BEDA / Penetrante

Quando, pela noite adentro, eu a penetro
Não sou eu, nem de longe, nem de perto
Eu sou outros, eu sou diversos, eu sou forte
É meu tempo, é cedo, é tarde, eu sou a morte

No corpo dela, eu me recordo, eu me visito
Estou em meu espaço, eu gozo, eu grito
Também sou eu, sou dela, eu suo, eu me sujo
É um mundo de pureza para qual eu fujo

Assim, eu, ser penetrante pela noite escura
Busco de peito aberto, a minha sorte futura
Por mim, para mim, com ela, por ela, para ela
Para, juntos, amarmos em realidade paralela…

Foto por Adalat Naghiyev em Pexels.com

Participação: Lunna Guedes Mariana Gouveia / Claudia Leonardi Roseli Pedroso / Bob F.

BEDA / Meu Sol Particular

Comecei a reparar que um ponto luminoso surgiu de início pequeno. Depois, feito o Sol que se agiganta pouco a pouco a cada manhã de Verão, se instalou do lado direito de quem vê a tela do televisor. Nesta cena de Fallout, está lá o meu sol particular a fazer parte da paisagem apocalíptica, assim como na Inglaterra nublada de Pobres Criaturas ou em jogos da NBA ou da Premier League do Futebol inglês.

Procurei saber do que se tratava e descobri que é causado por um defeito resultado do descolamento de refletores que são posicionados na frente dos LEDs, criando esses pontos de luz na tela. Esses refletores tiveram algum problema no processo de colagem, caindo sozinhos, resultando nesse problema. Nada poético, portanto, tem a ver com o surgimento de meu solzinho, por enquanto sozinho no firmamento de minhas paisagens irreais ou reais.

Esse buraco branco luminoso acompanhará as minhas imagens televisivas por um bom tempo. Não vejo necessidade premente em trocar de aparelho ou mesmo “consertá-lo”, pois o processo é trabalhoso e nem sempre satisfatória a consequência. Ou mesmo que não fosse. Esse “sol-efeito-defeito” foi me dado inesperadamente e não consigo me desapegar dele, como a me lembrar que esse ponto que irrompe em minha tela talvez exista para manter a minha fé na imperfeição da Vida

Participação: Lunna Guedes Mariana Gouveia / Claudia Leonardi Roseli Pedroso / Bob F.

BEDA / LUIZ

Quem é Luíz? Não sei. E mesmo que o conhecesse, sou daqueles que acredita que não conhecemos ninguém completamente, a começar por mim mesmo. Não foram poucas as vezes em que diante de novas situações, reagi de forma inesperada, me surpreendendo. Percebi que há ocasiões decisivas que evidenciam movimentos inéditos para quem pensou que agiria de forma diversa. Eu nunca (antes) como quis o “Luiz da Pilastra” tive o desejo de me distinguir e deixar de ser mais um na multidão. Ao contrário, tomei como objetivo não “fazer sucesso” e servir ao Sistema o meu esforço pessoal.

Estranhamente, na época em que deveria experimentar coisas novas, como na adolescência, me sentia preso a grilhões invisíveis, tão fortes quanto reais, porquanto psicológicos. Travado, mal conseguia concatenar uma conversação, a não ser com outros dois esquisitos como eu. Um deles, tenho contato até hoje. Outro, foi para extremidade à direita do espectro fantasmagórico e morreu para mim como interlocutor. Com o pessoal do futebol, expressões onomatopeicas por ocasião dos jogos eram como se fosse um oásis de frescor em meio ao discurso um tanto bizarro para boa parte dos meus colegas de time.

Quanto ao Luíz em questão, o que nomeia uma pilastra de ferro dentre as centenas que compõe a cerca em volta do Piscinão Guarau, o seu nome o aproxima da linhagem de reis que governaram a França monárquica. Ele tem conhecimento de Luíz XIV, que ficou mais de cinquenta anos no poder e determinou um período de opulência e influência em toda a Europa, até terminar em Luíz XVI, guilhotinado na Revolução Francesa no final XVIII?

Será que o “nosso” Luíz sabe da projeção desses Luízes que os fazem históricos?  Será que buscou saber que o seu nome significa “combatente glorioso”? Além dele, alguém mais sabe que aquele Luíz especificamente é dele e de nenhum outro? Fica satisfeito em saber que aquela letra é a sua e que permanecerá por anos encastelada na torre até ser apagada pelo tempo, por uma demão de tinta reformadora ou numa ação revolucionária?

Participação: Lunna Guedes Mariana Gouveia / Claudia Leonardi Roseli Pedroso / Bob F.

Recordações Materiais

Em matéria de tempo, como podemos mensurá-lo — por marcações mecânicas, decerto —, mas também de outras maneiras, como por imagens. Mas apenas a imagem por si só pode não conseguir demonstrar tudo sobre o que carrega de valor expressivo. Sentenças coordenadas, indicações de tempo e lugar auxiliam para traduzir toda a complexidade de uma representação imagética — um retrato total.

CINE (2015)

Eu me recordo que ali fora mais um cinema, dos muitos que perfilavam na famosa Avenida São João. Frequentei muitos deles, ainda antes de se mudarem para os shoppings centers ou se tornarem centros de “diversão para adultos” ou estacionamentos ou de simplesmente fecharem. O que sempre me chamou a atenção neste prédio é a sua temática “saudade do futuro” dos anos 60, em que se sobressai a construção de uma espécie de antena estilizada, sem nenhuma função aparente a não ser de entreter a minha imaginação.

GUARAPIRANGA (2016)

Suei um pouco, mas consegui chegar junto à beira da Represa de Guarapiranga. Ouvir o barulho do movimento da água, ver o voo dos pássaros, confrontar os azuis na linha do horizonte, sentir o vento no rosto, enquanto o sol já quase se veste de Outono, perceber a energia natural… O meu presente de hoje…

OS MANOS…

… E AS MINAS (AVENIDA DO ESTADO — 2013)

MARÇO MORTAL (2021)

Último dia do Verão 2020/21, aquele do março mais mortal do século que se inicia. Concorrem para isso os vírus naturalmente mortais, intencionalmente fora de controle e os anormalmente imorais da vontade de matar. Triste é ver que muitos aceitem, por pulsão de morte ou interesse ideológico, matar e morrer através de um comportamento predatório. Infelizmente, as águas de março que fecham o Verão, não serão suficientes para lavar a nossa alma. 

LUZ & TREVAS (2016)

A eterna luta entre a luz e as trevas… E cada vez mais me convenço que só damos valor a uma quando em confronto com a outra… Compete a nós distinguirmos quando e quanto desejamos mais uma coisa do que a outra, principalmente quando ficamos mais atraídos pelas nuances…

Fevereiros

QUARTA

2016. Quarta-feira de cinzas — que nome apropriado! Quase que automaticamente, os nossos olhos começam a devassar a realidade e perceber que o colorido evanescente das fantasias apenas escondia o concretismo do cinza… Ou, não! A esperança é de seja somente a típica sensação da ressaca, marca registrada de quem bebeu sonhos demais…

Hanna (à esquerda) & Marina

O PRAZER DA DOR

2021. Ubatuba. Qual o prazer de ser lido? Como escritor, só teria prazer se ou quando fosse, de alguma maneira, compreendido. E mesmo assim, resta saber se a minha palavra permanecerá na memória de quem me leu e/ou compreendeu o meu texto; se fez diferença de alguma forma ou tenha causado, ao menos, alguma passageira emoção — um sorriso ou uma lágrima. Eu diria que, como escritor, devo me desapegar de qualquer expectativa. O que já é um pouco de dor…

INDECÊNCIA

2021. Ubatuba. Hoje, o azul imperou durante a maior parte do dia. E o Sol, posto a nu ou desanuviado, queimou peles e pensamentos. De manhã e à tarde, no entanto, as nuvens o vestiram, deixando a temperatura menos indecente.

ANIMOTEL

2013. Santa Isabel. “Pela estrada afora, eu vou tão sozinho”… mas, caso eu esteja bem acompanhado, sempre haverá o Motel do Cowboy, na Via Dutra. Já imagino o barulho de esporas das botas dos cavaleiros, rivalizando com o relinchar dos cavalos. Logo depois, vim a me lembrar que os modernos cowboys perderam a graça e só devem chegar ao local montados em roncos de motocicletas e pick-ups robustas. Para passar o tempo, começo a pensar em um novo negócio no ramo da satisfação animal — o ANIMOTEL — em que poderão adentrar ao local quem estiver montado em cavalos. Nada impediria que dois amantes ou mais chegassem em um só, mas como sou defensor dos direitos dos bichos, não incentivaria tal prática. Para evitar especulações fora de propósito, a montaria (o cavalo) deverá ficar em um pasto reservado, usufruindo de boa alimentação e água. Viajei demais?…