07 / 02 / 2025 / Sincronismo*

“Para além do estranhamento do uso do tempo verbal, a campanha veiculada nos ônibus municipais de São Paulo para os passageiros que logo mais se transformarão, em algum momento, em pedestres, encerra a mensagem do perigo que vivemos todos nós, cidadãos desta metrópole, por simplesmente caminhar por ela. O meu pai já nos advertia, a mim e a meus irmãos, há tantos anos — “Quando for atravessar a rua, olhe para um lado, olhe para o outro, olhe para trás, olhe para frente e olhe para cima para ver se não há algum avião caindo na cabeça!”. O Gil já sabia: o tempo é rei e tudo pode estar por um segundo. E eu acrescento: às vezes, por um passo. Neste caso, a velocidade (tempo X distância) torna-se fundamental para escaparmos de sermos colhidos pelo motoboy que se dirige urgentemente para entregar o frasco de remédio que salva uma vida ou para levar o vestido de festa tardiamente pronto para o casamento de logo mais à noite.

Lembro-me de um episódio de alguns anos que me deixou perplexo pelo sincronismo macabro que o engendrou. Cinco passos a menos ou a mais, por exemplo, teriam salvado a vida da garota esmagada pela massa do guindaste atraído do alto do edifício em construção na Paulista até a calçada coberta por um toldo azul, que deveria proteger os passantes de pequenos objetos que despencassem do alto. Neste caso, a precisão cirúrgica do Destino mostrou-se insuperável. Imaginei à época que se tivesse ela se apressado em encontrar o namorado na porta do cinema ou se atrasado para dar uma penteada ou duas a mais em seus cabelos e sua supérflua paixão ou a sua preciosa vaidade teria salvado a ela e nós de vermos empastelado de sangue a sua cabeça que, há pouco, dava expressão a todas essas suas necessidades…”.

*O texto acima foi escrito anos antes, lá pelo início dos 2000. Neste dia 7 de Fevereiro, pelas 7h18 da manhã, dezenas de pessoas tiveram as suas vidas poupadas por seguirem o conselho de Caetano Veloso. Perguntado certa vez se o poeta que caminhava por caminhos alternativos obedecia aos sinais de trânsito, ele respondeu: “Claro, são sinais…”. Se algum dos veículos avançasse a sinalização do semáforo, como é comum acontecer numa manhã em que os paulistanos estão tentando chegar aos seus compromissos, o não cumprimento poderia levá-lo ao óbito.

Eu e minha família utilizamos a linha do ônibus atingido. A minha filha caçula estaria na região nesse horário se não fosse um atraso providencial. Com a interdição da Avenida Marquês de São Vicente, ficou impedida de ir ao trabalho. O sincronismo de certos fatos, analisados a posteriori se assemelham a contas matemáticas macabras de adição e subtração, divisão e multiplicação. O resultado? Noves fora, nada…

19 / 01 / 2025 / Recomeços*

Da esquerda para a direita: meus pais, Sr. Odulio e D. Madalena; eu e Tânia; Sr. Manoel e D. Floripes.

Estará para completar, em 2014, 25 anos! Foi em 13 de maio de 1989 que celebramos a nossa união oficial, Tânia e eu. Já tínhamos um laço indissolúvel a nos unir, pois a Romy já estava sendo gestada há cinco meses em seu ventre. Para mim, assim era. Não fazia questão de cumprir as convenções formais de declarar um fato que já estava sacramentado. Mas as respectivas famílias faziam questão e como não ligava para formalidades, igualmente não objetava em cumpri-las, se dessa forma satisfazia às pessoas ao meu redor.

Foi a decisão mais acertada que tomei em minha vida! Nunca usei anéis, mas me emocionei em colocar um em minha companheira dali por diante e de ter recebido outro em meus dedos. É bem verdade que não o usei por muito tempo, já que devido ao trabalho, acabei por torná-lo em um objeto octogonal. Tive que guardá-lo, mas uma aliança material não suplanta uma mental e espiritual. Tudo o que passamos desde então, entre altos e baixos, nos provou que estamos vivos e funcionais, qual um gráfico de eletrocardiograma nos indica. Nunca registramos um traço e, por isso, aprendemos encontrar momentos de plenitude e estabilidade em meio às variações de todas as ordens – físicas, mentais, espirituais e econômica-materiais.

Conforme propago sempre que posso e que alguém já deve ter exemplificado em algum ensaio por aí, no tempo e no espaço, prometer qualquer coisa diante do altar é sempre temerário. Quem promete naquele instante não é mesma pessoa tantos anos depois para afirmar que um relacionamento seja eterno. Apesar de o ser, para mim, ainda que o compromisso possa ser desfeito um dia. Afinal, o que vivemos nos influenciará pelo resto de nossas vidas. As pessoas se modificam no decorrer de sua existência. Um casal modifica um ao outro e a identidade do casal como tal também sofre mutações diante dos acontecimentos cotidianos. A boa surpresa é que, mesmo com todas as modificações e desequilíbrios pelos quais passamos, é possível nos apaixonarmos por aquela nova pessoa, como se uma nova pessoa fora, se bem que, naquela altura da vida, os corpos apenas se pareçam com os antigos corpos que carregam o mesmo RG.

Além disso, normalmente temos os filhos! Ora, os filhos! Com a chegada deles, aprendemos a dedicar o nosso tempo para outras pessoas que não nós mesmos. Eles são fontes de alegrias e preocupações e, quando crescem, saudavelmente fazem questão de contestar a nossa autoridade e refutar os nossos ensinamentos, cometendo os mesmos erros que nós quando tínhamos as suas idades.

Para encerrar, me sinto compelido a dizer que o meu relacionamento com a Tânia já passa dos 25 anos oficiais que o ano de 2014 contemplará. Ele começou quando a vi pela primeira vez, magérrima e petulante, dois anos antes. Nós nos estranhamos desde o início. Recomeçou quando encetamos a conversar como gente civilizada, alguns meses depois. Recomeçou quando nos beijamos pela primeira vez, meses à frente. Recomeçou quando recebi a notícia da chegada da Romy. Recomeçou, mais uma vez, quando nos casamos. Recomeçou todas as vezes que veio à luz cada uma das nossas outras crias – a Ingrid e a Lívia. E a partir do momento que decidi viver um dia de cada vez, recomeça todos os dias.

*Texto de 2014

Carta Ao Amor Ideal

Amor Ideal, como vai?

Deve saber que há muitos que o procuram em vão, não?

Onde se esconde?

Tenho por mim que, de tão perfeito, você passe despercebido em forma de cumulus nimbos que interdita a luz do Sol apenas para refrescar o calor.

Ou passa disfarçadamente como uma simples sardinha num grande cardume no Atlântico.

Com certeza, morou por um instante nos olhos verdes da moça triste.

Dever caminhar em grupo de pinguins que se juntam para enfrentar a tempestade de neve.

Estou quase certo que o vi de relance no arabesque preciso da bailarina.

Tenho por mim que esteja no beijo de boa noite de uma mãe em seu filho… também. Mas não apenas.

Sei que está no gesto de carinho do namorado no cabelo da amada, ainda que se restrinja a existir em tempo escasso, diante do cotidiano de dissabores.

Todos o desejam eterno, mas somos mortais e nossos desejos urgentes, sem compromisso com o que é permanente. Está nas ondas do mar que se quebram em ruídos d’água espumosos. No entendimento de seu fluxo e refluxo.

Está no quarto 102 de um hotel barato do centro em que os amantes se bastam por tempo determinado.

Caminha nos primeiros passos claudicantes da criança que meses antes mergulhava na barriga materna.

Outro dia, eu o encontrei numa palavra singela, mas que me fez perceber a sua eternidade — “é”.

Amor Ideal, sou dos poucos que desacredita em sua existência sempiterna.

Eu me surpreenderia se eu o encontrasse por aí, ao procurá-lo com insistência. Assim como a Felicidade, deve estar em momentos de descuido…

Foto por Pixabay em Pexels.com

Projeto Fotográfico 6 On 6 / Quinquilharias

Estou cercado de quinquilharias. Quando jovem, imaginava que viveria à margem da Sociedade, uma vida alternativa em que não precisasse de penduricalhos para me afirmar como pessoa. Eu estaria sempre em trânsito, mochila nas costas, usufruindo da Natureza para sobreviver, trabalhando para me sustentar minimamente. Sonhos de uma noite de verão juvenil. Passadas as décadas, estou atulhado de objetos, muitos supérfluos. Outros, nem tanto. Ao me casar, fui transportado para outra plataforma de vida. As circunstâncias me obrigaram a entrar como colaborador do Sistema.

Para complicar, fui criado por pais que passaram necessidades materiais. Guardavam tudo o que podiam. Principalmente, o meu pai. Graças às suas latinhas de manteiga que abrigavam parafusos pregos, porcas, elásticos e outros utensílios, e pelas quais era fascinado, comecei a escrever, desenhando as letras. Queria saber o significava aqueles desenhos que “enfeitavam” as embalagens. Comecei a reproduzi-las. Ao longo do tempo, o acervo de guardados do meu pai aumentou exponencialmente. Para ajudar, ele se tornou recolhedor de materiais recicláveis. Daí, pude começar a minha própria coleção de quinquilharias. As mais importantes, os livros.

Livro se come? Não, mas a depender do interesse que desperta em mim, eu o devoro. Livro é um item supérfluo em muitos lares brasileiros. Seria uma quinquilharia dispensável. É raro irmos a algum apartamento, por exemplo, e encontrar um cantinho em que haja livros dispostos a ocupar o espaço físico. O que não quer dizer que o morador não possa ter o hábito da leitura. As bibliotecas estão aí para suprir essa demanda.

Um dos motivos para guardar quinquilharias apresenta apelo sentimental. Os objetos expressam, de alguma forma, as lembranças que venha a ter de um determinado fato. No caso do trofeuzinho quebrado – cada vez menor ao longo do tempo – eu o recebi como prêmio num festival escolar de música. Esta envolto a tantos outros objetos, embalagens e dispositivos que larguei por ali até ser finalmente desprezado, como as pilhas que precisam ser dispensadas com segurança para não poluir o meio ambiente.

Eu tenho um quarto que fica fora da casa em que guardo parte do meu equipamento de trabalho e que não uso tão frequentemente, além de ferramentas e peças de uso eventual como pregos, parafusos, fitas, elásticos, lâmpadas e os recicláveis que dispenso para os catadores de recicláveis no dia da passagem do caminhão de lixo. Mas antes de ter uma parede reformada para organizar a bagunça, ela aumentou consideravelmente com o acréscimo de outras coisas, como esses quadros que estão à espera da parede reformada.

Eu tenho certa dificuldade de me desapegar de certas coisas. Uma meia velha e rasgada, a qual gosto muito, deixei a encargo da Tânia dispensá-la. Objetos que fizeram parte da história das crianças, também. A dispensa acontecerá, certamente, mas o exercício do apego é um tanto viciante.

Há objetos que ficam em trânsito, indo de lá para cá e em sentido inverso, igualmente. Vivem em estado “provisório-permanente”. Até que sejam recuperados ou definitivamente colocados fora de nosso alcance. Por um tempo, cumprem a sentença de ostracismo.

Gosto muito desses lagartos fujões! Retirados da parede da sala para reforma, ainda penso vê-los a nos observar largados nos sofás vendo TV. Ou escrevendo ou me vendo a participar dos cursos de literatura da Scenarium etc. Por enquanto, estão descansando em um ponto diferente, longe dos nossos olhos cotidianos.

Participam: Lunna Guedes /  Roseli Pedroso / Claudia Leonardi / Mariana GouveiaSilvana Lopes

Um Pai*

Com a chegada de datas marcadas como importantes — aniversário, por exemplo — passamos por reflexões acerca da passagem do Tempo, lembranças fugidias ou outras, mais palpáveis, porém de certa maneira dolorosas. Em 2014*, escrevi:

“Por poucos anos, tive uma convivência normal com o meu pai. Ele era (é) um homem elegante, com tez amorenada e os olhos puxados, devido a sua ascendência indígena. Eu me pareço mais com o pai dele, o ‘Seu’ Eustáquio Humberto, mas não são poucas as vezes que o vejo em mim, no espelho ou fotografias, e o ouço reproduzido em minha voz. Quando houve a cisão definitiva entre ele e minha mãe, que fisicamente já passou, deixei igualmente de tê-lo mais assiduamente por perto. O Senhor Ortega ainda está presente em meu tempo e espaço e o homenageio, mesmo que de modo torto, mostrando que, um dia, formamos uma família como pai e filho”.

Post Scriptum: Não o imagino me segurando em seu colo muito tempo depois da foto. Ele não afeito a certas formalidades e certamente não se mostrava carinhoso. Na minha memória, no entanto, ele era o meu herói. Essas contradições se pacificaram na tremenda objeção ao seu comportamento que acabei por usá-lo como a um exemplo não ser seguido. O meu pai faleceu há alguns anos… cinco anos, talvez. Não foi marcante como deveria, a não ser pelo fato de que, prestes a entregar um projeto para a Scenarium Livros ArtesanaisRUA 2 — sequei. Posteriormente, consegui desenvolver o livro de contos curtos, mas o tema recorrente foi a morte.