimentos humanos e passou a sentir prazer em desenvolver esse talento materializando-o no papel. Tentava passar despercebido de todos, mas cedo percebeu que algumas de suas habilidades, passava a posicioná-lo no centro das atenções. Logo, passou a disfarçá-las, para melhor se esconder.

Lidar com as meninas, então, era o pior dos mundos. Elas o fascinavam ao mesmo tempo em que o deixavam paralisado. Gostava tanto delas, que preferia colocá-las na segurança de um pedestal, idealizadas como modelos de perfeição. O menino lembrou-se de quando começou a se apaixonar, à mesma época da descoberta sobre o intercurso frontal entre as espécies.

Primeiro, se apaixonou pela menina mais bonita da escola, depois pela mais desengonçada que, no entanto, gostava de seu melhor amigo. Aliviado por não ser o alvo daquela paixão, serviu alegremente de pombo-correio entre os dois. Mais um pouco, percebia que dava preferência às meninas comprometidas. Isso, o impedia de vir a querer se aproximar delas com intenções amorosas, já que seguia a rígida etiqueta da amizade entre os homens – “poderá até cobiçar a namoradinha do próximo, mas nunca deverá convidá-la para sair”.

No decorrer dos anos, o menino que conheci conseguiu, paulatinamente, mas com muito esforço e sofrimento, superar a sua mórbida timidez. Casou, teve filhas, mas apesar disso, nunca chegou a entender inteiramente as mulheres, mesmo as tendo constantemente por perto. Ou até por isso mesmo… Em suma, elas continuavam a fasciná-lo enormemente.

Se ele me pedisse um aconselhamento e se ele não estivesse tão longe no tempo, pediria covardemente que nunca se aproximasse das meninas, nunca se envolvesse emocionalmente, nunca se apaixonasse completamente por elas. Porém, advertiria também que ele perderia o melhor da viagem. Os altos e baixos do relevo, as curvas perigosas da estrada e a paisagem sempre inesperada. Diria ainda que podemos morrer por elas, no entanto é por elas que devemos viver.

*Texto de 2020

11 / 05 / 2025 / Cazuza

Então, por uma dessas interações que ocorrem ao vermos um vídeo, que nos leva a outro e depois a outro, cheguei ao Cazuza. Talentoso e controverso, filho da classe média abastada que vivia a vida louca das ações marginais de boutique e exageros típicos dos jovens inconformados com a pequenez do cotidiano, foi então o encontro com a possibilidade da morte eminente que o fez grande. 

Conviveu com a Morte como quem encontrasse “alguém” com quem pudesse dialogar de igual para igual. Nesse contexto, “O Tempo Não Para!” foi uma tradução que profetiza todos os tempos, a incluir os atuais. Eu me lembro da apresentação desse tema realizada ao vivo em um programa especial de televisão. Tanto quanto o público, que o ouvia pela primeira vez, percebi o peso do que dizia:

“Disparo contra o Sol
Sou forte, sou por acaso
Minha metralhadora cheia de mágoas
Eu sou o cara
Cansado de correr
Na direção contrária
Sem pódio de chegada ou beijo de namorada
Eu sou mais um cara

Mas se você achar
Que eu tô derrotado
Saiba que ainda estão rolando os dados
Porque o tempo, o Tempo não para

Dias sim, dias não
Eu vou sobrevivendo sem um arranhão
Da caridade de quem me detesta

A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas ideias não correspondem aos fatos
O Tempo não para

Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O Tempo não para
Não para, não, não para

Eu não tenho data pra comemorar
Às vezes os meus dias são de par em par
Procurando agulha no palheiro

Nas noites de frio é melhor nem nascer
Nas de calor, se escolhe: é matar ou morrer
E assim nos tornamos brasileiros
Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro
Transformam o País inteiro num puteiro
Pois assim se ganha mais dinheiro

A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas ideias não correspondem aos fatos
O tempo não para

Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não para
Não para, não, não para”…